A INDIGESTÃO

N’um pequenino paiz do sol, batido dos ventos, riscado de brancas serranias e coberto de laranjeiras, celebridades e patuscas historias, governava um bom e gorducho rei, Menelau de nome, de estatura meã e ventre espherico, cheio de benevolas ociosidades para o seu povo, e senhor d’umas brancas mãos de prelado, que como actividade só sabiam deixar cahir por entre os dedos, as bellas moedas dos erarios publicos. Vinha el-rei Menelau d’uma ascendencia mui nobre e antiga, que nos brazões ostentava symbolos de todas as nobrezas em campos de mil côres, e nas suas veias conseguira fazer circular um precioso licôr feito com sangue de todas as dynastias da terra, desde as mais antigas até ás mais modernas. Este licôr branco como leite, tão nobre conseguira estillar-se pelas edades fóra, tinha uma composição extraordinaria de anemia, infecundidade, preguiça, tristeza e doçura. Por sua côr separava o rei dos fidalgos que o tinham azul aguado, e do povo que sempre o derramara escarlate, por obedecer a seu senhor. A côrte de que o rei se rodeava, era confeccionada com os mais puros nobres do reino, nomes historicos ouvidos em todas as partes do mundo, primos e credores uns dos outros, gente correcta de modos, desdenhosa pelas camadas ultimas, pouco atribulada em labores mentaes, e captando as reaes sympathias por um ramo qualquer d’instincto recreativo.

Havia por exemplo, os que sabiam perder ao bilhar com Sua Magestade encantada de lhes ter ganho sem esforço, os que traziam de fóra bons ditos e finas partidas galantes, os que atiravam aos pombos, os que walsavam, os que subtrahiam brevas ás caixas sem arrombamento do charão onde o rei usava guardal-os, os que aguarellavam picantemente caricaturas dos inimigos politicos de Sua Magestade, os que lhe elogiavam os dotes e convenciam de grandeza, os que lhe escreviam discursos, compravam cavallos, dictavam o estylo das equipagens, faziam suave a vida vendando-lhe os descontentamentos da massa e truncando-lhe a leitura dos jornaes, quem por elle mandava, comia, tinha ideias, effervescencias, pratos de trufas em molhos sabios, comichões, contas nos estofadores e lojas de bric-à-brac, alegrias, clarões de vinho generoso, e babas gulosas nas bellas espaduas alabastrinas.

A bondade triste de Menelau permittia em volta nas camarilhas, desleixos de attitudes e palavras que ao povo, a distancia, se afiguravam rotulos das sardanapalicas do alcaçar, onde as cortezãs bebessem por calices sagrados, e pallidos arcebispos de mitra á zamparina, fossem aventurando can-cans fadistas com lindas açafatas unctuosas de maneiras e causticantes de pedraria. O monarcha no entanto estiolava, alquebrado de conviver na turba-multa que ia quotidianamente pelos salões do paço, e nostalgico talvez dos aconchegos de familia pobre que não tinha. Não era para solavancos de politica cynica, o pobre rei de sangue dessorado, achaques parranas, e absolutas tendencias caseiras para um dominó de compadres. E a cada vez que via em lucta os partidos, disputando-se opiparas prebendas, negociando crachás e titulos, anichando os seus sacristas e ganymedes, vomitando infamias pela guela da imprensa, dissolvendo os costumes e preterindo os meritos, o gorducho Menelau enterrando a corôa de oiro até aos olhos e roendo na ponteira do sceptro, punha-se acabrunhado a gritar que não resistia, davam com elle de pantana, e era seu real desejo abdicar para se ir ás alcalinas de Cauterets. Embalde n’esses terriveis momentos de cobardia, eram chamados ao paço todos os chronistas e archeologos do reino, a citarem a Menelau uma quantidade d’expedientes e ditos de velhos reis seus antepassados, em analogos lances de governação tormentosa. E era muito para vêr, como tão veneraveis e poentos sabios se esfarinhavam em diligencias, para do pichel da historia vasarem no branco coração do rei, litros e litros do heroismo das primeiras dynastias.

Embalde os cornetins facundos das bandas marciaes vinham animal-o com offertas de marchas, hymnos e mazurkas de superfina trama; lidadores de toiros lhe consagravam sortes de ferros curtos e ricas pégas de cernelha; directoras de collegio lhe davam celebridade expondo nos armazens de modas, retratos seus a froco com olhos de contas amarellas; e doirados ministros escorreitos de pomada odorifera nas poupas, em saltitantes coplas lhe certificavam ás horas d’assignatura regia, que tudo marchava a trote no seu reinado, os subditos nadando em jubilo por vêl-o de saude mal-os meninos, a roda andando no dia seguinte, e essa noite um raio de pecita nova nos Buffos, onde os decotes das femeas nem tinham principio nem fim.

Alentos de tão jucunda prosperidade que pavoneavam em gloria o ministerio, deixavam frio a Menelau, sombrio e mais que nunca absorvido na estulta ideia de abdicar. O ministerio consternado recorreu então a expedientes febris, pôz-lhe bismas e sedenhos, deu-lhe injecções, fez desfilar paradas em grande uniforme, com sonidos de tambores e clarins, expediu-lhe em commissões os altos corpos dirigentes do espirito publico—as sciencias representadas n’um auctor de graxas impermeaveis, as artes repousando n’um grave brochador de frontarias, as litteraturas, as industrias, o clero... Mas nenhuma supplica commovia o rei Menelau, que só ambicionava ir comer a dotação n’um velho palacio campestre, bem longe, com tapadas onde bramissem veados, e á sombra de cujos arvoredos elle podesse concluir a sua fortaleza de miolo de figueira, tão gabada pelo plenipotenciario da Suissa.

Havia na côrte um poeta de longa coma de azeviche, fallado por seus trovares, e pelo qual uma a uma, todas as damas se perdiam. E encontrando Menelau a cozer moedas nos forros do manto, como salvaguarda em caso de desterro, assim lhe fallou:

—Que funda tristeza faz murchar para a terra como lirio ceifado, a fronte augusta de Vossa Magestade? Saudades acaso, de linda castellã que se foi com seu donzel no palafrem da aventura, mordida pelo aspide da ingratidão?

Considerou o rei no menestrel, e respondeu d’esta sorte:

—Ah, meu muito amado menestrel, que não sabes como doloroso é ser homem assim pequeno, e carregar aos hombros inda por cima, mais de quinhentos nomes de familia! Os povos comprehendemnos hoje menos, que os orientalistas os jerogliphos. Se passamos na rua, vassallo algum se prostra; os maestrinos abocanham de musicas burlescas a dyspepsia que nos punge; e desde que se falla d’um rei, todo o mundo pergunta de qual naipe. Queres tu de trespasse o meu throno e dependencias? É dos mais pequenos e gloriosos do mundo, Deus lhe lançou a pedra fundamental. Como vês, não deita fumo nem cheiro, ha porta para a escada; o diabo é que oscilla como um dente velho. Mas descança, tenho a guarda aqui perto! Não imaginas como isto era, aqui ha oitocentos annos. Nobreza nem raça! Calcula o trabalho de meus antecessores em fabricar fidalguia de primeira qualidade, chegando a haver monarcha que n’esse intuito cavalheiro, legou aos reinos não menos de dezeseis e dezoito bastardos. Nos degraus d’esta machina, onde empoleirado dou beija-mão aos do meu sequito, ha nodoas de sangue d’um valor incalculavel, o que resta em documento de parricidios, fratricidios, filicidios e assassinatos de menor formato, todos os brilhantes feitos historicos das monarchias. Archeologos impertinentes vinham disfarçados ás vezes, raspar para dentro de saquiteis, estas sagradas particulas de crimes abençoados por Deus, para d’ellas fazerem venda aos colleccionadores. Razão por que revesti os degraus com este amor de alcatifa escarlate—d’um chic!... O rumor que se ouve não vem da ira popular, mas de ratos que me offerecem serenadas. Posteriormente fiz obras, forçado pela canalha, confesso. Abri janella para um saguão que chamam parlamento, e para despejos ha o barril do Jornal official. Levas isto por meia libra diaria, hein?

