O SECULO DE PERICLES
Pericles, grande estadista e guerreiro, que nasceu em 494 A. C., era filho de Xantippo, o vencedor dos Persas em Mycale. Apezar da sua ascendencia nobre, adoptou os principios democraticos e poz-se á frente do partido popular.
Em 461 começou a apparecer nos negocios publicos, e induziu o orador Ephialtes a propôr um decreto que arrancava ao areopágo as suas mais importantes attribuições para as transferir para o povo, despojando assim aquelle supremo conselho da nobreza, de todo o seu poder moral e dos seus privilegios aristocraticos, transformando-o n'um simples tribunal de jurisdicção muito limitada. O decreto foi approvado; e quando Cimon, ao regressar de uma das suas expedições, tentou operar uma contra-revolução a favor da aristocracia, o povo votou-o ao ostracismo, como já dissémos.
Foi discipulo, em dialectica, de Zénon d'Eléa; e de Anaxagoras, nas altas concepções philosophicas,—adquirindo nos habitos serios de um estudo profundo e de uma reflexão aturada, uma certa majestade grave e serena, que em todas as suas palavras e em todos os seus actos transluzia, a ponto dos seus contemporaneos lhe darem o qualificativo de Olympico.
Pela morte, de Cimon, Pericles ficou em Athenas com um ascendente incontestado e absoluto. O seu governo foi uma verdadeira dictadura. Sob o titulo de stratégo (general) annualmente eleito, sem nenhuma outra dignidade (pois ha duvidas até sobre se alguma vez foi archonte), tomou a direcção de todos os negocios, e exerceu com nobreza e rectidão uma auctoridade cuja extensão podia ser um perigo.
Conservou as fórmas republicanas do governo e não reprimiu os habitos da liberdade. Os poetas comicos e muitos philosophos, todos partidarios da aristocracia, chegavam a diffamar{45} Pericles, nas suas peças e nas suas licções, sem nenhum receio de repressão para os abusos da sua critica. As magistraturas, em logar de serem dadas pelo suffragio, como até ahi, passaram a ser distribuidas pela sorte, processo mais democratico, porque deixava os cargos abertos a todos, ao passo que a eleição, imbora exercida pelo povo, os fazia recahir sempre nos grandes. Este systema de sorte não tinha inconvenientes em uma sociedade constituida como o era a atheniense. Aqui, os cidadãos (isto é, os athenienses de condição livre) não passavam de uns vinte mil, e constituiam uma verdadeira aristocracia popular, na qual todos os membros tinham sensivelmente a mesma educação politica, e estavam nas circumstancias de desimpenhar os mesmos cargos. Conservou-se, porêm, o processo da eleição para a nomeação dos stratégos, cujas funcções eram muito importantes, e comprehendiam todos os negocios militares, e todas as relações da politica externa. E, com respeito aos archontes e aos senadores, a sorte só podia exercer-se entre os que se apresentavam candidatos, os quaes se submettiam a um rigoroso exame prévio.
Attribuiu a gratificação de tres óbolos diarios a todo o cidadão que nas assembléas judiciarias e nas politicas tomasse assento, consagrando o seu tempo ao estudo e á regularização das questões ahi apresentadas e debatidas. Augmentou o estipendio dos soldados e dos marinheiros; ordenou distribuições gratuitas de trigo ás classes pobres; tomou a cargo da cidade a educação dos filhos d'aquelles que morriam pela patria; arbitrou soccorros periodicos aos invalidos e infermos; etc. Inviou colonos para muitos pontos da Asia e das ilhas, dando-lhes terras e conservando-lhes os seus direitos de cidadãos de Athenas; decretou grandes solemnidades nacionaes, festejos publicos para regosijo e illustração do povo; finalmente, cobriu Athenas com os mais sumptuosos e bellos monumentos que jámais se edificaram, alguns dos quaes estão ainda de pé, attestando a sua magnificencia primitiva debaixo das mutilações que os tempos lhes trouxeram.
Como os rendimentos da Attica não podiam chegar nem para o centesimo do custo de tantas obras primas, Pericles não hesitou em lançar mão das contribuições que os alliados derramavam no thesouro commum, e cujo fim era assegurarem, em caso de ataque, a defesa dos interesses geraes das cidades confederadas. Este proceder infiel, que a posteridade quasi não teve animo de estigmatizar, em vista das maravilhas artisticas a que deu origem, foi um aggravo que as{46} cidades juntaram a muitos outros já recebidos de Athenas, e que com elles concorreu para a queda d'esta potencia oppressora.
Pericles commetteu um grande erro mandando fazer o recenseamento dos verdadeiros cidadãos da Attica, excluindo d'esta classe todos os que não eram filhos de pae e mãe athenienses. Cinco mil habitantes perderam assim os seus direitos politicos.
É prodigioso o esplendor das artes na Athenas de Pericles. Atravez dos seculos ficou deslumbrando o mundo o sol de civilização que d'alli irradiou. Nomes immortaes, como os de nenhum outro povo, attestam a preeminencia da raça hellenica em todas as concepções do espirito, e dão lustre inolvidavel aos tempos que, por toda a posteridade, ficaram consagrados com o nome de seculo de Pericles.
Nas bellas artes monumentaes e decorativas basta citarmos os nomes de Phidias, de Ietino, de Mnesicles, de Zeuxis e de Parrhasio; na poesia dramatica Sophocles e Euripides (Eschylo foi um pouco mais antigo); na comedia politica e satyrica Aristophanes; na historia, na philosophia, etc., Herodoto, Socrates, Anaxagoras, Hippocrates, e tantos outros, logo pouco depois seguidos de Aristoteles, Platão, Xenophonte, Thucydides!