Aos pobres de Valença
Entrevados, paralyticos, cegos, escrofulosos, tisicos, hydropicos,
—Velhos, mulheres e creanças,
que sois o producto dos residuos—caput mortuum—da Humanidade e por ahi vos arrastaes, penosamente, aos sabbados, disputando, á dentada, o magro chabo que ás descarnadas mãos, em publico e notorio arrôto de rothschildica generosidade, vos arremessam os poderosos Cresus da nossa terra;
—miseros, que tivestes a desventura de ver a luz do dia coada pelas frestas da mansarda, quando esses mesmos atomos e moleculas a que deveis a vida, atrazando-se, ou adeantando-se no seu labutar constante, podiam gerar-vos entre arminhos e flôres, entre aromas e caricias;
—precitos, que dormitaes, tiritando e gemendo com fome, enroscados, como cães, na ampla escadaria da Assemblea, em noites de baile e de festa e vos vêdes apartados, como reprobos, isolados como hydrophobos, do ruidoso e alegre tumultuar da vida, em que ha risos, mulheres formosas, affectos e diamantes;
—párias, que a doença algemou ao catre da dôr, e a quem a luz formosissima da alvorada vae encontrar no estertor da agonia, nas convulsões do soffrimento, nas infernaes torturas da miseria—essa mesma luz que desperta e illumina a caravana alegre, quando, exhuberante de vida, de mocidade e de prazer segue, ruidosa, ao Faro, para respirar o oxygenio das montanhas e admirar as sorridentes paisagens da Natureza, d’essa desalmada Mãe, que para vós só teve quadros sombrios, horrores, vendavaes de infortunio, abysmos de soffrimento;
—famintos, que espreitaes com olhos soffregos os doirados salões de Pantagruel e de Gargantua, e vos sentis deslumbrados com o faiscar dos crystaes, alcoolisados com os aromas das iguarias, estonteados com o espumar do Champagne, até que o lacaio vos atire o osso que o mastim disputa, ou vos expulse a chicote, para que a miseria dos farrapos nojentos, o fetido dos membros descarnados, a pallidez cadaverica da face, não vão perturbar a alegria dos convivas, recordando-lhes que ha por este mundo gente que nasce, vive e morre, sem conhecer o que é Champagne frappé, Punch à la romaine, ou Riz de veau à la Tartare;
—imprudentes, que vos atreveis a bater á porta do Hospital depois das oito da noite, como se a Caridade não tivesse mais que fazer, do que estar á vossa espera, e por ahi appareceis, depois, mortos nas muralhas, com o ventre para o ar, olhos esbugalhados, membros hirtos, esverdeados, cheirando mal;
—reprobos, que nem entrada tendes nos templos, onde imaginaes que, por lá estar Christo, se egualam as condições, ignorando que o Christo da missa do meio-dia não é vosso, mas o dos argentarios que, para illudirem a consciencia e satisfazerem as exigencias da vaidade e as apparencias da hypocrisia, lhe dão capas de velludo e corôas de oiro; lhe fazem companhia nas longas noites do inverno, distrahindo-o com essas immoraes bambochatas das Novenas e da Semana Santa, com a somnolenta melopêa da padralhada, com as intrigas e confidencias amorosas, com o cochichar mordaz do beaterio, que entre Torres eburnea e Mater castissima, discute a confecção de um vestido da Torrona, ou do Blanco—e lhe fazem venias, e batem no peito, e andam por ahi, de porta em porta, ostentando cynicamente crenças, que não possuem, crenças, que não comprehendem, a pedir em nome de Christo, que é o symbolo do amor e da humildade, os cinco tostões da subscripção, quando á mesma hora, infelizes, olhaes, soluçando, para a escudella vazia e as creanças vos mordem os peitos, porque já não tendes leite, nem o calor da vida...
Velhos, mulheres e creanças,
escutae:
Ahi tendes esse livro.
Lêde-o, ou dae-o a ler. E se entre os ricos e os felizes da vida esses periodos não se crystallizarem no oiro da esmola—encontrareis ahi lenitivo para os vossos infortunios, porque ficareis sabendo, que nas regiões, onde só imaginaes venturas, oiro e risos tambem ha, como entre vós, pustulas—da vaidade, aleijões—do ridiculo, febres—da ambição, contracções—da hypocrisia, doenças e disformidades mais dolorosas e repugnantes do que as vossas, porque não inspiram compaixão nem dôr, mas, apenas, tedio, ironia e a gargalhada.