—Corôa e tudo, meu senhor?

—De certo, disse o rei Menelau. E com riso triste:

—É de latão, menestrel! A outra roubaram-m’a para pagar uns navios de guerra.

O poeta esteve scismando que responderia. E alto para comsigo, ia dizendo:

—No theatro das Maravilhas vão dar revista d’apparato, com musica e bailados. A vêr se o empresario fica com estas chinezices por uns tostões...

—Já lhe tenho alugado em varias peças, o meu throno e soldados. Mas vomitam-me tudo de vinho!

—Estomagos vermelhos! disse o poeta. E fazendo uma pequena pausa, perguntou:

—Os generaes de Vossa Magestade... não sei como diga, sim... acham-se em estado de servir?

—Para commissões, grande tirocinio! Faltam rodisios nos mais gloriosos. Pintados porém, ficam em folha.

—E quantos mil soldados, mesmo assim?

—Quando me casei muitos. Mas o presumptivo é fogoso, tu sabes. Com a mania das pellas e a educação guerreira que leva em palacio, tem amolgado regimentos sobre regimentos. Eis por que o ministro da guerra vae chamar as reservas, e elevar o principe a coronel.

—Bem, bem, disse o poeta, vou-me de longada, a vêr se deparo ahi um adelo.

—Dar-te-hei como luvas, se o negocio fôr a meu talante, a grã-cruz dos zoilos verdes, valor, lealdade...

O poeta que já ia á porta derrancado nos salamaleques da etiqueta, avançou ás palavras do gordo Menelau.

—Inda mais grã-cruzes, senhor? Mas vejo-me todo pingado d’ellas, não ha ammoniaco já que as saponifique. Ambicionára antes de Vossa Magestade graça de menos vulto.

—Falla pois, disse o monarcha.

—Se Vossa Magestade editasse o meu livro de versos?...

—Que é versos?

—Queixas de intimo e amargo soffrer, volveu o menestrel rolando os olhos mortos, como nas declarações d’amor.

Se uma organisação eleita, como a minha ou a de Vossa Magestade, se surprehende algum dia envenenada por desgostos sem lenitivo, tão grandes que é pouco o mundo para os conter, desanda a versejar fatalmente. Pelo verso, meu senhor e rei, as maguas volatilisam-se da alma, como os perfumes das amphoras, e esvoaçam palpitantes em espiras de musica á região dos nevoeiros.

—Meu Deus, disse o rei. Que necessidade eu tinha de ser poeta! E para o menestrel:

—Fico por editor do livro, a tua ideia encanta-me! Mas como chamal-o?

O poeta ergueu n’um jubilo as duas mãos viscosas:

Folhas e Cascas, meu senhor!

—Mas excellente!

Folhas, em memoria dos vellinos com que Vossa Magestade collabora no volume, Cascas em memoria do resto.

Menelau ficou scismando no que ouvira ao poeta. Queixas de intimo e amargo soffrer... Se uma organisação eleita como a minha ou a de Vossa Magestade... Pelo verso as maguas volatilisam-se da alma como perfumes, e esvoaçam em espiras de musica... E a imaginação alava-se-lhe no vortilhar d’estes alvitres subtis. Tambem elle soffria perdido nos prosaismos do moderno mundo, tão grosseiro que o não cortejava, tão sceptico que lhe punha em duvida a origem divina, tão egoista que pensava truncar-lhe a dotação. Oh, iam longe os tempos de poderio e triumpho, quando pomposamente os reis entravam nas cidades á frente das cavalgatas decorativas, entre evohés e flôres, envoltos no clangor das trombetas dos arautos; ou acceitavam nos mosteiros gothicos os gordos festins dos dom priores com arengas biblicas; ou nas florestas, ainda sobre alazões fogosos, caçando os veados reaes, viam nimbar-se de clarões celestes n’um maciço de folhedos, a apparição d’algum santo patrono, que resmungava parolas desconhecidas, apontando o ceu. Então eram elles senhores e mandatarios, luziam as corôas em fulgores omnipotentes, e ao menor dos seus gestos cahia no pó a plebe assombrada, oscillavam da forca rebeldes e apostatas, e o Papa lhes remettia por nuncios purpurados o ultimo bilhetinho do Eterno com sellos da chancella celeste. E tudo abatido agora, as realezas da terra e as realezas do ceu, o empyreo e os thronos, nem obediencia nem fé!

E insensivelmente, monarcha Menelau rimava já...

D’alli a tempos o menestrel voltou desanimado. Correra tudo, casas de penhores, caixas de theatro, capellistas, irmandades do Santissimo e bailes campestres. Ninguem queria o throno real e suas dependencias. Concertos recentes, feitos por obreiros barbaros com o famoso camartello constitucional, tinham-lhe tirado o merito como obra de arte. Estava agora uma architetura hybrida, sem typo nem estylo, com pedaços de todos os cyclos historicos, e sangue de todos os morticinios politicos. Cada revolta desfilando por elle, cada usurpação fazendo-o oscillar, a invasão estrangeira vinda por amparal-o, lhe tinham arrancado dos nichos rendilhados, dos frisos em voluta, dos columnellos e architraves, a estatueta d’um prestigio, o florão d’um dom exclusivo, e a cariatide de uma tradição herdada. E emquanto com formidavel impudencia o escabello rude da canalha ia em cada sedição tomando dimensões cyclopicas, o pobre throno carcomido fazia pender mais e mais o seu docel esfiado—cabeça decrepita offerecendo o gasnete ao nó corredio do cadafalso!

Era já o alegre tempo dos reis exilados, villegiando pelos hoteis do boulevard Hausseman e camarins das estrellas novas, indo cear chez Bignon, chez Vachette, e chez todos os restaurantes de sumptuosos gabinetes, com leitos Gauthier, bidé, mesa de jantar e o pequenino pente de madreperola, discreto e util, que alisa a não deixar vestigios, depois dos can-cans em pelota, os cabellos esmanchados de Coralia, Fanny Essler ou Rosita Maury. Pelas corôas nem meia davam. Todos os dias os expressos atiravam ao vortilhão de Paris, principes e princezas, herdeiros sem reino que herdar, reis e rainhas em paletot côr de mel e cache-misère côr de pombo, gran-duques tamanho de grãos de milho, barbados como maçarocas, e tão poderosos, que se cahiam das calças na sua capital, vinham esmurrar as ventas em paiz estrangeiro. No hotel Druot, alternavam-se as vendas das collecções Demidoff com os leilões das rainhas caloteiras. Esses desthronados não soffriam muito porém, que os embriagava a verve de Audran, Halevy e Planquette, sopro de vida nova, subtil e perfido, que ia expungindo os dynastas da velha sagração poetica, pondo-os a correr mundo de lingua fóra, e com guizadas de couplets na colleira.

