GUERRA DO PELOPONESO
Desde a revolta de Corcyra até á paz de Nicias.—A tregua de trinta annos celebrada, em 445, entre Esparta e Athenas, não poude durar mais de quatorze. Em 436, rebentou uma guerra entre Corintho e Corcyra, sua colonia, na qual Athenas tomou o partido d'esta contra a metropole. Ao mesmo tempo, os Athenienses tinham tornado tributaria a colonia corinthia de Potidéa, na Macedonia, e n'esse momento lhe estavam pondo cêrco por ella, confiada no apoio do Peloponeso, negar-se a pagar-lhe tributo (432).
Corintho, Esparta e as cidades do Peloponeso accusaram Athenas de ter rompido as treguas, e de opprimir os seus alliados. Estavam em presença duas ligas hostis: uma, a liga atheniense,{47} na qual intravam as colonias jonias e a maior parte das ilhas (Lesbos, Chios, Samos, etc.), apoiada pelo partido democratico de todas as cidades e firmando o seu poder material principalmente na sua marinha; outra, a liga peloponesica, a cuja frente estava Esparta, e que se compunha dos Estados doricos e da maior parte dos Estados eolios (Beocia, Phócida, etc.), tendo pelo seu lado o partido aristocratico das differentes cidades, e contando, como principal recurso material, com a bravura do exercito de terra.
Reunida a dieta geral do Peloponeso, em Esparta, os Corinthios apresentaram as suas recriminações, em virtude das quaes os Lacedemonios reclamaram de Athenas o levantamento do cêrco de Potidéa, o da interdicção pronunciada contra Megara, e a restituição da liberdade a todos os confederados, mórmente aos Eginetas. Como os Athenienses não satisfizessem nenhuma d'estas exigencias, um exercito espartano invadiu a Attica e devastou-a.
Ao principio a lucta foi-se protrahindo n'uma série de escaramuças e surpresas de saque. Todos os annos, pela primavera, os de Esparta vinham devastar a Attica, e a esquadra atheniense andava exercendo as suas rapinas pelas costas do Peloponeso. Ao terceiro anno de guerra, uma peste horrivel, vinda das bandas da Ethiopia, dizimou a população accumulada em Athenas. Pericles, depois de perder dois dos seus filhos, cahiu, tambem, fulminado pelo flagello (429).
O partido popular deu-lhe para successor Cléon, por nenhum modo capaz de se comparar a Pericles,—mas dotado, ainda assim, de talentos administrativos, e de patriotica energia. A guerra continuou. Athenas viu a destruição de Platéa, sua fiel alliada, pelos Espartanos e pelos Beocios, os quaes assassinaram os habitantes capazes de pegar em armas e reduziram á escravidão as mulheres e as creanças. Os Athenienses tomaram a ilha de Lesbos onde exerceram represalias crueis: no primeiro momento queriam matar todos os habitantes de Mitylene (427), reduzindo á escravidão as creanças e as mulheres; depois, reconsideraram, e condemnaram á morte mil revoltosos. A lucta tomára o caracter de uma vingança horrorosa.
No sexto anno da guerra, a peste reappareceu, e houve, grandes terremotos na Attica, na Beocia, e nas ilhas. Em 424, Brasidas, illustre general lacedemonio, consegue intrar em Amphipolis e faz pender as vantagens para o lado de Esparta; mas Demosthenes (não é o orador), general atheniense, contrabalança este exito do seu adversario, apoderando-se da{48} importante posição de Pylas (Navarino), na costa da Messenia, onde se mantêm, apezar dos ataques de Brasidas, o qual não poude conseguir mais, para inquietar o inimigo, do que desimbarcar quatrocentos e vinte Espartanos na pequena ilha de Sphacteria, onde, depois de uma defesa pertinaz, foram uns mortos, outros aprisionados por Cléon (425).
Admittia-se, desde as Thermopylas, que os Espartanos podiam ser mortos, mas nunca aprisionados, de modo que o resultado da lucta em Sphacteria produziu um grande effeito moral nos Athenienses. Os Espartanos começam a sentir uma série de revezes: perdem Cythera e outras posições importantes, vêem devastada a Laconia, teem de reprimir as insurreições dos Messenios e dos Hilotas, assistem a novas vantagens ganhas pelos Athenienses, e, vendo o Peloponeso como que bloqueado por estes, perdem a força moral e mandam implorar a paz, que lhes é affrontosamente recusada.
