MADONA DO CAMPO SANTO
Um temperamento, este Arthur! Côres biliosas, intractaveis cabellos extraordinariamente negros, talhados á ninivita conforme a moda romantica dos ateliers. Na estatura composta e nos hombros largos, uma reserva trahia a alma dura, violencias, e insoffridos orgulhos. Nasciam d’elle langores e enthusiasmos de indole calida, pueris alegrias, terrores, fluctuações, desesperos e lacunas de caracter, que lhe tinham ficado d’uma mocidade escusa, e da educação cortada de contratempos. Abandonando as troupes do café e os cenaculos de tabacaria e camarim, que fazem opinião sem a ter, de tudo riem e de tudo fallam, tudo julgando e em todos vendo meritos secundarios, elle afizera-se a illuminar o silencio da sua vida, com a luz d’um talento extraordinario e profundo.
Não tinha admiradores, nem amigos, nem discipulos. E incomprehendido, desconhecido, casmurro, sem a audacia de se impôr, nem paciencia de supportar o insuccesso, o seu coração desconhecia os lances da abnegação desinteressada, e sequestrado, intransigente, com os feros orgulhos do pão secco, e a tristeza furiosa dos que soffreram na infancia, mordia a gloriola dos favorecidos, comparando a sobriedade heroica da sua vida, aos ruidos de encommenda e prosperidade crescente de todos esses inuteis.
Assim, na impetuosa edade em que a vida do artista se inflora n’um bouquet de impulsos cavalheirescos e espontaneos, sem calculos, agiotagens ou reservas, aquelle velho de vinte annos não dava passo sem palpar o terreno deredor, olhando as coisas com um sentimento de atroz analyse e ambição egoista. Um diabo apenas, sabia levar este solitario, interessar-lhe, insinuar-se, fazel-o rir.
Era o Albano, zingaro de escóla, dos que envelhecem a fazer o curso, sempre cabulando, encalvecendo, sabendo de tudo, não tendo conhecimentos completos de coisa nenhuma, e sentindo pelos regulamentos das aulas, desprezos que os graves mestres faziam pagar com reprovações e annos perdidos. Albano era um chupado de oculos fixos, com a sua careca apostolica de falripas temporaes, maxillas de cão rateiro, bocca sardonica com dentes de gume branco, e um corpo rachitico, corcovado, esgrouviando do fato pelas curtas mangas da nisa, e pelas pernas curtas das calças.
Os cafés conheciam-no pela grossa jovialidade, um rir nervoso que punha guinchos d’alarme ao canto das suas palavras, e o phantastico humor cheio de pochades, buliçoso e crivado de ironias, que lhe tinha valido a raiva d’algumas pessoas em bonita posição. Pelos atrios das escolas, essa figura torta servida por uma lingua damnada, punha má impressão, nos premiados sobretudo, onde a sagacidade do cabula teimava em diagnosticar os maiores herbivoros do curso. Citavam a sua phrase de todos os dias, ao encontrar conhecidos, dita n’um rythmo cheio de pausas, que por si já sibilava ironia.
—Bem bom! Bem bom!—Geito amargo n’um canto da bocca, e logo:—Então que escandalos?
Sem nada affectar, andava ao facto de tudo, sabia fallar em tudo, lia tudo, jornaes de sciencia, livros de todas as especialidades, poemas, romances, historia, critica, e musica de todos os auctores, porque é de saber que tocava maravilhosamente rabeca. Se lhe contavam o escandalo suspirado, sem o qual morreria de paixão, de inanição e tristeza, era vêr os guinchos de deleite em que entrava, e interjeições em que todo parecia bulir.
Encontrára uma noite o Arthur na Brasserie, palavras trocadas a respeito d’um chapeu de chuva esquecido, um jornal de gravuras folheado em commum, e ficaram conhecidos. O fato velho de Albano, inspeccionado com attenções minudentes, pareceu satisfazer o nosso homem.
E sympathisaram, tinham entrado logo a discutir, apertaram-se as mãos á despedida, e ás noites depois de jantar, eram certos na Brasserie para o cavaco.
Pouco a pouco, as relações estreitaram-se quanto era possivel em indoles de sobrecenho, como estas. O mais expansivo era Albano inda assim, com as suas mordacidades cortantes, um largo desdem pelas coisas consagradas d’antemão, e a concisa formula sobre os celebres e grandes homens—que tinham todos sua perna podre, podendo esta ter apodrecido em varios pontos do individuo, na consciencia, na cabeça ou em regiões vergonhosas. E a esmiuçar biographias de condiscipulos e mestres, illustradas com os detalhes pittorescos das vaidades assolapadas, calinices ex-cathedra, e desenhos de typos feitos em ar comicamente grave, derivou d’ahi nos personagens mais em publicidade, politicos, litteratos, e dinheirosos influentes. Arthur que o ouvia regalado, em silencio, completou-lhe as vistas criticas, esfibrando então com as glotonerias d’um homem posto de banda, as individualidades da arte, que o outro conhecia pouco; e fez-lhe a sua vida artistica, como antes de estudar em Roma tres vezes fôra preterido nos concursos de pensionista, como vindo do estrangeiro com amplas provas de artista tinha achado hostilidades entre irmãos d’armas, dentro da academia mesmo, e por amor d’ella nos jornaes. E sem recursos, n’um paiz pobre onde os amadores d’arte ornam as salas com oleographias, e as galerias, escadas e vestibulos com gessos e cães de faiança, elle referiu a sua inhospita miseria n’uma agua-furtada de Santos, faltas de modêlos, desalentos e orgulhos desprezados. N’essa causa commum que faziam, chegaram a estimar-se, indo cear economicamente de quando em quando.
Era d’ordinario n’uma taberna do Bemformoso que tinham logar estes festins com canôas, n’um cubiculo pintado de verde, com reposteiro de ramagens, bico de gaz ao alto, e um gato amarello enorme, de collete branco e ar caricatural, que ronronava molhando nos pratos as suas barbas mephistophelicas. Muito especial alli o vinho, um grosso vinho pintado de roxo que alem de servir para marcar roupa, afogar baratas e trazer ictericia a quem se lhe affeiçoava, possuia a inolvidavel magia de dar talento aos actores do Principe Real que o aproveitavam assim por todas as fórmas, na tintura dos cabellos, na collagem das barbas postiças, em injecções e banhos geraes, reviviscencia da memoria, extirpação de callos, ou com sardinhas fritas nos entreactos... Nunca o taberneiro se cançava em fazer o elogio historico do fabuloso elixir.
—Lá em Torres, o lavrador é muito entendido na arte, e homem de todo o aceio. Em apanhando os vinhos na conta champa com elles p’ra dentro d’um tonel novo, onde está um carneiro morto com tripas já se sabe, tudo muito bem lavado. E alli se desfaz aquelle carneiro, n’aquelle vinho, até restarem só ossos. Deixa afinar aquillo muito bem, e sempre digo aos senhores que fica um balsamo mais sustancial! Os freguezes engordam todos que não sei explicar.
—Olhe cá, dizia o estudante, de que morrem as gallinhas cá na estalagem?
—Mas de faca.
—Não se me finja carrasco! Quando desenterraram esta, coiso?
—Que diz o senhor?
—Vá! Em principios do mez passado li eu no jornal o convite da familia para o enterro.
N’estas ceias discutia-se tudo, o Oriente, as doenças de cerebro, mulheres, quadros, aguas de Cabeço de Vide, Beethoven, os coelhos albinos, e quem sahia visconde ou casava rico. Albano que achava a litteratura decadente na área latina, tinha uma adoração por Balzac. Balzac e Beethoven! E o seu olhar fuzilava e o seu coração batia. Havia uma coisa egual a escrever a Comedia Humana, era ter composto a pastoral e a Symphonia Heroica.
Fóra d’isto, nada. Pintava Rastignac desafiando Paris na sepultura fresca de Goriot, e o avaro Gobseck dilatando as pupillas de tigre contra os diamantes d’Anastacia. E essas duquezas de grande ar, dando bailes de rainhas, lançando os amantes nos grandes cargos, enchendo Paris da sua belleza, corroendo a sociedade com o seu espirito e phantasia, aladas, deslumbrantes, desprezando as leis, jogando, empenhando, descendo dos fastigios ás vergonhas, sublimes e vis como a carne em que se insculpiam, punham na cabeça do estudante um intangivel mundo feminino, a que elle dava as suas paixões, os seus formilhamentos e furores de homem. Amar a femea da rua dos Fanqueiros depois d’isso, era uma profanação de ideal. Eis porque ficaria solteiro. E se o outro gostava d’amendoas torradas?
O Albano ia vêr Arthur todos os dias, com o seu cachimbo operario ao canto da bocca, o livro da vespera debaixo do braço.
—Bem bom! Bem bom! Então que escandalos hoje?
—Aquelle idiota do G. que partiu uma perna.
—Ora até que afinal! respondia Albano esfregando as mãos. E como quem fundamenta o seu odiosinho: não era senhor de lhe offerecer um calice, que não acceitasse logo. Bem bom! Foi castigo.
Se nas sessões parlamentares algum dos Castelares que alli grassam, vergastava em demosthenicas o ministro com grossa arruaça das galerias, se um condiscipulo soccava outro, ou qualquer vulto da sciencia fraquejava em conferencias, relatorios ou debates de especialidade, um prazer inexhaurivel fazia o Albano guinchar, bater palmas, n’uma satisfação radiosa e sincera.
E a face de Arthur refloria, parecendo a ambos que os desastres alheios os içavam em triumpho pelo mastro interminavel da fortuna.
Estes demolidores que esguichavam facecias lugubres sobre os immortaloides que nas saias da Academia, á sombra copada dos archivos, encalveciam a investigar da dentuça podre da rainha Catharina e dos bastardos de Sancho, elaborando memorias de estructura cornea; que faziam troça nas procissões e paradas, das mumias de guerra que viam com pompa, cavalgando ginetes e destingindo immorredoiramente ao som dos hymnos; que bandurreavam dos bilhostres politicos, dos oradores, dos paspalhões e obsoletas industriaes nacionaes—moviam processos scientificos d’escarneo contra essa rotina de paiz morto, rindo a ironia dos fortes, com ribaldarias cynicas de triolet. Era Albano quem fallava quasi sempre, inundando as ceias de canôas, com vinho e projectos de regeneração publica, decretos mirabolantes convergindo a resolver de vez, o insoluvel problema da vida portugueza contemporanea. Cada qual se punha então a dizer o que faria em chegando a ministro. Albano optava pela plantação da beterraba em grande, no que havia de gastar o quarto das receitas do Estado. E pequeninas grandes obras collateraes, por exemplo inundar a Europa de palitos feitos á machina, seis milhões por hora; pôr em arremate uns bancos de bacalhau por elle descobertos em Cabo Verde; enviar uma commissão de sabios á China fazer estudos sobre o rabicho... E sempre no fim: Olá, peixe!—Aquillo deixava o esculptor boquiaberto.
—Mas a arte, a sciencia, nada? perguntava elle timidamente.
—Quanto á arte, dizia Albano riscando a careca com a sua unha em garra, estou que daria resultado um conservatorio de musica e choral para os atuns do Algarve. No que respeita a sciencia, fundava em Coimbra uma faculdade anterior ao estudo das mais, a faculdade de pensar. Como vês, é maravilhoso, simples e facil.
—Ahi está o genio, notava Arthur.
—Ai, ai! fazia o estudante, atochando o estomago gargantuano com savel frito. Tinha elle uma irmã lindissima, figura de parisiense, meudinha, nervosa, penetrante, musical.
Como Arthur pelo tempo adeante necessitou procural-o, forçoso foi dar-lhe a morada e franquear-lhe a porta. A casa era pobre, terceiro andar para mãe e filha, com sotão para o bohemio dormir. Arthur começou a gostar da pequenita, a vir mais vezes, a olhar para ella de certo modo.
Depois um nome delicioso—Judith! E o esculptor pensava já muito sériamente n’uma estatua de Holofernes, que tivesse a sua propria cabeça.
Um grande alto-relevo que esculpiu para não sei que fachada, trouxe-lhe renome, por alguns dias exposto. Obra excellentemente lançada, esse alto-relevo d’assumpto biblico, com figuras vaporisadas em attitudes d’uma belleza piedosa e serena, e cabeças do mais fino toque. Essa magnifica pagina de marmore, guardava o symbolismo ingenuo e a bondade lyrica, que impressionam a indole sentimental de todo o bom portuguez. Havia n’ella perfis de medalha, roupas que se collavam respirando, pés e mãos de irreprehensivel trabalho, e o ar antigo que vem da leitura dos prophetas. Os jornaes fallaram da obra, quasi toda a gente foi vêl-a, e o Occidente mesmo deu gravuras, o que lançou o esculptor. Por esse tempo vinha elle para visinho de Albano, tendo alugado um rez-do-chão de que fez atelier e residencia. A casa tinha no fundo uns metros de quintal, recinto ensombrado de grandes arvores e todo chilreante de pardalada.
Com o terreno inclinado, desfrutavam-se em chusmas lá longe, perspectivas de cidade que rebenta de escombros, campos d’arrabalde, quintalorios onde latadas tufavam, terrenos de pão, hortas retalhadas pelos trabalhos da avenida nova, predios em ruina, casas perdidas em jardins, montões d’entulho, bandeirolas, e na linha do horisonte as torrellas côr de óca da Penitenciaria com cimos de ardozia em pyramide.
Debaixo das arvores, o esculptor installára a secção de chinquilho e cricket dos seus ocios artisticos, com succursal de trapesio e barras fixas, da gymnastica que se impunha todas as manhãs, ao levantar. Davam para alli as janellas dos predios proximos, e n’uma que Arthur vigiava, vinha assomar curiosa e risonha muitas vezes, a cabecinha loira de Judith. Adoravel essa cabecinha de craneo pequeno e testa pura, com a sua face magrinha e pallida, bocca em coração, queixo petulante, e um modo de rir com flechas d’aurora nos beiços, de timbrar a palavra em gorgeios, e fazer cauda de x x x aos pluraes—ox olhox, ox cabellox, já sabemox... que encantavam a perder o rude trabalhador de blocos. Qualquer mulher artificiosa de educação e toilette, tel-o-hia fatigado ou ferido mediocremente. Esse perscrutador brutal, acostumado ao estudo das linhas, dos gestos, das expressões physionomicas, todas as mimicas que a estatuaria fixa e modela, tinha o odio dos artificios, dos ares de palco que a vida das cidades imprime aos individuos, e as mulheres exageram cuidando n’elles irradiar toda a belleza. Nascida em orphandade e pobreza, provinciana no coração da cidade, vivendo com a mãe sem relações, entregue ao trabalho caseiro e ao seu piano de estudo, Judith conservava uma frescura cheia de individualidade, ligeirezas d’alveloa a sessenta volteios por minuto, e uma graça bravia de corça, que vinham antes da sua harmonia physica e da sua belleza innocente, que d’uma educação prodigalisada com mais esmero. Arthur gostava d’ella como um velho póde gostar d’uma creança, pela figura franzina, pela alegria casta, e essa innocencia relampagueante dos olhos, viva, curiosa, agitadiça, sem falsos pudores de palpebras descidas ou perturbadas, que n’outra seria petulancia, e era n’ella excesso de virgindade, de creancice e pureza d’alma.
