XXXVII

Dito isto, cahimos em profundo silencio, Fanny retirou-se lentamente de meus braços, poz-me ambas as suas mãos nos hombros, e fixou-me.

Baixei os olhos, receando-lhe a ira. Mas que mal a conhecia eu! O que ella me revelou foi piedade sómente. Repartida entre o seu amor, e o dever que lhe apontava o logar digno ao pé do chefe de familia, a luctar sósinho no exilio para defender seus bens, Fanny deu-me testemunho d'uma agonia que não cabe n'alma sem rasga-la. Bem sabia ella que eu devia horrivelmente soffrer, pensando no proximo fim de união tão cara; mas tambem comprehendia que lhe não era possivel desobedecer á voz que a chamava. E isto flagelava-a com uma dôr sem nome. Perder-me e ser ella, uma vez ainda, a causa unica de meus infortunios.

—Meus filhos!—exclamou ella em fim, impallidecendo, com uma despedaçadora angustia. E pendurava-se-me do pescoço, fitando-me os olhos penetrantemente—Meus pobres filhos, tão creanças! Pensas tu n'isto? Tu que és bom, e me amas, podes-me exigir que os deixe?{75}

Immediatamente comprehendi pela commoção que me estorcia o animo, que quanto d'ahi em diante tentasse seria baldado. A pesar da resistencia, senti um surdo protesto subir-me das entranhas em gritos de indignação. Eu mesmo, no secreto de minha alma, não queria esse monstruoso abandono de mãe, nem mesmo o covarde desamparo d'um marido por sua mulher que adorava.

Mas, confessal-o-hei?—não me instigava tanto á lucta o desejo de passar a minha vida com aquella mulher, como a idea de fazer cessar a partilha execravel. Absolva-me dos males que causei um momento de franqueza! Eu senti, abraçando de novo Fanny, que soffria menos com a certeza de a perder que com a idéa de que ella ia unir-se ao marido. E, horrorisado de mim, dôr nova para ajuntar a tantas, disse comigo mesmo:

«Aqui ha mais ciume que amor.» Entretanto, mais tranquilla, mas sempre affavel, Fanny encostara-se ao cotovello e, voltada para mim, discutia sósinha. Escutei-a.

«Se eu ousasse... se eu não temesse mortificar-te...

—Falla, que estou de animo assente para ouvir tudo. Já agora, não ha nada ahi que possa fazer-me mais desgraçado.

Acariciou-me febrilmente, e disse, quasi desfallecida:

«Pois bem! eu não tenho coragem de arruinal-o. Hoje, o unico recurso d'elle está no meu dote.

—É isso só? deixa-lhe tudo o que tens. Não sou eu bastante rico para nós ambos?{76}

«Não é isso! não é isso!—disse ella, meneando a cabeça.

Encarei-a. Estava enleada e escolhi vagas palavras com que disfarçar a idéa. Continuou, a meia voz, como reprehendendo-se do que ia dizer:

«Como condemnal-o á solidão n'este supremo momento em que elle lucta tanto por mim como por elle! Nunca voluntariamente me desgostou. Ama em mim a companhia de quinze annos da sua vida, a mãe de seus tres filhos...

—Por que o enganaste?—atirei-lhe eu em rosto, no impeto doloroso da minha colera; mas, com uma só phrase me esmagou ella:

«Por que te amava!» e com expressão de orgulho que a engrandecia a cima de si mesma, accrescentou:—Mas a perfidia não competia a ti reprovar-m'a, Roger!

D'esta arte, quantos golpes eu lhe apontava, eram logo rigosamente rebatidos; mas, nem assim, eu desistia do ataque. E se nos descobrissem! repliquei eu, na certeza de que este golpe era difficil de aparar, fitou-me fixamente como receando que a eu denunciasse para a possuir, talvez, por esse infame meio.

Depois de olhar-me longo tempo, disse:

«Que desgraçado elle seria!...

Voltei-lhe o rosto, e Fanny concluiu:

«Elle diria com horror de mim: Nem por amor d'estas creancinhas...

Puz-lhe a mão nos labios, e, convulsivo, olhei para ella. Estava coberta de lagrimas. Posto que perturbado, não pude deixar de admirar-lhe a franqueza{77} nobre que nem, neste lance, me poupava. Estava toda embevecida na victima!

«Que faria elle?» murmurei. Fanny, levou as mãos á face, e respondeu com voz abafada:

—Talvez me perdoasse...—

E, passados os soluços que lhe embargavam a voz, disse:

—Estamos demasiadamente castigados! Se obedeço ao dever, abandonando-te; se não lhe obedeço, deshonro-me. De ambos os lados só vejo a desgraça, e faço desgraçados. Infeliz por ti, por elle, por meus filhos, por mim propria, nem me resta o recurso da morte para restituir a paz a todos! Deus meu, que me has dado o coração, que me não serve para consolar os entes que amo, e nem as suas dôres posso incerrar n'elle, como thesouros caros!

E, a luz crepuscular na alcôva, sobre as rendas dos flacidos travesseiros, enlaçados os braços e unidas as faces assim choravamos... Quem acreditaria que, desde muitos dias, se passavam assim todas as nossas entrevistas!