I
O Microbio[1]
Tivemos á porta o Microbio.
Eu já o esperava.
A gente, para falar a verdade, porta-se mal cá por baixo e o Padre Eterno deve, com justa razão, encrespar as sobrancelhas com uma boa dóse de mau humor, quando o globo terraqueo, no seu incessante rebolar por essas immensidades, lhe apresentar á vista a formidolosa praça e os seus arrabaldes.
Aquelle nefando e escandalosissimo caso, que tanto alarmou a fé das christandades e a religiosidade das beatas da nossa terra—a prisão da Santa, arremessada aos baldões para os ferros de El-Rei e para a jurisdicção autocratica do Borralho, de sucia com os desobedientes e reaccionarios philarmonicos de Ganfey—deve tel-o incommodado seriamente.
Mas ha mais. É recente outro caso mais escandaloso ainda, que aqui, á puridade, vou referir.
Na vizinha villa de Monsão perpetrou-se, ha pouco, um gravissimo attentado contra a Moral, contra o respeito ás coisas sagradas e seriedade das nossas crenças religiosas.
Ao que parece, o conspicuo Senado não prestou a devida attenção á guarda da Santa Coca e esta, já enfastiada com as interminaveis polemicas e diatribes dos srs. padre Simão, Caetano José Dias e outros respeitaveis jornalistas, escapou-se á sorrelfa, internando-se nas terras da Galliza até Redondella, onde foi visitar a Coca da localidade.
Ora, segundo se conclue, esta era de sexo differente e, de incestuosa copula, resultou uma Coquinha, que os nossos bons vizinhos tiveram a imprudencia de apresentar em publico na ultima procissão de Corpus-Christi, com grande gaudio dos atheus e suprema indignação do ferrador da localidade, contractado para S. Jorge, que, em altos brados, reclamava maior salario, visto que ajustára a lucta contra uma só Coca e não contra duas!
E permitti que vos diga, respeitavel Senado monsanense, á fé de Deu-la-deu, que foi incorrecto o vosso proceder! Contra Cocas com familia deve-se, indubitavelmente (as pandectas o determinam, artigo 1:007), pagar mais caro o S. Jorge.
Ora, com todos estes desacatos, repito, o Padre Eterno deve trazer-nos de ponta e claro é que, mais tarde ou mais cedo, cá teriamos o castigo:—ou qualquer das pragas do Egypto, ou nova Exposição de Rosas, ou novo consulado do João Cabral, ou mais dois falladores, como os srs. Abilio e Leopoldo.
Do Mal, o menos. Veio o Microbio.
As planicies do Ganges já deram o que tinham a dar. O Egypto, a India, a China, a America Central são insupportaveis n’esta epocha, com as suas elevadissimas temperaturas. O Microbio é d’uma organisação especial, que dispõe de todos os recursos para facil e rapida locomoção; anda sobre as aguas, como Ulysses, de chinelos de liga, e no ar, como nós, no sobrado das nossas casas. Requereu, pois, licença para uma viagem ao extrangeiro e o Padre Eterno, extendendo o index, indicou-lhe o caminho.
Microbio preparou-se convenientemente com repetidas abluções hydroterapicas, como o sr. Albino; abotoou o seu guarda-pó; sobraçou o guarda-chuva; despediu-se da familia e, de mala de viagem e guia Baedeker na mão, atirou-se cá para o Occidente e parou em Vigo.
Pelas condições economicas da viagem, que não teve caracter official, nem reclamos, nem discursos de congratulação dos Presidentes das Camaras e das Juntas de Parochia, este Microbio deve ser differente, do que visitou a Hespanha em 85. Deve ser um Microbio burguez, pacato, com inscripções, rheumatismo e dinheiros a juro; talvez Juiz de Paz, ou quarenta-maior contribuinte do seu concelho; deve usar suspensorios, botas de cano; tomar rapé e dormir com barretinho de algodão; deve ser um Microbio sensato, austero e de bons costumes; de principios e convicções firmes, assim como o sr. Agostinho; bom chefe de familia, temente a Deus, inimigo de Malzabetes e de romarias, onde qualquer Pau-real amolga impunemente a massa cerebral, ou a mioleira da humanidade.