Em breve, porêm, a fortuna das armas muda de rumo. Os Athenienses são vencidos pelos Beocios em Delio; Brasidas, apoiado pelo Rei da Macedonia, Perdiccas, foi combater as colonias athenienses á Thracia e á Chalcidica, para ferir Athenas no seu poder maritimo, cortando-lhe as suas relações com os povos que lhe forneciam a cordoalha dos seus navios e as madeiras de construcção. O partido da paz, isto é, o partido aristocratico, tendo á sua frente Nicias, começou depois d'isto a crear preponderancia. Mas Brasidas e Cléon eram intransigentes e apoiavam a guerra a todo o transe. Em 421, Brasidas tomou Amphipolis, que os Athenienses perderam pela negligencia de Thucydides, tão mau general como grande historiador.
Cléon apresenta-se deante da praça para reconquistál-a aos Lacedemonios. Dá-se uma batalha, em que os Athenienses são vencidos, mas na qual os dois generaes perdem a vida, terminando assim os dois principaes obstaculos que havia contra a paz. Então os partidarios da paz adquirem de novo a superioridade, e conclue-se a paz de Nicias, pela qual foi garantida uma tregua de armas de cincoenta annos.
A tregua foi observada na apparencia durante uns septe annos, mas de facto rompida um anno depois da conclusão do tratado.
Alcibiades.—Os Corinthios, vendo que se concluira a paz entre Esparta e Athenas, sem contar com elles nem com os outros Estados secundarios, indignaram-se contra Esparta, e, ligando-se com Argos e algumas cidades da Arcadia, resolveram{49} tirar a Esparta a hegemonia do Peloponeso. Deu-lhes o seu apoio o atheniense Alcibiades, sobrinho de Pericles e discipulo de Socrates, homem com admiraveis dotes naturaes, riquissimo, formoso, espirituoso, sabio, eloquente, mas tambem ambicioso, desleal, corrompido, sem fé nem convicções, indifferente para tudo,—n'uma palavra, o mais brilhante, mas tambem o mais immoral e o mais perigoso cidadão de uma republica.
Logo que se involveu nos negocios do Peloponeso determinou uma guerra entre os Espartanos e os confederados. D'esta lucta sahiu Esparta victoriosa na batalha de Mantinéa (418). Apresentando-se como adversario de Nicias, chefe da aristocracia e do partido da paz, fez isso menos por suggestão da consciencia do que para explorar em proveito da propria ambição os sentimentos bellicosos das classes mais baixas.
Decidiu, com a sua eloquencia, os Athenienses a imprehenderem uma expedição contra a Sicilia, da qual teve o commando juntamente com Lamacho e Nicias. O pretexto era soccorrer Segesto contra Selinonte e Syracusa; o fim verdadeiro da expedição, ferir as colonas doricas e cosquistar as ricas cidades gregas da Sicilia. A impresa malogrou-se. Na vespera da partida da esquadra (415) appareceram mutilados durante a noite, em toda a cidade, os Hermes ou bustos de Mercurio. Os inimigos de Alcibiades atribuiram-lhe este sacrilegio, bem como o de ter profanado os mysterios de Elensis; e, transformando as suas suspeitas n'uma accusação capital, revocaram-n'o, mal elle tinha chegado á Sicilia, afim de ser julgado no tribunal. Segundo o relatorio apresentado pelo orador Andocides, aquelle sacrilegio fôra uma conspiração secreta contra a constituição democratica, e como suspeitos de cumplicidade n'elle foram presos e condemnados á morte muitos cidadãos respeitaveis. Alcibiades, temendo a mesma sorte, expatriou-se, e, sendo condemnado, retirou-se para Esparta, onde, por vingança, premeditou a ruina da sua patria, e determinou os Espartanos a renovarem a guerra. Por conselhos d'elle, os inimigos de Athenas apossaram-se da forte posição de Decelia, na Attica, e resolveram-se a soccorrer os Gregos da Sicilia, onde Nicias, contrario á guerra, conduzia as operações frouxamente. Gylippo, habil general espartano, foi em soccorro de Syracusa e deu um golpe fatal nos Athenienses, que cercavam a cidade. Lamacho morreu (414) com uma grande parte dos hoplitas; a propria esquadra atheniense foi toda destruida pelos navios mais poderosos dos Syracusanos{50} e dos Corinthios; Nicias e Demosthenes foram decapitados em Syracusa ás mãos do algoz; os que não morreram com as armas na mão, foram condemnados a uma escravidão durissima (413).
Em Athenas, ao saber-se d'estes desastres, quasi todas as familias vestiram lucto; os confederados athenienses desligaram-se da cidade feliz e procuraram o apoio de Lacedemonia; um exercito espartano, intrincheirado em Decelia, fechava as communicações; uma esquadra espartana, commandada por Tissaphernes, governador da Asia-Menor, em nome dos Persas, atacava as forças navaes de Athenas; a Eubéa cahiu no poder das forças do Peloponeso; e, dentro de Athenas, um partido oligarchico, dirigido por Pisandro, procurava derrubar a constituição democratica, de intelligencia com Esparta. Para isso, instituiu um conselho dos quatrocentos que a si mesmo se elegia, limitou a communidade do povo a cinco mil cidadãos, que nunca foram convocados para o exercicio dos seus direitos civis.