Vestida de claro, percale rosa, qualquer cassa branca franzindo até cima no peito com severidades de virgem huguenote, o corpete esvasando no desenho arabe d’um vaso, mãos luminosas, estreitas, setineas, sahindo dos punhos de renda em brancuras de magnolia, era deliciosa indo e vindo, dos seus bicos de lacre para o piano, do piano para a janella, da janella ao bastidor, do bastidor para a cozinha. E Arthur vendo-a buliçosa, n’um formilhamento de sêr nubente e delicado, com paraisos de neve na carne, toda impaciencias contidas, ondulações de quem está crescendo, gritinhos, risadinhas, começos d’árias e dolencias de larynge, tinha vontade de lhe estender o braço como um ramo d’arvore, para ella vir pousar debicando o seu corsage de madona, no pri-pi-pi matinal das andorinhas na cimalha dos campanarios. O que sobretudo elle adorava nas suas volatilisações d’artista, eram as attitudes de Judith, d’uma tão inconsciente nobreza, pura arte e graciosa factura, que o attrahiam, que o dominavam, enchendo d’egoismos essa contemplação muda de esculptor. Por exemplo, como ella sabia depois d’uma sonata, ficar apoiada no piano por tres dedos apenas, sem peso, sem esforço, o busto um quasi nada para traz. A sua figura tinha assim uma distincção de miss, doirada pelos olhos de loira, cujas fibrilhas claras torvelinhavam com labyrinthos de hydras, nas aguas de uma fonte.
D’entre os hombros sahia-lhe a garganta alta, vergando como haste de flôr rara; o labio de cima tinha ao centro uma gotta de coral deliciosa, que se desfazia no riso, e voltava a tremer, toda pendente, nas horas contrafeitas; e nenhum prazer maior que vêl-a de perfil em fundos violentos, com o seu moderno typo de cidade, exquisito e fino. Tinha a edade em que a mulher está ainda sem sexo e todavia não é já uma creança, fins de infancia em começos de adolescencia, o que ha de mais mimoso na vida feminina, desejos que a admirem e esquecimentos logo d’essa pequenina vaidade, rubores d’uma palavra mais alta, d’um riso largo, rubores por coisa nenhuma. E uma encantadora desordem interior, de ideias, sensações, gostos, e prazeres virginaes! Ditos sem intuito um mez antes, modos de a olharem na rua, qualquer insignificancia quotidiana, alarmavam-lhe agora o natural assustadiço.
Por vezes, de relance, n’essa conflagração de phases vitaes que não tinham podido extremar-se ainda, subitaneas tempestades marulhavam—os seus olhos accendiam constellações de sonho; certas maneiras de detalhar a respiração dir-se-hiam suspiros; cerrava muito os braços contra as costellas, pondo no busto duas azas de amphora etrusca, como se uma febre de abraços lhe viesse. E tão impressionavel, que a menor nuvem a fazia nervosa, e a menor sensação d’altura lhe dava syncopes; em dias de chuva, collada por traz dos vidros, olhos baixos, um susto da fria consternação pardacenta, pousava em immobilidades de chôro, como uma andorinha roubada aos seus novellos de ellipses, pelo bom tempo, no lapis-lazzuli do ceu. E então uma familiaridade a conversar!
Ainda não conhecia Arthur de quinze dias ou vinte, e já sem preambulos entrava a querer saber o que elle tinha feito durante o dia, a que horas tinha sahido, a que horas recolhia, e como é que sendo tão novo, podia viver tão só.
Esse plebeu, rosnador como os cães de fila, intratavel, sem paciencia para massadas, macambuzio e mal disposto, sentia uma immortal felicidade em responder ás perguntinhas d’ella, em adivinhar ao seu lado e por seu mando, todas as charadas e logogriphos do almanach, em guial-a nos desenhos e trazer-lhe florões para bordados. Deante de Judith a aspereza d’elle adoçava-se n’uma timidez serviçal, recolhida se ella o não mandava fallar, radiosa quando lhe sorria. E á flôr da sua larga face operaria, vinha um rubor de felicidade, n’essas visitas passadas em palestras triviaes, casos de jornal e vida caseira, em que desfilava a tragedia narrada pelo localista, as carestias da Praça, uma musica nova, e do que cada um tivera para jantar.
As narrativas de naufragios, choques de comboios, explosões de minas, cidades inundadas, incendios e roubos celebres, duzentas, trezentas mortes, um supplemento algido d’orphandades, viuvezes e desamparos, obras-primas do bello horrido que a phantasia dos reporter-yankees a meudo exporta para chocar os nervos lassos da velha Europa, faziam nas duas pobres senhoras impressão fulminante. Arthur lia o caso, e abaladas, dando exclamações em volta d’elle, mãe e filha commentavam o desastre choramigando, fazendo hypotheses, phantasiando promenores.
A mãe, parando de costurar, calculava:
—Trezentas pessoas mortas, vamos que duzentas eram casadas, e cento e cincoenta tinham filhos... Cento e cincoenta orphãos, já nós cá temos! Nome de Maria! Agora, dêmos cem pessoas a mais de um filho... Onde esta desgraça vae parar! As pessoas a quem estas victimas protegessem, parentes velhos, pobresinhos de porta, creados antigos, empregados das suas lojas... sim, porque haviam ter seu commercio, a sua vida... e ahi fica tudo ao desamparo...—seguia-se um grande suspiro—Ai! ai! Este mundo, bem pensando... E para mais, em sexta-feira! Emquanto uns riem, outros choram.—E já não dormia bem aquella noite. Em que afflicções se veriam os desgraçadinhos por aguas do mar? E que pensariam elles n’aquella hora?
Por vezes Arthur surprehendia-se tambem commovido, porque interessado no contraste d’aquella simplicidade ingenua e sincera, pouco a pouco, sem n’isso reparar, ia sendo por ella dominado. O sentimento de quasi paternidade que lhe vinha ao pé de Judith, revelava-o elle nos presentes que lhe fazia, medalhões com baixos-relevos de Virgens e Christos, beniterios de espaldares rendilhados, albuns de aquarella e carvões de paizagem, flôres, quinquilharias e até ninhos, dos passaros que nidificavam nos grandes platanos do quintal.
Nunca se esqueceria da ineffavel frescura de lagrimas que sentira no peito, a vez que indo vêl-a com uma grande rosa branca, toda orvalhada, ella viera com uns geitinhos infantis tirar-lh’a muito delicadamente, emquanto os seus olhos claros scintillavam. E desfolhando a rosa com os dentes, petala por petala, fôra-a comendo com a especie de gula voluptuosa com que os canarios debicam folhas d’alface, e tendo sempre os ardentes olhos pregados n’elle.
Todas as manhãs ao erguer, Arthur fazia a sua hora de gymnastica revigorante, preparatoria dos trabalhos do dia. Começava com vinte kilos em cada braço, ia d’alli aos saltos elasticos sobre pranchões fixados a variadas alturas, depois fazia as distensões, torsões e suspensões do trapesio, acabando no moinho, grande trabalho de destreza, que exige olho fino, corpo d’aço e precisão de mathematico.
Da janella, se acontecia estar levantada, Judith dava gritos de susto, pedia-lhe para suspender os trabalhos, ameaçando-o ficar de mal com elle, se proseguisse.
Arthur socegava-a com palavras de valentia, intimamente lisonjeado ao menor dos seus gritinhos hystericos—e se na janella do sotão as lentes do Albano brilhavam, era uma festa entre os tres.
O habito de tecer mundos de chimera e bizarrias d’espirito onde residir a maior parte do anno, dava ao estudante a mais completa indifferença, ou apenas alguma ligeira attenção, para as coisas triviaes que lhe giravam á roda. A familia merecia-lhe uma especie de benevolencia, sem effusões nem longos entretenimentos; para designar as duas senhoras dizia—as mulherzinhas, lá em casa; e apenas ás horas da comida, nas preguiças depois do jantar, se demorava a conversar um pouco em coisas que lhe não inspiravam interesse, e deixava correr para o não acharem antipathico. Quasi sempre as suas palavras eram breves n’esses cavacos domesticos, sim, não, está visto, está claro; ou aquelle interminavel—Bem bom! Bem bom! que servia para exprimir tudo, tedio, satisfação interior, fome, desgosto de viver, necessidades de fazer a barba, e assim. Para se não dar ao trabalho de explicar um ponto controverso, estava sempre d’accordo no que a mãe e a irmã diziam. Por vezes fazia á mesa silencios de pensador, sorvia a sopa bruscamente, cortava os pedaços n’uma gravidade de sabio, cabeça baixa, camarinhas de suor no coronal marbreado de calva. Jámais n’esses momentos, ellas lhe interrompiam a meditação, o jantar corria triste. Tinham-se affeito áquella reserva de velho juiz as duas senhoras, e já não estranhavam. A mãe vendo-o calado, pensava no marido que fôra assim toda a vida, macilento, sorvido, com os seus oculos verdes, nevralgias singulares, e cheio de excentricidades. E Judith amava o irmão como um avô, vendo-o sempre benevolo apesar de casmurro, dedicado no fundo, e com pequeninos presentes de quando em quando. Por vezes, os olhos d’elle sondavam-na por cima dos oculos com sollicitudes antigas, n’uma satisfação de a verem galante, com a sua bata de rendas cingida á cintura fina. E as duas foram-lhe descobrindo virtudes tocantes, uma virgindade de gostos, traços de caracter generoso, e pieguices mascaradas n’aquella selvageria. Levava noites a traduzir romances por uma miseria, no intento d’augmentar a modesta renda de que vivia a familia, afim de nada faltar em casa. Nos dias de annos, começos de estação, ou pelas festas, calado sempre, com a sua nisa parda de seis annos, uma corrente de latão no relogio, descia alta noite em meias, do seu antro de doutor Fausto, quando ellas dormiam; e como a boa fada do Natal deixava-lhes á porta dos quartos, na mesa de jantar, sobre cabides, ou nas mais reconditas gavetas do guarda-vestidos, pequenas peças de toilette, quinquilharias namoradas semanas e semanas n’uma vitrine, regateadas, ambicionadas, e por fim adquiridas com a feria, que aos sabbados recebia pelos fasciculos traduzidos. Furtava-se então aos prazeres da surpreza, aos agradecimentos e aos beijos, sahindo logo de manhã como um ladrão. Bem bom! Bem bom! Porque o seu odio pelas effusões domesticas, pelas ternuras choramigadas, ia á ferocidade. Certas calineries de paes para filhos e irmãos para irmãs, envergonhavam-no; nunca tinha dado um beijo; e comsigo mesmo, considerando as femeas, vinham-lhe honestidades de Antonio entre as bacchanaes nocturnas da Thebaida. A rabeca porém era o seu confidente linguareiro, que tudo ia contar, exprimir, soluçar. E o que ella dizia d’esse magricella envelhecido, que doçuras de temperamento lhe sondava, que profunda bondade punha em jogo, que frescura interior deixava vêr, e que indomavel paixão de juventude! Do quintal, Arthur e quem estava, applaudiam deslumbrados; Judith tinha soluços nervosos, toda vibrante na emoção magnetica d’um arco assim movido; Albano apenas, impassivel, limpando a calva apostolica, bem bom! bem bom! sorria um pouco do successo.
Percebera elle o que se estava passando entre a irmã e o artista.
E com um certo riso fazia reservas prudentes, ficando calculadamente a distancia d’aquellas expansões. A rabeca sómente, nas passagens idyllicas de Judith com o esculptor, por Albano adivinhadas ou surprehendidas, ousava em surdina fazer o seu commentario ironico, e dar o seu parecer disfarçado, traduzindo pela vibração chorosa ou risonha, o pensamento occulto do rabequista. As conversas de Judith mais o esculptor, ella da janella, elle do quintal, eram o que ha de primitivo em arte de amar.
—Bons dias, que lindo tempo hoje, não está?
—Está, dizia elle.
—Rico para um passeio ao campo.
—Eu gostava mais no rio.
—Podia virar-se o bote...
E Judith fazia um adoravel gesto de medo.
Tornava o Arthur:
—Então o nosso homem, inda dorme?
—Qual! Foi para a escóla já.
—E a visinha nunca sahe d’ahi...
—Muito pouco! Com esta vista da janella, é como se todos os dias andasse duas leguas de campo.
Ou derivavam no eterno motivo:
—Ora veja como vão adiantadas as obras da avenida!
—Ah, muito! Ainda hontem a casa amarella, acolá adeante, estava em pé, e só lá vejo agora as paredes das lojas.
O esculptor punha-se a explicar a avenida, dizia o golpe de vista decorativo de quando ella fosse cheia de construcções, o palacio de crystal com as suas naves radiando da rotunda em cupula, torres nos angulos com janellas de balaustres marmoreos, arvores de sombra, palacios de mil architecturas, bazares scintillantes, estatuas e jogos d’agua...
—Para esse tempo, dizia Judith fazendo olhos tristes, já não sou viva, que pena!
Arthur phantasiava-lhe a brincar destinos de princeza, ter palacio entre parques, desenhado por Garnier, um coupé tirado por cavallos brancos, um marido conde, que fosse loiro e a adorasse, e primeira ordem em S. Carlos. Vêl-a-hia atravessar a cidade em landeau, na primavera, ás tres horas, sob a tepidez d’um ceu amoroso, toda setim malva e plumas brancas, sem fazer caso dos cumprimentos d’um pobre artista como elle. Ella ria com esforço áquella ingratidão phantasiada, com um oh! de creança resentida. Apoiando no parapeito as mãosinhas brancas, ia-se debruçando para o vêr melhor; a gotta coral do seu labio tinha momosinhos rubros de quem chora—e calados n’um embevecimento, olhavam-se muito serios, com alguma idéa profunda e nupcial. Coincidia com estas tagarellices dos dois, uma preoccupação de Judith em se fazer senhora. Declarava todos os dias estar mais alta, ir engrossando de quadris. Viera-lhe uma febre de ménage, passava dias arrumando, desdobrando roupas, pondo balayeuse nos vestidos usados, marchando como um I para se dar o aspecto imperativo. Todo o seu empenho era representar uma dona de casa; e para isso, como via a mamã fazer, era admiravel desenvolvendo preoccupações, projectos, argucias e pequenos ralhos de cozinha. Viam-na atravessar os quartos com braçados de roupa, muito impertigada, o ar severo, e virar-se de repente a vêr se o vestido ia arrastando. Por não conservar os seus dentes d’algum dia, a pobre mamã tinha de comprimir espevitadamente os beiços, para chamar alto. A careta stereotypada nada tinha de captivante; pois assim mesmo Judith a imitava! Com creanças então, que adoravel miniatura de comedia! Judith pretendia adivinhar todos os incommodos ou appetites d’essas pequeninas poeiras, através das birras mais inesperadas. E mil peças, dançava com ellas, erguia-as ao alto esticando os braços, balanceava-as nos joelhos, estava constantemente a penteal-as, a beijal-as, a deital-as como uma Virgem, no regaço, a cantar para que dormissem, a despil-as, a vestil-as, a inventar-lhes incommodos, como pretexto para fazer brilhar as suas habilidades de pequena mamã. Se Arthur estava presente, estes ensaios para esposa eram mil vezes repetidos, exagerados e postos em relevo, n’um sentimento de pedanteria innocente. Por vezes, no meio d’alguma scena difficil, os olhos de Judith levantavam-se sobre o esculptor, havia n’ella um retrahimento de se vêr observada, e ia-se embora de corrida. Todas estas preoccupações se trahiam n’um tom encantador de caricatura, e contemplando-a, a gente pensava com finos prazeres de bric-á-braquista, n’essas figurinhas d’esmalte tão vivas, walsando no oiro das bonbonnières, fugaces, illuminadas no galante estylo pastoral do seculo dezoito. Mas não raro era tambem um esquecimento do papel, em meio d’alguma postura mais de proposito composta. Então a creança dava de repente um salto, uma risadita, e quebrado o encanto, reapparecia na sua graça plumosa e ingenua d’ave do paraiso.
