Separação

No dia seguinte quando Ernesto appareceu no quarto de D. Ventura, este disse-lhe:

—Que pallido que está? Que é isso? Não se sente bem? São más as aguas de Florença?

—Pallido? respondeu Ernesto. Estou como sempre, estou bom.

—Não, não, está com muito má côr. Não achas, Amparo?

—Acho-o na mesma, papá, respondeu Amparo de um modo natural.

—Seja como fôr, disse Ernesto sorrindo-se, não pensemos n'isso e tratemos de aproveitar o tempo que nos resta.

D. Ventura, que não tinha vontade propria, pegou no Guia, Ernesto e Amparo nos seus carnets de desenho e sahiram de casa com a incançavel curiosidade dos viajantes.



N'aquella noite foram ao theatro de Alfiere, onde se representava O pae de familia, do celebre poeta cómico Carlos Goldoni, a quem chamavam o Molière italiano.

Ao começar o primeiro acto abriu-se o camarote{47} fronteiro ao dos nossos amigos e entrou um joven vestido de rigoroso luto.

—Olhem, disse D. Ventura. É o nosso visinho do primeiro andar, o conde de Loreto.

Amparo dirigiu o olhar machinalmente até ao camarote.

Ernesto, como sempre, ao ouvir pronunciar aquelle nome sentiu uma vaga inquietação.

O conde de Loreto teria vinte e oito annos. Era alto; não podiam vêr-se com facilidade as suas feições, mas de longe parecia muito pallido, elegante e sympathico. Era um d'esses typos distinctos que fazem com que se fixe n'elles a attenção. Como o panno acabára de levantar, o conde sentou-se. Durante o acto esteve ouvindo com grande attenção. Ao acabar sahiu do camarote para não tornar.

A mais de metade do terceiro acto, D. Ventura que parecia gosar falando do seu visinho, disse:

—Que homem tão extraordinario!

—Quem? perguntou a filha.

—O conde de Loreto. Durante o primeiro acto, nem pestanejou, ouvindo com attenção os versos de Goldoni, e durante o segundo e terceiro não tornou a entrar, mostrando a indifferença irritante dos nossos elegantes de Madrid em noite de estreia.

Amparo nada respondeu. Ernesto guardou silencio.

Depois da comedia representava-se uma d'essas farças em um acto que tanto agrada aos italianos em que toma parte a figura de Polichinello; farças vulgarmente improvisadas pelos actores que as representam.

Como D. Ventura era um bom hespanhol, não sabia passar sem o cigarro, e sahiu do camarote para satisfazer o innocente vicio.

Ernesto e Amparo ficaram sós.

Durante alguns segundos ficaram silenciosos; ella parecia preoccupada, elle triste.

Por fim Ernesto rompeu o silencio.

—Que tem, Amparo? Noto nos seus formosos olhos uma melancholia que me entristece.{48}

—Penso que em breve nos vamos separar.

—Ah! sim! É verdade! Mas esta noite...

—Não, Ernesto, não; esta noite não vou ao jardim, receio que meu pae saiba.

—Pois bem, não quero ser exigente; não sáias, mas ao menos abre-me a janella para que possa vêr o luar sem testemunhas importunas; que possa dizer-te no silencio da noite o que sente o meu coração.

—Ámanhã, Ernesto, ámanhã, prometto-te abrir a janella para me despedir de ti; hoje sinto-me mal; necessito descançar.

—Mas é uma crueldade roubar-me uma noite quando tão poucas nos restam.

Amparo fixou os seus olhos no pintor, e compadecida da triste e apaixonada expressão de Ernesto, disse:

—Bem, abrirei.

Ernesto fez um movimento como para se apoderar de uma mão da Amparo, mas esta conteve-o com o olhar, exclamando:

—Que vae fazer? Que imprudencia!

Ernesto conteve-se, e só então se recordou que se achava no theatro.

Durante a farça, D. Ventura riu-se muito. Ao acabar dirigiram-se para casa.

Á uma da madrugada, Ernesto estava junto á janella do quarto de Amparo. Chamou suavemente. A janella abriu-se. Amparo apagara a luz; assomou á janella e começaram um d'esses dialogos, doces, apaixonados, cheios de encantadoras trivialidades, que só têem valor aos ouvidos dos namorados.

Quando eram tres horas. Amparo disse:

—Separemo-nos já, Ernesto.

—Bem, separemo-nos, mas dá-me outro beijo de despedida.