A esquadra atheniense, do commando de Thrasybulo, que estava em Samos, pronunciou-se contra esta revolução e manteve a antiga ordem de coisas. Alcibiades, a esse tempo descontente com os Espartanos, retirou-se para a Asia, chamou aos seus interesses Tissaphernes, tomou o commando da esquadra de Samos, ganhou proximo de Cyzico (410) e em mais dois combates gloriosas victorias contra os Lacedemonios, apoderou-se de Byzancio, de Chalcedonia, e de outros pontos da costa, e estabeleceu no Hellesponto um direito de navegação que fez affluir um novo rendimento para Athenas.
Alcibiades, amnistiado e glorificado por um decreto publico, introu em Athenas como triumphador, foi nomeado generalissimo do exercito e da esquadra, e o povo atirou ao mar as tábuas onde as suas faltas estavam inscriptas. Partindo para a Asia, afim de completar a submissão das antigas possessões athenienses e de bater a esquadra inimiga, foi infeliz n'uma impresa contra a ilha d'Andros. Durante uma ausencia sua, um de seus immediatos foi derrotado nas alturas de Epheso (407) pela esquadra de Lacedemonia, commandada por Lysandro. Os Athenienses, tristemente impressionados com estes revezes, retiraram o commando a Alcibiades e nomearam, para o substituir, dez generaes, entre os quaes se contava Conon. Então Alcibiades, reunindo alguns mercenarios extrangeiros, retirou-se para as fortalezas que mandára construir na Thracia, e d'alli começou a fazer guerra por sua propria conta, como um aventureiro.{51}
Os Espartanos, commandados por Callicratidas, atacaram Lesbos e bloquearam os navios athenienses no porto de Mitylene. De Athenas foi uma nova armada em soccorro da primeira. Travou-se um grande combate naval proximo das ilhas Arginusas (406), onde Callicratidas, successor de Lysandro, ficou morto. A victoria decidiu-se afinal pelos Athenienses.
Seis dos generaes vencedores foram condemnados á morte pelo povo, não só por terem deixado de recolher os cadaveres dos seus mortos (o que era um sacrilegio para as idéas religiosas dos Gregos), como tambem por terem deixado perecer sem soccorro as tripulações de 25 triremes desamparadas durante o combate e batidas pela tempestade.
Queda de Athenas.—Depois da derrota e morte de Callicratidas, Esparta restituiu a Lysandro o commando da esquadra. O almirante espartano soube conciliar habilmente o favor de Cyro «o Moço» governador da Asia-Menor, e com o auxilio dos Persas augmentou as forças navaes de Lacedemonia. Percorreu audazmente todo o Mar Egeu, tomou Lampsaco, e surprehendeu a esquadra atheniense ancorada em Ægos-Potamos («Rio das Cabras»); na costa do Hellesponto, não longe de Sestos. Só pudéram escapar oito navios athenienses que Conon salvou em Chypre, e um bom veleiro, o Paralos, que levou a triste noticia a Athenas (405). Assim acabou o predominio maritimo e a grandeza politica d'esta cidade.
A batalha de Ægos-Potamos foi uma horrorosa carnificina. Os marinheiros e soldados athenienses estavam na maior parte desimbarcados, em jogos e distracções, quando foram surprehendidos. Os navios eram capturados e destruidos quasi sem resistencia. Tres mil Athenienses, com muitos dos seus chefes, foram, em seguida, conduzidos a Lampsaco e sacrificados á vingança dos Espartanos.
Lysandro percorreu em seguida todas as cidades maritimas da obediencia de Athenas, nenhuma das quaes ousou resistir-lhe, destruindo n'ellas os governos democraticos e substituindo-os por oligarchias. Depois atacou Athenas pelo lado do mar, emquanto pelo lado de terra a cercavam os reis espartanos Agis e Pausanias. A grandiosa cidade, digna de melhor sorte, dilacerada internamente pelo furor dos partidos, prolongou quanto poude a sua defesa heroica; mas, porfim, nos apertos da fome, teve de render-se sem condição (404).
Os vencedores impuzéram-lhe:—a demolição dos seus muros e das fortificações do Pireo; a intrega de todos os navios, exceptuando{52} doze galeras, limite maximo a que ficava reduzida a sua marinha; a evacuação de todas as cidades conquistadas; o regresso dos exilados amigos de Esparta; o pagamento de um tributo annual; a abolição da constituição democratica, e a sua substituição pela oligarchia dos trinta tyrannos.
Para a humilhação ser mais completa, as galeras athenienses foram queimadas, e as muralhas bem como as fortificações foram arrasadas ao som de flautas, no meio de chascos grosseiros, e em presença de todos os alliados de Esparta coroados de flores.