LIII

Quando recobramos a palavra, o furor, reconcentrado em mim, fez subita explosão.

Fanny ficou estupefacta. Pronunciei, como um demente, palavras ardentes, sem nexo. Uma especie de loucura acerava, como laminas de um punhal, cada uma das minhas phrazes, e a raiva hervava-as de peçonha a mais corrosiva.

O sentimento da impotencia da vingança, a certeza de que os males d'aquella mulher deviam renovar-se infinitamente, e os meus ciumes passados, e mais que tudo, a memoria das nossas deploraveis questões, causadas por aquelle indigno homem, faziam-me offegar de colera como homem que acaba de levar uma bofetada, e não pode despedaçar entre as mãos aquelle que lhe gravou o ferrete{107} deshonroso... Na minha demencia, parecia-me que o amor de Fanny, perdia tanto do seu valor, quanto mais desgraçada ella era; e, envergonhado d'esta atroz idéa, meditava em matar, e dar por ella a minha vida. Fanny, porém, ainda abatida, mais queria ser consolada que vingada.

Abraçou-me, e, coisa estranha! foi ella que me affagou para me pacificar.