E dos varandins de palacio, lançando os olhos pela infiel cidade que o repellia, rei Menelau dava suspiros pensando nos collegas, mas sempre versejando, o excommungado!

—Muito bem, disse o monarcha certa manhã, ao cabo de reflectir demorado. O principe é novo para as redeas do governo; por outro lado, ninguem me quer a estalagem com a reputação que lhe fizemos. Que remedio senão reembutir-me no throno?

E aparando com um canivetinho de oiro, a penna de pato das litteraturas celebres, proseguia:

—Pois que sou das raras organisações eleitas, e pelo verso se volatilisam maguas, etc..., por que me não farei poeta, e publicarei tambem um volume de folhas e cascas? A ociosidade indispõe-me com o povo. Quero pelo trabalho reconduzir-me ao seu respeito. Escreverei para ser grande.

Pôz-se então a rimar com toda a gana, os assumptos nobres da sua côrte, virtudes e birras domesticas das açafatas e damas de honor, as dôres de dentes do grande chanceller que punham o gabinete em crise, um ou outro parto feliz da sua galga favorita, attingindo mesmo uma ode sobre a baixa dos algodões, muito gabada no corpo do commercio.

Esta nova phase governativa creou-lhe hostilidades e carinhos na imprensa e classes obreiras. Os republicanos compararam-no a Nero dedilhando lyra, á face de Roma estorcida em clarões de incendio. Nos grupos de mundanos corria em risadinhas surdas o dito mordaz d’um certo marquez Fulgencio, ao ouvir lêr a real ode. E a maioria saudava no excelso rei um d’esses genios poeticos, mandados por Deus de onde a onde, á glorificação dos povos, que por sua doçura, esforços, sabedoria ou martyrios, muito haviam bemerecido da omnipotencia.

Duas sortidas ou tres, jogadas pelo gordo Menelau á popularidade que lhe escorregava e fugia, o certificaram da boa impressão que nos animos deixára a nova da sua coqueluche poetica. Eram lojistas que vinham á porta com os metros em attitude, pessoas que lhe faziam adeusinho nas ruas, dois jornalistas ou tres que lhe sorriam como a collegas, descobrindo calvas de vasta auctoridade e saber. E d’uma vez que a sua caleche se virou por conselho do ministerio, n’uma das grandes ruas da cidade, mais de mil pessoas vieram offertar ao soberano, pedaços de adhesivo e outras miudezas de affecto. Já a sua bella face de moleiro ruborescia n’um bem-estar regalado, e os reaes olhos de goraz, velados em palpebras somnolentas, ousavam fitar por um certo tempo, menos assustadiços e supplicantes, a turba-multa das ruas, entrevista nos passeios de carruagem. Dizia-se em geral:

—Mas é um homem intelligente, nosso rei Menelau. Escreve, por exemplo.

Para desculpal-o das incoherencias de governo e certo esbanjamento dos dinheiros, os amigos opinavam:

—Que diabo! Um poeta!

E nos centros litterarios, como as suas rimas largavam por analyse, descamações de caspa e esquirolitas de veado, esses mesmos amigos juntavam:

—Como ha de ser bom poeta nosso rei Menelau, afadigado como anda nas coisas da governação? O reino atravessava um periodo singular. A industria de engeitar filhos, deixando de ser monopolio das altas classes, democratisava tresvairada, por toda a matulagem de beccos e cabanas de aldeia e cidade. Quem roubava de cem contos para cima era absolvido e condecorado; quem tirava um lenço ou um pataco ia degredado por toda a vida. Os juizes escolhiam-se entre forçados, e os titulares entre pulhas. Evidenciando um cynismo mordaz que era moda, os primogenitos diziam nos salões ás ricas herdeiras:

—Tenciono fazer como meu pae, que nunca se casou.

Os assassinos invadiam as estradas para arcabuzar as diligencias, lavravam por toda a banda fomes biblicas e pestes asiaticas. Como Saturno, os coroneis devoravam os regimentos; os generaes cobriam-se de gloria e medalhas nas secretarias, casas de batota e chás officiaes; e os aspirantes de lanceiros eram as primeiras bailarinas do exercito! Todos os dias quebravam casas bancarias, havia leilões por dividas, abriam armazens de penhores, ou os jornaes annunciavam suicidios. E no respeito a sciencias, os astronomos fixavam a terra nos espaços, e todos os astros em roda descabellados em corrumaças de pandega, ou fandangueando em desnalgado bailete.

Os poucos espiritos sãos, voltados sobre um passado de historicas pompas, contemplavam n’uma apathia desopilante, perdoando as vergonhas presentes pelas glorias de então.

Espicaçado pelo exito, rei Menelau invadia os dominios da alta arte poetica, o soneto pastoril, o acrostico recamado de doçuras do Hymeto, o logogripho cheio de trocadilhos e imagens cartonadas, sublimidades metricas onde a real inspiração tinha vôos de gallinacea. As suas preoccupações litterarias subiram a ponto, que até uma penna de bastardinho mandou cravar na ponta do sceptro, inda assim não lhe fosse escapar a inspiração que o ferroasse acaso, ás horas solemnes da pragmatica. Não era raro apparecerem os discursos da corôa e respostas aos plenipotenciarios, crivados de rimas e allusões mythologicas que faziam a confusão dos funccionarios, e chegaram mesmo a levantar hostilidades com os inglezes.

Bem depressa porém, a atmosphera de sympathia e favor em que os loiros de Menelau refloriam, fizeram o rei baboso de sua pessoa, infiltrando-lhe ambições de mais vasto diametro, filaucias de grande homem, e insidias felinas de creança amimada. Nos conselhos da corôa, embuçado no velho manto real, que a agulha da rainha illustrara de passagens com o desenho de centopeias, batia o pé se lhe negavam dinheiro para frescatas a que era dado, allegando ser na verdade um monarcha mal empregado em tal pelintrice de paiz.

Ia audaciosamente das fórmas pindaricas da ode e do soneto heroico, composições lymphaticas de meia pagina, que o das Folhas e Cascas secretamente refundia, para as audacias do volume orlado a côres, todo em cul-de-lampes do estylo mais puro, letras Ehrmann brincadas de figuritas ridentes em attitudes de chimera, illuminado como uma biblia, e impresso em China e Wattman de primeira. E outras aspirações de gloria artistica d’aqui—ter palacios e kiosques por quintas e tapadas, com marmores e bronzes celebres, esplendores de baixella constellados de velho Limoges, cavalgatas historicas pelas florestas, festins de peru para poetas em velludo e oiro, e uma bicharia engaiolada nos jardins do paço, que pela noite era o terror do burgo de redor. Emfim, uma tarde o povo que mendigava nas ruas ao desamparo, roendo talos na sombra dos portões senhoriaes, ou acocorado psalmejando pelas escadarias dos mosteiros, ouviu pela guela dos canhões annunciar, entre morteiros e bandeirolas, barafundas de fidalgaria rolando em berlindas de côrte, alabardeiros de tricorne e quita-sol, liteiras e palafrens em marcha, que os brochadores acabavam os primeiros volumes da versaria real, e nas monumentaes caleças pintadas de erotismos Watteau, viriam pela cidade caminho do paço, á solemne entrega da famosa lucubração do reinante.

