TEMPOS LEGENDARIOS OU PRIMITIVOS TEMPOS HEROICOS E MYTHICOS DOS HELLENOS
1.º Tempos pelasgicos.—Consideram-se os Pelasgos como os mais remotos habitantes da Grecia, ou, por outras palavras, como a primeira raça que ahi deixou alguns germens de civilização. Eram povos talvez originarios da Asia, e, segundo as melhores conjecturas, devem ter-se estabelecido na Grecia em epocha não posterior ao seculo XVIII antes da era christam.
As suas primeiras residencias parece que foram na Thesalia e na Arcadia, sendo, comtudo, bem visiveis ainda hoje{13} vestigios da sua existencia, nas ilhas do Mar Egeu, na Italia e na Asia Menor.
Esses vestigios são restos architectonicos de um caracter perfeitamente definido; ruinas de aqueductos, de diques, de canaes, de muralhas; monumentos chamados, cyclopicos, porque as gerações posteriores, absortas deante de obras tão colossaes, attribuiram-n'as a uma raça de gigantes, os Cyclopes, não querendo a imaginação popular convencer-se de que taes moles de pedra tenham sido collocadas umas sobre outras pelas simples forças de que a raça humana pode dispor.
Monumentos de tal modo pezados, e que assombram pela sua enormidade, os homens d'agora, ficaram attestando aos seculos a desgraçada escravidão em que devem ter vivido os povos á custa de cujo suor, sangue, e lagrimas, se ergueram. Taes foram, a par dos muros pelasgicos, a grande muralha chineza, as pyramides do Egypto, os téocallis sagrados, do Mexico.
Outros indicios, mais vagos e incertos, parecem affirmar-nos que entre os Pelasgos havia castas, analogas ás orientaes, havia uma poderosa e influente classe sacerdotal, e uma aristocracia hereditaria para defesa do paiz...
Dos Pelasgos suppõe-se que foram consanguineos os Thracios Pierios (da Pieria, estreita faixa de terra na costa SE da Macedonia, que se extendia desde a foz do Peneu, até ao Haliacmon). Teem celebridade estes povos na historia primitiva da musica e da poesia grega; no seu paiz nasceu o culto das Musas, e alli foi sepultado Orpheu, o heroe mythico cuja voz e cuja lyra tinham o dom de arrebatar os homens, de amansar a ferocidade animal, e de predispôr á benevolencia, os deuses sombrios do mundo subterraneo. Permittiram-lhe estes que trouxesse dos Infernos sua mulher Eurydice e voltasse a viver com ella na Terra.
Ao lado d'Orpheu colloca-se Lino, inventor da elegia, e o sacerdote cantor Eumolpo, fundador dos mysterios de Eleusis, que legou a direcção d'elles aos Eumolpidas, seus successores.
Persistia entre os Gregos, n'estes e n'outros mysterios, como culto secreto, a religião dos Pelasgos. Celebravam-se as pequenas Eleusinas na primavera; as grandes, que duravam nove dias, no outono. N'ellas se dava culto aos mythos de Deméter e de Perséphone, como forças de concepção, ao de Dionysos, como força de producção. A iniciação era feita pelo hierophante; alêm d'este, havia gran-sacerdotes, simples sacerdotes{14} e sacrificadores, os quaes todos, nos dias de festividade, se vestiam de purpura e coroavam de myrto.
Pertencem, tambem, ao cyclo legendario do primitivo povo pelasgico os mythos de Inacho em Argos, de Egialeu em Sicyonia, de Pelasgo na Arcadia, de Oxiges na Attica, etc.
Perante a critica historica são insustentaveis as lendas do egypcio Cécrops, fundador da cidadella (Cecropia) de Athenas; do phenicio Cadmo, fundador de Thebas, introductor da arte da escripta e da arte de fundir o bronze; do phrygio Pelops que deu o seu nome ao Peloponeso; do estabelecimento de Danao e das Danaides na Argolida, etc. Perante as investigações da moderna sciencia historica tem certo fundamento a opinião que admitte a originalidade e o caracter aborigene da organização grega, bem como a que ingeita o parecer de ter sido introduzida a civilização na Grecia pelos seus colonizadores do Egypto, da Phenicia e da Asia Menor. Mas, apezar d'estas asserções, é incontestavel que cedo existiu uma corrente civilizadora entre a Grecia e o Oriente, exercendo este sobre aquella uma influencia indelevel tanto nas instituições da vida civil como nas do systema religioso.
