Um beijo

Os nossos viajantes foram varias vezes aos theatros mais importantes de Florença; ao de Pergola que comporta duas mil e quinhentas pessoas, que tem cinco ordens e cento e dez camarotes, ao de Los Intrepidos e ao de Alfieri.

O tempo passava-se sem se sentir.

D. Ventura disse uma manhã:

—É preciso pensar na nossa volta para Hespanha, e contando que sempre nos demoraremos quinze dias em Paris, não temos muito tempo para permanecer em Florença.

Isto foi um grito de alarme para Ernesto. Era tão feliz ao lado de Amparo!

Os vinte cinco dias passados em Florença tiveram para elle a duração de um minuto. Milhares de vezes durante esse periodo esteve a ponto de lhe assomar aos labios o segredo que se lhe occultava no coração.

O receio detinha-o. Amava Amparo com tão firme, tão pura paixão, que o medo de um desengano lhe emmudecia a bôcca.

Uma tarde D. Ventura sahiu para receber uma lettra. Amparo, sentada proximo da janella, entretinha-se em colleccionar e guardar um grande numero de desenhos, feitos pelo seu companheiro, das bellezas artisticas que juntos tinham admirado.

Ernesto entrou no gabinete. Amparo extendeu-lhe a mão sorrindo-se:

—Bem vê, senhor Ernesto, que como a nossa partida se approxima, occupo-me em colleccionar convenientemente estes preciosos desenhos, que conservarei{39} toda a minha vida, pois encerram a historia d'esta viagem encantadora, viagem que, como todas as cousas terrestres, tem que acabar em breve.

Ernesto julgou ouvir sair um debil suspiro dos labios de Amparo. O seu coração bateu com violencia, fez-se pallido e como receasse que as forças o abandonassem, sentou-se n'uma cadeira ao lado da joven.

—Para que a vi em Roma?!

Esta exclamação que se lhe escapou do coração fez estremecer Amparo; mas serenando immediatamente disse:

—Tem pena que a casualidade nos tivesse feito amigos?

Ernesto deixou cair a cabeça sobre o peito. A sympathica physionomia do pintor tinha n'aquelle momento a expressão da mais profunda tristeza.

Amparo compadeceu-se d'aquelle amante respeitoso que se não atrevia a declarar-lhe o seu amor.

A compaixão, essa bella e delicada qualidade da alma da mulher, apoderou-se do coração da joven, e com uma doçura infinita, perguntou:

—Mas, meu Deus. O que tem, Ernesto? Nunca mais nos tornaremos a vêr?

Ernesto, que sentia penetrar no fundo do seu coração a doce voz de Amparo, levantou a cabeça, fixou n'ella um amoroso olhar, e disse:

—Irei a Madrid antes do fim de setembro; mas durante esses tres mezes que faltam, a minha alma viverá em eterna solidão, rodeada de triste melancholia porque vae partir, e eu amo-a como um louco.

Amparo córou. As suas formosas faces cobriram-se d'esse encantador carmim que tão bem assenta ás jovens e que tanto arrebatam e enlouquecem os homens.

—Sim, para que occultar-lh'o por mais tempo? continuou Ernesto. Deve tel-o comprehendido. Se os meus labios ainda lh'o não disseram, os meus olhos têem-lh'o confessado infinitas vezes. Quando se ama pela primeira vez, com a vehemencia filha de um{40} amor tão firme como verdadeiro, é trabalho em vão dissimulal-o. Os olhos revelam o sentimento da alma e atraiçoam-nos. Não é verdade, Amparo, que já tinha adivinhado que eu desde Roma a amava com toda a minha alma? Oh! isto certamente não era segredo para si.

Amparo suspirou. Os seus olhos bellos, cheios de melancholica expressão, fixaram-se com certo receio no joven, e com voz tremula e doce, respondeu:

—Sim, Ernesto, adivinhei-o e, não obstante, fui a causadora d'esta viagem. Se em Roma nos tivessemos separado, talvez que a estas horas já não pensasse em mim.

—Não pensar em si! Isso para mim é tão impossivel como seria a Tasso não pensar em Leonor, a Raphael esquecer a Fornarina, cujo retrato contemplámos os dois de mãos dadas em Roma, e cuja copia admirámos tambem em Florença. Para certos homens é um passa-tempo, uma nuvem de verão carregada de mais ou menos electricidade, mas que passa e que rapidamente desapparece; para outros, o amor é a vida, é a luz, é o ar que dá vida, força á imaginação, alegria á alma, porque o amor é para elle a unica luz que lhe embelleza tudo; tirando-lhe esse amor, ficam rodeados das mais profundas trevas e morrem de tristeza.

Ernesto ia continuar quando se ouviu a voz de D. Ventura, que falava na sala anterior com o senhor Rosales.

—Por Deus, Ernesto, disse Amparo com voz supplicante, que meu pae não suspeite nada!