No couce do prestito, balanceado nas correias da pesada e alta traquitana insculpida, dizia marquez Fulgencio para a preciosa marqueza, coifada de marabús:

—Espantosa, a obra d’el-rei meu primo! Como execução, que colorido biliar! Pelos fundilhos rotos da rima, vê-se carne morta do ideal. E a emmaranhada fecundidade, bom Deus de Isac e Jacob!... Ah! nunca poderão bem aprecial-a, sem tesoura e pente.

Rei Menelau era um magnanimo, foi um magnanimo em todos os dias do seu reinado. Ante as supplicas dos que em chusma, quotidianamente affluiam ás portas de palacio, n’esse tempo de miseria livida, o seu coração vertia sincero dó. O que o compadecia mais era esmolarem a pé, as pobres creaturas.

E na cathedral d’uma vez, quando uma velha lhe cahiu em joelhos pedindo esmola, o monarcha foi todo admirado da pobre não trazer luvas. Mandava dar a quem vinha restos do seu pantagruelico jantar, cem talheres para a camarilha, baixella de oiro cinzelado, e quarenta artigos de menu, intactos pela maior parte, e portas travessas vendidos depois aos ricos hoteis da cidade. D’onde vinha receberem os pedintes em serviços de Saxe, apenas esqueletos d’aves e peixes, de envolta com rodellas de limão e cascas de fructa. E exquisito á mesa, o bom monarcha. Um fastio!... Para lhe captarem o appetite, condecorados e eruditos cozinheiros esgotavam-se em pastelarias de recheio phantasioso, molhos nunca sonhados, preparações d’especiaria cara—o que vinha a custar rios de contribuições. O rei mal tocava n’um prato ou n’outro. Quanto a beber, muita vez succedeu erguer-se da mesa com olhos pequeninos, entoando coisas desavergonhadas d’um certo naipe, aos beliscões secretos nas carnes de honor, com seu fiosito de baba mui patife no beiço. D’elle dizia marquez Fulgencio então, paternalmente:

—Coração de oiro, um nadinha piteireiro!

Suppliciados de miseria, como iam grassando vertiginosamente a fome e a molestia nos burgos humildes da cidade, determinaram os pobres por conselho da burguezia, implorar do rei quantos proventos este auferisse na venda do precioso livro de versos, tão fallado por esses reinos afóra.

No memorial que a palacio foram levar, todo escripto por um doudejante da geração moderna, phrases equestres empenachadas de imagens n’uma estrupida de hyperboles, hirtos substantivos cambaleando entre adjectivos, como bebedos entre cabos de policia, tropegos verbos remendados de prefixas e espinoteando em cambalhotas como arlequins—empalhavam processionalmente os espantalhos classicos com que a populaça se julga ennobrecer e heroismar aos olhos dos ricos e poderosos, nos seus mezes de jejum forçado. Alli se allegava o tradicional amor das blusas pelas monarchias; a coragem, valentia e esforços havidos em commum, nas guerras contra o invasor; soffrimentos sem queixa sangrados em inundações e subidas do milho, emquanto o paço nas recepções de circumvisinhos monarchas, caros e nunca assaz amados primos, walsava de calção curto, invertendo as barrigas das pernas nos derrancos do cotillon; alli se chamava ao povo eterna creança, leão indomado, Prometheu captivo na rocha, Atlas, e uma convergencia de historicas calumnias, afinadas no sentido de surprehenderem á bocca do cofre, mui lampeiramente, é verdade, os centos de mil reis que rendesse a principesca edição de rimas e cascas. Tres periodos ou quatro sobretudo, exalçavam com arte a mais pathetica, um certo rolão vulgarisado nas comidas pobres, que pelos dizeres da petição, usava amassar-se com suores de trabalho, amarguras da indigencia (que vida, Jesus, que vida!) e altas dosagens mais d’outros liquidos humanos, d’excreção dolorosa ao que parecia. «Esse pão negro e duro, excelso senhor e rei, dizia o requerimento, é o dos que soffrem e trabalham em prol das industrias e agriculturas patrias, é o pão do povo, o pão da officina, o pão da pobreza. Rudes canceiras logram ganhal-o, suor de nossas frontes o amassa; mas alimentando o corpo, elle enche ao mesmo tempo a consciencia d’uma santissima paz inviolavel. Á noite, sob os tectos das mansardas, quando a chuva...» Ia assim o panegyrico da brôa, escorrido da penna doudejante, luzido, esfregado de novo, tocando pratos e com porta-machados á frente; e em carriolas d’estylo passavam depois allegorias d’instituto, com diademas á fadista e ventres estripados de crina, rhetorica que para além de tres seculos, havia já figurava em cortejos de pompa igual, elogios de sabios mortos por exemplo, introitos de relatorios sobre os arrozaes, programmas de partido politico, cabeçalhos de testamento e não sei que homilias de quaresma. «Oh! mas esse pão vem-nos transfigurado quando legitimamente ganho, e iguaria alguma de principe, por delicada que se antolhe, poderá igualar-lhe a salutar influencia e excedel-o em exquisito sabor...» Justamente este trecho comprometteu a fortuna da pretenção, por deixar cogitativo nosso rei Menelau. Com que, exquisito e magnifico de sabor, hein? E assim remordia elle sob os baldaquinos do throno, mexendo os dedos dos pés em folgadas babuchas de missanga:

—Os cozinheiros do paço vão estancando os seus arsenaes de receitas, sem que até hoje lhes tenha podido manifestar por seus meritos a minha real satisfação. Ora que estes funccionarios nunca hão de fazer lulas a meu contento!... E então que sinto um fraco positivamente por estas vassallas de caldeirada... Oh, os cozinheiros! Condecoral-os foi perdel-os. Desde que brilha no peito do chefe a commenda dos zoilos verdes, vae a côrte notando decadencia nos fricassés—e pela minha santa Padroeira que era um papo de milho, o pedaço de gallinha que hontem me serviram no jantar de gala. Tambem, tornou elle bruscamente, mettendo os dedos enroscados de anneis pelas buracarias do manto; como hão de grosseiras gentes interpretar o paladar d’um principe? Vem todas de muito baixo, para verem uma arte—e concluiu devagarinho—no comer. O que mais serve a meu contento inda assim, é o cozinheiro da fazenda. Mas faz-me almoçar contribuições em sangue, quasi cruas, de fórma que para as comer, todo me enojo a retirar-lhe de cima as pelles de contribuintes, que sempre vem agarradas co’a violencia da penhora. O caso é que me estragam o estomago e vou estando obeso e branco como uma abbadessa. De vereadores e merceeiros rotundos, poderão dizer os maldizentes, que me trazem na barriga; mas sobre esta pansa espheroide que irão conjecturar senão que ando aqui a digerir o thesouro?—Uma tristeza poetica empanava-lhe a face de capadinho. Disse lentamente umas poucas de vezes, partindo as palavras como quem as esburga de sentido «... amassado com o suor...»—quasi esteve a esboçar um gesto de nojo, recordando calceteiros ignobeis, incrustados de lama como animaes d’esgoto e suando bestialmente, que dias antes vira n’uma rua, enfileirados no trabalho como captivos no ergastulo; mas continuou «... iguaria de principe, por delicada que se antolhe, poderá igualar-lhe a salutar influencia e excedel-o em esquisito sabor». Fez de si para si:

—É talvez bom para diabetes esse pão celestial. E eu soffro!

