E-text prepared by Pedro Saborano

Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1902.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los.

No original havia uma errata. Nesta adição corrigimos os erros apresentados nessa errata, e marcámos as alterações colocando o texto originalmente impresso em comentário como: aqui.


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PROPAGANDA DE INSTRUCÇÃO
PARA
Portuguezes e Brazileiros

BIBLIOTHECA DO POVO

E DAS ESCOLAS

CADA VOLUME 50 RÉIS

Historia da Grecia

POR

J. FERNANDES COSTA

Capitão de Artilharia

Cada volume abrange 64 paginas, de composição cheia, edição estereotypada,—e fórma um tratado elementar completo n'algum ramo de sciencias, artes ou industrias, um florilegio litterario, ou um aggregado de conhecimentos uteis e indispensaveis, expostos por fórma succinta e concisa, mas clara, despretensiosa, popular, ao alcance de todas as intelligencias.

LISBOA
SECÇÃO EDITORIAL DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA
Adm. Justino Guedes
Largo do Conde Barão, 50
Agencias: PORTO—Largo dos Loyos, 47,1.º
RIO DE JANEIRO—R. da Quitanda, 38
1902
NUMERO 131

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[INDICE]

[HISTORIA DA GRECIA]

[NOÇÕES GEOGRAPHICAS]

Grecia foi o nome dado pelos Romanos ao paiz chamado Héllada pelos seus naturaes. Tal nome coube primeiramente a uma pequena divisão do Epiro; depois applicou-se á Thessalia, aos paizes ao sul das Thermopylas e ao Peloponeso, vindo, com o andar do tempo, a comprehender todo o Epiro, a Illyria na sua maior parte e a Macedonia. Mas o vocabulo não era conhecido pelos habitantes do paiz, do mesmo modo que estes se não designavam pelo nome de Gregos, com que ficaram memorados na Historia. Na lingua grega a Grecia era chamada Héllada, como dissemos, Hellenia ou paiz dos Hellenos. São ignorados os motivos pelos quaes prevaleceram os nomes—Grecia e Gregos—empregados na lingua romana.

A palavra Héllada (em grego Hellas) designou primitivamente um pequeno districto da Phthiotida, na Thessalia. D'ahi, os Hellenos espalharam-se gradualmente por todo o resto da Grecia,—mas ainda no tempo de Homero o seu nome não era commum a toda a nação grega. O grande poeta designa os Gregos pelos nomes de Danaos, Acheus, ou Argivos; e imbora na Iliada, cant. II, v. 530, appareça uma vez a designação de Pan-Hellenos, é ella tida como espuria pelos commentadores antigos.

Entretanto, nos tempos mais remotos da Historia Grega, todos os membros da raça hellenica, vangloriando-se de um antepassado commum, Hellen, eram conhecidos pelo mesmo nome, e a todos os districtos em que se estabeleciam davam o nome generico de Héllada, o qual significava, assim,{4} «terra dos Hellenos» e não uma região qualquer definida por limites geographicos precisos. Ora, n'este sentido generico, as mais distantes colonias hellenicas pertenciam á Héllada; e d'esse modo as cidades de Cyrena na Africa, de Syracusa na Sicilia, e de Tarento na Italia, formavam partes tão essenciaes da Héllada como as cidades de Athenas, de Esparta, e de Corintho.

Este é o sentido mais amplo do termo, o qual se empregou tambem mais restrictamente para designar todo o paiz ao sul do Golpho Ambracico e da foz do rio Peneu, até ao isthmo de Corintho. N'esta significação era o paiz designado pelo nome de Héllada contínua e, segundo os modernos, pelo de Héllada propria.

Poremos, comtudo, de parte este nome classico e erudito; e adoptaremos para toda a Peninsula o de Grecia, consagrado pelos seculos e pelo consenso unanime dos historiadores.

A Grecia é a mais oriental das tres peninsulas em que o continente europeu é recortado ao sul. A sua extensão superficial está longe de egualar-se á do nosso pequeno paiz, e não é por ella decerto que nos cumpre avaliar a extraordinaria importancia que os filhos d'essa região privilegiada tiveram na historia do mundo.

Presta-se o paiz, pelo muito accidentado das suas montanhas, ao estabelecimento de pequenos Estados analogos aos cantões da Suissa, assim como pelo arrendado do seu vasto littoral se presta a uma grande expansão de commercio maritimo, facilitado ainda pela proximidade da Asia, da Italia, e do Egypto.

