XXXI

Passei os oito seguintes dias em angustia inexprimivel. Não parava em parte alguma. Os temores, as suspeitas subiam-me ao cerebro em borbotões,{60} como os vapores da vinolencia. Pensava n'ella só! Dizia-me não sei que de convicto e infallivel que eu estava ameaçado de perder Fanny. Era como um espectro deante de mim a imagem d'uma separação violenta. Não atinava com o modo de aliar esta especie de previdencia com a certeza de que o marido ignorava tudo; mas esta previdencia justificava-se tanto que eu entrei a tomal-a como aviso do céo.

Ao oitavo dia, á hora costumada, puz-me a caminho; mas, d'esta vez não esperei a hora indicada, nem me acautelei para entrar em casa de Fanny. Não. Caminhava deante de mim mesmo, com a violencia e direitura d'uma balla, resolvido a procural-a mesmo no seu quarto, se a não encontrasse no pavilhão. Timido de tudo, sem poder definir o objecto dos meus temores, esporeava o cavallo, que se espadellava com a terra, alternadamente contrahido e distendido como um grande arco atormentado por mãos febris. A lua alumiava de travez a estrada silencioza que eu levava, zebrando-a de listas de prata, e parecia voltar-se para mim melancolicamente seguindo-me com os seus fulgidos olhares. Desfillavam a meu lado as arvores, rapidas e negras como phantasmas vertiginosamente marulhados n'um rodopio. Os cães, que dormiam nos pateos, atiravam-se aos portões latindo ao estrepido das ferraduras do meu cavallo, que estalavam na calçada. E o vento que me açoitava a cara, murmurava-me aos ouvidos palavras irritantes. Tudo me impellia e me vaticinava algum drama em que eu ia representar um papel. Armei-me para{61} isso, decidido a não succumbir sem luctar com todas as forças que a desesperação desde muito me tinha dado. Quão exaggerado eu era na espectativa como nos preparatorios! Este meu espirito enthusiasta não sonhava senão combates sobrehumanos, desinteresse fero, esforços heroicos!... Ai! e que desenlace tão vulgar me esperava!