Esteve sem fallar um bocado, e estrallejando a unha grande d’encontro aos caninos de lobo, ergueu magestosamente a face na crispatura de quem scisma, aquella face historica e rigida que a pragmatica mandava, nas quedas de ministerio.

—Pois vou-me experimentar pão com suor, a vêr que tal. Mordomo!

Um janizaro rapado á navalha, grandes collarinhos especando o cerebello, libré doirada com bolotas de relevo, e vastos lacis apopleticos de face, ergueu magistralmente o reposteiro, acto continuo fazendo com a cabeça um arco de cento e oitenta. O rei foi dizendo:

—Que promettese alguma coisa aos do memorial, tudo mesmo, mas ouça cá, para o anno que vem. Se gostarem de musica, a banda toca o hymno lá baixo no pateo. Mas hei por minha espontanea vontade não reverter o lucro das minhas rimas em beneficio das classes famintas, agora que ellas tanto exaltam o pão, primeiro ganho e depois comido. Sim, diga-lhes que iremos ao Te Deum na cathedral se as colheitas forem capazes, que tencionamos não pedir mais dotação, nem auctorisar augmentos d’imposto além do duplo dos que vigoram. Olhe, mordomo, ria-se para elles, coitados, que passam mal segundo infiro, e são fieis e passivos vassallos, conforme afiançam no seu favor de tantos do corrente. Quanto ao dinheiro temos pena, sim, verdadeira penna de pato, mas vê bem o mordomo: elle tem destino, oh, destino mui nobre e exemplificante. É que vamos comprar farinha, suar o suor do trabalho que dizem ahi tão amaro e sublime, e com estas duas coisas amassaremos pão de que nos iremos alimentando, e a côrte.

O mordomo attonito, sem atinar com palavras de resposta, esteve livido d’assombro alguns momentos, e arquejava dentro da farda como um grande kagado na sua concha.

—Mas, soberano senhor, aventurou elle com medo de vêr o projecto realisado; que vai ser de Vossa Magestade com semelhante regimen?

—Descança, serei forte como um hercules.

—Que vae ser da côrte, tão dessorada mesmo comendo á barba longa! Forçada talvez a trazer lunch, Jesus Maria! E baixa nos generos a semelhante abstinencia; os salmões que meu sogro fornece, sem procura, apodrecendo para ahi; a fructa que fornece meu genro desamparada; meu cunhado fornecedor de vinhos, quebrando como um scelerado vil; e minhas sobrinhas gallinheiras, meu irmão com mercearia, e meus compadres, primos, primas! Ah, perdidos todos, deshonrados, abandonados, e por cima Vossa Magestade não poderá sobreviver-lhes a pão secco.—E o desgraçado n’um desespero medonho, arrojava o chinó pelos mosaicos do salão.

—Pobre mordomo! fazia o rei commovido. Ahi está um que me adora sinceramente. E começou a mais linda ode sobre a amizade, endereçada ao servidor; inexoravel porém na birra do pão com suor, e brandindo o sceptro com sobrecenhos merovingicos:

—Sim, comel-o-hei, clamava elle por todo o palacio. A honra me vae n’isso empenhada, que os grandes exemplos do alto devem partir. Quer virtudes no throno o meu povo! Ostental-as vou. E se morrer na lucta, os chronistas poderão dizer: foi sobrio e poeta, chegava a roer pão duro como os cães, mas deixa versos de dar ciume aos maiores genios. Pobre diabo, convimos, mas grande rei!—Toca a suar.

Ora foi desagradavel, muito desagradavel ao povoleu, a recusa do dinheiro implorado.

A fome subia por toda a banda desabusando a canalha ruim. Vinham trigos de longe a fabulosos preços, por terem sido vergonhosas as searas; succediam-se os roubos, as quebras fraudulentas, os adulterios e os suicidios. Nos cargos que pagava o estado, affluia toda a sorte de frandulagem ignorante ou descarada, sorvendo os dinheiros na razão inversa dos serviços e dos meritos.

Por vezes, quando algum d’esses se elevava por quatro discursos retumbantes e meia duzia d’intrigas habeis, matilha de adeptos vinham rodeal-o de prompto, conclamal-o emphaticamente nas folhas, jurar que era elle o mais eminente dos contemporaneos, o melhor dos amigos e o mais probo dos patricios—e assim se formavam pequenas côrtes ambiciosas, de olho acceso á mira do propicio dia, em que levando de vencida as facções contrarias, podessem de garra adunca e maxilla voraz, trinchar no que de alimenticio ainda restasse n’esse esqueleto de nação. Dos baixos-fundos ignorados da massa, viam-se romper de chofre creaturinhas verdes talhadas em cunha, desconfiadas, molluscoides, escorregadias, que já no occaso de mocidades subterraneas e suspeitas, furando, successivamente furando, conseguiam á flôr da celebridade afitar por fim os cornichos, na mira d’alguma posição culminante. E surdos mineiros exasperados pela vileza de longos annos famintos, appareciam certa manhã ministros sem ninguem saber por que modo, directores de secretaria, primeiros magistrados, poderosos banqueiros, chefes de situação; e perguntava-se sem ninguem responder, d’onde elles vinham, como tinham podido impôr-se, qual plano de conducta iam seguir, ou por que tenebroso fio de maquinação e filaucia se logravam incluir no circuito aureo da riqueza, da evidencia ou da gloria.

Realmente, n’uma raça de cobardes, punham calafrios taes audacias de vampiros, e a ignorancia e cachexia publicas recuavam, de cada vez que as investia violentamente algum d’esses insaciaveis polvos. Mortas as actividades, empobrecidas as familias, assolado o paiz pelas quadrilhas d’aventureiros politicos que nas ruinas das instituições se emboscavam a pilhar quanto viesse, a fome do povo breve correu a gamma lançada entre a humildade e a ameaça, por não ter mais que perdesse.

Se acontecia romper guerra nos seios d’uma facção ou entre facções adversarias, medonhas revelações d’infamias commettidas davam um panico geral. Vinha-se então a saber como fôra pago tal transfuga, quanto custava tal emprestimo, ou o que auferia tal funccionario.

Por esses rasgões da fé protrahida e da lealdade sonegada, o olhar mergulhava nas catacumbas da bancarrota, de cujos pilares pendiam enforcados, verdenegros, os cadaveres da honra e brio nacionaes—e tinha visões de medonhas catastrophes! Depois boatos sinistros em photosphera a cada lugubre episodio, fundos falsos de calumnia, deboche e crime, cingindo em espiras de serpe reputações cá fóra venerandas, e por milhares engolfadas em podridão!

Semelhante desordem partia as molas de jogo harmonico na vida da sociedade e da familia, a boa fé cessava, morria o credito, cada qual n’uma hesitação eruptiva mirava de soslaio todo o mundo, estranhos, parentes, irmãos d’armas, pensando o contrario do que lhe era afiançado, remordendo os beiços n’um sarcasmo furioso, e com esta idéa vibrando punhaladas sobre quem quer se aproximasse:

—Tu enganas-me, ladrão!