Ao norte, a Peninsula é cortada, do Mar Negro ao Mar Adriatico, pela cadeia de montes que, a leste, toma o nome de Hemo ou Balkan, e em cujas vertentes meridionaes assentam a Illyria, a Macedonia, e a Thracia.

Ao sul da Illyria e da Macedonia ficava a Grecia septentrional, comprehendendo o Epiro e a Thessalia, separados de norte a sul pelo monte Pindo. Ao sul do Epiro incontravam-se os Molossos, cuja capital era Ambracia (Arta), banhada pelas aguas do golpho do mesmo nome, e ao norte, na fronteira da Macedonia, Dodona, celebre pelo seu oraculo.—A Thessalia é atravessada pelo rio Peneu, o qual fórma o valle de Tempe, entre os montes Olympo e Ossa. Entre as cidades, cumpre citar:—Larissa, banhada pelo Peneu, e antiga capital dos Pelasgos; Iolcos e Lamia; Pharsalia, e, perto d'esta, Cynocephalia («Cabeça de Cão»), celebre campo de batalha. A cadeia de montanhas meridional chama-se monte Œta, e n'elle{5} existe uma estreita garganta, o celebre desfiladeiro das Thermopylas («portas quentes»), unica passagem natural da Thessalia para a Héllada.

Ao sul da Thessalia e do Epiro (isto é, da Grecia septentrional) ficava a Héllada propria ou Grecia central. Compunha-se ella dos seguintes estados: Attica, Beocia, Phocida, Dórida, Lócrida, Etulia, Acarnania, Megarida.

Na Attica ha a mencionar o monte Penthelico, celebre pelo seu marmore, e o monte Hymetto, afamado pelo seu mel, e ambos elles contrafortes do Œta. As cidades principaes eram: a capital Athenas; o porto do Pireu na peninsula de Munychia; Eleusis, famoso centro do culto de Demeter (Ceres) e dos mysterios. Eram tambem na Attica as celebres planicies de Marathona. Em frente de Athenas, no Golpho Saronico, incontrava-se a ilha de Egina, famosa pela sua grande navegação, pela riqueza e cultura dos seus habitantes, e ao norte d'ella a ilha de Salamina, celebre pelo combate naval que d'ahi tirou o nome.

Na Beocia havia quatorze cidades, reunidas em liga, a cuja frente se encontrava Thebas,—a das septe portas,—com a fortaleza Cadméa. D'entre as outras ficaram memoraveis pelas guerras de que foram theatro: Platéa, Délio, Coronéa, Leuctra, Cheronéa.

Na Phocida estava o centro da Grecia e até mesmo, segundo então se julgava, o centro de toda a Terra, o templo de Delphos. Esta cidade era celebre pelo seu oraculo de Apollo, pela sumptuosidade dos seus edificios, e pela sua fonte de Castalia, cansagrada ás Musas.

A Dórida era uma pequena região montanhosa, tendo apenas quatro cidades, tão insignificantes que não vale a pena citar-lhes os nomes.

Na Lócrida é digno de menção o porto de Naupacta (hoje Lepanto), e na Etulia a inexpugnavel cidade de Thermon.

Finalmente, na Acarnania, ao sul do Golpho de Ambracia, notava-se:—o promontorio de Accio, celebre pela victoria de Augusto (31 A. C.), e em cuja proximidade depois se fundou Nicopolis; a cidade de Leucate, e a de Stratos; etc. Na Megarida, distinguia-se a cidade de Megara, proximo da costa, a porta do isthmo, com dois portos, um no Golpho Saronico, outro no de Corintho.

Resta-nos falar da terceira grande divisão geographica de toda a Peninsula Grega, o Peloponeso (hoje Moréa). Constitue ella por si só uma peninsula secundaria da principal, á qual se liga por uma estreita lingua de terra, o isthmo de{6} Corintho. Subdividia-se nos seguintes Estados: a Arcadia, a Laconia, a Messenia, a Achaia, a Argolida, a Elida.

Na Arcadia havia, alêm das cidades antigas de Mantinéa e de Tegéa, Megalopolis e outras localidades de somenos importancia.