Em Vigo apresentou-se, pois, modestamente com um pequeno sequito de gastrites, gastro-enterites e algo de typhos; mas apesar do incognito rigoroso e da modestia d’esta apresentação, souberam da sua chegada, em Lisboa, os conspicuos Membros da Junta de Saude.
Aquelles respeitabilissimos Esculapios, Argos vigilantes, a quem estão confiadas as nossas existencias, aborrecidos já da longa inacção em que vivem desde 1851, limitados a rubricar diariamente o fornecimento dos cemiterios da capital, de que se encarregam com inexcedivel pontualidade, arregalaram, de jubilosos, os olhinhos, vendo em perspectiva um Microbio legitimo, genuino, naturalisado americano pelo sr. dr. Arezes. Tocaram a rebate no paiz.
Os pharmacópolas açodaram-se em abundantes preparativos de tonicos, diaforeticos e antisepticos.
Koch, Pasteur, Brouardel, Proust, Fauvel, Ferran, Raspail foram consultados em laboriosas vigilias.
As tropas, emocionadas pelo santo amor da Patria, prepararam-se para o holocausto no Cordão sanitario,—que tão boas libras produziu em 1885.
Os amanuenses, prevendo uma valente razzia entre os chefes cacheticos e tropegos, saboreavam as delicias d’uma rapida promoção.
Maridos, com vida atribulada, suspiravam voltados para o septentrião... Tudo se preparava, emfim, para receber o Microbio.
Entretanto, palitava elle a sua ociosidade, em Vigo, com alguns artilheiros, que ainda se não sabe, ao certo, se foram victimados pela febre, se pela gangrena originada no excesso de limpeza, em que viviam...
Informado dos preparativos, que no nosso paiz se faziam para o receber, Microbio Bacilla malhumorou-se.
Antipathizou com a calva luzidia do sr. dr. Meira, encarregado officialmente de o saudar em nome do governo lusitano.
Alterou repentinamente o itinerario e... foi-se.
Lá desappareceram com elle as fagueiras esperanças dos amanuenses, dos maridos infelizes e as cóleras dos senhorios de Valença, que em 85 foram, violenta e despoticamente, espoliados dos seus direitos de propriedade por um governo futre e poucaroupa, que teve o descaro de pagar, como aluguel de nove mezes, uns miseros centos de mil reis, que representam o dobro do valor das propriedades.
Lá desappareceram as rações de 1.ª classe e aquellas encantadas folhas de kilometros, que deram aos tropegos membros locomotores de amigos meus, obesos e adiposos, a agilidade e ligeireza do mais leve e reputado andarilho...
D’esta vez, ainda, déste xaque-mate ao Padre Eterno, oh grande doutor Lourenço!
*
Augustus Sampaius, senhor da Balagotia; Intendente geral dos serviços phyloxericos, digo,[2] antimicrobicos da fronteira; Commissario geral dos inoffensivos Cerberos da policia concelhia e, como tal, terror dos Troppmans e Jacks adventicios; Chefe da Repartição do expediente do sr. Administrador (que Deus Guarde); Director da Repartição Municipal de Hygiene e Secção annexa das toleradas, artes julianas e valladicas; Inspector do serviço das bombas e de segurança publica; Fiscal dos pesos e medidas; Secretario perpetuo das Juntas de Parochia; Orçamentologo official das Confrarias e Irmandades sertanejas; Irmão do SS. Sacramento; Mesario e Ex-definidor da Santa Casa da Misericordia; Mordomo da Senhora do Faro, da Senhora Santa Luzia milagrosa e outras Senhoras d’aquem e além mar, terras da Urgeira e Taião; Mestre de cerimonias nas contradanças lithurgicas das nossas festas de Egreja: Estatistico distincto dos fogos, productos, criminalidade, bipedes e quadrupedes do Concelho; Numismatico abalisado; Agricultor emerito; Actor consummado; phantasista original e querido das damas, em debuxos de lettras para lenços de namoro—homem que representas, na vida social da nossa terra, a mais completa e complexa, a mais genial expressão da actividade humana—Augustus Sampaius, senhor da Balagotia—eu te saudo!