Como na lugubre éra feudal, o vasto soffrer pervertia as faculdades; os loucos e maniacos eram aos milhares, havia no desenho das cabeças predestinações de patibulo, e essa melancolia negra de mocho, que vem dos estados doentios, ralados por uma dôr moral. Porque a rude batalha da vida que tudo exacerbava, ia alterando em passo egual a physiologia rythmica dos grandes centros, fazendo até exagerado e falso o testemunho dos sentidos—do que davam prova os laivos de litteratura ou arte que tinham resistido ainda, mau grado as apathias dominantes.

Assim, não eram raros os que vencidos de tedio morriam amaldiçoando tudo; os que emigravam para não voltar; os que se reduziam á condição d’immundos animaes, e os que em seitas informes, desprezivelmente rotos, encarquilhados, perseguidos, vagabundos, por toda a banda prégavam absurdos e desvarios.

No luxo dos ricos, notas d’extravagancia insolente davam medida d’eguaes desregramentos.

As mulheres collavam os vestidos com relevos impudicos, imitando nos córtes figuras de peixes, borboletas e aves, n’um charivari de côres vivas e contrastes de gosto caraïba. N’esta agonia de raça tropega, sem consciencia nem vigor, se a recusa de Menelau fez mau effeito, a nova do pão amassado com suor do trabalho, e apoz comido em palacio, parcamente, pobremente, como na loja mais fria d’um mendigo, longe de ser olhada como grutesca, victoriaram-na em exemplo da mais sã philosophia. E entre essa gente, Menelau subiu ainda.

Quando por toda a parte se espalhou que o monarcha, n’um impulso de heroica bondade, pretendia começar a viver dos ganhos das suas habilidades particulares, o pasmo da massa foi extremo, por se pensar que a amplitude d’este capricho chegaria á doação voluntaria e generosa, de tudo que o rei annualmente costumava sugar ás burras da nação. Ter rei de graça, eis o pensamento offegante n’esse paiz da fome. E a lenda transfigurava a figurinha regia, n’um messias de estranha pureza e abnegação sem preço. Formou-se mesmo um partido politico entre a juventude culta, tendo por lemma um pedacito de brôa, e em guiza de programma arvorando as rigidas frugalidades de Sparta. O jornalismo tomando conta do caso, atirou com elle aos escaninhos da provincia, n’uma galhofa d’epithetos. Choveram sobre a corôa mais bençãos e offrendas de polkas; as padarias coifaram-se pittorescamente de taboletas, onde Menelau coroado d’espigas e todo nu como um deus de fabula, estendia olympicamente os braços, mostrando pães saloios á posteridade. E de repente outra nova correu de bocca em bocca, deixando os povos attonitos—foi dizer-se que o rei ordenára festins por tres dias, n’uma das suas quintas de prazer, para inauguração da era nova que ia surgir. Esses festins teriam o cunho da mais estreita cordialidade, seriam por ventura um laço de amor apertado entre as grandes classes e o povo; todo o mundo alli se daria o tu da boa confraternidade sem reservas; e cada pé-fresco saracoteando-se nas escovinhas fadistas da sua condição, poderia em caso lhe fazer conta, beliscar os triceps das gordas conselheiras decotadas, ou correr o braço d’envolta aos toutiços dos magestosos dignitarios da côrte. Dispensar-se-hia o toilette, os militares iriam sem armas, os camponios levariam os seus barretes, as engommadeiras os seus capotes, os mendigos a piolharia accessoria. Nada de ceremonias, bella sociedade, nada de ceremonias!

Sómente, como preventivo contra expansões de temperamento calido, se dava de conselho ás damas não levarem braceletes, collares ou quaesquer adornos de preço; se pedia aos agraciados de veneras não trazerem placas cravejadas, mas simples pequenas fitas symbolicas da ordem a que estivessem jungidos; se esperava do cavalheirismo dos senhores gatunos, durante esses dias, a suspensão de escamotagens ás bolsas e lenços d’assoar a que por desfastio eram dados, coisa pouca; como tambem se pedia aos assassinos o obsequio de, por egual periodo, se divorciarem das suas navalhas. Não por se temer desaguisado, que era bem conhecida a fina educação, elevado caracter, e alto nascimento de tão flamenga tropa, mas porque os ardores do sangue nacional fazem excitavel o brio, palavra puxa palavra, figurão boquiaberto está a pedir santa empalmança ao relogio, e d’ahi, como uma pessoa é fragil, sem querer, alguma vez... Emfim, nunca fiando! Tanto mais, que as festas offereciam engodos da melhor confecção, fontes de vinhaça gratis, pão molle, a bella favinha, e pela noite fechada, ora adeus! com moçoilas, salve-se quem puder.

A cada poeta era permittido declamar trechos allusivos á obra de regeneração que se ia emprehender: haveria loiro para os celebres e vivazes, e Menelau mesmo fazia tenção de lêr um bocado de grande effeito. Apoz os banquetes, danças nacionaes, fogo de vistas—c’os diabos, que magnificencia! diziam todos por toda a parte.

Mas emquanto taes alegrias vehementes esfogueteavam assim nos clubs do pé-fresco, extraordinarias batalhas se feriam em palacio, indomitas, torvelinhantes, entre Menelau que teimava democratisar-se ao limite n’aquelle passeio ás hortas, projectado, e toda a soberba côrte envergonhada de semelhante dispauterio.

Porque emfim, se o monarcha descia do solio a fandanguear com patuleas de jaqueta e bocca de sino, a illusão optica da magestade ficaria perdida de todo, visto ella residir na persuasão geral de que o rei por fórma alguma podia ser um homemzinho á semelhança de qualquer outro, porém uma especie de semi-deus como o mikado japonez, meio mythico, meio incomprehensivel, meio velado, e sempre complexo, vibrando medos de redor quem se aproximasse, participando as propriedades da tromba-marinha, tendo os lampejos da scentelha electrica, e em communicação com os grandes espiritos errantes da sabedoria, da força, e da justiça. Desgraça se algum vassallo sentisse a sua voz de cega-rega, lhe adivinhasse caspa, lhe chegasse a suppôr fórma e natureza ordinaria, ou no grande polypeiro da real batata, contar viesse, ter-lhe notado botões purulentos, como na penca do mais elephantiaco general reformado. Ah, sendo assim, a monarchia estaria perdida! Que iria ser depois d’isso, do estranho nimbo, vetusto e terrifico, da velha realeza superficialmente doirada, que respeito inspiraria ella, quando o mulherio tocando-lhe nos velludilhos do manto reconhecesse logo que eram d’algodão, e pondo os olhos nos borguezins vermelhos do principe, entrevisse a rir por uma fenda, na culminancia dos callos, algum prosaico resquicio de piuga?

—Cautela, meu primo e soberano, cautela, dissera marquez Fulgencio, todo peralvilho n’uma cabelleira empoada e profusa, assestando o lorgnon com requintes impertinentes. A experiencia d’estes meus annos vos manda contar, que o povo imagina os monarchas pelas effigies das moedas e estampilhas, cuidando que elles só teem cabeça, e de relevo! Conheço a fundo a predilecção que daes ás lulas, e de sobejo vos tenho mostrado quanta benevolencia me inspiram essas pequeninas devassidões de paladar. Sois rapaz, sabeis evitar a azia pelo bicarbonato... Desde os arabes que a nossa familia cobre do seu real appetite, aquelles animaesinhos filamentosos; ha mesmo em brazão de nossa casa, uma caldeirada de lulas em campo de prata, que demonio! Mas se por ellas vos metterdes a dentro no banquete que intentaes, a plebe verá que tendes intestino, ao contrario dos deuses. E o carrascão, precioso soberano! Na nossa familia, este sumo dá azas á lingua, principalmente sendo por conta do lavrador; lembrai-vos que os segredos d’Estado devem ser inviolaveis.