Na Laconia, parte mais meridional de toda a Grecia, notava-se, alêm da capital Esparta (Lacedemonia), Amycléa antiga cidade dos Tyndaridas, celebre pelo culto ahi prestado a Apollo, Sellasia, Hélos, e o porto Githio.

Na Messenia, separada da Laconia pelo monte Taygeto, havia a antiga fortaleza de Ithoma, a cidade maritima de Pylos (Navarino), a capital Messena, e a cidade dorica de Steniclaros.

A Achaia, no Golpho de Corintho, continha as cidades de Patras, de Egio, de Hélice, e mais nove, formando todas uma liga, e tinham para centro o templo de Zeus (Jupiter) em Egio. A liga achaica ou achéa comprehendia, alêm d'estas doze cidades, a de Sicyonia, altamente commercial, e a de Corintho, opulenta tanto pelo seu commercio como pela sua actividade industrial e artistica, e notavel pela sua forte cidadella (Acrocorintho).—Ao sueste, achava-se a Phliasia, pequena republica com a cidade de Phlionte.

Na Argolida sobresahiam a capital Argos, com a sua cidadella Larissa—do tempo primitivo dos Pelasgos, Mycena e Tiryntho, onde se vêem ruinas das muralhas cyclopicas; e, alêm d'estas tres cidades de maior ou menor importancia, muitas localidades, algumas celebres na Historia da Mythologia, taes como: Neméa (jogos nemeus), Lerna (hydra de Lerna), Epidauro, Trezena, Hermione, Nauplia, a ilha de Calauria, etc.

Na Elida, região sagrada, havia, alêm da capital Elis, a floresta de Altis na planicie de Olympia, banhada pelo Alpheu, onde de quatro em quatro annos se celebravam os famosos jogos olympicos, e o magnifico Templo de Zeus, com a estatua do Rei dos Deuses feita de marfim e oiro, pela arte sublime e prodigiosa de Phidias.—A região ao sul de Olympia chamava-se Triphylia; e n'ella ficava a Pylos, de Nestor.

Eram estes os Estados do continente ou terra-firme. Ha, porêm, ainda a considerar um grande numero de ilhas. Citaremos, as mais importantes:

No mar de oeste ou Mar Jonio: Corcyra (hoje Corfú), talvez a celebre ilha dos Pheacios, residencia do rei Alcinoo, e{7} que Homero cantou; Leucate, com um sanctuario de Apollo; Ithaca (hoje Thiaki), morada de Ulysses; Cephallenia e Zacyntho, d'onde veio a colonia hespanhola de Sagunto.

No mar do sul: Cythera, antiga colonia phenicia, d'onde talvez lhe proveio o culto da Venus Aphrodite (a Astarte phenicia); Creta (Candia), com o seu monte Ida, afamada pela legislação de Minos, e com as cidades de Cydonia, de Gortyna, de Cnossa (labyrintho), entre outras, que Homero faz chegar ao numero de cem; Chypre, abundante em azeite e vinho; Rhodes (a Ilha das Rosas) com a celebre estatua de Hélios (colosso de Rhodes) no porto da sua capital.

No mar de léste ou Mar Egeu, tambem chamado Archipelago, as ilhas eram tão numerosas, que este ultimo nome do mar ficou designando todos em que as ilhas são muitas, ou, mais restrictamente ainda, todos os agrupamentos de ilhas. As principaes eram: Eubéa (Negroponto), com as cidades de Eretria, de Chalcis (ligada á Beocia por uma ponte), de Carysta, afamada pelos seus marmores, e de Oréa; Scyros, pertencente aos Athenienses; Lemnos, celebre pelo culto de Héphaistos (Vulcano); Thasos; Imbros e Samothracia, ambas conhecidas pelo antigo culto mysterioso dos Cabiras; as Cyclades, grupo assim chamado por formar um circulo de ilhas em torno da ilha de Délos, consagrada ao Sol. Em Délos havia o grande sanctuario de Apollo. E entre as outras Cyclades, cumpre mencionar: Paros (marmores), Andros, Céos, Melos, e Naxos. A léste das Cyclades, ficavam as Sporades, mais ligadas já ao continente asiatico, sendo entre ellas notaveis: Tenédos; Lesbos, com a cidade de Mitylene; Chios; Samos, patria de Pythagoras; Cos, pátria de Apelles e de Hippocrates; Patmos, depois celebre por ahi ter residido o evangelista S. João.