Ao fallar no Micobrio, que tanto apavorou os conspicuos Esculapios da Junta de saude, e que tão ridentes esperanças fez agora despontar, no horisonte ennublado de muitas finanças oscillantes, eu não posso esquecer o teu nome, porque foi a ti, ao teu provado zelo, assaz reconhecida sollicitude, desempenada actividade que a Patria, eu e a minha prole devemos a desejada immunidade do terrivel Bacilla, na campanha de 85.
Commove-se-me profundamente a alma; inundam-se-me os olhos de lagrimas; sensibilizo-me, como se te ouvisse no palco com as lamentações de pae tyranno e infeliz; foge-me dos labios o riso, como se te aturasse o espirito n’essas libertinas extravagancias a que te dás no Carnaval, encadernado de princez, ou á antiga, com os ouropeis e a farrapada do teu guarda-roupa—(boceta pandorica de frioleiras e de traça)—percorrendo as casas sérias, com grande gaudio das matronas do teu tempo e abundante colheita de mystificações, intrigas, pançadas de riso, chavenas de chá e tostas com manteiga—quando me recordo, oh Balagotio illustre, dos teus serviços no cordão sanitario!
Noites tempestuosas que passaste; asperezas do inverno; longas caminhadas; chuva, vento, frio, fome e sêde; graves perturbações nas funcções digestivas; fraqueza nas contracções peristalticas, occasionando incommodas e demoradas accumulações no cœcum; nas longas noites de vigia, ao avizinhar-se vulto sombrio e suspeito, afrouxamentos instantaneos do sphingter com defecações abundantes, enfraquecedoras; fartas exhalações de acido carbonico e hydrogenios carbonado e sulfurado—e tudo isto pelo amor da humanidade, provocado pelo mais desinteressado altruismo, inspirado na mais acrisolada philanthropia e, depois ainda, aggravado com os arrancos da tua dyspepsia chronica e com a ingratidão da Patria de quem, contrariado, espezinhado na pureza dos teus sentimentos humanitarios, tiveste de receber, a fortiori, umas mesquinhas dezenas de libras!
Tu, Balagotio amigo, engrossaste o longo martyrologio, da Patria. Salvaste-a e continuas ahi esquecido, ignorado, com a tua dyspepsia e o teu barretinho de seda preto, condemnado a um eterno roçar de canhões do casibeque na mesa da Administração, sem uma commenda, sem veneras hespanholas, que se vendem ao alqueire, sem um viscondado sequer!
Mas eu, conterraneo illustre, não serei tambem ingrato. Já que esse Zé Barros pequenino foi insensivel aos vehementes protestos do teu amor, e te não fez Commissario das Policias, com pingue gratificação de categoria; já que o teu Chefe no Cordão se não compadece dos olhinhos de ternura e piedade, com que tu, cem vezes por dia, lhe fitas a janella, eu te protegerei, cidadão benemerito e prestantissimo.
Tu soffres. Essa dyspepsia cruel, quando se não fala em Microbio, mina-te a existencia, curva-te o tronco, descora-te a face, dissemina no teu organismo os germens de uma anemia lenta e perigosa.
Brown Sequard nada te póde fazer.
A Deus nada posso pedir a teu favor, porque tu tambem foste connivente, com esse feroz Attila do Registro predial, na prisão da Santa.
Nada temos a esperar do Céo, mas recorremos ao Olympo, que outr’ora fazia tão bons milagres, como o Senhor S. Campio, que sua uma vez por anno, ou a Senhora da Cabeça, que, para mostrar competencia na cura de fracturas da dita, reune traiçoeiramente na sua festa, quantos caceteiros comem boroa e feijão, por estas boas vinte leguas em redondo.
Pois bem! Que Jupiter ouça os meus rogos. Já que as delicadissimas funcções do teu organismo te consentem apenas o leite, como alimento, que Elle te mande Io, para que tu, nas suas cem tetas, possas de noite e de dia chupar a vida, novas forças, novos elementos e os teus tecidos tomem, a breve trecho, a salutar obesidade do sr. João Ignacio, do saudoso doutor Pacheco, ou do nosso prestantissimo deputado, o sr. Visconde da Torre!
Setembro 1889.
II
Passe-Calles
Oh Justininho!
dá cá o braço...
Ora aqui tem V. Ex.ª um rapaz, que se o Marianno não atira para o Pico, era muito capaz de se guindar ao pico da popularidade, cá na terra.