Isto não obstou a que os Gregos, ou, para melhor dizermos, os Hellenos, dessem livre expansão ao seu genio politico, ás suas tendencias artisticas, ás suas concepções religiosas, confirmando, sobre os Pelasgos conquistados, a superioridade da sua raça e as suas mais vastas aptidões intellectuaes.
2.º Tribus hellenicas.—Nada se sabe emquanto á origem e ao apparecimento historico dos Hellenos. Sabe-se que constituiram tribus militares, e que venceram, afugentaram, ou escravizaram, as tribus industriosas dos Pelasgos. Estes procuraram asylo nos desfiladeiros do Olympo, em alguns pontos da Thessalia, do Epiro, da Macedonia, da Attica, da Arcadia, e defenderam por largo tempo a sua independencia. No tempo de Homero, havia pouco ainda que tinham sido de todo subjugados.
Presume-se, no emtanto, que os Hellenos não constituiam uma raça particular, mas sim que formavam tão sómente a cavallaria ou parte guerreira dos Pelasgos, a qual submetteu por violencia ao seu jugo tanto a classe theocratica como o povo pacifico.
Como quer que fôsse, essas tribus guerreiras subdividiram-se em quatro grupos, ou tribus principaes, que mantiveram em todo o decurso do seu viver historico profundas differenças de usos, de lingua, e de regimen politico.{15}
Essas quatro tribus foram as seguintes: os Dorios e os Acheus no Peloponeso, os Jonios na Attica e nas ilhas, e os Eolios na Beocia e outros pontos.
O nome de Acheus foi, durante os tempos heroicos, o de todas as tribus do povo grego, e por elle são os Gregos designados em Homero. Foi no seculo IX A. C. que esta denominação se restringiu aos habitantes das margens dos rios do norte do Peloponeso, recebendo os outros Hellenos as especificações que dissémos. Crê-se que foram os sacerdotes de Delphos quem, posteriormente, imaginou para as quatro tribus uma genealogia commum.
Essa lenda genealogica foi a seguinte: em tempos remotissimos houve um diluvio em que morreram todos os homens com excepção de Deucalião e de sua mulher Pyrrha. Andaram estes vogando nove dias n'uma arca; e, ao fim d'elles, deram fundo no cume do Pindo, ou, como depois se disse, no do Parnaso. Supplicaram então aos deuses que repovoassem a Terra, e, attendidos na sua prece, receberam ordem para irem arremessando para traz de si os ossos da mãe, isto é, pedras da Terra. Das pedras que Deucalião atirou nasceram homens, e das de Pyrrha nasceram mulheres.
A esta lenda primitiva acrescentou-se em tempos mais recentes a de Hellen, filho de Deucalião. O primogenito de Hellen foi Eolo, tronco dos Eolios; o segundo foi Doros, personificação dos Dorios; o terceiro foi Xutho (o expulso), de quem descendiam Ion e Acheu. A outro filho de Deucalião, Amphictyão, attribuiu-se a instituição da amphictyonia (isto é, uma liga em que se abrangiam as diversas tribus), e a um filho de Pandora, filha de Deucalião, o nome de Gregos que os povos do Occidente deram aos Hellenos.
Os sacerdotes de Delphos, versados nos mythos do Oriente, cuja influencia transluz em toda esta série de lendas, tiveram um fim altamente patriotico quando pretenderam dar ás quatro tribus uma ascendencia commum. Quizeram dispertar o sentimento da communidade nacional, dando-lhe uma expressão comprehensivel.
3.º Guerra de Thebas.—Colloca-se este acontecimento no seculo XIII A. C.; mas todas as datas attribuidas aos factos dos tempos mythicos são absolutamente incertas. Um dos episodios mais remotos das tradições nacionaes gregas é a guerra de Thebas, ou, como ordinariamente se diz, a guerra dos septe chefes deante de Thebas.