[NOÇÕES MYTHOLOGICAS]

1.º Theogonia grega.—A Terra () gerou por si mesma o Céu (Urano) e o Mar (Ponto). Da alliança entre o Céu e a Terra nasceram os Cyclopes e os Titans.

Os cyclopes forjavam os raios. Dos Titans, uns vagueavam pela Terra como o Oceano, deus marinho, cujos filhos e filhas eram os rios e as fontes, outros esplendiam nas regiões ethéreas ou cruzavam o espaço, como Hypérion (luz primitiva), Théia (claridade diurna), Hélios (sol), Seléné (lua), Eos (aurora), o{8} céu nocturno com as suas estrellas (Léto e Astéria), os quatro ventos (Zéphyro, Bóreas, Noto, Euro); outros representavam os destinos e as tendencias do espirito humano, como Japeto e seus filhos, Atlas, Menecio, Prometheu e Epimetheu (Prometheu que roubou aos deuses o lume e por isso Zeus o amarrou n'um rochedo onde um abutre lhe devorava as intranhas; Epimetheu, marido de Pandora, de cuja boceta sahiram todas as miserias da Terra ficando-lhe só a esperança no fundo); outros eram as forças amigas ou inimigas da humanidade, Themis (guarda da ordem legal e moral), Mnemosyne (memoria), mãe das 9 Musas, Hécate, deusa da noite. O mais novo dos Titans foi Chronos, que destronou seu pae, Urano.

Das gottas de sangue cahidas no chão nasceram as Erinnyas ou Euménides (Furias na Mythologia Romana), e os Gigantes. Da espuma do mar nasceu Aphrodite ou Anadyómena (Venus na Myth. Rom.), a deusa do amor. Da ligação de com o mar proveio Nereu e d'este as nymphas maritimas ou Nereides (aspectos risonhos do mar) e Thaumas, Phorcys, Céto (fenomenos terriveis das ondas). De Thaumas nasceu Iris (o arco iris) e as Harpyas (trombas, redomoinhos). De Phorcys e de Céto vieram as Graias (as tres velhas com um olho e um dente só), as Gorgones (Stheno, Euryale, e Medusa, tendo serpentes na cabeça em vez de cabellos), as Hesperides (que guardavam os pomos de oiro no Jardim do Occidente). Do filho de Medusa nesceram os espectros Cerbero, Hydra, Chimera.

A Noite deu o ser a estes de influencia mysteriosa ou nociva: o somno, os sonhos, a morte, o destino (Ker), as tres Mœra (Parcas na Myth. rom.): Clotho, Lachésis, e Atropos.

Depois de Urano reinou Chronos (Saturno na Myth. Rom.), e o seu reinado foi a edade de oiro, o periodo da felicidade sem nuvens; Zeus (Jupiter em Roma), seu filho mais novo, foi creado secretamente em Creta, escapando por um artificio materno, no qual tomaram parte os Curetes e as Corybantes, á sorte de todos os outros seus irmãos, pois Chronos devorava á nascença todos os filhos que lhe dava sua mulher Rhéa (Cybele). Zeus desthronou seu pae e fundou o reinado dos deuses olympicos, depois de um combate contra os Titans e Gigantes (forças revoltas da Natureza), do qual sahiu triumphante, despenhando os seus adversarios no Tartaro, com excepção apenas de Thémis, do Oceano, e de Hypérion.

2.º Deuses olympicos.—O senhor e soberano dos deuses, o deus principal dos Hellenos, era Zeus. O seu culto nasceu em{9} Dodona, no Epiro, extendendo-se depois á Thessalia e d'ahi á Grecia toda. Acima de Zeus só havia o Destino e as leis invariaveis da Natureza. A mulher e irman de Zeus, Hera (Juno na Myth. Rom.) era a divindade feminina do céu, a atmosphera. Presidia aos casamentos. Suas filhas Hébe e Elithya eram: aquella a deusa virginal que servia o nectar aos deuses antes do rapto de Ganymedes pela aguia de Zeus, esta a deusa que as mulheres invocavam no momento dos partos.

Da cabeça de Zeus sahiu armada Pallas Athené (Minerva entre os Rom.), a deusa protectora de Athenas. Ao principio, deusa do céu azul que esplende magnificamente sobre toda a Grecia, foi depois a creadora de todas as artes. Descobriu a charrua e ensinou a plantar a oliveira. Era a guarda das cidades e das instituições publicas.