Os momentos com ella repousavam o artista d’outros fatigantes dias levados na faina de procurar modêlos, fazer moldagens custosas, desbastar a rija constructura dos blocos; e mil attenções postas em bem ferir a estatua esboçada, retocar as coisas miudas da fórma, fremitos de roupas, serpentinado das carnes, todos os pequenos tics d’onde resulta na estatua a volatilisação da vida. N’uma população degenerada por decrepitudes de raça, vicios de grande cidade, privações de pobreza e demasias de trabalho, o esculptor mal achava corpo que valesse a pena copiar. Na sua missão d’artista, em certos dias, era-lhe forçoso então percorrer os centros vitaes da população, os caes, os mercados, os arsenaes, os quarteis, os navios e as fabricas, a buscar entre os pelitrapos e va-nu-pieds do trabalho, as fortes linhas harmonicas dos modêlos.
Era assim que se lhe deparava aqui um pé bem lançado e livre, no garoto da rua ou servente de pedreiro; além as espaduas e braços d’Atlas, estriados, membrudos, sob a camisola de lã dos catraeiros côr de cobre; torsos de damnados miguelangescos entre os forjadores das officinas; e traços de Antinos n’uma ou n’outra cara enfarruscada, adolescencias doces de punhos e jarretes, seios e gargantas fulvas como o bronze tonkin; pedaços de natureza nobre, descorrelacionados do resto e esparsos sem ordem nem logica, por figuras vulgares, amortecidas nos excessos da labuta quotidiana.
E as difficuldades para trazer ao atelier qualquer d’esses donos de um trecho vivo de esculptura, artimanhas a empregar, longos preludios de explicações, promessas de boa gorgeta, uma canceira atroz de persuasões e engodos! As mulheres escandalisadas do convite, injuriavam-no em pleno mercado, rudes ferreiros riam-se d’elle com chascos; e poucos queriam seguil-o!
Alguns ao fim de quatro sessões ou cinco, fatigados de pousar, abalavam e não vinham mais. E Arthur desapacientado, mortificado, nervoso, ulcerado de coleras, destruia o que estava feito, cahindo em longos tedios de ociosidade.
Arthur vivia como um asceta, sósinho em casa entre as ferramentas de officio, desenhos e gessos classicos, servido por um gallego extraordinario de avareza, e visitado por tres ou quatro amigos de seu pae, que raras vezes appareciam. Aos domingos, se acontecia haver numero, formava-se um chinquilho pacato, em que Albano era parceiro do gallego, contra o Arthur que fazia causa commum com o amigo Flores, ártista pintor. Amigo Flores era o jovial folião, que os francezes já modelaram em caricatura, no zinco dos castiçaes baratos, com a palheta em riste e o seu chapéo de pluma derrubado á banda. Era um sêr filiforme de cara quixotesca, bigodes fluctuantes e pera em cauda de rapoza, alto, republicano e cheio de zumbaias, grande cabelleira ao vento, feltro derrubado, botina torta, e umas taes denguices com damas!... O orgulho da sua arte, forçava-o a attitudes photographicas, mão no peito e uma perna arqueando á frente da outra; ou então descoberto, como quem pousa para a historia, tendo um ar sonhador, os dedos na gaforina que de crespa lhe nimbava a cabeça, olhos em alvo, como a meditar o plano d’um quadro. Quando o contradiziam, amigo Flores tinha a phrase:
—Não rebata as minhas asserções!
Era um jacobino temeroso, que nunca se cançava em referir os seus esforços pela grande causa.
Tomando a pera nos longos dedos d’esqueleto, fazia notar:
—Quando vier a nossa republica, a sua primeira obra será dar-me um beijo e dizer-me assim, obrigado, querido pae.
Em mimicas de sagui, todo esguedelhado á moda romantica, com tremuras d’ebrio e palavras jactitantes, amigo Flores fallava então nos trabalhos dos pretendidos clubs revolucionarios, as soalheiras apanhadas na via dolorosa da propaganda, portas que lhe atiravam ás ventas pelas eleições, mil ingratidões bebidas sem queixa. Fazia arremedos de quem investe o toureiro—Sim, que fallasse Alcantara! E Alcolena, e Ajuda, e essa rapaziada dos Terremotos toda, para contarem do que elle João Maria Guedes Flores, sósinho e solitario, tinha feito e conseguido. Por sua energia se levára a cabo no Pateo da Galé, o famoso comicio de 24, onde Ajuda nas barbas da policia mandada por ordem do tyranno, tinha posto as coisas em pratos limpos. E uma data de clubs fundados por elle, o Mortalha e Onça de Alcolena, com duas Liberdades de gesso na sala das sessões, e um realejo alli tocando a Marselheza noite e dia, para arreliar o paço, apre! Se tinham visto o artigo do Trinta, todo escamado? Ninguem tinha visto. Arthur pretendia chamal-o pacificamente aos pinceis então, para discretearem antes sobre taboletas de phantesia, e bellas gallinheiras da Praça, por uma das quaes, Barbara de Loures, ruiva maritornes que enchia o mercado com os seus uberes de turina, entre raspões de hortaliceiros, o ártista andava morto. Mas Albano queria vêr por força como era feito um jacobino, investigar das conquistas do partido popular, metter sonda na obra da revolução. Que não rebatessem as asserções do homem! E amigo Flores ia dizendo que o rei ficava de cal em o encontrando na rua, o Fontes mesmo pensára em subornal-o, dar-lhe posta afim de lhe calar o bico. E d’uma vez na calçada da Ajuda, ia muito bem, matutando sim senhor, e ouve pst! pst! E volta-se, era D. Fernando fazendo-lhe signaes. Podia hoje estar n’uma posição independente, mas não era como esses pandilhas monarchicos que se vendiam por um logar; preferia seguir as suas ideias, ser fiel á causa do povo. Enchia a bocca de povo, a vontade do povo, a soberania do povo, o veto do povo, o suor e mais excreções do povo. E batendo nos peitos concavos, olho acceso, gambia fina, um ar chimerico de walsa, deixava desconfiar pela attitude que o povo fosse elle, grão senhor d’arraia miuda, chefe dos sediciosos, e vingador futuro de mil torturas soffridas. A cada passo, a sua arenga vinha infectada com essas phrases de meeting, tympanicas pela falta de sentido, escorrendo indignações de bacharel faminto, a que os jornalistas vermelhos teem dado voga entre as classes ignorantes, ensinando-lhes a fanfarronada, sem lhes ensinarem coisa melhor. E vinham os direitos do homem, o corpo social, a dignidade humana, as liberdades d’este seculo, tiradas sobre a podridão da corôa, e mil allusões contra o que cada qual fazia por mez... Por vezes, ao atirar da malha contra o paulito do jogo, a vehemencia do ártista era tão soberba, que se ficava n’um panico, á espera de lhe vêr sahir dos bolsos, hordas de federalistas, communistas, todo o arraial d’opprimidos em linha de guerra, brandindo armas, formando barricadas, cantando Ça ira! e roubando lenços d’assoar. Albano mirava-o como um animal curioso, todo grave e compenetrado; e secretamente, como um irmão da seita escarlate, fazia-lhe pequenos signaes de adhesão, applaudia em risinhos, como quem sabe de tudo, na mira de lhe inspirar confiança.
Aquelle apoio vehemente, endoidecia o ártista, que nos dias de loquela entrava n’uma quantidade de revelações d’alta politica. A coisa marchava! Um trunfo dos republicanos dissera-lhe na redacção do Facho:
—Dez como vossê, Flores, e a realeza não dura tres semanas! Tinham mesmo chegado a pedir-lhe artigos de fundo, d’aquelles damnados, d’aquelles fortes. A provincia dava-lhe vivas; Sola e Vira, um directorio do bairro central, chegára a lançar-lhe nas actas, votos de louvor. Isso lá muito fallado! Abria um riso mysterioso para confessar que havia incredulos que se punham a dizer aos seus botões, a republica está ainda para tarde. Não aconselhava ao povo portuguez aquella falta de confiança nos que andavam á testa do movimento. Já o tinha dito no famoso comicio de 24. Na proxima legislatura, seis é que cantavam na urna.
—Seis que? disse Albano.
—Mas deputados! Um d’elles, e amigo Flores descia o olhar, nunca acceitaria o mandato de tão illustres irmãos d’armas.
—Mas Flores, implorava Albano, mau irmão, acceita por obsequio.
—A coisa está séria! dizia Arthur. E a voz de João Maria Guedes Flores, baixava.
No Facho pensava-se em comprar o exercito, havia aguardente para adhesões espontaneas... E agora shut! nada de darem á lingua, hein?
—Eu cá ouvi fallar n’um subterraneo de polvora até ao paço, segredava Albano tendo primeiro fechado as portas, e lançando ás paredes olhares tresvairados.
Amigo Flores recuou theatralmente.
—C’os diabos! Mas é a anarchia! Mas vão-se lançar no puro nihilismo! Isso sempre eu temi! A soberania popular não quer sangue!—Mas Albano atropellava revelações com revelações, tendo o ártista seguro por um braço, arquejante, magnetisado, escutando por todos os póros.
—E depois, não é tudo, homem. Entrou um navio com armas pela Figueira dentro; Celorico agita-se; Santa Comba diz que não paga; Moita poz barrete phrygio; todo o paiz vae levantar-se como um homem...
—Quando?
—Ámanhã talvez!...
—Bem m’o dizia o Guerra! fez amigo Flores, como se prophecias biblicas viessem de realisar-se.
—Quem viver verá as grandes coisas, ponderou Arthur. Inglaterra jámais nos perdoa. E a Russia, a Austria, Hespanha...
—Hespanha, disse o ártista, com os seus males intestinos...
—Infeliz! fez compungidamente o estudante. Mas coragem! Grevy escrevera a Magalhães, dizendo-lhe contassem com elle; havia mesmo umas certas palavras do presidente Grant...
Emfim, qualquer manhã, a monarchia acordava pela barra fóra, caminho do desterro.
—Pois vou já convocar o Mortalha e Onça, clamava possesso amigo Flores, rompendo por essas ruas esbaforido, sem mais querer ouvir.
Se concluira alguma obra, convidava toda a gente a ir dar opinião, o Arthur, um porta-machado das suas relações, que lhe servira para modêlo de Herodes n’uma Degolação de Innocentes; o gallego avaro, e quando Deus queria, o proprio Albano. Amigo Flores pintava taboletas, frontarias de loja, e casas de jantar de dez palmos, em terceiros andares restaurados. Onde quer que a sua brocha tocasse, a serra de Cintra era certa, com dentaduras do castello dos Mouros, os torreões da Peninha e damas de azul em pic-nics na relva. Se lhe observavam tal destempero n’uma fachada de talho ou tabacaria, amigo Flores tirava altivamente o seu feltro, esbandalhava a trunfa com os dedos de esqueleto...
—Não rebata as minhas asserções!
E a liberdade com que advertia o esculptor das incorrecções de cinzel, a fereza supraciliar com que o chamava de parte para lhe dizer que aquelle pé, alli, não estava a seu gosto; os modos de velho mestre com que lhe rendia elogios, dando-lhe conselhos, que fosse indo, nada de desalentar, e trabalhasse para ser um ártista!...
Porque no intuito de reconfortar esse talento de rapaz na sombra, pretendia impôr-se como exemplo de lucta, afinal triumphante.
—O caso é, trauteava elle afiambrando a perna, que cheguei á verdade e tenho hoje côr. Custou, mas posso orgulhar-me, venci. Homem, basta um caso—tal campo d’alfaces pintei a fresco n’um retiro de Rio Mouro, que todas as manhãs n’aquella casa, é um poder do mundo de grillos!
Arthur ria benevolamente, dava-lhe cigarros, ia jantar com elle ás hortas nos dias bonitos. Mas o estudante não o podia aturar, mesmo ganas de lhe remendar os fundilhos com lama da bota direita. E encontrando-o donairosamente na rua a cahir das calcitas amarellas, e cambando a bota de joanetes pelintras, passava de largo acenando-lhe com a cabeça calva.
—Vivendo, obrigado. Inda não rebentou o subterraneo de polvora, paciencia! Mas bem bom, a coisa marcha. Saudinha.—E virava a esquina, concertando os oculos.
Uma tarde, flanava Arthur por entre as boscagens do Campo Grande, fumando cachimbo n’uma d’aquellas indolencias d’artista, que abrem lenitivo no meio dos grandes trabalhos, quando ao virar d’uma alea, deu de cara com Albano que trazia um ramo enorme de rosas. Havia talvez quatro noites que o bohemio não vinha á brasserie, coisa de espantar o esculptor, affeito como estava á regularidade desesperante do companheiro.
—Mas que florido elle vem, que primaveril! disse Arthur com grandes expansões. Farçante! Vem perpetrar bouquets fóra de portas, para ninguem suspeitar dos amores em que anda enredado....
Albano ficou a desempoeirar com o lenço, as incommensuraveis botas de duas solas em que velejava. E disse:
—Fui-me vêr um homemzinho áquella quinta, que passa a vida cultivando rosas. Typo curioso de velhote, amador de boas loiças, todo requintado, hei de apresentar-te. Imagina que tudo é do seculo passado em casa d’elle, mobilia, porcelanas, creados, musica, até os gatos. Mas boa gente! Então carregam-me sempre de rosas. Repara que vem aqui soberbos exemplares, hein? E elle, uma paciencia!... Sorvia o perfume das flôres uma por uma, dando pequeninas aspirações sem contacto nas petalas, saltitando d’esta para aquella, como se andasse a educar uma pituitaria intelligente, afim de extremar gradações n’um mesmo perfume subtil. As rosas eram deslumbrantes na verdade, pelo tamanho, pela côr, pelo capricho das volutas petalares, exquisitas nuances de tecido, e caricioso setim dos ninhos interiores, descerrados como escrinios de duqueza ao peso das gottas d’agua que a manhã, boa amiga, lhes chorára no seio ao passar. As escarlates eram colossaes como dhalias, d’um funebre velludo se olhadas de través, com manchas de pellucia cereja destacando das convexidades á luz, e longinquos perfumes onde a narina se embotava e perdia. Uma graça aristocratica idealisava as amarellas, perfumadas de violeta e chá hysson, côr de gemma nos seios, e com petalas quebrando polyedro á volta dos estames, velados n’uma cupula trifoliar de pequeninas peças. E as brancas então, que virginaes!... Pareciam esgotar-se em esforços, ainda as mais abertas, para conservarem fórmas pudicas de botão. E retrahindo-se, tinham castidades de rapariga nua, que depois do banho, toda em perolas d’agua, contra si mesma se cerra, e defende e furta ao amor mythologico dos cysnes. No coração d’essas maravilhosas Ophelias, arfavam roseos tons de carne viva, ondulações molles de femea, e immaculadas frescuras de adolescencia loira, dirieis uma coquetterie de donzella ao apear no primeiro baile. Arthur ia cortar uma das brancas, quando o estudante detendo-lhe os dedos, disse bruscamente:
—Essa não. A outra escarlate é mais bonita, corta.