Mas o rei ficou inflexivel ainda, impaciente mesmo e desgostado, por vêr que o não seguiam no unico systema de restaurar o amor do seu povo, e fornecer completas provas do quanto elle seria capaz de se sacrificar pela felicidade dos subditos.

Todos os meios de persuasão esgotados, o ministerio dos antigos, que sempre caprichára impôr o seu credo de rotina, secular e barbaro, ás passividades deprimentes da corôa, julgou digno pedir a demissão; marquez Fulgencio, que fôra n’um canto esfregar as palpebras corrugadas de cynico, com cebola, volveu chorando aos borzeguins do primo, pedindo para alli morrer, antes que transigir; e como urgia um profundo golpe politico, foi chamado o partido novo, e jorraram as reformas, começando pelos tres dias de festa e reconciliação geral, consoante o programma em boato.

Apenas publicado esse programma, violentas sobr’excitações tetanisaram a cidade, ninguém queria crêr, o commercio teve medo, fez-se lucto entre os nobres, e o resto ria e farandolava em vivorio descommunal. Embalde as grandes classes mandaram deputações, d’embate aos caprichos democraticos do monarcha, fazendo-lhe sentir os perigos que havia, n’uma popularidade jogada de tal fórma.

—Meu primo e soberano, as tradições de nossos maiores... aventurava marquez Fulgencio.

—Os fornecimentos de meus parentes em atrazo, dizia lacrimoso o mordomo.

—As prosperidades d’esta gloriosa nação, entrou a dizer o alto commercio. E Menelau impaciente:

—Não! Não! Não!

Appellou-se para a religião, e vieram os grandes mitrados de longas paragens, implorar por sua vez. Não! O poeta favorito mesmo, que via ameaçado o seu pascigo revigorante á mesa dos quarenta talheres, recebeu na face morta uma recusa formal.

E os jornaes:

—Estamos sobre um vulcão. Ás armas!

Mas qual armas! O populacho que fazia os motins e intimidava os poderes, estava do outro lado.

E as festas tiveram logar, apparecendo os ministros tunicados d’amarello, e o rei com ramas de loiro no craneo, e ricas sandalias cobertas de saphiras e perolas. Para chegar á campina onde estavam postas as mesas do festim, atravessava-se o grande lago, calmo e magnifico como um Mediterraneo. Era no tempo de maio, o ceu fazia tenda de montanha a montanha e horisonte a horisonte; entre oasis de palmeiras, cedros, baobabs e arecaes ondulantes, pequeninas aldeias riam sobre as aguas, entre reviravoltas de pombos e inviolaveis cegonhas brancas, sagradas no paiz. Violentos reverberos de sol enchiam a marinha toda d’arestas refulgentes, verduras de juncaes por entre as ilhotas perdidas, humidas massas de bosque em cujos mysterios, extaticos dormiam formidaveis tumulos de heroes e reis barbaros, sacudindo dos verandahs arruidos tapetes de folhas e cascatas de flôres.

Acastellavam-se em volta titanescos scenarios de serrania lascada, convulsiva, aspera, côr de lilaz nos recovados á sombra, azul nas faces meio luminosas, e fulvas ou côr de rosa pelos espinhaços onde mais vivas diziam as incidencias do sol; e mais longe, cada vez mais, nas ultimas escarpas de silhouette apagada, fazia obeliscos a neve, enormes, n’um scintillante crystal de facetas em flecha. Espendurado de barrocaes a pique, pela vertente dos desfiladeiros onde cabritos montezes balavam de cornatura demoniaca, os pagodes cobriam-se dos seus chapéos de feltro, grutescos como clowns repicando ao vento carrilhões phantasticos de campainhas. Então n’um grande trireme escarlate, esculpido de chimeras de oiro, dragões alados, cães de Fó com sceptros na pata, o rei no meio dos seus ministros, sob tendaes de purpura e ramos de oliveira, atravessou o lago nas azas dos remos, como n’um fim de magica, apotheotico, enramado, entre barcaças onde a turba se apinhava para o saudar ao som de cantigas, que as guitarras repinicavam sob as unhas dos bailhões, em acompanhamento ás rimas extrahidaa da real versaria. Bebia o rei por copos d’antiga fórma, como lêra ser uso antigamente, o vinho que negritos vasavam d’alto, rôxo-terra, de bellas amphoras lavradas de mascarões e relevos. Gritavam-lhe muitos:

—Deixa provar, ó reinadio!—E vá de risota na companhia.

As barcaças levavam quem tinha querido entrar, gente de acaso, gente de trabalho, mal vestida e grosseira. Menelau na sua tunica de linho, a meio dos ministros, barriga proeminente e vasta, onde as pontas dos seus dedos mal podiam cruzar-se, afigurava assim coroado de verde, d’estas gallinhas cruas, expostas nas casas de pasto sobre ramilhetes de salsa—e á pôpa do trireme um menestrel repetia-lhe as proprias composições.

Derrotavam por esta e aquella aldeia, e mais povo em lanchões advinha a engrossar a esquadrilha.

—Pae, diziam pequeninos gentios de nariz arrebitado e face de cobre, o rei assoa-se ás mangas com’a gente. Megeras de grenha revolta, pernas nuas, tanga de riscado, cabellosas de tromba, pasmavam que o rei não fosse de roca, como os idolos da freguezia.

E evaporado o encanto as desillusões começavam; até que aproaram n’um desembarcadeiro pittoresco, onde colonias d’algas estendiam para a rocha, supplices mãos de vergastadas—e a turba urrando, cantando, brandindo maças, agitando as pennas d’avestruz doa saiões, fazendo telintar braceletes de bronze nos membros, e collares de dentes dos inimigos vencidos em combate singular, ia desembarcando em desordem, arco ao hombro, flechas á cinta, aos saltos sobre as frescuras da areia molle e salgadia. De pé no trireme, ia-os o rei passando em revista preguiçosamente, enojado do fartum que deitavam, perguntando se povo era aquillo, e no fim de contas já dizendo mal á sua vida.

Ninguém da corte o tinha querido acompanhar, nem o menestral, nem marquez Fulgencio, o que amargou á sua benevola alma de creança, pueril, desequilibrada, sem firmeza, ao mesmo tempo fidalga e pusillanime. Lançado em plena campina, o banquete tinha simplicidades de menu, por tal maneira rusticas e primitivas, que os pés-frescos entraram logo a murmurar, n’uma raiva de fome estimulada pelas emanações do lago. Para entalar uma bucha de pão com o meio litro de vinho, não valia a pena sahir de casa, muito menos da cidade; que diabo de rei era este somitego, que nem se explicava ao menos com dois dedos de beef? Os gritos de—carne! carne!—pozeram de sobreaviso o monarcha, forçoso foi mandar abater os bois que havia nas arribanas da granja. Como os cozinheiros do paço, orgulhosos da sua sciencia e jerarchia, não tinham querido embarcar, os convidados arregaçando as mangas e brandindo navalhões, deliberaram elles mesmos fazer cozinha. E o arraial ganhou com isto episodios d’effeito imprevisto, desordens carniceiras, alegrias ferozes d’insaciavel gula, como n’um acampamento de nomadas.

