XXXII

Transpondo o muro, fiquei surpreso de vêr Fanny assentada na margem d'um passeio. Mais d'uma hora me tinha eu antecipado, e receava que seu marido estivesse ainda fóra. Logo, porém, que me avistou, Fanny, veio para mim, sem se esconder, como se fosse natural entrar eu em sua casa pelo caminho dos malfeitores. Tomei-lhe a mão. Pareceu-me vêl-a inleada e cuidadosa.

«Que aconteceu?—perguntei, levando-a para debaixo das arvores.

—Tinhas mais que rasão, Roger; meu marido não tem ciumes—disse ella—Nunca se fiou tanto de mim. Não me cancei a interrogal-o. Hontem contou-me a causa da sua preoccupação. Os seus haveres todos, depositados em Inglaterra, estão em risco com a fallencia d'um banqueiro. Esta manhã{62} partiu para salvar alguns restos, se ainda for tempo. É forçoso que a inquietação fôsse grande—ajuntou Fanny suspirando—por que nunca foi commigo tão expansivo.

Não achei palavra com que responder a esta afflictiva noticia, com quanto nos consolasse a ambos de tamanho pezo. Fiquei atordoado como homem que soffreu violenta pancada na cabeça. Regorgitavam-me nos labios os sarcasmos; mas eu represava-os.

«Nada respondes, meu amigo?—disse Fanny.

—Que heide responder?—exclamei, perdida a consciencia da minha brutalidade.—Lamento-te se tinhas grande apego ao luxo de que vaes ser privada; lamento-te, principalmente, por teus filhos; mas... «Mas?» atalhou ella.

—Mas não posso lamentar-te por teres sido ameaçada de perder-me, e te achares hoje mais livre que nunca para amar-me.

Fanny ergueu as mãos ao céo, como invocando o seu testemunho, com expressão de piedade, e disse brandamente:

«Não fallemos mais de mim. Eu heide ser sempre um livro fechado para ti.

Passeamos, depois d'isto, debaixo das arvores vagarosamente, sem nos darmos o braço, sem dizer palavra, durante meia hora: por fim, parou ella deante de mim e tomou-me ambas as mãos, e disse em tom de voz submissa:

«Roger, por que não fallas?

—Não tenho consolações que dar-te.

«Por que?{63}

—Por que eu mesmo tenho talvez necessidade de ser consolado.

«Pois que te succedeu?

—Nada.

Continuamos a passear, ao acaso, entre o arvoredo, silenciosos, ella curvando-se debaixo das franças, eu, erguendo-as, para ella passar.

—Agora vamos nós tomar quinhão nas amarguras d'elle—disse eu de repente. «Assim deve ser» respondeu ella com tranquillidade.

O remate do nosso encontro foi magoado por um começo que eu não podera prevenir. O pensamento de Fanny vagueava por outra parte. O meu, a meu pesar, tambem. E, todavia, eu não poderia justificar-me d'um certo prazer inquieto que me dava a idea d'um successo que podia apartal-a do marido para sempre.

—Quem sabe—pensava eu commigo—se a sua ruina fará o que a minha dôr não pôde fazer?