Mas Arthur preferia aquella branca, qualquer outra, não se importava, mas branca. Não havia de ir pela rua com um paspalhão côr de baeta na botoeira. Albano porem, insistia birrento:
—Corta uma amarella, dizia elle, leva duas mesmo, ess’outra vermelho-esmaiado, mas nas brancas não toques.
Arthur teimando a querer uma rosa branca, perguntava-lhe rindo:
—Trata-se de entretecer corôa mystica para alguma irmã hospitaleira da tua paixão? Mas que extraordinario scelerado!
Houve mesmo uma lucta entre os dois.
—Larga! implorava Albano. Tenho apenas seis rosas brancas. Uma que leves faz falta.
—Mas porque essa avareza?—E o esculptor a insistir, a não largar! Albano vencido, tomou-lhe o braço, mas sem deixar cortar a rosa. Era o cahir da tarde, foram conversando em direitura ás portas, já o sol amarellecia nas arvores.
—Homem, disse Albano, pondo o lenço em torno ao pé das suas preciosas flores, é que se dá uma coisa singular.
—Por exemplo? fez Arthur como quem se não deixará embair.
—Não me dirás, porque é que pondo nós hombro a hombro de todos os sêres que nos são uteis, um medico que lhes vigia os menores actos, desde que nascem até que morrem, não dispendemos eguaes cuidados no que toca á nossa propria conservação? Por mil sabios artificios de cruzamento e alimentação, chegamos a conglobar n’um cavallo as qualidades de força, elegancia, ligeireza e bravura, que separadamente faziam as caracteristicas de muitas castas diversas. Ha botanicos que se esgotam a procurar em flôres, em tuberculos e fructos, os effeitos de coloração e turgecencia mais inesperados. Conheces a lenda das tulipas azues, tens já visto peras de seis kilos, sabes d’aquella casta ingleza de bois quasi exclusivamente feitos de musculo, e não te são estranhas por certo essas maravilhosas aristocracias de cães, pombos viajantes e animaes ferozes convertidos á domesticidade, traduzindo o resultado de dezenas e mesmo centenas d’annos, da tenacidade e sciencia do homem.
Pois emquanto dos typos estancados, das fórmas envelhecidas, e da nutrição quasi morta, fazemos jorrar impetos de seiva nova, forjamos modêlos viris de raça, e nucleos de mundo capazes de viverem outra eternidade, nunca pensámos seriamente em restaurar, decrepitas gentes que somos, a pobre familia humana, pelo mesmo processo por que depuramos um cavallo, uma tulipa, ou crystallisamos artificialmente um diamante.
—Os elementos de ensaio tão passivos abaixo de nós, não offerecem a mesma docilidade no bicho homem, disse Arthur, e o estudante encolheu os hombros sem se importar com isso.
—Resulta que a depauperação dos sangues, a senilidade dos corpos, e envilecimento consequente de tudo aquillo que originava força, andam tão horrivelmente adiantados, que em breves seculos meia familia greco-latina ter-se-ha extinguido inteiramente. Por agora desapparecem familias e classes; mais tarde irão na voragem nações e povos inteiros, pela immobilidade das allianças e acção corrosiva das aptidões morbidas, que todos os dias engrossam de numero e violencia. Já olhaste bem Lisboa? Vale a pena como estudo de monstruosidade. Por cem mil habitantes, trezentas mil enfermidades, tres enfermidades por habitante. Velhas molestias do tempo das Conquistas, trazidas de todo o mundo em despojo de vassallagem, copulando ha quatro seculos através da nossa pobre raça, teem gerado uma tropa extravagante de males que pullulam com vida propria, divergindo conforme a cachexia do tronco que apodrentam, multiplicando-se, resistindo á therapeutica, disfarçando as suas operações, indo a degenerar por graus e descobrindo n’uma recahida, a guela hiante das baterias, dando cabo de nós com tanta elegancia, tão scientifica, tão precisa, tão artistica, tão mathematicamente, que achamos graça á partida, e ao carrasco sorrimos de gratidão, no ultimo alento.
Todos os annos esta aprazivel cidade brinda os seus habitantes com uma febre nova, e á similhança das publicações com gravuras, que distribuem chromos no fim dos volumes, anda ella preparando para d’aqui a tempos tambem, a sua febre colorida, venho a dizer amarella.
Em doenças nervosas, vê tu a inesgotavel variedade e a exhuberancia de padrões! É tudo que vae do tic nervoso, tão patusco, as convulsões macabras da eclampsia. O divertido é então approximar duas affecções pelos reophoros, isto é, um macho e uma femea, para depois ir estudando a incommensuravel progenie resultante. Conforme estatisticas, Lisboa tem hoje por este processo dez vezes mais doidos que pessoas de siso, e mais ha quem chame idiotia ao siso d’essas pessoas.
—Exige-se em resumo que o medico intervenha, vamos, disse Arthur que não tinha prestado attenção.
—Tal qual! affirmou o estudante. Hygiene em scena, para refazer o homem senil, couraçal-o n’uma energia d’aço, estriar-lhe musculos, engrossar-lhe os ossos, agigantar-lhe a estatura, e pôr-lhe o cerebro alli bem lucido. As exhuberancias da saude fal-o-hão moralmente grande, sagaz e leve, com o sentimento viril da honra, susceptibilidades no brio, benevolencias para os fracos, e olho vivo para descortinar ao longe os perigos. Emfim, hygiene, para garantir o futuro do mundo. Até aqui os governos tem posto cada miseravel que nasce, entre o padre e o cabo de policia. O padre faz d’elle um idiota e um cobarde—o cabo de policia reverte a coisa que fica n’um contribuinte. Precisamos mandar á tabúa o reverendo, e pôr a distancia o esbirro; depois do que, o medico dará o braço ao misero explorado, para lhe ensinar a ser um homem. Constituido em dictador, o medico crearia a phalange lacedemonica da Hellade, adaptada á vida moderna, prescrevendo aos fortes o programma d’educação de Gargantua, e pondo o resto em tratamento.
—Esse resto, por signal que te havia dar cuidados, disse Arthur bocejando.
—Não conseguiria talvez regenerar engoiados, mas havia de pôr embargos á propagação dos aleijões e contagio dos virus. Antes de lançar o que chamam tributo de sangue, a lei diz ao conscrito: despe-te! Eis o que eu faria tambem, antes de dar ingresso na vida social a qualquer trocatintas.
—Vago, disse o artista. Em conclusão, pareces-te diabolicamente com o menos fluente dos parlamentares que achincalhas. Escusas de proseguir, sei o que vaes dizer—e foi volubilmente arengando—que o problema era fazer sabios em hercules; d’ahi para cima não custava crear sociedades modêlos. Admittamos! Uma vez extremados os fracos dos fortes, creada a tal guarda lacedemonica com o seu espirito de casta assente na força e no saber, urgia só pôr de observação os sêres inferiores, para lhes extrahir pacientemente, as parcellas de utilidade que os desalmados tivessem a habilidade de dar. A vêr como? Vigiando de perto esse burgo suspeito, como a Judeia vigiava os leprosos. Fazendo essas entidades mortificadas voltar pela descendencia ás fórmas modêlos, que a hygiene houvesse imposto em craveira, antes de conferir diplomas de cidadão a alguem. Oh! dirias tu, nada mais simples de conseguir. A sciencia é muito explicita n’este ponto. E citarias apparatosamente. Se por um lado, os principios morbidos de dois sêres que procriam, vão multiplicar-se no feto e não sommar-se; por outro, os elementos morbidos de qualquer dos progenitores pouca preponderancia alcançarão na progenie, se o progenitor restante possuir em excesso perfeições, que por hereditariedade fossem capazes de neutralisar a doentia acção d’aquelles elementos. Seguir-se-hiam exemplos tirados de fontes insuspeitas e puras. Conta Chiara que M.elle X, 38 annos... O grande Perroud constata que n’um logar dos Alpes, um couple da melhor saude... E mais o doutor este, e alienistas, hygienistas, facultativos militares, um pandemonio de principes da medicina! Podias mesmo aproveitar de Balzac, trechos arrancados á Physiologia do Casamento, sobre o instincto da mulher procurar marido nos temperamentos oppostos ao seu, a sua habilidade genetica de corrigir nos filhos a saude dos paes, e certos vicios mesmo de conformatura, a menos que se não trate de qualidades exclusivas ao homem, como fórmas d’esqueleto, estreitura nas cadeiras, pernas direitas, força muscular, coragem... E para cortejo, sendo preciso, versos de Horacio espremidos no proposito de escorrerem fulminantes conceitos sobre os maus cruzamentos, nebulosas do Hamlet ditas a Ophelia no mesmo sentido, emfim a cavalgata de logares communs que os eruditos gostam de vêr piaffar nas memorias e conferencias.
—Bem bom! dizia Albano, bem bom!
—D’aqui, um mundo de leis a catalogar para uso dos vauriens do teu lazareto. Exemplos. Quanto germina, quer solo estrangeiro. Brada aos ceus propagar monstros, até as artes soffrem com isso. Assim, ordenarias pelas allianças, grandes transfusões de sangue primitivo, rutilante, fecundo em ímpetos. Angariar colonos nas boas raças estranhas e novas, magnificos escocezes de seis e sete pés, camponios do Wurtemberg, lombardos e tyrolezes filhos dos colossaes modêlos de Buonaroti e Bandinelli, e negralhões do Cabo, que tu affirmas serem brancos engraxados, por birra de fazer divergir, na fachada ao menos, a civilisação africana das mais. E punir de morte casamentos entre primos ou individuos com elemento anatomico do mesmo signal, já que de constituições identicas só brotam degenerados e monstros. Nervoso que desposasse nervosa, zás! cabeça fóra. Primo que aza arrastasse á prima, costa d’Africa com elle, não é verdade? Mas, notou Arthur com modulações comicas de phrase, palavra de honra que não vejo em tudo isto, coisa que justifique a tua ignobil avareza de rosas brancas para um velho amigo, que tem por essas maravilhosas flores uma fraqueza das mais irresistiveis. Calculaste mal, meu velho! A divagação de hygiene não deu para me engodares até casa, e eu não vou d’aqui com a lapella desmobilada. Uma rosa, vá!
—Meu pae, proseguiu tranquillamente o estudante parecendo não ter ouvido o que o esculptor dissera, era um nervoso de humor oscillante, cheio de feítios bizarros, susceptivel d’estomago, vivendo de palpitações bruscas, e com dias de não fallar a ninguem.
Confesso-te que me custava a soffrer ás vezes, pobre homem! Então repentes, um domingo rasgou o papel da sala, escarlate, porque diz que lhe estava a arrancar os olhos por dentro do craneo, e eram dôres horriveis. Superficies polidas, muito vastas, allucinavam-n’o, punha-se aos gritos, inteiriçado n’uma convulsão; e em cincoenta annos de vivo não foi senhor de correr a mão por velludo, que a syncope logo o não castigasse. Só a musica domava esses estados, cahia em somnolencias, lingua traçada, era atroz! Quanto a minha mãe, é a mulherzinha que tu sabes, semanas inteiras preoccupada com as mentiras lugubres dos jornaes, chorando o infortunio de toda a gataria dos visinhos, psalmejando rezas nos dias aziagos, e não comendo carne por ser crime matar animaesinhos de Deus. Accrescenta a isto irritabilidades e niquices do mais doloroso hysterismo, explicadas sempre pelo que a superstição tem de mais phantasmagorico no sacco; terás a pobre senhora! Ouve agora a descendencia d’este casal singular: entre a Judith e eu, viram a luz tres pimpolhos. Um que morreu á nascença; outro surdo-mudo, com uma cabeça medonha, esteve doze annos n’um grande berço de verga, até que se foi. Mas o terceiro está vivo e escorreito, e vae deitando um corpo! Por exemplo, fez dezeseis annos hoje. Vemol-o tres vezes por semana, pódes vir comnosco um dia, é aqui perto...
Estavam a meio da avenida Estephania, escurecera—e corriam terras de cada banda, alteando aqui, socavando alem, esfumadas n’um vapor sepulchral que o gaz estrellejava. Á esquerda, na planura que declina cingida em altos gradeamentos, como iam entrando na cidade, viram a mole do hospital Estephania boquiaberta de janellas, flambar por dentro a vida lugubre da enfermaria, como um Molloch punico, digerindo ao rubro algum sacrificio humano. Da direita era um muro de hospicio, fechando terrenos carcomidos, onde muito para lá, na impassivel sombra, um gigantesco dado dormia. N’isto vieram de lá grandes vozes de clamor, elles tinham-se parado a ouvir. Eram cantigas n’um tom destoado, arrastando-se, esguichando em uivos, rouquejos sanguisedentos, brados de gente que pede soccorro, e esse rir imitando o rir humano, sardonico mas inconsciente, que faz arripiar os cabellos. Arthur surprehendido, perguntou que seria.
—São as jaulas de Rilhafolles, disse Albano, é talvez meu irmão a festejar os dezoito. Deixei-o agitado hontem, o director mesmo fallou em lhe reprimir as vivacidades com um certo collete, que me parece ter grandes sympathias na casa. É a primeira vez que lh’o vestem. Nem admira, a gente está em uso de estreiar fato novo pelos anniversarios. Elle põe um bello collete. Bem bom! pobre rapaz, bem bom!
—Que? Está além doido? disse o outro.
—Sim, fez com uma affectação de indifferença o estudante; mas ha já tempos, tanto que nos acostumámos. O vaidoso persuadiu-se uma occasião que era el-rei D. Diniz, e ateimava que era, e partia tudo apesar de o acreditarmos; d’uma vez lá em casa, teve uma furia que ia estrangulando as mulherzinhas. De então para cá, essas convicções teem descido com o hospital. Agora imaginando-se milho, foge das gallinhas para não ser tragado. Mas cuido que as metempsicoses não param aqui, porque se declara amphora de vidro, chá preto, uma infinidade de coisas, conforme as luas. Ora não me chamarás orgulhoso, ouvindo da minha propria bocca que sou o filho mais bem conformado de meus paes. Olha bem p’ra mim, tens por amigo um velho de nascença. Quanto a minha irmã...—Arthur pozera-se pallido, e por seu lado Albano mirava cuidadosamente o esplendido ramo de rosas.
—Essa tem saude, ao menos, aventurou o esculptor.
—Saude! Terá; o certo é que fazemos prodigios todas as manhãs, para ella tomar uma chicara de leite e dois biscoitos. Porque nunca tem vontade de comer, nunca!—Mas logo, mas ao jantar, mas eu não posso, mas se me faz mal; um desespero, homem! A outra mulherzinha chora, e eu alli feito carrasco, para ella ter medo e almoçar. Hein? Se elles me vissem a metter pedacinhos de biscoito pelo bico do canario a dentro...
—Que ha de a gente fazer, disse Arthur.
—Sim, tornou Albano, toma-se amor a estas bagatellas, por mais que se não queira. A Judith, tu não imaginas, pesa tanto como uma penna. Depois seccuras sempre, noites de ficar anichada n’um capote meu, ao pé da mãe, com medos de tudo. E allucinações então, não se falla. Enfia altas horas pelo quarto da outra, por um estalo que ouviu no sobrado, os olhos do gato ás escuras, qualquer badalada na Estrella; precocidades, umas melancolias que eu nem sei... São os paes conspirando no sangue para darem com ella na cova, como acabaram com os outros!
