Caminho de Hespanha

Ernesto encerrou-se no atelier. Era preciso ganhar o tempo perdido; era preciso acabar o seu quadro quanto antes e regressar a Hespanha e sobretudo era indispensavel fazer uma obra-prima que cobrisse o auctor de gloria, que fosse falada em todo o mundo, e que Amparo se sentisse orgulhosa. Mas ai! o pobre artista tinha a imaginação demasiadamente occupada, a alma pouco socegada para conseguir o seu fim.

Comtudo, fez esforços heroicos, trabalhava emquanto{52} tinha luz, e durante as noites, fechado no quarto, passava longas horas, escrevendo as impressões da sua alma no meio da soledade em que vivia.

—Ámanhã, quando nos tornarmos a reunir, pensava elle, entregar-lhe-hei estas folhas de papel em que diariamente escrevo os meus pensamentos, e ella verá que a não esqueci nem um só instante, que a continuo amando como nunca.

Ernesto pintára um pequeno quadro, representando a scena do caramanchão, no momento de dar e receber o beijo de Amparo. Os dois jovens, docemente abraçados, estavam illuminados pela debil luz da lua.

O grupo era encantador; respirava amor, ternura, poesia.

Era aquelle quadro uma grata recordação que a sua alma sensivel transportára á téla.

Em volta do quadro collocou a fita que lhe dera Amparo.

Durante a noite, Ernesto passava ás vezes um quarto de hora contemplando o pequeno quadro, pendurado n'uma parede do seu quarto.

Depois pegava na penna e escrevia. Isto consolava-o.

O pintor acabou por fim o seu quadro e convidou para almoçar alguns amigos para que vissem a sua obra e dessem a sua opinião.

A opinião geral foi de que ganharia o primeiro premio.

Ernesto meneou a cabeça em signal de duvida.

—Parece-me que podia fazer mais do que o que fiz, e duvido muito que o meu quadro tenha o merito que suppõem.

Os seus companheiros trataram de convencêl-o de que o seu desalento, a sua falta de confiança eram infundados.

No dia seguinte, Ernesto escreveu uma carta ao judeu Daniel.

O negociante de quadros, como sempre que se tratava de fazer algum negocio, apresentou-se com pontualidade.{53}

—Vou para Hespanha, disse Ernesto.

—O que quer dizer que precisa de dinheiro.

—Sim, vou expôr o meu quadro; por conseguinte escolha o que gostar.

Daniel passou revista aos quadros com a sua tranquillidade costumada, e escolheu a maior parte das pequenas telas que o pintor possuia.

Depois de ajustar e ao entregar o dinheiro, disse Daniel:

—São os artistas tão pouco agarrados ao dinheiro!... E comtudo, o dinheiro é a alma da vida. Com que então vae para Madrid?

—Sim, senhor. Ámanhã saio de Roma.

—No museu de Madrid ha quadros de muito merito, como tambem em varias egrejas; e se o senhor fosse um homem de palavra...

Ernesto sorriu-se.

—Se eu não soubesse o quanto me aprecia, respondeu, quasi teria direito a offender-me com as suas palavras.

O senhor Daniel que nunca abandonava a caixa de rapé, tomou uma pitada com gravidade, e disse:

—Em Madrid existem preciosos originaes dos melhores auctores. Temos ahi sobretudo os da escola hespanhola, e se quizesse tirar-me algumas copias feitas com consciencia, não teria inconveniente em ficar com ellas.

—Isso depende do trabalho que tiver na minha patria.

—Será pouco. Em Hespanha não ha costume de proteger as artes. A politica, os touros e a bolsa absorvem a attenção dos hespanhoes. As artes e a agricultura encontram-se em completo abandono. Para ser artista em Hespanha, precisa ter a força de vontade de Aristoteles, a paciencia de Job, e o estomago privilegiado dos arabes; e para ser agricultor a resignação de Santo Isidro, com a desvantagem de que no tempo d'aquelle santo, os anjos desciam á terra e lavravam para que o santo dormisse, e hoje os anjos não lavram. Mas, emfim, o senhor pensará{54} o que lhe convém e n'esse sentido me escreverá indicando-me os tamanhos e o preço por que m'os vende.

Ernesto comprehendendo que o judeu tinha razão, não o contradisse, porque sabido é que sendo Hespanha um paiz agricola, não tem outra protecção senão a da Providencia. Quando chove muito succede como no Egypto, têem boa colheita. Quando chove pouco, os pobres lavradores pagam o mesmo ao protector governo que não se occupa d'elles e morrem de fome; mas isso pouco importa, comtanto que se receba a contribuição, porque n'essa desgraçada nação chegou a ser impossivel encontrar-se um governo bom e barato.

Resumindo: Ernesto partiu de Roma, no dia seguinte, levando no quadro uma esperança de gloria; no beijo que abrazara a sua alma uma esperança de amor.

Tres mezes tinham decorrido desde o dia em que se separou de Amparo. Durante este tempo, nem uma só carta recebêra.

Ernesto levava, sem saber porquê, a tristeza na alma. Ha presentimentos que perseguem o homem com a tenacidade da sombra. O conde de Loreto fôra para Ernesto, desde o primeiro dia, uma ave de mau agouro.

Deixemol-o viajar até Hespanha, e encontremo-nos novamente com a formosa Amparo.

O coração da mulher é insondavel; não se póde definir, porque é vario e caprichoso como a mesma natureza. Por isso Amparo, que indubitavelmente sahiu de Florença enamorada do pintor, chegou a Paris pensando muito no seu companheiro de viagem, o joven conde de Loreto.

Vejamos o que succedeu.{55}

[CAPITULO IX]