XXXVI
Fanny pareceu-me preoccupada um dia. Fallava precipitadamente em muitas bagatellas, como se quizesse abafar alguma coiza gravissima. Abstive-me de interrogal-a, e fiz que não dava fé da sua turvacão. Acariciou-me vivamente, e eu a ella, mas nossos espiritos e vontades pareciam alheios aos affagos. Houve um instante em que um e outro esgotamos as palavras ociosas. Tinha Fanny a cabeça inclinada sobre o meu braço, e eu, todo attento no rosto d'ella, em muda anciedade a estava contemplando. Subiu-lhe aos labios em suspiros do intimo a respiração suffocada; aos meus olhares interrogadores respondia o descahir das palpebras, e o voltar os olhos, córando.
Tomei-lhe a mão sem dizer palavra. Apertou-m'a com força febril.
«Falla em nome do céo!» disse-lhe eu empallidecendo.{73} Abraçou-me convulsamente, aconchegando-me o peito da face d'ella.
Fugiu-lhe dos labios a narrativa cruel, cortada por mil reticencias confusas. Mas, desde a primeira palavra que proferiu, comprehendi tudo. N'essa manhã mesma, o marido lhe dissera em carta muito expansiva, que seria provavelmente obrigado a estabelecer-se em Inglaterra, por espaço de alguns annos. Em tal caso—accrescentava elle—deveria Fanny metter no collegio os filhos mais velhos, e ir ter com elle, levando o filho mais novo. Fiquei aterrado. Irritou-me a coragem que ella tivera para em fim proferir as abominaveis palavras de separação. Dessimulei, porém, as angustias que me alanceavam o peito, e deixei só transparecer no semblante os traços de dôr profunda. Abracei-a, comprehendi, e exclamei:
«Não será assim, Fanny!—juro que não, por que é arrancarem-me o coração o separarem-me de ti.
—Que hei-de eu fazer, meu Deus?—disse ella retorcendo as mãos.
«Amarmo-nos—respondi exaltado, com quanta força temos, e tirar um recurso da horrivel necessidade.
—Recurso!...—e eu interrompi-a logo: «Fanny! este momento é solemne; não ha que vêr com subtis considerações do mundo e dos ciumes, do passado: trata-se de viver ou morrer. Deante de Deus, te dou em penhor a minha vida. Queres dar-me a tua? Atirou-se aos meu braços, repetindo:
—Que hei de eu fazer?{74}
«Fugirmos para tão longe que ninguem nos veja mais.