E ahi está no que dão allianças degeneradas. Aquillo vae-se definhando, definhando, e verás que me morre um dia, ámanhã, sei lá, quando mal me descuide...
—Diabo, disse Arthur fazendo ares joviaes para lhe afastar os maus sonhos, estás lugubre como um cangalheiro. Sabes lá que vae succeder, sabes lá nada! Ora fallemos d’esse ramo de rosas que evitas como um escolho de palestra, e eu persisto em não largar. Desde que nos encontrámos, te fiz saber que não passaria sem uma grande rosa branca esta noite. Tens cinco minutos, vá!
—Ah, sim, as rosas, tornou o estudante. Aquillo é antes um insecto que uma rapariga, não queres saber? Vive de rosas.
—Todas as raparigas vivem de flôres, mais ou menos.
—Effeitos poeticos no caso! Com a differença que a Judith mastiga n’ellas, engole-as, suga-as com um deleite inexprimivel. É mesmo o unico prato para que não perdeu o appetite. Isto de pequenina; mas o vicio tem ido a crescer. Talvez lhe evitem hemoptyses, por isso lh’as deixo comer: tudo tem as suas compensações. Desde que está nubente, nos periodos criticos, sabes, certos dias de raleira, ou em tendo febre, aquillo torna-se n’uma sofreguidão feroz, uma voluptuosidade de larva horticola, e põe-se a devorar cabazes de rosas como uma esfomeada. Em casa fazemos provisões, deves ter notado. Por exemplo, nunca ficamos sem ellas de noite. É como quem sustenta um passaro. Mas custa caro esse luxo excentrico. Por vezes o mercado está exhausto. Immediações de bailes ricos, ou vesperas de dia santo, pedem um dinheirão por meia duzia de flôres fanadas. Então a mãe vem dizer-me: se fosses vêr os Fonsecas, eram velhos amigos de teu pae, inda assim não estejam doentes...
E ahi venho em peregrinagem á quinta do meu amigo do seculo passado, aturar-lhe as manias, ouvil-o sobre porcelanas, familia rosa, familia verde, as cinco côres de Ming, e revestiduras craquelées, e as cascas d’ovo, e potiches du Barry, e um labyrintho de classificações, de fôrmas extravagantes, de fabricas, de seculos e biographias de fabricantes celebres, de fazerem bocejar o mais authentico christão. Então pergunto pelas collecções de roseiras, fallo do tempo que faz, finjo interessar-me todo em coisas de jardim, aterro-me das bichas-cadellas comerem os pobres botõesinhos novos, digo especies ao acaso...—E a Judithzinha, quer saber a velha Fonseca, inda gosta muito de rosas?—Oh, sempre!—Fonseca, o teu braço, diz a boa matrona. Ouves? Inda gosta muito, pobre menina! Vá, mandemos-lhe um bom ramo, que fazem as rosas n’essas roseiras?—E os dois adeante, ajoujados como quando eram novos, borboleteando pelas ruas da quinta, parando em frente das roseiras mais raras, colhem, colhem.—Se eu tivesse uma filha! medita em voz alta a velha n’um suspiro esteril, e o Fonseca todo risonho vae-lhe dizendo que aguarde, tudo póde ser... Ella tem o seu riso doloroso de senhora só, e pondo-lhe no hombro, coquettemente ainda, a touquinha branca, muito florida de laços roxos, diz-lhe n’uma censura amigavel:—Promessas sempre tu tiveste. Mas só promessas, grande mau!—E trago de lá um soberbo braçado de rosas frescas, com muitos beijos e muitos recados para as mulherzinhas, chova ou vente, seja inverno ou seja verão. Que diabo, não te rirás, mas fico contente comigo, parece que ganhei o meu dia. A gente tem pieguices tambem, uma ou outra vez. Judith terá hoje uma bella ceia. Bem bom! Judith vae regalar-se por dois dias com as melhores rosas de Portugal. Até me ponho somitego, todas as rosas me parecem poucas para ella.—E pondo-lhe o ramo deante: vá, corta a tua rosa branca, a Judith é mesmo uma perdição que tem pelas brancas. Eu até faço experiencias. Quando ella fica uns dias sem rosas, appareço-lhe com uma no casaco, casualidade, assim como não tendo feito reparo. Nos primeiros momentos desvia os olhos, conversamos, vou-me demorando, porque assim, porque assado, e vejo-a erguel-os de repente sobre a flôr, scintillantes de gula; ora experimenta um dia! A palestra vae sobre mil coisas pueris, e ella agitada já, a não estar dois segundos no mesmo ponto, a piscar as palpebras com os primeiros symptomas d’uma fascinação quasi toxica. Quer então abalar desgostada, sabendo que estou alli para a vêr debater-se nos seus nervos, mas a rosa é mais forte que ella, muito mais, muito mais. E vem tocal-a com piparotes amaveis, vae, vem, anda á roda de mim borboleteando, a fingir que está bem, e a rosa lhe não deu mau olhado. Repara-lhe nos olhos, de coisas medonhas que dizem, voracidades, furias, todos irritados de fluido, lampejantes, dando punhaladas na flôr! Mas a rosa vence-a, pobre Judith, vence-a de todo, e vem tirar-m’a da casa subtilmente, põe-se a cortar-lhe as petalas ás dentadinhas: está prompta! Depois o paladar mais scientifico, um sentimento da equivalencia sensorial nos varios sentidos... Dás-lhe uma rosa ás escuras, ella mastiga-a, e diz-te logo a côr que era, o grupo que a flôr marcava n’alguma grande familia, tudo. Mas morre, verás, aquillo morre. Fortunas minhas! Nem de rosas se póde viver, que eu saiba.
Enfim, disse elle estendendo o ramo para Arthur, tira lá uma, tira.
—Não, fez o esculptor bruscamente.
—És tolo, gritou Albano, corta essa tal rosa branca, vão muitas aqui para a ceia d’ella.
—Palavra que não quero, insistiu Arthur. Era graça, gosto lá de flôres!
Albano teve um riso nos cantos da bocca, disse bem bom! bem bom! no entono de quem fica rosnando, e foram subindo a Alegria caminho de casa.
O esculptor marchava distrahido, um pouco atraz do companheiro, mãos nos bolsos, cachimbo apagado, absorto n’aquella doentia singularidade de Judith comer rosas, tão extraordinaria, ligeira, graciosa e poetica, que dirieis um episodio de lenda mystica, pintado por algum veneziano da edade gothica, em fundo de oiro byzantino.
Pela mente do artista alava-se essa vaporosa e singular creança, como o colibri mais ligeiro e a borboleta mais velludosa, na metamorphose do insecto que espaneja pedrarias das azas, e no perfume dos calices orvalha a bocca em sede.
Sob a algidez d’um raio de lua, vel-a-hia volitar de cabellos esmanchados pelos rosaes do paraiso, entre flocos de neve, levada no rythmo das walsas do Freyschutz, toda pallida n’um sudario luminoso, e com a belleza morta d’essa Mathilde que o Dante evoca trazendo flôres no regaço, dolorosa e vaga, nos tercetos do Purgatorio. Adejaria entre rosas, pousando os labios na viva caricia d’esses corações vegetaes, toda banhada n’um rosicler de pureza infinita. E a cada passo, bemfazejas e candidas, ondulariam flôres em saudações amorosas, supplicando a esmola d’ella as colher na passagem.
Junquilhos haviam talvez bordar-lhe grinaldas de noivado, na fimbria austera da tunica; lilazes e jasmins de neve viriam pelos seus cabellos rolar, na audacia de lhe sorverem os celestes perfumes; lirios brancos e palmas lhe brotariam do peito immaculado; humildes floritas viriam adoral-a á flôr das relvas, para morrer sob os seus pés, depois de lhe haverem beijado as frias mãos d’estatuela, admiraveis e brancas.
E esquecendo as mais flôres, sempre preferindo as rosas, indo por entre ellas n’uma via lactea de perfumes, e colhendo-as com dolencias musicas de gestos, para encher regaçadas, coroar a fronte, ou debical-as uma a uma, com a sua graça d’insecto, Judith iria atravez os interminaveis jardins da bemaventurança, serenamente, ligeiramente, transfigurada n’uma expressão divina de repouso, plastica e impalpavel a um tempo, no manso vôo espiritualisado e extatico d’uma Assumpção do Veronezo, sempre, sempre...
Entanto chegavam á porta do Albano, que disse ao esculptor para subir. Mas passava de nove horas, Arthur vinha um pouco fatigado, e separaram-se. Seguia o esculptor caminho de casa n’uma prostração doentia, cabisbaixo e lento, quando ao voltar da rua esbarrondou com um par amoroso, que ao rez das paredes, buscando o auxilio immoral das sombras, velejava cochichando no melhor aconchego.
Casualmente Arthur voltara-se, e pôde vêr uma grande dona de saias bufantes, em passo de carga, dando o braço a um louva-a-Deus de grenha espessa.
—Eh Flores! fez elle sobre o par que se ia escamugindo já por uma travessinha mais aphrodisiaca. Eh Flores!—E como o par fazia não ouvir, e Arthur necessitava de fallar ao ártista, foi-lhe na esteira com grandes brados—Eh Flores! Eh Flores!
Monteado por tão insolita maneira o jacobino fez alto, poz a dona n’um recanto, e veio parlamentar com o perseguidor, bastante mal humorado.
—Diabo, diabo! Que systema pessimo rebater as asserções d’um homem que vae espairecendo com sua dama um bocado. Que me quer vossê a estas horas?
—Quem vem a ser aquella nau?
—Que? Nau! Aquella é a grande Barbara de Loures, que vendo-se adorada por um homem das classes superiores, não pôde resistir-lhe.
E baixando a voz n’uma lascivia desordenada e surda: de encher a cama, c’um raio! Em eu as vendo de barba, hum! já sei—com’as castanhas, muito boas e muito quentes. Diz que só ajuntando-se... Mas ando a vêr se a atraco pela politica. Que a gaja é uma republicana escamadissima. Para embrulhos não quer senão o Facho. Ai, mas que carninhas!
—Pois é matriculal-a, disse Arthur.
—Hein? fez amigo Flores espinoteando, como beliscado no posterior das zonas medias.
—N’um club jacobino, está visto.
—Ando a pensar em servir-me d’ella para tornar os mercados republicanos. Isto, passada a lua de mel! fez elle com grande ostentação. Olhe que se angariam n’aquella Praça magnificos correligionarios, gente destemida, malta de pulso, arruaceiros! Entre as mulheres sobretudo. Porque as mulheres são uma força desaproveitada, já ousei dizel-o no famoso comicio de 24! Ellas muito serviçaes, muito sinceras! e nas bernardas, olhe que não sei! Em summa, Alcantara com dois ou tres clubs de femeaço, dá brado. Se tal metto em cabeça á grande Barbara, ella por um lado, eu por outro, e não dou á caranguejola do throno um mez para se mandar mudar. Que eu tive já esta ideia para creadas de servir. Mas vossê sabe, a municipal incute-lhes respeito ás instituições. Emquanto estiver a guarda, podemos contar que a creada de servir é pela monarchia.—E circumvagando olhares desconfiados, poz-se mysteriosamente a dizer que o não largavam, malandros! não era senhor de fazer um passo na rua.
—Mas quem? perguntou Arthur.
—A policia, homem! Como lhes faço medo, mandam-me guardar á vista. Erros do paço. Pois vou-me. Não sabem elles que a obra da revolução é fatal como a das tempestades. Até sempre. Marcha-se porque se marcha; é boa essa!
—Espere cá, espere cá, disse Arthur que não tinha podido sustar-lhe a verborrhêa de Quixote vingador. Preciso de vossê, appareça de manhã. Quero sessenta roseiras do melhor, custe o que custar. Pés com flôr, o mais vigoroso que houver. Ámanhã sem falta então. Conhece vossê quem venda?
—Eu não, mas a grande Barbara deve ter noticia d’esse ramo de commercio. Não gosto de rebater asserções de ninguem, mas é muito, sessenta roseiras. Dará vossê baile?
—Não, dou de jantar a alguem, d’aqui por deante.
—Caspite, provaremos dos vinhos. Então casa armada? Se vossê faz gosto, pintamos-lhe frescos na casa de jantar. Alguma coisa no genero Pompeia, como se não conhece por cá.
—Não, não, disse Arthur. Só necessito as roseiras.
—Concedido. Adeusinho. Soube vossê da grande manifestação republicana do Mortalha e Onça em Caparica? Anda tudo ahi cheio, guarda reforçada. E o ministerio cae!
Imagine que eram os clubs todos, mais de trinta pessoas, tudo em grande burricada, com barretes phrygios e cannas verdes, cantando a Marselheza. O Trinta botou artigo de fundo. Ah, foi imponente! Ao jantar vieram felicitações dos democratas da Amora. D’esta vez o rei embarca! O meu discurso vem no Facho, vossê deve ter lido.
—Não li.
—Vossê não é homem que se instrua com jornaes. Indole molle. Faz mal. Eu cá, sempre na brecha!
—Olá! disse a matrona com grandes berros de impaciencia. Despachar, gentes.
—Adeusinho, que a dama desafina. E os malandros a rondarem-me os passos. Eu vos direi, tyrannos! clamou elle mostrando punhos ameaçadores ás esquinas desertas. Então de manhã. Eu indago das roseiras. Saudinha. E trate de me vêr aquelle discurso, homem. Vem no Facho de hontem, terceira pagina, ao alto da quarta columna. Lá verá asserções que ninguem póde rebater.—E foi-se a passos tragicos, com as abas do frac avoejando.
Em tres dias fez-se uma revolta em casa do esculptor. Veio terra vegetal para grandes canteiros talhados de redor das paredes, e em volta ás arvores; um jardineiro plantou com mão profusa as roseiras compradas a Campo d’Ourique, no Petit, ou remettidas pelo Loureiro do Porto. Ao mesmo tempo adquiria Arthur dois grandes volumes de floricultura, disposto a estudar a fundo o problema das rosas. Muitos exemplares que não cabiam no jardimzito, povoaram o atelier, alinhavam-se no corredor, e dir-se-hia velarem o somno do pobre rapaz, espreitando para dentro da alcova. A residencia então tomou um ar permanente de festa, onde os perfumes erravam de em torno ás estatuas, n’um mysterio nupcial que fazia inda mais triste o artista. Da janella, toda friorenta n’um chaile, Judith tinha assistido aos trabalhos, com uma sollicitude attenta e silenciosa. Albano não apparecia, por seu lado.
—Então faz-se agora jardineiro? disse ella quando uma noite o esculptor lhe trouxe o primeiro bouquet de rosas brancas. Elle balbuciou confuso o quer que fosse em explicação—que as manhãs eram longas, tinha agora pouco trabalho, era um meio de entreter tempo. Depois adorava as rosas. E aqui fez por exaltar-se, tivera predilecção por aquellas flôres desde pequeno. E como ella mordendo as petalas devagarinho, uma a uma, o mirava com os seus olhos attentos, Arthur cada vez mais escarlate balbuciou coisas vagas, e a voz perdeu-se-lhe. Essa vez fallaram pouco. A mamã dormitava no seu quarto, o irmão sahira para um leilão de livros.