Ainda não conheci quem mais sympathias tivesse entre Clero, Nobreza e Povo; mas tambem, ainda não conheci rapaz mais sensato, conciliador e serviçal.
Para chamar á paz um casal amuado; para prégar Moral ás creadas de servir; para uma visita de pesames, a rigor, com o resigne-se V. Ex.ª com a vontade do Altissimo engatilhado; para dirigir um baile nos tricanés; para entreter senhoras nas reuniões da Semana Santa, em S. Estevão, ou nas do Carnaval, na Assemblea; para acompanhar familias á missa das onze; para representar a Associação artistica; para umas funcções serias de secretario (tinha o monopolio); para a descripção d’um baile no Mensageiro das salas; para dirigir a eleição das comadres, a coisa mais redondamente patusca e interessante, que gentes da Coroada teem produzido—não ha, não houve, nem nunca haverá quem o eguale.
Quando passava na rua de S. João, todo tesinho e perliquitetes, apesar da magreza e do nariz, diziam d’elle
as meninas—é muito engraçado,
as mamãs—é muito sympathico.
os papás—é muito bom moço.
os velhotes—é... é... é... o Justininho.
*
Estava nos bailes como em sua casa. Só tinha um defeito para homem de sala: dançava pouco e mal.
E eu digo porque.
N’um baile da Assemblea reuniram-se, em quadrilha de Lanceiros (a mesma que David dançou ao pé da Arca) os srs. dr. Lopes, dr. Ladislau, Padre Cunha e Justininho.
Justininho gostava de florear nas marcas. Ordenou um chevaliers au milieu, e os quatro Cavalheiros, enthusiasmados com as damas, com a musica, com as luzes e com as flôres, avançaram com ropia.
Eu não sei bem, como aquillo foi. O que sei, é que se chocaram, que se enarigangaram, e de tal fórma foram abalados os respectivos e respeitaveis vomeres e cornetos, que o sangue espirrou, e os quatro Cavalheiros foram retirados, em braços, da sala.
As senhoras desmaiaram. O baile acabou.
Foi o diabo.
D’ali em deante, tanto o sr. dr. Lopes, como o sr. Padre Cunha e o Justininho (V. Ex.ª deve ter notado isso) dão-se pouco a danças. Quem continuou foi o Ladislau, porque esse, no tremendo choque foi o mais feliz. Como é pequeno e de baixa estatura, o seu nariz não abalroou com os outros; roçou no umbigo do sr. Padre Cunha e enfraqueceu o choque.
É verdade: aqui está mais uma vantagem que a gente tem, em dar falta ao estalão.
E ainda o sr. dr. Pestana se entristece e zanga, quando o alfaiate lhe pede noventa centimetros para umas calças, e lhe assevéra, que não necessita de um metro e dez, como os outros senhores!
*
Sou amigo do Justininho, mas já lhe roguei uma valente praga; e talvez fosse por isso, que elle tocou rabeca com o Pereira.
Eu conto o caso, porque não é de segredo:
Lavrava por ahi essa epidemia, peor do que cem microbios, das charadas.
Nas Assembleas, nos Clubs, nas lojas, nas mercearias, nas boticas e nas nossas casas, não se tratava d’outra coisa.
O Almanach de Lembranças, essa escarradeira de quanto semsaborão existe n’estes reinos, ilhas adjacentes, terras do sabiá e da Tijuca, espalhára, por toda a parte, os germens da maldicta mania.
Havia enigmas; charadas antigas, novas, novissimas, com premio, sem dito, em prosa e em verso; de—nas costas—1, sem indicação syllabica; emfim, de toda a raça e feitio.
Descobrira-se, que para espalhar o flato e para aquecer os pés, no inverno, não havia melhor remedio do que: charadas, quino e trinta e um de bocca.
Justininho deve uma boa parte da sua popularidade, entre as damas, á facilidade com que matava charadas. Em se lhe dizendo:
O que é, que é
Que toca de dia
No alto da torre
de Santa Maria?
respondia logo, immediatamente:
—É um sino.
Ora, uma noite,—isto foi, talvez, ha doze annos—estava eu á mesa do trabalho com a familia.
Minha mulher fazia meia. Minha sogra lá estava com as charadas.
O rapaz mais novo—o Toneca—estudava a licção de francez. O outro—o Zéca—andava com a Avó á cata de decifrações.