Amparo inclinou a cabeça e como na noite anterior, duas boccas se juntaram, e um beijo cheio de amorosa ternura interrompeu o silencio da noite.

Ernesto e Amparo, durante aquellas duas horas de{49} amoroso colloquio, fizeram mil promessas de amor e fidelidade.

—Não me esqueças nunca, disse o pintor; pensa sempre em mim.

Amparo tirou uma fita de seda com que prendia os cabellos e deu-a a Ernesto.

—Esta fita será a que une os nossos corações. Pega, conserva-a.

Ernesto cobriu de beijos aquella fita, que jurou conservar toda a sua vida como uma recordação de tão feliz noite.

Quando o pintor entrou no seu quarto, pegou na penna e escreveu na fita: «Florença, 2 de Julho de 186...».

Depois deitou-se, e não demorou muito em gosar um d'esses sonhos de que não quizera despertar.



Dois dias depois, Amparo, seu pae e Ernesto entravam na sala de espera da estação. O comboio estava preparado para partir; faltavam alguns minutos para se pôr em andamento.

O pintor esforçava-se por se mostrar satisfeito, mas uma enorme tristeza lhe opprimia o coração.

Nunca Amparo lhe parecera tão bella como n'aquella occasião, mas era preciso resignar-se á separação.

Os olhares furtivos que ella lhe dirigia pareciam dizer-lhe:

—Confia e espera. Em breve nos tornaremos a juntar.

Rapidamente D. Ventura pôz a sua mala de mão sobre um banco da estação e disse:

—Oh! Aquelle não é o conde de Loreto?

Ernesto e Amparo voltaram-se.

Effectivamente, o conde estava sentado a um canto com um livro na mão, e falando em voz baixa com um velho de cabellos brancos, gravata branca e sobrecasaca preta que o ouvia em respeitosa attitude.

O velho era um d'esses typos proprios para mordomo{50} de casa rica; de parecer carregado, severo e completamente barbeado.

O conde de Loreto parecia dar-lhe algumas ordens; o velho cumprimentou e sahiu do salão e foi para o local destinado aos despachos na estação.

Ernesto poude vêr então perfeitamente aquelle rapaz, que parecia seguil-o como uma sombra.

Era, em verdade, bello e distincto, notando-se-lhe na pallida e sympathica physionomia uma profunda melancholia que interessava.

A julgar pelo traje, o conde ia emprehender alguma viagem.

—Irá para Paris, tambem? pensou Ernesto, sentindo-se inquieto, mau grado seu, ante o conde de Loreto.

A sineta deu o signal. Os passageiros dirigiram-se para a gare afim de escolherem logares.

D. Ventura, que caminhava á frente, deteve-se junto de um compartimento de primeira classe, e disse:

—Aqui.

E subiu adeante para dar a mão a Amparo.

N'um canto do compartimento e sobre um banco estava uma mala de viagem; no da frente o velho que pouco antes estivera falando com o conde de Loreto.

Era por acaso ou propositadamente a escolha de D. Ventura? Quem sabe? Talvez que o honrado commerciante, vendo n'um compartimento de primeira classe o mordomo do conde de Loreto, escolhesse aquella carruagem com o firme proposito de viajar com um compatriota de sangue azul, ou talvez não reparasse senão depois no silencioso e sympathico ancião.

Mas a escolha causou um profundo desgosto a Ernesto, que pela primeira vez sentiu no peito a terrivel punhalada do ciume.

O pintor apertou a mão do commerciante e depois a de Amparo, enviando-lhe toda a sua alma n'um olhar.

—Até setembro, lhe disse.{51}

N'aquelle momento ouviu-se uma voz varonil, mas doce e respeitosa, que disse em castelhano:

—Dá-me licença, cavalheiro?

Ernesto deixou-o passar. O conde de Loreto cumprimentou e subiu para a carruagem, indo sentar-se em frente do seu mordomo.

Apitou a locomotiva, e começou o comboio a mover-se e a sahir pausadamente da estação.

Amparo e D. Ventura assomaram á janella e acenaram com um lenço ao seu bom amigo.

Um momento depois, o comboio tinha desapparecido; mas Ernesto como se estivesse pregado ao chão permanecia immovel e preoccupado.



N'aquella noite, Ernesto partiu para Roma, levando a duvida na alma e o ciume no coração.

Pobre sonhador! Infeliz artista, que tinha trocado por um beijo, a felicidade, a paz do seu espirito e todos os seus sonhos de gloria!

[CAPITULO VIII]