Ella tinha uma roupa escura muito simples, cingida ao corpo e cahindo em pregas amplas, onde a brancura das mãos ficava luminosa apertando o bouquet. Pareceu-lhe mais alta, nunca elle a vira tão pallida, e d’um austero tom cahindo para rigido, quando se faziam silencios entre os dois. Puzera uma romeira branca collada ao pescoço n’um desenho monacal. E contou a Arthur que se sentira doente n’aquelles dias, um frio nos ossos, pequenas tosses que a fatigavam, de noite mesmo sonhara coisas funestas.
—Porque não veio cá? disse ella em queixume. Foram uns serões tão tristes!
—Outro dia larguei Albano tarde. Podia incommodar, não subi.
—Incommodar! fez ella com um modo admirado. E voltando á sua ideia negra contou d’umas borboletas sombrias, que a mamã vira entrar pela janella á noitinha. E o tempo mais frio, sempre nuvens, parece que tudo chora...
Ia comendo irresistivelmente as rosas, toda disfarçada e a medo, como uma creança que faz uma maldade.
Á porta da escada, quando Arthur já se ia embora, ella com modos acanhados disse que lhe queria pedir uma coisa, mas tinha vergonha, receava que elle se puzesse a rir.
—Oh não, disse o esculptor todo serio. Que é?
—Guarde este dinheiro, tornou Judith muito baixinho, guarde, foi d’umas rendas que fiz para o armazem. E entregou-lhe dez tostões—Agora oiça cá, é muito serio, sim, muito serio. Alli defronte ha uma capella, mande lá dizer duas missas, no altar de Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha; prometta, ande.
—Mas prometto.
—Diga ao padre que é por intenção d’uma pessoa doente, que necessita muito de viver. Diz, sim?
—Digo.
—Eu estarei na janella da sala rezando. Sabe rezar? perguntou ella ingenuamente.
—Meu Deus, ensinaram-me.
—Inda bem, Nossa Senhora ha de ouvil-o. Tudo o que eu fôr ganhando será para ella, coitadinha, que é pobre. E não diga a ninguem, nem á mamã, nem ao Albano.
—Posso saber, disse elle, por quem faz esses sacrificios?
—Nada, respondeu ella baixando a vista. Vae sendo velhinha a mamã, e depois Albano não vive senão com livros. Para lhes tratar da roupa com amor é preciso ser da familia. Uma estranha não quer senão que lhe paguem. Quem havia cuidar d’elles se eu morresse!
Aquella infantil preoccupação fez pena a Arthur, que lhe beijou respeitosamente as mãos, pela primeira vez.
—Gosta de mim? disse ella olhando-o de face com grandes olhos ingenuos, em quanto lhe prendia na casa uma d’aquellas rosas brancas do ramo.
—Mas muito, juro, muito!
—E foi por minha causa que mandou vir as roseiras?
—Não, não, palavra.
—Shut! foi tal. Albano deu a entender. Eu mesma adivinharia. Hemos sempre ser amigos, quer? Se Nossa Senhora fosse servida dar-me saude, quem sabe ainda... Mas sinto-me tão fraca, e o tempo muda, depois...
Fez com o polegar na ponta do queixo, o gesto d’uma coisa que se aniquila. E chorava. Foi como Arthur a viu em sonhos d’alli por deante. Todas as manhãs lhe mandava rosas em grandes corbeilles. Mas nunca mais aquella visão de flôr, que emmurchece e pende, se lhe apagou do espirito.
Por esse tempo de feito, Judith adoeceu. Havia uns mezes que ella andava pallida, com o bistre das olheiras mais fundo e mais largo, recolhimentos religiosos, certos langores de cabeça, uma tristeza nos dias de frio. Á noite, Arthur vinha lêr alguma coisa, fallar do que corria, e saber como estavam. Via-lhe sempre um riso de esmalte amoravel, os cabellos enrolando muito baixos, no occiput, em duas rosaceas de oiro baço, um bocado de pescoço flaccido, e essa pallidez de mãos, cerosa e diaphana, que põe em cuidados os medicos. Como symptoma inquietante, nada. Nem dôr, nem prurido, nem ardencias de febre. Uma fraqueza crescente, um emmagrecimento sem causa, fastios, e em certos dias, cansaço. Consultado pelo artista, Albano ficou calado—e pela primeira vez não rematou com o bem bom! do estribilho.
N’esse calvo gasto de toda a emoção, envelhecido antes de feito, com postiças indifferenças pela familia, cynismos de philosopho e superioridades de sabio, via Arthur surdamente ir-se mostrando a alma mais affectuosa, á medida que Judith desfallecia. Elle que até alli tratára a irmã como uma cadellinha de collo, correndo uma vez por outra a sua velha mão pelos cabellos d’ella, com benevolencias de pedagogo e sobrancerias de senhor, descia agora do seu sotão de anachoreta nos entre-actos dos livros, com a rabeca debaixo do braço, calva pensativa, e os myopes olhos perscrutando atraz dos oculos fixos. E alli sentado aos pés d’ella com um ar de artificial expansão, tocava-lhe os bocados de que Judith mais gostava, Schubert, Massenet ou Haydn, em cuja musica ha tremulinas de lua no azul dithyrambico dos lagos, por onde arfa a neve dos cysnes, em tapeçarias de nenuphares. A Célèbre Rêverie fazia-a chorar, assim como uma queixa de creança abandonada, por um caminho que mergulha nos bosques, sinuoso, e se perde em subsolos de floresta—e a voz esmorecendo a distancia, na noite, no desamparo, na fome... A espaços, inda ella chora na aura que faz ondular a herva dos descampados. É um dulcissimo e vago suspiro, uma supplica de alguem que embalde esmola por esses montes á chuva, á procura de cabana onde passar a noite, d’um ninho de ave onde dormir, da saccola do velho mendigo ao menos, para repousar a cabeça...
E a meio da clareira onde a chuva bate, lá longe, reunindo forças que a desamparam, inda o anjinho implora, e chama, e soluça. O vento leva o rumor d’essa voz que esvaece, repetindo manso, de mansinho, a supplica, tresvairada pela febre na oração!
—Oh cala-te! fazes-me mal! dizia ella detendo-lhe o arco inspirado. E em redor todos calados, deixavam errar a imaginação nas brumas pallidas do sonho, soffrendo em commum d’esses presentimentos cujo phantastico é rhembrantesco, como nas noites de Walpurgis. Albano para distrahil-a tocava-lhe então coisas vivas e alegres, walsas, coplas, bailados meyerbeereanos—o dos patinadores, no Propheta, onde os grupos vão por turbilhões n’um impeto de vida brutal, sob a neve, á luz dos fachos; a bacchanal do Roberto que uma lascivia quente penetra, entre murmurios de beijos e o espumar das taças; e essa deliciosa walsa das wilis do Hamlet, quando Ophelia vem louca, coroada de flôres e vestida de branco, musica tão volatil, tão sentida e tão doce, que a orchestra entrecorta de rumores de agua e echos fluctuantes da campina.
Judith conhecia a sorte das mulheres n’essas operas celebres; quasi todas morriam de amor, abandonadas, violadas, incomprehendidas. E por alegre que fosse o trecho tocado, na sua mente os vultos lendarios corriam de mãos em cruz e olhos vazios, evaporados do marmore romantico das sepulturas. Por outro lado, ella não podia passar sem ouvir o irmão, por uma hora ou duas. Distrahia-se ao menos assim, era como se fosse uma soirée. E deitada na marqueza com a nuca sobre as mãos, um papa abafando-lhe os pés, ficava assim muito tempo, muda, com o espirito longe, e immovel como adormecida. Para a contentar, Albano revolvia o reportorio classico, gavotes de Lurli, poemas ingenuos de Gery, certas sonatas faceis de Beethoven, o Mendelssohn menos complicado, e esse menuete de Boccherini d’uma tessitura galanteadora e aerea, que diz a vida de salão no seculo dezoito, e ella nunca se cançava de ouvir. A musica amansava ao mesmo tempo o esculptor, regularisando-lhe as descargas dos nervos, mostrando-lhe os lados dôces e feminis da vida, dando o poema de cada impressão, de cada côr e cada sêr, sagrando tudo, as arvores antigas como deuses e altas como monumentos, as paixões nobres do homem, todos os infinitamente pequenos do amor e da bondade universal. E Judith sempre mais fraca que no dia anterior, com a exquisita melancolia virginal dos anjos doentes, olhos cheios de ceu, e a graça hysterica de um sangue pobre. Uma manhã não pôde erguer-se. Albano vestiu-a, tomou-a no collo como uma creança, e dôcemente veio sentar-se com ella ao pé da vidraça. Piscava os olhos vermelhos, tufados, com um tic nervoso de palpebras, careca desolada, fingindo humor feliz, como se nada em casa houvesse de inspirar cuidados; e dizia muitas vezes—Bem bom! Bem bom! Mas a sua voz tremia com um degelo de lagrimas na guela; e deitada no hombro d’elle, Judith fitava-o com esses olhos inquisidores na fixidez d’uma ideia negra, constellados, profundos e crueis, de enferma que vem de lêr uma sentença na face do medico. O tempo arrefecia, iam nos ceus galopadas de nuvens, grandes chuveiros nos longes, dias pardos, as primeiras severidades luctuosas do outono.
Vortilhões de nevoa afogavam de manhã toda a paizagem de construcções esboçadas e bairros por terra, como esfumaçando dos tectos n’algum vasto incendio de cidadella. Essa fumarada crayonava nos seus ventres de monstro, escadas de Rembrandt d’uma profundeza insondavel, boqueirões que mastigavam com as suas maxillas tenebrosas, flammejantes linguas que vinham sobre os tectos lamber alguma presa estranha, membros destroncados que rolavam em explosões de minas pre-historicas.—E confundindo os cimos na formidavel confusão da abobada, iam-se franjando em rendas de tom alvacento, insculpiam trevos de ogiva barbara, columnellos, e escadarias com grandes mendigos encapuchados na sombra. A espaços, algum feixe de sol amarellentava essa betuminosa e lugubre architectura, campindo fundos d’apotheose murillana, nos truculentos ceus, onde o azul raro abria a sua elysea flôr de colorido.
No quintal de Arthur, os platanos choravam dos ramos, folhas doentias, na aggressão do vento—e desnudando os troncos dolorosos, dir-se-hiam esqueletos despegando dos membros farrapos de sudario ou de pelle. Uma regressão de seivas ia por jardins e alamedas, na melancolia torporosa dos primeiros frios. E ella ia-se devagarinho, quasi sem febre, o menor escarro de sangue, resvalando serenamente pelo mal como por um tapete de flôres. Apenas uma pequena tosse secca a fatigava muito, cavando-lhe as feições a duras enxadadas. Arthur vinha sempre, tendo agora com ella liberdades de irmão e velho amigo. Fallavam pouco.
Ella cansava, a voz ia-se-lhe sumindo como um fio de agua, nas profundezas do peito. E de mãos dadas olhavam-se os dois, n’uma quietação, como babies. Ás vezes, raras, ella sorria, os seus olhos ganhavam lucidez como condensando a vida toda d’esse corpo franzino, e ficavam assim. Viera a maldita insomnia, uma inquietação, zumbidos. E as noites eternas torturavam-na, sem uns pobres minutos ao menos, de repouso.
Albano e o esculptor repartiram então entre si o tempo de vela, porque a pobre mamã velha e doente, não tinha mais forças para noites perdidas. Atrozes, essas noites sem conto, gastas a procurar posição de repouso, e successivamente alagadas em suores debilitantes. Raras vezes a tosse lhe permittia dormitar momentos, voltava-se para um lado e para outro, pedia rumas de travesseiros para logo os repellir com fadiga—e uma oppressão no peito, um ralo interior, um dolorir de membros, que lhe faziam insupportaveis certas horas. Pela madrugada, em o ar indo a regelar, a tossinha redobrava, teimava, insistia por horas, horas, horas, até dar com ella para a banda sem accordo, asphyxiada e rôxa. Então sobrevinham terrores, desvairamentos, hesitações. Jesus, se estaria morta! E no silencio da casa, elles olhavam-se com desesperos mudos. Albano applicava sinapismos, punha-lhe aos labios aguas aromaticas com ether, auscultava-a por todos os lados, ou ia-lhe procurando as pulsações com os olhos sobre o relogio de segundos. Ainda não! Ella respira. E sorviam o ar com ruidos freneticos. Arthur ia logo accender sua lampada d’alcool para amornar um caldo. Ao largo a manhã bocejava n’um tedio nevoento e frigido; ruidos de carroças sacudindo ferragens, operarios que partiam, mugidos de vaccas e pregões vagos, punham em volta da pobre gente afflicta, vidas áparte, egoistas, explorando-se com raivas subterraneas, sem fazerem reparo n’aquella agonia de terceiro andar. Ao meio dia, em tempo de sol, se acaso a sentiam mais reanimada, e tinha mastigado o beef ou tomára bem a colher de Madeira, a mamã vestia-a com grandes precauções de flanellas, enrolavam-na em chailes para a sentar ao pé da janella, n’uma velha poltrona em coiro verde, da casa de jantar. Albano e Arthur disputavam-se o encargo de lhe pegarem ao collo, da alcova para a janella, da janella para a alcova, o que fazia sorrir a boquinha desbotada de Judith. Tomando-a nos braços, cada um d’elles nunca deixava de a sentir mais leve que no dia anterior, por mais que fizesse por se illudir. Albano trouxera um clinico celebre da Escóla, que por amor do estudante todos os dias vinha com o seu bom riso d’esperança, resuscitar a enferma, que aljofrava no riso pallido a mais admiravel resignação. Se alguma coisa parecia dar-lhe pena, era que se affligissem tanto por ella. Agradecia em effusões excessivas o menor serviço que lhe rendiam, tudo achando bom, e sempre a dizer que não precisava de coisa alguma. Pequenas vaidades comtudo, ainda vinham como ephemeras margaritas, á flôr d’essa existencia de sylpho que se evaporava, gotta agora, gotta logo, imperceptivelmente, como um perfume raro. Sempre fôra um dos requintes penetrantes da sua preoccupação feminina, ter mãos de rainha ou de santa, com unhas esmaltadas de opala. E mirando agora a transparencia dos seus dedinhos mirrados, com vagos tons d’azul na raiz das unhas, o momo do labio maguava-se todo. Espiralitas rebeldes soltas da coifa, vinham de manhã nimbar-lhe em oiro o marfim da testa. E torcendo-as contra a luz, ella deixava vêr lenitivos de momento, e como um secreto orgulho na face murcha de soffrer. Mas cada vez perdia mais o gosto das côres claras, branco, côr de rosa, violeta pallido, fazendo na escolha dos vestidos severidades de viuva e de velha. A vista d’um chapeu, d’uma visite, qualquer vestuario de sahir, atravessavam-na de melancolias lividas—começava talvez dentro d’ella a horrivel saudade da vida alegre, luminosa, cheia de replicas e luvas frescas, das raparigas sadias e casadoiras, receios indefinidos de nunca mais vir á janella por seu pé, e essa nostalgia insondavel dos que vão morrer na flôr dos annos, nostalgia das velhas affeições queridas, do bom sol de inverno, das grandes arvores seculares, da mocidade dos outros, do amor, das aguas que se espelham, gorgeios de creanças, e da terra inteira e vigorosa—que embrutece a dôr, e Deus sabe se vae impulsionar com desesperos sinistros a chimica tragica das sepulturas. Por ventura a ideia de morrer lhe tinha acudido n’aquellas desfallencias de noites brancas, em que esphacelada de tosse, ella mesma se illudia, assim imaginando afugentar a morte. Tanto que dizia sempre estar melhor, fallava em residir uns dias na quinta dos Fonsecas, em mudando o tempo. Só d’uma vez, contando-lhe Arthur como se desempenhára das missas na capella defronte, por intenção d’ella, como estivesse esse dia peior, lhe ouviram ambiguamente dizer com uma voz abafada e tremula:
—Tem de ser, paciencia!