A sua estatua (Palladio) tinha culto em quasi todas as cidades gregas, sendo Athenas o seu mais celebre sanctuario. Celebravam-se aqui em sua honra, de quatro em quatro annos, as grandes, e, todos os annos, as pequenas Panathenéas. Chamava-se égide o escudo de Minerva e n'elle estava a cabeça de Medusa.

De Zeus e de Hera nasceu Héphaistos (Vulcano em Roma), que seu pae precipitou do céu. Foi o inventor das forjas, isto é, o grande promotor da civilização. Ajudavam-n'o os Ciclopes, que no Etna e nos outros vulcões forjavam os raios para Zeus.

De Zeus e de Léto (Latona) nasceram Artemis e Apollo, gemeos, na ilha sagrada de Délos. Apollo, deus radiante da luz (Phébo) é por isso confundido ás vezes com Hélios, deus do sol. Este deus era um dos mais importantes; o seu mestér era combater a obscuridade e a impureza, e estabelecer a ordem no mundo physico e no mundo moral. Com respeito á vida humana era o preservador dos males. Sob o nome de Paion foi pae de Asclepios (Esculapio) que preside á medicina. Como deus das artes e especialmente da musica e da poesia, Apollo dirige o côro das Musas (e recebe então o nome de Musageta).

As Musas eram nove: Calliope (poesia épica), Clio (historia), Euterpe (poesia lyrica), Melpomene (tragedia), Therpsicore (dança choral e canto), Erato (poesia erotica e imitação mimica), Polymnia (hymno sublime), Urania (astronomia), Thalia (comedia e poesia idyllica). Habitavam os montes Hélion e Parnaso nas proximidades de Delphos.

Artemis (Diana entre os Romanos), irman de Apollo, era a{10} deusa da lua, a divindade das musas e dos oraculos, e presidia á caça. Tinha um celebre templo em Epheso onde era representada como mãe creadora, com um grande numero de seios. Na Taurida, prestou-se-lhe um culto barbaro, com sacrificios humanos, nos quaes tomou parte a familia dos Atridas (Iphigenia e Orestes).

Poseidon (Neptuno entre os Romanos), antigo deus pelasgico, que teve o seu culto primitivo na Beocia e no isthmo de Corintho, culto que passou d'ahi para a Attica e para o Peloponeso, era o deus do mar e governava-o com o seu tridente. Tinha por companheira Amphitrite, nympha marinha. Foi tambem o domador dos cavallos, e pae de Pégaso, cavallo alado, que nasceu do sangue de Medusa. Adoravam-n'o em Athenas a par de Athené.

Ares (o Marte dos Romanos) era o deus da guerra e dos combates. Tinha em Athenas uma collina que lhe era consagrada (Areopago).

Aphrodite (a Venus dos Romanos), era a deusa do amor sensual e da formosura. O seu culto celebrava-se principalmente em Chypre, em Cythera, e em Gnido.

De Ares e de Aphrodite nasceu a Harmonia, divindade de Thebas e esposa do phenicio Cadmo, fundador da cidade.

Ao mytho de Aphrodite está ligado o de Adonis, seu favorito, morto na caça por um javali. Adonis por concessão especial de Zeus ficou vivendo seis mezes do anno com Aphrodite e os outros seis com Perséphone, rainha das sombras. Este mytho, de origem phenicia, parece representar o principio vivificante da Natureza: a morte de Adonis durante seis mezes e a sua resurreição n'outros seis é o lethargo da Natureza no inverno e a sua revivescencia na primavera.

O filho e companheiro de Aphrodite, segundo lendas mais modernas, era o pequeno deus do amor, Eros (Amor, Cupido) cuja amada foi Psyche (a alma). No séquito d'este pequeno deus e de sua graciosa mãe andam as Charites (Graças), e as Horas, deusas das Estações.

Havia, ainda, entre os deuses supremos, cujo numero subia a doze, Deméter (Ceres), Hermes (Mercurio), e Hestia (Vesta).