Eu estava a turrar com somno, mastigando entre bocejos, uns periodos muito alambicados, em fórma de lambedor, com que Justininho descrevia um baile, no folhetim do Noticioso.
Soavam todos aquelles estafados bordões de—gentilissimas damas—corações feridos—sorrisos angelicos—amores—gruta dos ditos—arrufos—horas fugitivas—recordações saudosas—rainha do baile—reticencias—etc.—etc.—etc.—.
V. Ex.ª deve conhecer tudo isto, porque de mil bailes, que tem havido em Valença, appareceram mil descripções eguaes.
São como os necrologios do sr. Verissimo de Moraes. Estão sempre promptos. A questão está em se dar o nome do perecido. Ás vezes, ha o seu engano, mas escapa.
Por exemplo:
Ha annos, morreu n’esta villa um velhote com 90 janeiros.
Estomago fraqueiro e arruinado, atacára á noite uma pratada de arroz com lampreia e... arrefeceram-lhe os pés.
Tambem, foi uma infelicidade, porque, se o sr. dr. Pacheco (diga-se a verdade) chega mais cedo uma hora, o homem, em vez de morrer ás 10, arrefeceria ás 9.
No dia seguinte, dizia o Noticioso:
«Mais um anjo, alando-se para as ethereas regiões, fugiu hontem da terra, roubado cruelmente, pela terrivel Parca, aos affectos dos seus carinhosos paes.
Polycarpo Bezerra, aquella encantadora e gentil creança, que era o enlevo... etc.»
Ora, Policarpo Bezerra, era exactamente a creança de 90 janeiros, que a lampreia victimára! Os barbaros dos typographos, se haviam de aproveitar a chapa dos adultos, serviram-se da que havia para as creanças.
Isto succede.
*
Mas, como estava dizendo, eu turrava com somno, á espera do chá.
De repente, levanta-se o Zéca e diz:
Oh Papá! Que é, que é
Que, pela calada,
Gosta de dar
O Marquez de Vallada?
—Cou,[3] diz o Toneca, que acabava de tirar no Diccionario a palavra pescoço. (Só o soube depois).
Levantei-me indignado, enfurecido com aquelle enorme desacato á Moral e á Decencia, praticado nas minhas barbas!
A decifração da charada foi immediata e violenta para os rapazes: duas valentes bofetadas!
Indignação geral da familia. Minha sogra levanta-se irada e chama-me tyranno!
Retorqui-lhe que aquillo era escandaloso, antimoral e era uma falta de respeito á gente graduada, porque o sr. Marquez era um Marquez, estava no seu direito de dar o que quizesse, e ninguem tinha que lá metter o nariz.
Augmentou o barulho, porque os rapazes, defendidos pela mãe e pela avó, cada vez berravam mais.
Levantou-se minha mulher, chamou-os, e lá foi tudo a chorar.
No dia seguinte, minha sogra, fiel ás tradições, quiz requerer o divorcio. Andei amuado oito dias. Data, até, d’essa occasião, o meu reconhecimento á Isabelinha, creada de sala...
Só quando fiz as pazes com minha mulher, é que conheci a origem da resposta do Zéca e a coincidencia do significado.
O Toneca, como é mais agarotado, lêra o Pimpão e appetecêra-lhe tambem, sem saber o que dizia, metter a sua farpinha no senhor Marquez.
Mas, tudo isto não teria succedido, se não fosse o diabo do folhetim e se o Justininho não tivesse a mania de chroniqueiro de saias.
Veja V. Ex.ª, como se perturba a paz d’um lar e o socego d’uma familia honesta!
*
Mas, effectivamente, o Justininho, para charadas, era d’uma perspicacia sibyllina. Como elle, só a Sociedade charadista dos Terriveis de Villa Real.
A gente reunia-se á noite na Assemblea. O Club, n’esse tempo, estava ainda no embryão das sociedades pacatas, porque o sr. dr. Pacheco, se bem que já andasse, como o povo diz, com a barriga á bocca, ainda o não tinha dado á luz.
Ou se faziam charadas, ou se jogava o quino. Duas distracções innocentes e engraçadissimas! Que saudosas noites! Que piadas! Que pilherias e facecias!
Que espirito fino, alegre, saltitante, amenisava aquellas horas!