Os seus olhos tornavam-se enormes, inquietos, quasi ardentes, perscrutando as faces e gestos de todos. Recrudesciam-lhe cuidados pelos outros, a mamã que não comia, Albano que não socegava de noite, o Arthur sempre concentrado; depois eram as gavetas todas desarrumadas talvez, roupa que se ia accumulando de semanas, e ella a não poder costurar, Jesus! o irmão com falta de camizas engommadas. Mas ia levantar-se, andar, ter forças um d’estes dias, não era verdade? Já não deixava a cama, e nem suster podia a pobre cabecita de passaro. Voltavam-lhe fervores de monja por toda a côrte dos ceus, paixões da musica séria, grave, triste, que permuta confidencias de sêr para sêr, e em cuja secreta essencia a alma se banha, para despertar em mundos translucidos de reminiscencias divinas e indefinidas imagens, resolver a dôr pelas lagrimas, e impôr os grandes sacrificios na vida, sem rebellião nem blasphemia. N’este irresoluto spasmo de espirito bruxoleante, ella ia d’um a outro bocado sem coherencia nem logica, querendo apenas pela vibração, traduzido o estranho cosmos interior, que instantaneamente lhe chegava e instantaneamente partia. Embalde o estudante lhe evitava os dolorosos, os convulsivos, os doentios, os sem esperança—Chopin que parece ter escripto sob o inferno d’uma chaga por todo o corpo, excruciado em torturas freneticas; Massenet o poeta das emoções indefiniveis; Beethoven mysterioso como o mar, terrivel e dôce como elle; e os outros, Gounod, Berlioz, Widor, Schumann... Mas eram esses que ella pedia a toda a hora, estendida no seu leito de cassas immaculadas, entre rosas que esfolhavam meio comidas por esses vagarosos dentinhos, mãos em cruz como certas estatuas de mausoleu, o espirito errante. Ao anoitecer punham a lamparina longe, a um canto da alcova, uma penumbra morna ondulava tufando impalpaveis fórmas de mil coisas evocadas; e era quando Judith gostava mais de ouvir o irmão.
Na dubia e calma atmosphera, a musica equiparava todos esses organismos, polarisando-lhes a emoção n’uma mesma corrente de gostos e affinidade de devaneios. Aos gestos d’esse arco requintado, debandavam os allegros como pombas que vindo beber n’uma urna tumular de creança, partissem levando no bico ultimas lagrimas de mãe n’ella choradas. Esboçavam os scherzos fugacidades de cherubins em marcha do ceu á terra, n’uma grande espira biblica, com stalactites d’iris e revoadas d’espiritos santos, entre os threnos das cytharas e chuveiros de rosas mysticas. Por intervallos, suspensões faziam a alma indecisa recuar, reflectir, sacudir as plumas, tomar folego. E em meio da longinqua harmonia quebradiça, serena, carinhosa, supplicante, retinia subitamente um grito. Então os prestos desemboscavam-se, sahiam d’agua para algum sabbat n’uma flecha de lua, faziam-se e desfaziam-se, perseguindo-se, beijando-se, voando em pares por baixo das folhagens multiplas de arecas e nogaes perfumosos, vergando aos circulos como nos corpos de baile, pousando em grupos dissolventes, balanceando-se em grinaldas de flôres por cima dos murmurios da agua, ou ficando a rezar o motivo baixinho.
—Meu Deus, Judith, tu dormes, minha filha?
—Não, mamã, estava a pensar, vês tu, que é tão bom viver!
Albano nada dizia com medo de se ouvir; Arthur tinha receios de perguntar. Depois, era evidente. Começava a romagem dos tisicos n’essas frias manhãs côr de teia d’aranha e folhas mortas, em que a cidade vae pagando ao cemiterio o seu tributo de cem virgens. Na face de Judith, dos malares ao queixo, um claro-escuro projectado na pallidez fazia-lhe a masque rigida e severa.
Para mais, tudo acabrunhava o pesadêlo funebre; dir-se-hia ganharem as coisas de roda, physionomias crueis e implacaveis caracteres. Qualquer agouro caseiro de que Albano sempre se rira, deixava-o pensativo ás vezes, realisado agora. Alta noite, a calada do predio apavorava pela glacial enormidade, fazendo um enorme rir de caraça, baixo, vazio, sardonico; a pendula da casa de jantar irritava-lhe os nervos; lentos chuveiros iam rolando na terra negra, como prantos por vestidos de lucto; e nos descampados da Avenida, os uivos lamentosos dos cães noctambulos, pediam á cidade arquejante no seu somno de vicio, como pobres jaus, esmolas de corpos para matar a fome aos cemiterios. Aggressões em tudo. Se Judith passava pelo somno, os relogios davam horas muito alto, para ella despertar. Estalava o sobrado, quando punham mil precauções em pisal-o. Repetidas soirées com piano e canto até de manhã, na visinhança; gatos cabriolando n’um esbanjamento de prazer, por essas casas; e a mamã apavorada, bradando no meio d’um sonho tenebroso—Jesus, minha filha morreu!
Por vezes tudo parecia um pesadêlo transitorio. Ella podia lá morrer! Morre-se lá com dezeseis annos! A natureza tem necessidade de corrigir por estes modêlos de innocencia e intangivel doçura como Judith, maus rebentos que produz e cadeias de monstros que deixa propagar, sem piedade nem consciencia. E argumentos dos livros. Os organismos novos arrancam dos proprios seios extraordinarias forças de reacção, com que se defendem dos males que os assaltam, até os deixar varados no campo.
Coisa alguma nasce sem um destino e um fim, Arthur, pois não é verdade? Vem ao mundo a mulher para mãe. Logo, Judith não podia morrer ainda. De repente cahiam em si desconhecendo-se, a si mesmos perguntando desde que tempo podera amassar-se-lhes dentro tanta fragilidade, tanta estupidez incoherente, tanta miseria. Cada um d’elles a occultas do outro, punha a sorte de Judith em loteria.
—Se emquanto fôr por esta rua, nenhum cão ladrar, ella melhorará, dizia Arthur apressando o passo, n’um terror de ouvir signal desfavoravel. E se effectivamente ladravam, enraivecido, fazendo um gesto violento:
—Não vale! Não vale! dizia elle transtornado.
A voz de Judith baixava sempre, baixava, cahia o pulso, a tosse era mal um suspiro.
—Por estes dias... dissera o velho pratico, e Albano tinha entrado a rir lugubremente.
—Ora adeus! Póde lá ser! Por estes dias!
Estava essa vez a manhã mais deliciosa, picada de friositos confortantes, nem a primeira nuvem, toda a cidade fumava, e flechas de sol embutiam jerogliphos n’um vehemente ceu d’Andaluzia, e grande rumor de pregões, como houvera peixe...
Não, elles não consentiriam que a sua pobre amiguinha fosse para os covões da fria terra molhada, dura, surda, que rangia as mandibulas na escuridão, e se enroscava corroendo tudo, apodrecendo tudo, substituindo tudo, e d’envolta remexendo no mesmo cadinho d’alchimia torva, velhos ninhos e cadaveres, cabellos loiros e folhas seccas, ultimos risos e virginaes capellas.
Buscavam excitar-se, reanimar reciprocamente as masculas energias decahidas, com dizeres de que não criam uma só palavra. Ante a impotencia nos meios de reagir, vinham-lhes cobardias, transigencias graduaes em materia de fé, vacillações atrozes. Deus atravessava ás vezes essas cabeças desnorteadas, n’um fundo de nevoa sebastianica, carrancudo, com o sarcasmo feroz d’um tyranno que se vinga de o não terem acreditado em começo.
Elles n’uma vil duvida, tendo nos ouvidos a prophecia do clinico, por estes dias, por estes dias, por estes dias! contavam as horas que só restavam talvez, perguntando quando seria, appellando para alguem que tudo podesse, fosse quem fosse, Deus ou o demonio. E renegavam dos seus grandes principios d’outr’ora, hesitantes, será, não será? entreolhando-se n’uma d’essas angustias verdenegras, cobardes, mesquinhas, despreziveis, inevitaveis, humanas, que são a bilis do coração, profundamente amargas. Quando foi meio dia, por uma temperatura a mais amoravel, com abelhas zumbindo nas escapadas de sol, borboletas que arfavam, carruagens descendo dos bairros aristocraticos para a cidade commercial, raparigas que punham os ultimos pompadours claros, todo o mundo que se desentorpecia passeando, respirando, cantando, pareceu Judith sensivelmente melhor. Os seus olhos fizeram-se docemente humidos, sem esbrazeamentos de febre; nem uma suffocação de tosse; a voz mesmo subiu um pouco; e coisa que não fôra vista em toda aquella semana, teve um riso quasi feliz. Vinha o sol alegremente pela alcova, festival e fulvo; ella mirava as suas mãos diaphanas com enlevos de baby. Albano deu-lhe a colher de Madeira, uma grande pilula de carne, e tintas menos baças pareceram reflorir-lhe por transparencia na pelle. Aquillo deu vislumbres de esperança ao esculptor, que lhe poz junto dos labios, muito jovial, uma bella rosa branca, por milagre obtida já n’aquelle tempo, ultima talvez do anno. Porque nunca se veio a saber como o pobre rapaz tinha artes de arranjar o seu pequeno ramo todas as manhãs.
Passava de seis dias que Judith parecia haver esquecido as flôres, de entorpecida na mollidão da febre, por fórma que havia rosas por toda a parte, nos grandes jarrões do aparador, vergando por cachos no centro de mesa, ou murchas em cabazinhos por todos os cantos. Erravam assim no ambito perfumes fanados de egreja, recolhimentos de penitencia, e halitos tepidos d’oração.
Arthur veio encontrar Albano, que subira ao sotão para trazer a rabeca.
—Mas que vem a ser isto? dizia elle alvoroçado. Melhorou tanto!—E abraçava todo feliz o companheiro. Albano poz n’elle os olhos mortos, não fez senão dizer bem bom! umas poucas de vezes, e viram-se-lhe as lagrimas correndo a quatro e quatro.
—Estás agora piegas, tornou o esculptor cuidando que eram d’alegria. E desceram. Judith tinha querido vestir-se, mas fallava com os dentes cerrados e muito pouco, riso immovel, rolando os olhos n’um vagar quasi dramatico. Albano achou-lhe o pulso regularissimo; conservava-o entre os dedos contando, trinta e uma, trinta e duas, trinta e tres... Subitamente o grande silencio d’um relogio que pára. Judith sorria para todos. Como o irmão estava á cabeceira do leito, teve de virar a cabeça um quasi nada, e ainda o viu todo tremulo, encostado á parede. Mas o pulso recomeçára, trinta e quatro, trinta e cinco... E tão contente, a pobre velha mamã! Fôra Nossa Senhora da Penha, e mais o santo tal, e uma grande esmola que ella tinha deitado ás almas de S. Domingos. Quando estiveres melhor, querida filhinha, iremos aos Fonsecas n’um dia assim como este, em carruagem fechada.—Ia dizer surrateiramente ao ouvido de Albano, no vão da janella: parece-me que ella tem as pontas dos dedinhos frias. Se fechassemos as vidraças? Vae tu vêr.—E para Judith, carinhosamente: muda-se de vida, mal te ponhas boa, deixa isso cá por minha conta. Esse habito de não comeres ás horas, não dormires com medo de tudo, e nunca dares um passo fóra de casa, não póde ser salutar a ninguem, o doutor m’o disse: muito menos a ti que és tão debil, querida filhinha. Bem t’o recommendava eu; nunca querias attender, cabecita ôca!—Mil planos então successivamente, se retalhavam e abatiam na loquela feliz da pobre velhota, mudarem de casa, mandar fazer uma grande pelliça a Judith para o inverno proximo, e noites de theatro, e passeios, e tudo. Sorriam todos, Albano por comprazer dos mais, ceu e terra deslumbrados na fulva magnificencia do astro. Aos platanos d’Arthur, tinham subitamente voltado passaros chilreando n’esse ephemero bom tempo; repicavam sinos por todos os campanarios da cidade; salvas no largo azul-myosothis do rio, predios que embandeiravam içando pau de fileira, musicas dispersas de regimento, uma doce alegria de pombas voando de caramanchel em caramanchel e beira em beira. Vendo Judith tranquillamente na velha marqueza, mirando as suas mãos exangues, um pouco cheia de cara, e como preludiando convalescença proxima, Arthur mesmo sentia-se reconfortado, após tanta noite de maceração e vigilia. E dizendo que já vinha, foi a casa vêr se descançava um pouco. A mudez que Judith conservára, tinha-se rompido áquellas palavras. E dissera:
—Não se demore, n’uma voz que impressionou profundamente o esculptor, timbres de cabra, como se a emitisse o phonographo, e tão espaçada que dir-se-hia não lhe irem occorrendo logo as palavras.
—Ha-de ser fraqueza, disse Arthur, querendo por força que ella estivesse melhor.
Pela tarde, mais de quatro horas, estava elle no atelier, á espera que amigo Flores chegasse de casa do Albano, onde o mandára saber de Judith, quando o ártista appareceu.
—Então como está? disse o pobre rapaz muito pallido.
Amigo Flores sacudiu a juba onde fios brancos corriam, e respondeu:
—Já boa. Escusado ter lá ido. E a escada que é alta!...
O outro não entendeu, repetiu-lhe:
—Hein? Melhor?
—Já boa!
—Vossê manga comigo? gritou-lhe Arthur com violencia desmedida.
—Não rebata as minhas asserções. Morreu!
Arthur deu um rugido de leão espingardeado, atirou-se a elle com furias de doido, e pelos hombros derribou-o sobre um grande gesso do atelier.
—Morta, que? Morta? dizia elle a tremer, com o outro debaixo do joelho, as mãos crispadas errando, e um riso horrivel na bocca. Morta? Este canalha!...
Ia alcançal-o pelas guelas com a cabeça perdida de dôr, mas presentindo o lance, amigo Flores furtou-lhe o corpo de repente, e Arthur cahiu de bruços, desamparado, como se fôra morto.
—Diabo, diabo! fez o jacobino attonito. Fui-lhe rebater as asserções, era a pequena. Hum! Indole molle; pouco dará.
Quando sem chapeu n’essa noite, envelhecido e lugubre, Arthur veio para modelar o rosto e mãos de Judith, encontrou Albano assentado na cama onde a irmã estava morta. Ao lado, espedaçado n’um impeto de colera, via-se o Stradivarius que o pobre careca vibrava tão bem, sendo ella viva.
Elles viram-se e não trocaram palavra, minados por esse febril e medonho tedio, que vem na ultima noite aos enforcados. O egoismo sereno das fórmas em roda, infiltrava-lhes desprezos áridos por tudo, uma quisilia de vingança contra a cidade, d’ella não vestir o lucto que os imbecilisava a ambos.
