LIV

Passei o dia seguinte a recordar tudo o que tinha sabido. Havia muito que eu não sentira, como então, o espirito desoprimido de duvida.

Um feliz provir se descortinava ante os meus olhos, depois de tão tormentoso passado, como serenos valles e descampados aos olhos do viajante que desce a ladeira escarpada de perigosas serranias. A esperança d'uma existencia quieta refrigera a alma como a briza da tarde que succede aos ardores do dia, e agora tudo me convidava a repousar-me á borda da senda facil, que docemente se aplanava debaixo de meus pés contusos. A serenidade dos dias, a auzencia das inquietações, eram a minha prespectiva. Pensava n'isto sempre, e minha alma enlevada derramava-se em effluvios de reconhecimento ao acaso que se cansara, emfim, de me transviar.{108}

Entrava n'este sonho necessariamente a imagem de Fanny. Era a companheira que me seguira através dos abysmos da paixão. Soffrera irmamente commigo a longura das caminhadas, a incerteza do fim, os espinhos occultos sobre os quaes, juntos, laceravamos os pés. A mesma dôr nos arraiara de sangue os olhos, e abrazára os nossos halitos. A ancia do repouso sentiramol-a ambos ao mesmo tempo. E, como se fosse preciso que o mais debil dos dois soffresse mais, Fanny dava-me alentos para a resignação, e com as mãos trementes enxugava-me da fronte o suor do desespero, e ao mesmo tempo escondia-me dôres e trances particulares que ella suportava heroicamente para me não angustiar.

Mas agora esses desgostos que eu surprehendera, estavam sanados. Renascer não poderiam mais. Ambos livres do phantasma que tão cruelmente nos perseguira, podiamos, em fim, senhores de nossas acções, compensarmo-nos amplamente do supplicio e dos terrores. Á maneira de dois fugitivos, que não deixaram pégadas, e vão ás bordas das fontes, e á sombra dos bosques silenciosos, sacudir o pó das sandalias, nós nos íamos, emfim, vingar da sorte estupida, esquecendo os tormentos que nos infligiramos.

D'est'arte sonhava eu, a sós commigo, contemplando a imagem querida de Fanny que me sorria entre as mãos, cingida em moldura de ouro, como d'uma aureola. Assim me comprazia dispondo ante nós as paragens do nosso futuro.

Nunca eu afagara mais cruel illusão!{109}