3.º Divindades terrestres.Deméter (Ceres), a Terra-Mãe, filha de Chronos, era a Natureza fecunda e creadora. Inventou a Agricultura. A Sicilia e Eleusis eram os principaes pontos do seu culto. Sua filha Perséphone (Proserpina entre os Romanos), raptada por Hades (Plutão), e vivendo metade do anno sobre a Terra e outra metade no mundo subterraneo,{11} era a imagem da semente interrada durante os mezes do inverno. Em honra de Deméter celebravam-se as Thesmophorias, as grandes e as pequenas Eleusinas, e as Anthesterias.

Hades (Plutão) governava o mundo dos mortos, separado do mundo dos vivos por alguns rios, taes como o Styge, o Acheronte, o Cocyto, o Lethes (rio do esquecimento), etc. Sob o nome especial de Plutão era particularmente a divindade dispensadora das riquezas. O mundo subterraneo comprehendia o Elyseu (morada dos justos) e o Tartaro (morada dos condemnados). Era guardado por Cerbero, cão de tres cabeças. Os manes dos que na morte tiveram sepultura atravessavam o rio infernal n'uma barca dirigida por Charonte.

Hermes (Mercurio entre os Romanos), divindade pelasgica, ligada á agricultura e á vida pastoril, era tambem arauto e mensageiro dos deuses. Tinha azas nos calcanhares, e usava o caduceu, symbolo da inviolabilidade. Era o deus da eloquencia, da circumspecção, da prudencia, e até da finura e da astucia, chegando mesmo á fraude e ao perjurio (isto é, tinha na sua qualidade de arauto olympico todas as prendas da diplomacia e da politica). Attribue-se-lhe a invenção do alphabeto, dos numeros, da astronomia, da musica, da gymnastica, dos pezos, das medidas, a cultura da oliveira, etc. Estava tambem o commercio sob a sua protecção.

Dionysos (Baccho entre os Romanos e tambem entre os Gregos), antiga divindade pelasgica, filho de Zeus e da thebana Seméle, era representante da Natureza no que ella tem de mais opulento, mais luxuriante e activo, e, em especial, deus do vinho. Havia muitas festas em sua honra, particularmente as Bacchanaes, as Dionysias, as Anthesterias, etc.

Os Cabiras, deuses pelasgicos ou phenicios, eram tambem divindades terrestres e symbolizavam as forças productoras da Natureza.

4.º O mundo heroico.—O Alcides Heracles (Hercules) é a personificação da força e do trabalho humano em lucta com os obstaculos levantados pela Natureza e pelo Destino.

No Peloponeso originou-se o mytho de Tantalo com a sua familia amaldiçoada. Entre os Tantalidas ha a mencionar Pelops, Atreu, Thyestes, Agamemnon, Menelau, e Orestes.

Em Lacedemonia foram venerados como heroes os Tyndaridas, irmãos de Helena, os gemeos Castor e Pollux, e em connexão com elles os Dióscoros, estrellas brilhantes propicias aos navegadores.

O phenicio Cadmo foi o heroe fundador de Thebas. Era irmão{12} de Europa. D'este tronco descendeu Laio, pae de Œdipo, o heroe tragico que assassinou seu pae; matou a Esphinge, e casou com sua propria mãe, Jocasta. Seus filhos, Eteocles e Polynice, mataram-se um ao outro, em combate singular, deante de Thebas.

A Thebas pertence tambem o cantor Amphion, tão celebre tocador de lyra que, ao som d'este instrumento, moviam-se por si mesmas as pedras e formavam a muralha da cidade por elle reconstruida. Era irmão de Zetho e marido de Niobe.

Na Beocia e na Attica havia o mytho de Tereu com os de Progne e Philoméla, metamorphoseadas, a primeira em andorinha, a segunda em rouxinol.

Na Thessalia, brotou a lenda dos Centauros, semi-homens e semi-cavallos, os quaes tiveram grandes combates contra os Lapithas. Um dos centauros, Chiron, teve por discipulos Asclepios e Achilles.

Em Athenas, o heroe nacional era Theseu filho de Egeu. Foi elle quem libertou os Athenienses do oneroso tributo de septe mancebos e septe donzellas que de nove em nove annos tinham de ser inviados para o Minotauro de Creta. Matou o monstro e sahiu do labyrintho, graças a um fio que tinha recebido de Ariadna, filha do rei. O mytho do Minotauro parece ser, segundo os mais recentes estudos, uma expressão do culto sanguinario de Moloch.

[CAPITULO I]