A pancada do relogio na casa do jantar era tão nitida, tão viva, tão insupportavel, que Arthur desconcertado fez parar a pendula. Assim as horas iam sem elles saber, e aquella ultima noite foi tres vezes mais pequena. Sómente a bocados, do fundo da Estrella, vinha em dobres arquejantes aquelle tragico sino que fôra o pavor de Judith pela alta noite, no inverno, quando o rir dos ventos cortava a solidão de imprecações, e muito embrulhada no velho capote d’Albano, ella se ia anichar ao pé da mamã, rolando para todos os lados os seus bonitos olhos assustadiços. E esse velho phantasma agora lamentava-a como de longe, um gigante amoroso, encarcerado n’uma velha torre de menagem. Não sei que arzinho escapado por fendas, punha ondulações nas cortinas. Por cima dos moveis, na mesa do centro, ou esmagadas sobre as costas das cadeiras, peças de roupa abandonavam-se em attitudes vazias, enrodilhavam-se, cahiam, remexidas dos bahús por mãos convulsas, trazidas ao acaso sem luz, postas de parte, atiradas com desespero, e por fim esquecidas na ultima toilette de Judith. Um cangalheiro gordo, com a andaina preta esfiada de miseria, cabello em escova bordando cimalha por cima d’uma testa baixa, toda polida de gordura, viera tomar medidas para o caixão. Albano sem saber o que fazia, tinha empurrado o homem brutalmente, que se fosse embora quando não matava-o, e a gritar que não queria a sua irmã pisada, quando lhe deitassem a terra por cima da cova.
Estacado á porta da alcova, braços cahidos, collarinho sem botão, o collete abotoado ao acaso, Arthur viu de relance aquella desordem de gavetas abertas, a ultima chicara de caldo fria na beira do aparador, colheres pelo chão, a um canto o centro de mesa com pinhas de rosas esmorecendo sem agua no crystal do jarrão proeminente—e por tudo aquillo os seus olhos iam vitrosos d’imbecilidade. Um grande tule pendia n’um cabide, com vincos ainda da loja, cortes nitidos de tesoura na base; e por elle abaixo, com folhas de panno envernizado, grinaldas brancas desabrochando efflorencias de quinquilharia vulgar, n’um asco de tintas frescas ainda. Ao redor d’um crucifixo de pau, assustador, como esculptura, velas altas derretiam nos castiçaes da sala. Duas hospitaleiras com grandes rosarios badalando á cinta, andavam á roda bulindo, aconchegando as coisas de olhos baixos, psalmejando rezas lugubres em latim barbarengo. Elle via-as na sombra negra dos biocos, aborridas, resfolegando, bocejar muitas vezes com mau modo, emquanto as suas rezas seguiam de cór, n’uma lenga-lenga afadigosa. Mas entre a realidade e os seus olhos, um vago de bruma interpunha-se, fazendo-lhe vêr as coisas n’uma perspectiva remotissima. A morte de Judith surgia-lhe indefinida como n’um pesadêlo, sem maguas d’aresta viva, sem biographia, nem vehementes saudades inconsolaveis, sem lagrimas mesmo, descorrelacionada, confusa, como phosphorencia do cerebro doente. Era uma impressão de coisa passada n’outros tempos, com outras pessoas, n’outros logares. De quando em quando, as corbeilles em misulas nos vãos da casa de jantar, esfolhavam rosas silenciosamente, deixando folhas murchas irem cahindo n’um pranto humilde. E Arthur n’uma cadeira baixa considerava as pequeninas graças d’aquella doce amiga, como ella cortava as espinhas com os seus dentinhos brancos, vivacidades sedosas dos seus garços olhos que piscavam n’um fremito irrequieto, e todas as manhãs os seus bons dias chilreantes de trepadora. E apodrece para ahi n’esse desconforme cemiterio, calcada a pés juntos por coveiros ferozes e descarnados! Dez horas, onze horas, duas da manhã, tres, quatro...
Pôz-se a amassar gesso para a mascara, quando o viu plastico penetrou timidamente na camara e foi para o cadaver.
—Gostavas d’ella? perguntou o estudante n’um tom estupido. O esculptor fez com a cabeça que sim, e o outro ficou a vel-o applicar o gesso.
Sobre a colcha afogada em flôres, tochas á cabeceira, dormia ella vestida de noiva para os esponsaes da bemaventurança, o nariz afilando n’uma aresta fina como um gume. Cerrada com ancia, essa bocca dir-se-hia um sulco a buril. Quem teria coragem de viver sem ella n’este crapuloso e vil mundo, quem?
E como o esculptor comprimia certos pontos do rosto, os olhos, azas do nariz, as maçãs da face, todas as proeminencias e fossetas das feições, Albano n’uma ternura magoada, desviando-lhe o braço:
—Olha que isso faz doer, coitadinha!
Esta simples phrase fez que os olhares se encontrassem, medindo a horrivel desgraça; veio-lhes o mesmo brado d’aniquilação supplicante; e n’um choro de profundos soluços e grandes lagrimas que rolavam no branco setim da morta, abraçaram-se por cima do leito, e assim estiveram, por muito tempo, n’aquella postura. Uma das hospitaleiras, que tinha ido roendo pão e queijo que trouxera na mala, entre o livro de orações, unguentos, e um frasco com agua benta, foi para dizer baixinho alguma coisa ao estudante, que alheio a tudo nem a ouviu, e fez um gesto de hombros evasivo. Aquillo forçou a pobre mulher a ir ter com Arthur. Era uma anafada, minhota de fallas, mais velha que nova, com sua grande verruga no queixo. Pedia dinheiro para a agua de Labarraque. Arthur descollava a mascara de gesso ao tempo, e áquellas palavras os seus olhos cahiram sobre Judith, viram-lhe a face marbreada de roxo, tomando a expressão carrancuda d’uma mulher offendida. E teve os olhos longamente n’aquelle desmoronar. Por um canto dos beiços tufavam n’uma espuma viscosa, bolhas de gaz podre que punham ruidos de fervor. Já moscas se abatiam por dezenas no rebordo das palpebras e fendas do nariz, depondo larvas.
A irmã minhota de lado, desviando a outra que se pozera a dormitar:
—Já cheira.
Um calafrio alvorotou Arthur áquella horrivel palavra.
Só na parede, ao debil ondular das tochas, arfava a sombra deitada de Judith, n’uma tranquilla respiração, e dir-se-hia dormindo, tão placida, a virgem das rosas brancas!
Ainda hoje ouço dizer, que Arthur seria o mais extraordinario esculptor do seu tempo, se aquella morte subita o não desorienta no foco das suas grandes faculdades. Elle antes de tudo era uma cabeça fraca, que por uma indole singularmente recatada e hesitante, jámais ousara sasonar e polir as indomaveis paixões da sua alma. Como nos abandonados d’affectos desde o berço, aquelle primeiro amor de mulher alanceando-o no mais fogoso da edade, devia explosir por fórma a perturbar-lhe dentro o rythmo placido do coração e do cerebro.
O certo foi que mudou de residencia ao outro dia da morte de Judith, e Albano nunca mais o viu. Embalde o pobre careca o andou procurando por toda a banda, agora que tanto precisava d’aquelle grande irmão. Nunca mais o taberneiro do Bemformoso ouvira fallar d’elle, na brasserie quasi estava esquecido; as ruas deixaram de o vêr. Á mingua de melhor coisa onde matar tempo, Albano decidiu-se a acabar o curso. E esses annos que foram passando, tornaram o esculptor n’um singular personagem. Morto o idolo que soubera inspirar-lhe culto absorvente, o amor d’elle deformou-se, ampliou-se, derivou por excessos que o frenesi tornava assustadores, ou transfigurava-o o talento em prodigos d’arte ás vezes, como é uso nas gentes d’atelier, que amam sempre materialisar as mais fortes emoções. Elle não via nem fallava a ninguem; tinha tomado amor á aguardente, morava n’um arrabalde distante, todo curvado d’espinha e envelhecendo o mais depressa possivel. Amigo Flores, que alfim desposara a grande Barbara, nunca vinha áquella thebaida; o gallego avaro aposentara nos bucolismos da aldeia natal—e assim Arthur vivia miseravelmente, sem companhias, sem trabalho, sem amigos, sem fato, com uma juba feroz e uma barba intractavel, atormentado por não sei que estranho calor no cerebro, e escutando as grandes coleras desordenadas do coração revolto. O primeiro anno corrido sobre a morte de Judith, fôra para elle um d’esses terremotos de caracter mal forjado contra as asperidões da vida, que ao menor abalo esbeiçam fendas, por onde se vêem estrebuchar fraquezas e escorrer restos de crenças, lucta de paixão, hesitação, saudade e loucura, que a educação plastica do artista ia moldando lentamente, desesperadamente, em lucidos pedaços d’estatuaria. Ao cabo d’alguns mezes, quando já iam embotando as irritabilidades mais lancinantes da dôr, por fadiga dos centros de sensação, muitos detalhes finos d’essa divina figura de creança, escapavam á memoria d’Arthur, empallideciam, ou vinham-lhe apenas como esforço de reminiscencia, nas más horas de desconforto. Sómente as grandes linhas dramaticas da sua morte, relevos scenicos, attitudes que ella tomava, detalhes de perfil, um modo de inclinar a cabeça, certos timbres da sua voz melodica que elle ouvia de noite, ainda agora estando tudo tranquillo, ficaram-lhe para sempre na ideia, vehementes e nitidos, por sympathia ao ramo d’arte que professava. Dez vezes ou doze, com deseguaes intervallos, começara n’um bloco ou outro a estatua da mesma mulher em diversas posturas, e outras tantas o cinzel desalentado lhe cahira das mãos em meio da obra, na pavorosa desconfiança de estar profanando o divino ideal preconcebido, com facturas de mediocre nobreza.
No casinholo inhospito em que morava, esses esboços de marmore faziam por baixo da pedra a desbastar ainda, assombrosas tentativas de evasão, resurreição, de gritar por soccorro, como visagens por traz de espessos veus, medonhos arremedos d’angustia, estorsões dentro da lava solida que os constrangia: e no supplicio d’aquella immobilidade viva querendo cuspir entulhos da bocca n’um grito dilacerante, romper com os seus membros o atoleiro que a envolvel-os se petrificava todo, communicando a atroz sensação d’um soffrimento alarmante, tão magistralmente lançados esses primeiros golpes de grande esculptor. Era assim que de informes pedregulhos, rompiam admiraveis trechos acabados e vivos; braços invocando os ceus de mãos descarnadas; cabeças radiando suavidades esquivas, de nariz palpitante e bocca em supplica, tocadas talvez na visão paradisiaca do fra Angelico; busto d’uma impossivel delicadeza, sempre cingidos em romeiras de monacal desenho, onde pequeninas mãos apertavam rosas, surprehendentes e brancas, com pétalas finas como papel...—e para baixo o infame bloco impassivel soterrava o resto, desconforme, anguloso, hostil, brutal, como o tronco adusto soterra e termina a dryade na floresta sagrada da antiguidade. Estas tentativas de sceptico iniciando prodigios de cinzel para o sarcasmo de os pôr de banda logo, indo de obra prima em obra prima como um eterno descontente, no proposito de enraivecer a posteridade que o buscasse acaso n’uma obra completa, tudo achando mesquinho e pobre, e sem pretender da vida algum dos seus miseraveis triumphos, gloria, fortuna, estimulos ou emulos, faziam ellas só, toda uma arte estrondosa e moderna, cheia de singularidades e grandezas é certo, mas assignalavam no artista desconfortos de gigante e amarguras de vencido. Uma estatua seguia outra, e outra; e todas a alturas differentes eram postas de banda com teimosia colerica. Dias inteiros, mezes inteiros, levava no meio d’aquelles destroços d’olympo novo, sem fallar, sem trabalhar, exasperado de virgindade, consumido na chamma funebre do alcool, fazendo medonhos esforços para a reconstruir toda na ideia e parando onde se não lembrava, com medo de perverter a sua adoração de escravo, magro, revoltado, quasi faminto, com rosetas escandentes na face morta, e a bocca n’um rictus tragico de cariatide. A sua poderosa estatura curvava-se para a terra lentamente, aqui e além já lhe nevavam cabellos, a aguardente poz-se a agitar-lhe na allucinação que o ia invadindo, frageis phantasmas exhumados do passado—e via-a, fallava com ella, sentia as suas desgraças, deslumbrava-se na sua belleza, tinha com ella longos colloquios. Gargalhava pelas ruas sósinho, argumentando comsigo mesmo em voz alta; o fato cahia-lhe de miseria aos pedaços, deixou d’usar camisa, as suas botas cambavam. N’esse embrutecer cruel comtudo, lucidos espaços riam d’onde a onde; então n’um convergir de ultimos esforços, volvia aos ensaios, aos seus esboços, começava e recomeçava, modificando, inutilisando, com a ancia d’um naufrago e o desespero emphatico d’um rebelde.
Viam-se no atelier espalhados por duzias, como occupações d’esses curtos intervallos de razão, pares de mãos divinamente esculpidas, longos dedos, unhas de opala transparente, celestes delicadezas de toque, mas todos eguaes e como reproduzidos do mesmo modêlo raro. Ou copias sem numero d’uma mascara de gesso, soffredora e candida, que na parede, envolta em crepes, olhava pelo vazio das orbitas. Tal insistencia nos accessorios da mesma figura, exprimia o sentimento immutavel, mais remoto ou menos, da dôr. Era a arte d’um taciturno, immobilisando a imaginação do artista, mas crystallisando cada bocado em perfeições surprehendentes.
E Albano? Emfim como ultimo relampago, uma vez Arthur descobriu que acabara a estatua, ao fim de a haver começado doze vezes. Mas essa, que maravilha unica de genio! Desabrochava completa, estendendo os braços para invocar Deus, por um assombro d’equilibrio lançada na attitude de quem desprende vôos, desennovelando-se da base como uma labareda de sarça, em zig-zags aéreos. Esse phenomeno de estranha belleza, era ao mesmo tempo um prodigio d’audacia, palpitava, fallava, sentia-se soffrer e respirar como uma creatura.
Tinha uma simples roupa em longas pregas, a romeira cingida até á barba com austeridades claustraes, tranças meio enroladas ainda, soltando-se da nuca n’uma expressão espavorida e subitanea. E alli para um canto, acocorado por baixo d’uma juba de velho leão cahido, contemplou Arthur longamente a sua obra, com olhos extinctos onde pela derradeira vez passara um fogo subterraneo de cratera.
Pelas joelheiras laceradas, furavam os seus joelhos carcomidos, e a barba indomita de mendigo, espargia sobre os ossos do peito lugubres fios brancos, vestindo-lhe a nudez por uma especie de instinctivo pudor.
Ante o asceta miseravel, essa apparição de madona ascendia em escapadas de genio do seu pedestal floreteado, que representava um enorme bouquet das flores que Judith amara tanto. N’isto ouviu dizerem perto o nome d’ella.
Sem curiosidade voltou a cabeça, estava Albano ao pé d’elle devorando a estatua, maravilhado, attonito, imbecil.
—Ah, és tu, disse Arthur que se levantou n’um pulo, sem mostras d’alegria comtudo, vendo Albano correcto n’um vestuario de gentleman. Tens tabaco, por acaso?—Albano desviou a vista um momento, para procurar charutos nas algibeiras; então Arthur com um martello, fez a estatua em pedaços[1].
[1] São estes restos da mais assombrosa esculptura que tem visto o mundo, que soldados por agulhas de ferro, ornam hoje o tumulo de Judith, e mais todos os esboços, meias estatuas, fragmentos e ensaios, que por morte d’Arthur foram achados no atelier.