CANTO II.
Com um taõ importante rompimento
Revolvendo mil coizas na lembransa
Largos dias andou atrapalhado
Da infelice Semele o imberbe filho.
A pacifica inercia deleixada
Que em descanso puzera este Rei forte
O tinha desprovido. O sangue seco
Nas pasadas batalhas derramado
Se via inda nas lansas nas espadas
Ja da negra ferruje carcomidas.
Tinhaõ teias de aranha os peitos d'aso,
Eraõ ninhos de rato os capasetes.
Mas vendo dos aprestos a manobra
De seus adversarios, ganha o fogo
Que pela longa pás perdido avia.
Prestes pasa depois a fazer gente;
O imperio se revolve, e os vinheos povos
Á vós de seu Senhor ás armas velaõ.
Dobraõ-se sentinelas; os avizos
Voando se despedem; e he precizo
Ter de acordo na asaõ os mais famozos
Insignes Generais em cada Reino.
Daqui, bom Santareno, de teus dias
Comesou a estreitarse a larga teia.
Este o principio foi, estas as cauzas
Da tua nunca asás xorada perda.
Avia em Portugal um Xefe experto
Na sordida Coimbra acastelado:
Diziase Joze, mas poucas vezes,
Que o brado de seu nome mais notorio
Da terra lhe provinha aonde os lasos
De Himineu ternamente o tinhaõ prezo.
Contase que saindo n'outro tempo
Este novo Quixote aventureiro
Pelo mundo a ganhar glorioza fama
No serviso do Rei dos bravos vinhos,
E querendo a uma nova Dulcinea
O governo entregar de seus morgados,
Ja que a Parca cruel lhe avia feito
A vês primeira o tálamo dezerto;
Axára em Santarem uma Matrona
So digna de um Eroi, so digna dele.
Na linhaje do sangue descendia
D'onrados Campioins, d'Erois de pinga.
Inda nos altos porticos pendentes
Conservavaõ-se os ramos de loireiro
Sem ter interrupsaõ por brazoins d'armas,
Era ela bem talhada, o seu costado
Capás era da carga mais enorme.
Eraõ as suas faces dois prezuntos,
Seu garbo majestozo, o paso grave.
Tinha o traje mais simples, mais modesto
Das modestas matronas do seu tempo.
De baeta um jibaõ de longas abas
Lhe cobria a bojuda umanidade.
Dos grosos cotovelos lhe pendiaõ
Alarves punhos de groseira estopa.
Cingialhe em tres voltas ensebado
O carnudo caxaso um cordaõ d'oiro,
D'onde so nos Domingos pendurado
Se via um rocicler lonjevo, e vasto,
Que pela antiguidade que inculcava,
Nas ricas enxurradas do diluvio
Se asenta ser axado
in illo tempore
.
Namorouse o Varaõ, namorouse ela.
Uniraõse c'o vinculo sagrado,
E sendo sua Consorte Santarena
Quis taõbem Santareno apelidarse.
He pois precizo a este mandar ordems,
Baco perante si fás vir Cilenio,
E ufano asim lhe dis com rosto inteiro.
Eu tenho neste mundo um vasto imperio:
Meu nome em toda a parte, ou mais, ou menos
He venerado; mas na Luzitania
Tenho o pezo maior de minhas forsas.
Em Coimbra he o centro; ahi rezide
O Cabo principal de meus exercitos,
O insigne Santareno. Nestes termos
Desta guerra he forsozo darlhe parte.
Tu pois asim lhe dize: Que abalados
Do sopro da Discordia os Povos Áqueos
Nos tem guerra jurado, e alta vingansa:
Que cumpre rezistirlhes: boms soldados
Prezentar em campanha; e dar conserva
Ao uzo introduzido, á grata pose
De ser somente o vinho quem nas mezas
A sede satisfasa; porque he esta
A cauza principal de seus rancores.
Que eu dele a empreza fio; que entre os Luzos
Eu quero que ele só sustente a guerra.
Depois um giro faze, e aos meus Soldados
De toda a Luzitania que em Coimbra
Axarse devaõ logo intíma as ordems.
Dise, e partiu voando o mensajeiro,
Até que as pandas azas encolhendo,
Das letras, e das lamas sobre a Terra
Os talares pouzou bordados d'oiro.
Era dia d'Entrudo, e nas baiúcas
O sujo canjirão vazando as pipas
Aos freguezes enxia os grandes copos.
Avia um confuzisimo barulho:
Ferviaõ da janela as laranjadas:
Surriadas, apupos, algazarras,
Os esguixos, os pós, o rabo-leva
Tudo em dezordem poim. Vendo Cilenio
Extravagancias tais pasmado fica.
Pensa naõ de Coimbra ver os montes,
Sim da fertil Beocia o graõ Citéron
Retumbando medonho em noite d'Orgias.
Entaõ do incomparavel Santareno
Na surtida taverna entre a balburda
Da fumoza vinhasa ardia o fogo.
Mais meia canadinha
de uma parte
Caído o beiso, e os carregados olhos
A custo abrindo, c'uma vos fanhoza
Pedia um dos da corja amotinada.
D'outra parte fazendo uma carranca
Sobre tres azeitonas apostava
Outro que tal que xuparia um frasco.
Qual aos murros andava; qual seis copos
Tendo ja feito em cacos, com nos'ama
Ateimava furiozo em naõ pagarlhos.
Daqui aos encontroins ums vinhaõ vindo
Afétando de serios; esbarravaõ
Comsigo nas esquinas dali outros.
Mas o Filho de Maia cautelozo
Opurtuna monsaõ de entrar espreita.