—Esteja descançada, Amparo. Não receie que a importune; para amar não é preciso ser correspondido. Esta noite estarei á meia-noite no caramanchão do jardim. Espero-a até que amanheça: se vier, a bella flôr da esperança renascerá na minha alma, perfumando a minha existencia, se não vier, ámanhã, com qualquer pretexto, partirei para Roma e não nos tornaremos a vêr.

Amparo guardou silencio. Ernesto poz-se a arranjar{41} os desenhos, procurando dissimular a sua commoção.

Quando entraram Rosales e D. Ventura, os dois jovens occupados com os desenhos, não inspiraram a menor suspeita ao honrado commerciante.

—Fazem muito bem em dispor tudo, disse D. Ventura. Entre quatro ou cinco dias tomaremos o caminho de França.

—Com que então decididamente partimos, papá? perguntou Amparo.

—Filha, ha cêrca de tres mezes que sahimos da nossa casa, é preciso voltarmos a ella.

—Em verdade, senhor D. Ventura, que esta viagem tem um tanto de traiçoeira, respondeu Ernesto esforçando por rir-se. Emfim, brevemente nos veremos em Madrid.

—Diga que é a melhor terra do mundo.

—Assim a reputo.

—Creio que hoje não temos nada que fazer, proseguiu D. Ventura.

—Esta noite, se quizerem, iremos ao theatro. Estreia-se uma opera em Pergala.

—Não, estou muito cançado, e esta noite quero-me deitar cedo; mas se quizer não se prenda por nossa causa.

—Convem-me ficar em casa. Temos que aperfeiçoar alguns desenhos, tirados tanto á pressa, que apenas são quatro traços. Tambem fico em casa.

—Ah! esquecia-me dizer-te que estive falando com o visinho do primeiro andar.

—Com o conde de Loreto?

—Sim.

—Dizem que é um sujeito que deu muitos desgostos á mãe... disse Amparo.

—Em Madrid está sempre em ordem do dia a mexeriquice: O conde de Loreto é um rapaz como muitos outros, que se divertem quanto podem, porque teve a sorte de herdar dos paes uma grande fortuna. Imagina que esse rapaz tem agora 28 annos, possue uma fortuna de quinze milhões. Demais, dizem que{48} é muito instruido. O nosso hospedeiro não se cança de o gabar.

—É um bom hospede, disse Amparo, sorrindo-se.

Ernesto não tomava parte na conversa: desagradava-lhe ouvir elogios do conde.

Mas deixemos correr as horas, e com a rapidez do pensamento transportemo-nos ao jardim da casa que occupavam os nossos conhecidos.

Os relogios de Florença acabam de dar as onze e tres quartos, quando Ernesto saltou da janella para o jardim dirigindo-se para o caramanchão, coberto de madresilva, lupulo e hera.

Dentro do caramanchão haviam quatro bancos e uma mesa. Ernesto sentou-se n'um disposto a esperar toda a noite como tinha dito a Amparo.

A lua estava em quarto minguante, o céu limpido e de um azul escuro carregado onde as estrellas brilham de uma maneira extraordinaria.

A brisa nocturna roubava a essencia perfumada das flôres, e, sempre prodiga, espargia pelo ambiente como se tivesse envergonhado d'aquella usurpação.

N'um relogio de torre soou a meia-noite.

Ernesto levantou a cabeça, poz-se de pé e foi pôr-se em uma das entradas do caramanchão. O coração dizia-lhe que Amparo vinha.

A noite é em todos os paizes a protectora carinhosa dos namorados, porque o amor, vulgarmente timido á luz do sol, cobra valor e energia antes esses tibios reflexos que a lua envia do céu.

Ernesto, de pé junto da entrada do caramanchão, com uma das mãos sobre o coração e a outra languidamente caída, dirigia olhares cheios de inquietação para o silencioso edificio d'onde devia vir a sua felicidade, a sua dita, o anjo dos seus sonhos.

Passou-se um quarto de hora. Amparo não vinha, e os segundos passavam com um vagar, com uma monotonia aborrecedora para Ernesto.

Por fim os labios entreabriram-se-lhe, sem duvida para dar um grito de prazer, mas conteve-se. Vira desenhar-se entre as sombras das arvores a encantadora{43} silhueta de um corpo para elle conhecido, e em seguida uns passos se ouviram na areia das ruas que conduziam ao caramanchão, e o ligeiro frou-frou de um vestido que se approximava.

Ernesto sahiu ao encontro de Amparo, porque era ella; pegou-lhe n'uma mão e conduziu-a até ao caramanchão.

A joven tremia; estava nervosa e pallida.

Ernesto sentou-a n'um dos bancos procurando tranquilisal-a.

—Obrigado, Amparo, obrigado por tanta bondade. Tranquilise-se, os homens honrados que amam como eu, sabem respeitar o objecto do seu amor.

—Ernesto, respondeu a joven, commetti uma imprudencia. Nunca devia ter vindo.

—Tão pouca confiança lhe inspiro?