Por toda a planicie acendiam fogueiras, subiam ás arvores para cortar lenha, esfolavam e abriam pelo ventre corpulentas rezes dependuradas nos galhos do pinheiral; entre as cabellugens viscosas do matto, na exuberancia das relvas, aqui, além, viam-se abalar mulheres em cata d’agua, levando cantaros á cabeça; por traz das rochas, nos maciços de zambujeiro, alecrim selvagem, leitos de campanella, rosmaninho ou trevo, languidos casaes rompiam á socapa, recompondo furtivamente nos vestidos, a desordem do amor partilhado. E Menelau paternal, esfregava as suas mãos prelaticias, rosnando:—ah seus maganões, toca fazer população! Cavalgando pipas que sem cessar jorravam, outros bebiam por grandes escudellas, olho turvo, maçã congestionada, arengando a oratoria das tabernas e dos mercados. Mas o cheiro da carniça grelhada entre pedras, que entrou a derramar-se no campo, trouxe os primeiros desenfreamentos do appetite, os urros e pulos redobravam; magotes de gentio com vivas ao monarcha, agitando ramos e farrapos, lá iam em danças da Africana, meio obscenas, meio barbaras, deante da tenda regia desenrolando serpentes com vastas perspectivas, n’um charivari de remoinhos e berros, em que se misturava o basso som dos pés descalços no chão. O festim começou na relva, por baixo dos pinheiros, aqui e além desordenadamente, com maltas de grossas femeas, collarejas, lavadeiras, donas de tasca, senhoritas d’arrabalde, deliciadas d’arengar na presença do rei, todo o calão officinal dos seus mestres.

A titulo d’exemplo, Menelau impozera-se comer apenas d’aquelle nobre pão suado nas lides do trabalho, heroicamente, tão saboroso e reconstituinte no rezar da petição que os populares tinham feito. E por simples comprazer d’agradar, ia manducando a grandes bocados esse rolão salobro e massudo como argamassa, que sabia a terra e a bafio. Por vezes, a droga vinha-lhe á bocca n’um solavanco d’azia, lagrimas involuntarias brotavam dos seus olhos pisados, emquanto o povo murmurava—está commovido, mariola! Querendo reanimar o monarcha, os pés-frescos tomavam liberdades d’occasião, davam-lhe abraços em pleno ventre, propunham-lhe jogar o homem, ou no melhor dos callos lhe iam ferrando pisadas esmagadoras, mascavando brindes com vozes de vinho, n’um chafurdar d’insolentes cordialidades. Ao mesmo tempo, e mais isto o maguava, ouvia elle os versos que compozera em noites inspiradas, repetidos por boccas vinosas, corruptos de calão, intercalados de riso e facecias, e subia-lhe um desgosto de funebre reinar sobre tal babuge de homens. Fulgencio tinha razão, tarde reconhecia isto, o pobre Menelau! Mas forçoso era parecer alegre, mesmo respondendo a brindes, que em vez de lisongearem a sua divina pessoa, o estavam enxovalhando mais e mais.

Com um riso livido marbreando-lhe a bocca contrafeita elle esboçava gestos, que bruscamente se quebravam n’um asco, respondia palavras incoherentes; e pelas fauces da canalha viam-se desapparecer os ultimos nacos de boi e os ultimos picheis de vinho. Veio a noite, nas sonolencias do campo os grillos crivavam o silencio de silvos, e como lampadas accesas para uma boda, já as estrellas pendiam na tenda palpitante dos céos. Blondes translucidas subiam do lago, condensavam-se, subiam mais, ligeiramente, apagando nas serras a chanfradura dos desfiladeiros, e confundindo bastiões de rocha com as torres asperas dos pagodes—pois a essa hora ainda, espapaçados por baixo das arvores, os pés-frescos bebiam ou rolavam nos braços das suas damas. E como o rei quizesse voltar, muitos oppunham-se, cercavam-no, mais um pedacinho, amigo rei, por quem é, apertando-se-lhe em volta n’uma quadrilha de ratoneiros. A retirada foi quasi uma evasão, todos queriam embarcar no trireme; muitos em zig-zagues, batiam no hombro de Menelau, dizendo—até sempre, ó coiso, explica-te cá com um cigarro. E o rei impava da brôa comida, sentia-se asphyxiar pausadamente, crescia-lhe o estomago dorido, e suores d’angustia gelavam-se empastando-lhe os cabellos nas fontes. Tarde o seu arrependimento chegava, de haver transigido com a populaça, e abdicado do orgulho dynastico que mantinha a distancia, essa vil raça de fellahs; esquecera que a realeza como o pau bichoso, dura podre muito tempo, em se lhe não tocando; a sua travessia pelos versos fôra ridicula; querendo viver do triste pão das cabanas, tinha sido idiota. E como esponja embebida em liquidos, turgecia-lhe no estomago aquelle rolão comido, desmedidamente, furiosamente, obstruindo-o n’um peso de metal que enregela e se mobilisa. Para o desembarcar, os ministros fizeram padiola, porque o monarcha nem se podia mexer; e atraz a turba esguedelhada, praguejava e mugia á luz dos fachos, na alegria indecorosa do vinho.

Rubros clarões então descobriram os caes apinhados de burguezes, de chapéo sobre os olhos e mãos nos bolsos, rindo baixo uns para os outros, e voltando costas quando passava o cortejo.

Por vezes, do coração das trevas rompia um dichote cruel, que instigava publicamente o escarneo, incitando á revolta; escuridões gordurosas choviam das emboscadas, fervilhando rumores d’ameaça; e subitamente, cortando o bairro nobre, babylonia de fachadas algidas, alpendres lugubres, e torres roqueiras com gradaria carcomida, Menelau viu bem que estava perdido. Nem uma luz nas frontarias, nem um viva na bocca das familias patricias, que o viam passar co’a turba multa de pés-frescos. E a sua bocca escaldava, o estomago crescia-lhe sempre, e esses labios brancos murmuravam n’uma afflicção d’embuchado:—o meu reino por uma botija de Sedlitz!

Ai, pobre Menelau! Quizera digerir pão ganho a trabalhar, como se de tal fosse capaz o seu estomago d’ocioso, delicado, senhoril, dyspeptico, que uma ascendencia de pompas, costumes galantes e prazeres, sómente educára a viver do pão dos outros, e aqui está como se foi d’indigestão o bom rei Menelau, tão querido do seu povo, que todos os annos inda agora, ha lucto no dia da sua morte; e antes d’elle seis mezes ninguém trabalha de magua, o que tambem se dá nos seis seguintes, apesar de mui laboriosos, todos os habitantes do pequenino paiz dos pagodes. Para cumulo de pouca sorte, morreu sem admirar a rica palma chifre e oiro, que pelos certamens poeticos do outono, Mont-Real lhe endereçou em preito ás Folhas e Cascas rimadas, premio votado unanime pela nobre academia tolousina, na secção: sujet libre, quarents vers au plus.

A palma figurou muitos decennios entre as joias da corôa; mas fatalidade! veio um dia a republica, que a fez talhar em botões, para as cuecas de gala do presidente.