Em fim axa uma aberta, lestes rompe,
Dá sinal, tem lisensa, á sala sobe,
E d'ambos os Espozos poinse á face,
Declaralhes quem he, de quem mandado,
E da sua Embaixada o fim precizo.
Sem saber o que fasaõ, largo espaso
Ficárão um e outro embasbacados.
Ele indo com as mãos logo á cabesa
Cosávase, e na sordida poltrona
Aflito
stare loco nesciebat
:
Ela está feito, la melhor compunha
O seu recado. Finalmente o tempo
Ja fazia dar oras ás barrigas,
E devia jantarse. A Liberdade
Entaõ dezempesando as linguas rudes
A terreiro os tirou, e mais ouzados
Entrárão a seu modo a perguntarlhe
Alegres sobre Baco muitas coizas,
Muitas sobre Sileno. Dos guizados
Da meza o xeiro ja neste comenos
Consolava os narizes circumstantes.
Pedida a taõ grande ospede lisensa
Subito se arregasa o Santareno,
E rogando o onráse, á cabeseira
Da bem provida meza, instanciozo
Para um pouco comer fes asentalo.
Ja no vidro dos pratos retiniaõ
Resaltadas da carne as trinxadelas.
(Podiaõse na gula encarnisados
Ver os gordos Consortes dando aos buxos
Tasalhos de prezunto tremendisimos!)
Mastigando apresados resmungavaõ,
E do ospede em onra mil saudes
Uma apos outra sem sesar faziaõ.
Mercurio da franqueza naõ pensada
O fausto aparatozo em tal albergue
Naõ podia admirar quanto era justo,
Porque alem das perguntas enfadonhas
A que cortês com présa respondia,
De um pouco reparar deixar naõ pôde
Nos vetustos paineis enfarruscados
Que adornavaõ em roda a estreita sala.
Em um deles se via inda no berso
Entregue a Ino o pequenino Baco
Tendo as Nimfas em torno, e juntamente
As Hiadas, e as Horas. Logo n'outro
Ja crescido plantava o bom bacelo,
Ja o campo baldio agricultava.
Viase mais n'um majestozo quadro
O severo rigor de seus castigos.
Estava de Licurgo o cazo infando;
Mas ja com negra côr, ja roto o pano.
Com tudo ao natural se devizava
Golpeando ele mesmo as pernas suas.
Aqui o filho de Echion Tebano
Pela sua familia enfurecida
Se via cruelmente espedasado.
Ali de Meduline o parricidio,
Mais abaixo Penthêo ás Furias dado.
Sobre tudo a fatal metamorfoze
Se admirava em leaõ fulvi-comado
Nos gigantes cevando ávida sanha.
Mas ja baixando o Sol, surgia a Noite.
Trata Mercurio de partirse prestes;
Dos gordos Santarenos se despede,
Que falando ambos juntos, em confuzo
So deixaõ perseber, que descansado
Seu Rei pode ficar, que em quanto aos brasos
O valor asistir, naõ aõde as Aguas
Como pensaõ, levar a sua avante.
E como ja nos cascos lhes fervia
Em violentos caxoins o ardente sumo
A cabesa fazendolhes pezada
Dar c'o a barba no peito, e sobre os olhos
Carregar importuno o grave sono,
Na mal mexida cama empanturrados
Ambos foraõ jazer como dois odres.
Dormirão toda a noite os boms Alarves
Rezupinos roncando a sono solto.
Eis lá sobre a manhan um se espreguisa,
E fazendo tres cruzes sobre a boca
Enormemente aberta o outro acorda.
Saõ oras, dis o Eroi roufenhamente,
Trazeime eses calsoins, daime ca a vestia.
Fora c'o a noite! ha muitos tempos nunca
Dormi noite pior! Tudo eraõ pulgas,
Tudo sonhos, em fim tudo Diabos,
Até, por mais sentir, a Mosazinha
No quarto me deixou fexado o gato,
Que toda a santa noite andou miando.
Eu naõ persenti nada, dis Madama,
Pois foi tal a quebreira, tal o sono,
Que bem podiaõ arrombar as portas,
E sem que eu dése fé. Bem, pois que queres,
O marido replíca, se tais sonhos
Eu tive, que por mais que quis pôr olho
Logo eles me espertavaõ: eu te conto.
Sonhei que estava eu na nosa quinta
Debaixo da nogueira ao pé da fonte
Sobre a relva dormindo a minha sésta:
Eis senaõ quando d'uma vala surde
Correndo em torcicolos uma cobra,
E me entra pela boca: aqui um pulo
Dei eu, naõ persebeste? Eu naõ, dis ela.
Pois dei um grande pulo, e depois diso
Um pouco despertando, em sonolencia
Fui tornando a cair. E sonhei muitas
Outras grandes desgrasas que me esquesem.
Tornou ela a dizer: iso he verdade
Ás vezes taõbem tenho tantos sonhos,
Que me fazem doer bem a cabêsa.
Porem vaite vestindo, anda deprésa
Se queres almosar, que ja he tempo.
Tais réplicas, e tréplicas pasadas
Em fim a muito custo pos se fora,
E na larga cadeira escarranxado
Asim dezalojando, á Mulher dise.
Ora sabes mui bem, Consorte amada,
O onrado avizo que tivemos ontem.
O noso Imperador axase aflito
C'o a guerra declarada por Neptuno.
Eu sou um de seus xefes; e a minh'alma
Aspira a coizas grandes. Desta sorte
Na dansa estou metido: vou agora
As ordems expedir que saõ precizas,
Fazer gente com forsa: paciencia!
Nós para trabalhar nascemos todos.
Dáme cá qualquer coiza; um lombo bonda
Bastaõ dois pains, duas canadas bastaõ.
Fes-se bem como um Padre, e muito fresco
Saiu a averiguar os seus negocios.