—Sim, muita, meu amigo, muita; de contrario não teria vindo. Mas sou franca, não pude resistir, porque as ultimas palavras que me disse esta tarde pareciam recriminar-me. Bem vê: aqui estou, apezar de tudo. Tive um susto terrivel. Para vir ao jardim era preciso passar pelo quarto de meu pae; receei despertal-o. E sabe o que fiz? Pois bem, vou-lhe dizer: saltei pela janella. Nem eu mesmo posso explicar como tive coragem para tanto: tratava-se de me despedir de um amigo bom e leal, e não tive animo para faltar.

Ernesto tinha entre as suas as mãos de Amparo, que apertava docemente, escutando ao mesmo tempo aquella voz encantadora que tão suavemente lhe vibrava no coração.

Nunca experimentára um prazer tão completo, uma felicidade tão ineffavel.

O perfume das flôres, o aroma da madresilva que se espalhava n'aquelle recinto; a luz tibia da lua, que penetrava no caramanchão pelos intervallos das folhas; aquella mulher, bella como o mais perfeito e encantador sonho da sua alma de artista, tudo contribuia para que Ernesto se julgasse arrebatado da terra pelos anjos e transportado a esse paraizo{44} de amor que tanto embriaga as pobres creaturas.

—Ha momentos de felicidade, exclamou Ernesto, que nunca deviam acabar. Se ao homem fosse dado escolher o momento da sua morte sem passar por suicida, eu escolheria este.

—Está louco, Ernesto?

—Quem sabe! Talvez. O amor não é outra cousa senão uma loucura sublime que conduziu Raphael aos pés de uma moleira, Tasso a uma prisão e Ovidio a uma masmorra. A historia conta-nos tantas loucuras de amor, que seriam necessarios muitos volumes para a descrever. Mas, feliz o que ama e é correspondido! Ditoso o que ao dar metade da sua alma, recebe em troca outra metade que lhe envia um peito agradecido em mutua correspondencia.

Amparo suspirou em silencio. Ernesto, julgando que esse suspiro era uma confissão, levou aos labios a mão da donzella, imprimindo n'ella um beijo.

Amparo estremeceu sem retirar a mão.

Esta condescendencia animou o pintor.

—Vamo-nos separar, Amparo; não nos veremos durante tres mezes; necessito ouvir antes uma palavra que inunde de felicidade o meu peito, que deposite o perfume da esperança em meu coração. Tambem me ama?

—Ernesto, Ernesto, tudo isto me parece uma loucura, respondeu debilmente Amparo.

—Não, não é essa a resposta que desejo, é outra, meu anjo. Ama-me, sim ou não?

—Pois bem, sim. Ha muito que o devia saber; desde a noite do Colyseu de Roma.

Ernesto não poude conter um grito de immensa felicidade, e enlaçando com o braço a cintura da donzella exclamou:

—Juro pelas cinzas de minha mãe amar-te emquanto viva, e conquistar um nome tão glorioso que te sintas orgulhosa chamando-te minha.

Este juramento, esta exclamação, brotaram de uma alma de artista, cheia de fé, de enthusiasmo, de amor.{45}

Amparo assim o comprehendeu, e, agradecida por tão grande paixão, achava-se n'um d'esses momentos de fraqueza em que a mulher não tem forças para resistir, momentos perigosos, dos quaes só se aproveita o homem para satisfazer um desejo, causando a infelicidade d'aquella a quem jura um amor eterno e por quem n'esse instante faz os maiores sacrificios.

Mas Amparo rapidamente serenou; conheceu que era uma imprudencia permanecer á beira de tão grande precipicio, e ainda que Ernesto lhe inspirasse absoluta confiança, como elle mesmo acabava de dizer, amor não é outra cousa senão uma loucura sublime; por isso poz-se de pé e disse:

—Separemo-nos, Ernesto, estou desassocegada e por enquanto convêm que o nosso amor seja um segredo.

—Já? disse o pintor, tornando a cingil-a pela cintura. Pensa, querida, que em poucos dias nos vamos separar.

—Ámanhã nos tornaremos a vêr aqui, se eu puder vir; mas hoje... hoje não devo ficar mais tempo.

—Pois bem, sim, separemo-nos, não quero que estejas inquieta; sou demasiado feliz para te desgostar; mas se te inspiro confiança, se queres que seja esta a noite mais bella da minha vida, permitte-me que selle com um beijo a mutua promessa que acabamos de fazer.

—Meu Deus, Ernesto, por compaixão! Ah! Para que vim?

O pintor estreitou docemente o desfallecido corpo de Amparo de encontro ao seu. Aquellas duas cabeças jovens, apaixonadas, uniram-se; aquellas duas boccas tocaram-se e o doce som de dois beijos confundidos n'um fugiu nas azas da brisa nocturna.

Pobre Ernesto! Elle tinha dado toda a sua alma n'aquelle beijo, emquanto que Amparo só lhe tinha feito uma esmola como paga de agradecimento que a sua deferencia para com ella inspirava.{46}

Amparo desprendeu-se dos braços de Ernesto, sahindo rapidamente do caramanchão.

Ernesto deixou-se cahir n'um dos bancos, murmurando em voz baixa:

—Meu Deus! Esta felicidade que sinto é demasiadamente grande para que seja duradoura!

[CAPITULO VII]