Quem mexia sempre nas bolas era o Melim. Uma mania como outra qualquer.
Cartão, dez réis; corda, sessenta réis.
Marcava-se a feijão carrapato.
Quem recebia as pagas, dava os trocos e quebrados, era o sr. Agostinho.
Cada quinada era recheada de surpresas, ancias, esperanças e decepções!
—Trinta e tres, dizia o Melim.
—Annos de Christo, exclamava sr. João Ignacio, erguendo-se, todo contentinho, para gosar o effeito da pilheria.
Andavamos aos tombos com riso, e quem poderia resistir?
—Vinte e dois!
—Patinhos a nadar—berrava o sr. Baptista.
Ai que demonios aquelles! A gente até chorava!
—Trinta e sete!
—João Pimentel Castanheira—lembrava o sr. Elias.
Não se podia continuar; estava decidido! Pois se até a ceia nos queria trepar á bocca!
—Venha a precisa, ó vizinho e chegue-se cá, que quero bulir nas bolas, dizia o sr. dr. Pacheco.
—Oh diabo! Isso não, que podem ver as irmãs da Caridade, aconselhava eu, sempre prudente e cauteloso.
—Sessenta e seis!
—Quinei!—berrava o sr. escrivão Brito.
—Ora sebo!—murmurava tristemente o sr. dr. Evaristo. E eu que já tinha cinco quadras! Bem se vê, que os padres não nasceram para trabalhos com bolas.
Estavamos todos tristes, como a noite.
—Alto! Foi rebate falso. Siga!—dizia o sr. Brito todo rejubilante pela facecia, e casquinando frouxos d’aquelle seu riso, tão patusco e tão original: ki-i, ki-i, ki-i...
Afinal, quem quinava sempre era o Leopoldo. Este diabo, lá com os capellães arranja-se sempre bem...
*
Reunia-se, pois, gente fina e perspicaz.
—o Veiga, que viu no Jardim das Plantas uma ziboia, com sessenta metros de comprimento;
—o Izidoro que, como V. Ex.ª sabe, descobriu as aguas de S. Pedro, é amigo do amigo Lopo e tem a Grão-cruz da Sociedade de Geographia e da ordem do Sol, do Japão;
—o Serrão, que viu um comboyo, que levava dez regimentos de infanteria, dez de cavallaria, oito de artilheria, um de engenharia; tudo em armas, officiaes a cavallo, etc., etc. (Isto foi no tempo d’uma guerra qualquer).
—o Machado, que, assistindo a um baile da Assemblea até ás duas horas da madrugada, apparecia, ás cinco, na praia d’Ancora; lá ao longe, entre as brumas do mar, dentro d’uma bateira, e já em regresso da ilha da Madeira.
—o Maximino, que sem perceber uma palavra da lingua de Milton, encontrou uma ingleza, com quem se entendeu muito bem.
—o Leopoldo, que viu e apalpou os pendulos e o ponteiro do relogio, que ficou entupido, nas alturas do coccyx, ao larapio da rua do Ouvidor.
—o Abilio, que conheceu o pae da mãe, do tio, do pae do dito larapio—Rua da Quitanda, 23, sobreloja.
Emfim, tudo gente fina e perspicaz.
É verdade: tambem lá estava sua Excellencia, o Senhor Governador e sua Excellencia, o Senhor Vice.
Na Academia real das Sciencias não havia melhores cabeças; nem na Camara dos deputados, se exceptuarmos os srs. Oliveira Mattos e Visconde da Torre.
*
Para arranjar charadas, quem tinha mais gosto e geito era o sr. Polycarpo Monteiro. Pelos modos, carteava-se com o mano de Lisboa, a tal respeito.
Elle pensava um pouco e dizia:
Que é, que é
Que faz: pum! pum!
Quando lhe arrima
O Vinte e um?
Justininho escrevia, logo, qualquer coisa n’um papelinho; collocava-o debaixo do seu chapéosinho e... sorria.
Nós andavamos ás aranhas.
Tira d’aqui, põe acolá...
Nada!
O Senhor Governador, forte em Mathematicas, punha logo o caso em equação:
2 pum + 21 = x
tirava os logarithmos, deduzia todas as formulas da triangulação:
Nada!
O sr. Zagallo, que não estava para contas, lembrava-se dos nomes de todas as terras de Hespanha, por onde transitou no tempo das guerras...