Eteocles e Polynice, filhos de Œdipo, da tragica familia de{16} Laio, disputavam o throno paterno. Polynice, expulso por seu irmão, refugiou-se na côrte de Adrasto, rei de Argos, o qual lhe deu uma filha em casamento e o acompanhou até deante de Thebas com um exercito commandado por elles ambos e por mais cinco chefes illustres. Todos os chefes morreram, com excepção de Adrasto. Eteocles o Polynice mataram-se um ao outro em combate singular; e Créon, seu tio, sentou-se no throno que os dois irmãos haviam disputado. Créon mandou matar sua sobrinha Antigona por haver infringido as ordens dadas por elle para que não fôsse concedida sepultura aos dois irmãos; mas Theseu, guarda e vingador das leis moraes, declarou-lhe guerra e matou-o.
Tempos depois os filhos dos septe vingaram sobre os Thebanos a morte de seus paes na guerra dos Epygonos (Posthumos). Laodamas, filho de Eteocles, ou foi morto ou fugiu para a Thessalia; e Thersandro, filho de Polynice, reinou em Thebas devastada.
4:º Expedição dos Argonautas.—Este grande facto parece ter sido ainda anterior á guerra de Thebas. N'elle teem querido alguns criticos vêr um resumo poetico das primeiras impresas maritimas dos Gregos para o Mar Negro. A expedição dos Argonautas foi dirigida por Jasão, de Iolchos, na Thessalia, de parceria com 54 heroes entre os mais illustres d'aquelle tempo: Heracles, Theseu, Castor e Pollux (lacedemosios), Peleu, pae de Achilles (thessaliano), o cantor thracio Orpheu, Pirithoo, Meléagro, Esculapio, e muitos outros. Partiram para o remoto Oriente, no navio Argos, com o fim de conquistarem o vélo de oiro, especie de palladio da Colchida, que um principe thessaliano, Phryxo, tinha collocado n'uma floresta consagrada a Ares (Marte), e que, segundo a fabula, era guardado por um dragão. O mastro da nau Argos era feito do tronco de um carvalho cortado na floresta de Dodona, no Epiro, e pronunciava oraculos.
Hercules abandona a expedição, depois de ter libertado, nas costas da Mysia, Hesione, a quem um monstro marinho ia devorar.
Jasão inspira uma paixão exaltada a Medéa, filha do rei da Colchida e conhecedora de todos os segredos da magia; subjuga dois toiros com pés e armas de bronze, e que vomitavam chammas, junge-os a uma charrua de diamante e lavra com elles qualro geiras de terra consagradas a Marte; semeia os dentes de um dragão e d'estes nascem homens armados; vence e mata o monstro que guardava o velocino,{17} e brilhantemente logra conquistar por esta fórma o suspirado thesouro; depois, volta com Medéa no seu navio, e a feiticeira Circe protege-o.
As Nereides levantam nos braços a nau, para ella passar sem perigo entre Scylla e Charybdes. As Sereias intentam perder os nautas com os seus cantos melodiosos, mas Orpheu desfaz-lhes o incanto com os accordes da sua lyra. Visitam, em Africa, o jardim das Hespérides onde Hercules tinha, pouco antes, colhido os pomos de oiro, e chegam finalmente á Grecia.
Durante a viagem, e aqui, Medéa practica os maiores horrores. Corta em bocados o cadaver de seu irmão e semeia-lhe os ossos ao longo do caminho para demorar com esse espectaculo horroroso seu pae que a vinha perseguindo. Rejuvenesce, em Iolchos, o velho Eson; e induz as filhas de Pélias a trucidarem seu pae, cozendo-lhe os membros n'uma caldeira com hervas magicas. Abandonada por Jasão, degola seus proprios filhos; dá á sua rival, Creusa, filha do rei de Corintho, uma tunica envenenada; e, erguendo-se aos ares n'um carro puxado por dragões com azas, refugia-se na Attica, onde desposou Egeu.
Como se vê, a poesia grega inriqueceu com todas as galas da ficção mais ingenhosa, a lenda heroica d'esta aventura maritima.
5.º Guerra de Troia.—De todos os grandes acontecimentos pertencentes ao periodo heroico da Grecia, este foi o mais notavel e é o mais conhecido. Incumbiram-se de perpetuál-o, desde os mais remotos tempos, a lenda, a arte, a poesia.
