CANTO I.
Pois me pedes, ó Muza, instantemente,
Que emboque a Eroica tuba altisonante,
Que a cego Marte impele os peitos fortes;
Eu que sem forsas teu carater serio
Em versos graves sustentar naõ poso,
Revestido da lépida Talia
C'o a máscara atrevida, para ensaio
Cantarei o Varaõ famijerado,
Que de Baco na guerra com Neptuno
Arvorando do vinho os estandartes,
Depois de ser trovaõ, ser raio acezo,
Que espalhava terror no campo inteiro,
Victima infausta foi por fims de contas
Da vingansa cruel do Rei das aguas.
Axavase em tremendo consistorio
Com toda sua Corte o undozo Jove.
Nas intimas entranhas asoprado
Pela Raiva vorás o consumia
Um fogo abrazador: eraõ com ele
As furias de Acheronte, e os vastos mares
Ao som de sua vós mudos tremiaõ.
Quando depois de longos improperios
Com que a insana paixaõ dezabafára,
De sima do alto solio adamantino
Que sustentaõ seis Doricas colunas
De maculado marmore brilhante
Com bazes de oiro, e capiteis de prata,
Esta fala do peito amargurado
Soltou com grave acento aos seus Magnates.
Sempre eu, Vasalos nobres, de máo grado,
Com justa indignasaõ olhei bramando,
Que ouvese sobre a terra um petulante
Que ouzase de meu povo impunemente
Atacar os direitos mais antigos;
Pois sendo desde muito autorizadas
As nosas dôces aguas para entrarem
As umanas guelas, e os arcanos
Dos buxos penetrar dos omems grandes,
Oje a termos as vêdes reduzidas
De serem so de aprêso aos brutos rudes,
E a despeito de minha autoridade
Condenadas (oh dor!) das esterqueiras,
Das imundas alfujas, das cloacas
Á baixa vergonhoza lavadura.
Conterme já naõ poso; este atrevido
Provar do meu tridente as forsas deve.
Este atrevido he Baco: eu pois pertendo
Punir a sua audacia, guerrealo.
Naõ ade este invazor protervo, e altivo
Zombar ja mais de mim: torsese a verga
Em quanto naõ he tronco: uma faisca
Pasa a incendio vorás, se naõ se apaga.
Mas vós aconselhaime, que eu naõ quero
Que a paixaõ me alucine: o fim he este
Porque oje vos xamei: dos boms conselhos
Quazi sempre saõ filhos os acertos.
Bem como de um enxame susurrante
O inquieto zumbido, se ouve n'aula
O confuzo rumor dos Optimátes.
Escutaõse discursos encontrados,
Diferentes razoins, pensar diverso.
Nisto o Padre Oceano revestido
De Regia Magestade se levanta,
E abrazado em furôr desta arte rompe.
Qual será de vós outros, que arrojado
Se atreva a sustentar nesta asembleia,
Á face do seu Rei, de toda a Corte,
Que a meditada guerra naõ he justa?
Se aqui algum está, se enfatuado
Algum medir comigo as forsas tenta,
A campo saia; os ultimos alentos
C'os golpes da razaõ tirarlhe quero.
Quais mudos troncos Oceano vendo
Pasmados da asembleia os membros todos,
Com mais vivo calor prosegue irado.
Apague as negras axas acendidas
A severa Nemézis: ja naõ devem
Ser punidos os máos: ouzado tale
O iniquo uzurpador o campo alheio:
Perturbemse os direitos... Oh Justisa!
Oh Deuzes imortais!... Eu penso, ó Padre,
Que altercasaõ não sofre o teu projeto.
Deve a guerra fazerse, a guerra he justa.
Porem naõ será máo, reflexiono
Eu agora taõbem, que tu primeiro
Vejas se a boa pás quer antes Baco
Estas coizas compor, largando a pose
Dos direitos que audás nos uzurpára.
Por tanto uma Embaixada mandar deves
Expondolhe as razoins que te estimulão;
E no cazo que a pás ele naõ queira
A guerra se lhe intime em continente.
Asim dise, e aprazendo ao consistorio
Rezolvese Neptuno, e o Tritaõ xama.
Tritaõ que de ser filho se gloria
Do Rei, e da Salacia veneranda:
Mansebo tal, e qual, nem mais nem menos
Como o pinta Camoins no canto seisto.
Vai tu da minha parte ao Rei dos vinhos
Levar esta Embaixada, dis Neptuno;
Que o dezaforo vil sendo notorio
Com que da antiga pose as doces aguas
Esbulhadas tem sido por seus vinhos:
Que sendo esta irrupsaõ sobre dominios
De mim das aguas Rei, que sempre hei sido
Justo mantenedor de meus direitos;
A recta observasaõ do jus das jentes
Com vergonha infrinjida nesta parte,
Exije que taõ barbaras afrontas,
Por melhor se atalharem fims funestos,
Sejaõ severamente castigadas.
Mas que lembrado da clemencia inata
Com que as minhas asoins adornei sempre,
Perdoandolhe o mais, sómente quero,
Que enfreando do vinho a audacia suma,
De oje em diante perturbar naõ venha
Tranquilidades publicas; que a escolha
Em sua maõ está de pás, ou guerra.
Se guerra pois quizer, logo em meu nome
Entaõ a ferro, e sangue lha declara.
Atento o feio Moso esteve á fala,
E cortando lijeiro as altas ondas
Da grande Niza em fim surjiu na praia.
Aqui tres vezes a torcida conxa,
Que os gigantes na guerra amedrentára
Altamente tocou: do som terrivel
Feridas as montanhas se abalárão:
Tremeraõ da Cidade os abitantes;
E dando agudos guinxos, para os colos
Das mãis os filhos pavidos fujiraõ.
O nobre Fundador de susto cheio
C'o a estranheza do cazo, saber manda
O que he. Eis a Palacio conduzido
Por entre a multidão que concorria
Atonita, e turbada o Tritaõ chega.
A Embaixada repete, e carrancudo
Pela resposta taciturno aguarda.
O nobre Fundador da alegre Niza
Turbado um pouco esteve; mas sem medo
Ao Trombeta falou desta maneira.
Ja mais no que o teu Rei oje me argúe
Eu tenho consentido, sem que um uzo,
Um costume geral das Nasoins cultas
Com razaõ m'o abone: eu não pertendo
Defraudar cada um de seus direitos.
O costume fas lei: tenha Neptuno
O mesmo a seu favor, será contente.
Nem cuide ele talvês, que seus caprixos
Me faraõ aterrar: naõ sei ser fraco.
Amease, guerreie: eu inda o mesmo
Sou, o conquistador das Indias vastas.
He verdade que a pás em muito prézo;
Porem se haõ de perderse os meus direitos,
Ou a guerra aceitar, a guerra aceito.
Com esta decizaõ partindo torna
O filho de Neptuno aos Thetios campos.
A seu Pai a repete; o Velho brama,
E jura pela Stigie tenebroza
Com toda sua Corte respeitavel
Fazer perpetua guerra ao Rei soberbo.
Tocar manda a rebate; a Oceano imcumbe
O governo do exercito, tentando
Os vinhos atacar em toda a parte.
Com tudo porque sabe que entre os Luzos
Do inimigo poder o centro existe,
Aqui a mira poim, aqui rezolve
Fazer primeiro arder da guerra o fogo.