A guerra de Troia é um facto evidentemente historico, imbora as particularidades de que o revestem sejam meras ficções poeticas. A quéda da grande cidade asiatica serviu muito tempo de era á chronologia grega. Muitos historiadores consideram este episodio bellico como o termo da lucta entre a nacionalidade hellenica e a nacionalidade pelasgica; Herodoto via n'elle simplesmente um grande imprehendimento da Grecia contra a Asia; a poesia explicou-o por um odio hereditario entre as familias reaes de Troia e do Peloponeso, aggravado por uma affronta mortal feita por um principe troiano á honra do lar domestico de um monarcha grego.
Priamo reinava em Ilion ou Troia, na costa noroeste da Asia-Menor. Seu filho Páris (ou Alexandre) raptou Helena, mulher do rei lacedemonio Menelau, que lhe havia dado magnifica hospitalidade na sua casa. O marido insultado pediu{18} aos outros reis da Grecia que o auxiliassem a vingar-se, e em breve se organizou uma expedição commandada por Agamemnon, rei de Mycenas e irmão de Menelau.
A espontaneidade com que tantos principes e tantos povos diversos se unem para a mesma impresa commum é significativa. Não ha, como nunca houve, entre aquellas pequenas agglomerações de homens ciosos e independentes, entre tantos e tão varios Estados, a necessaria unidade politica; não ha uma federação geral; mas vê-se que existem em germen todos os elementos de uma nacionalidade. Cincoenta e septe Estados e outros tantos chefes tomaram parte na impresa. Alêm do Atrida Agamemnon, rei de Mycenas, de Corintho e de Sicyonia, fizeram parte da expedição: Menelau, rei de Esparta; Achilles e o seu amigo Patroclo da Thessalia; Ulysses, rei de Ithaca; Diomedes, rei de Argos; Ajax, rei da Lócrida e Ajax, rei de Salamina; Nestor, rei de Pylos; Idomeneu, rei de Creta; Philocteto, que possuia as flechas de Hercules; e muitos outros. Partiram do porto de Aulida 1:186 navios, transportando para a Asia mais de 100:000 guerreiros. Uma tradição posterior affirma que, em Aulida, Agamemnon sacrificou a Artemis sua filha Iphigenia.
Prolongou-se por dez annos a resistencia da cidade, a qual finalmente foi tomada por artificio, incendiada, e destruida. Heitor, filho de Priamo, morrêra traspassado pela lança de Achilles; Priamo foi degolado; Hécuba e suas filhas, levadas para o captiveiro; uma d'ellas, Polyxena, immolada sobre o tumulo de Achilles; Andromaca, viuva de Heitor, dada a Pyrrho, filho de Achilles, e Cassandra, outra filha de Priamo, a Agamemnon. Dos Gregos morreram Patroclo, Achilles, Ajax de Salamina, e outros. Os vencedores expiaram terrivelmente a sua victoria. Ulysses vagueou dez annos sobre as ondas antes de tornar a vêr a sua Ithaca; Menelau, tambem, durante oito annos andou perdido e acossado pelas tempestades; Agamemnon, depois de um regresso attribulado, foi morto por Egistho, a instigações da sua infiel esposa Clytemnestra. Ajax, da Lócrida, naufragou de incontro a um rochedo onde pereceu. Teucer, repellido pela maldição paterna, por não ter vingado seu irmão Ajax, foi edificar em Chypre uma nova Salamina. Diomedes fugiu para a Italia afim de se subtrahir, no seu reino, a uma sorte analoga á de Agamemnon. Philocteto, Idomeneu, e Epéos, tambem foram ter ás costas de Italia, onde egualmente incontraram asylo os troianos Antenor e Enéas, filho de Anchises, considerado, depois, pelos Romanos, como tronco da sua raça.{19}
As façanhas e as desgraças d'estes heroes foram cantadas pelos poetas nacionaes; mas d'esses cantos, que formavam dois cyclos épicos, só nos restam a Iliada e a Odysséa, attribuidas a Homero, poeta que viveu provavelmente no seculo X antes da nossa era.