Nada!
Ninguem falava. Ouvia-se o zunir d’um mosquitinho.
De repente bradam duas vozes:
Adivinhei!
—É o chapéo alto do meu subordinado Durães—dizia o sr. Borges.
—Não é, não senhor. É um chapéo, mas o do sr. Monteiro, dizia o Senhor Vice-Governador, que já, n’aquelle tempo, era o homem mais fino cá da terra.
É! Não é! Levantou-se uma questão dos demonios.
—Fala o Justininho!—bradamos nós, como quem recorre a um Juiz.
Justininho abriu o papelinho e mostrou, sorrindo:
Zabumba!
Rompeu nova celeuma. Ninguem queria ceder. A final, depois de muito berrar, descobriu-se que todos tinham razão.
Havia alli um caso, como o da Santissima Trindade: tres pessoas distinctas e um só Deus verdadeiro. Eram tambem tres coisas, todas distinctas, todas eguaes e uma só verdadeira: o zabumba—do Justininho.
*
N’outra noite, o sr. Polycarpo, entrou na Assemblea, muito contente, e esfregando as mãos, debaixo do seu chale-manta.
Trazia uma charada muito difficil, que lhe levára seis horas a compôr.
O sr. C. Barros offereceu logo, como premio, um exemplar do seu drama: Marilia, ou a Moira dos bosques.
Reuniu-se o povo todo, e ouviu:
Quem é, quem é,
Que faz a desobriga
E, sendo capellão
Tambem é rapariga?
Esta, é que nos deu agua pela barba. Fazer de homem e de mulher, é que nunca podemos comprehender.
O maroto do Leopoldo, esse, parece que a percebeu. Sorriu-se, porque tinha entrado n’aquella occasião e, pelos modos, vinha de se confessar...
Trazia no chale-manta palheiras da muralha...
Foi o Abilio, que o traz de ponta, quem descobriu isso.
Ninguem matou a charada, mas desconfio que alli andou tambem influencia do premio... Parece-me que afugentou um pouco as ideias.
Isto é mera supposição.
*
Depois d’essa, appareceu outra do sr. Zagallo, mas matou-se logo. Foi:
O que é que é
Que dá sól e dó
E se o Cruz lhe bufa
Faz: Pó, Pó!
V. Ex.ª certamente, já adivinhou.
É um figle. Não teve graça.
Pois o sr. General podia apresentar coisa melhor. Bastava que nos dissesse:
Ora digam cá,
Sem hesitar
Se hoje na camara
Occupo logar?
Claro é que ninguem responderia, a não ser que se verificasse o conteudo do mais recente, do que tivesse ainda a tinta fresquinha, dos officios com que sua Ex.ª, oito vezes por mez, participa ao Senado que,
por motivos justificados—sahe
que,
por justificados motivos—entra
e vice-versa
e versa-vice.
*
Este sr. Zagallo, na Camara, lembra-me o Conego Vaz.
Eu fui sempre muito agarotado e por isso me não admirei, do que queria fazer o Tonéca ao Marquez de Vallada. Se por ahi houver alguma mamã, com filha casadoira, disponivel—francamente—que não tenha saudades da minha pessoa, porque lhe não serviria, ainda que fosse numero um.
Quando não podia dar a minha gazeta á aula do Conego, escapava-me sempre que podia, cá para fóra, para a muralha, onde os Guerreiros e os Garções jogavam o pião e o escabicha.
Juntos, eramos insupportaveis. O Ignacio Soares e o Zé, quando passavam por nós, tiravam com todo o respeito o seu chapéosinho e tratavam-nos por Excellencia, mas ainda assim, levavam o seu puxão de orelhas porque, quando estavam encarrapitados na varanda de ferro, e se lhes dizia cá de baixo:
Presos como os macacos!
cuspiam, e atiravam com botas velhas.
O Zé, hoje é homem de genio e palpita-me que, na Politica, ainda chega a ser importante; mas n’aquelle tempo andava com o hora, horae, e isto de latim é coisa, que debilita muito a gente.
*
Como estava dizendo, quando me juntava aos Guerreiros e aos Garções, andava tudo, por ahi, n’uma dobadoira.
Pelo Maio, já tinhamos organisado uma inspecção rigorosa á producção do concelho.
Era-mos, assim, uma especie de agronomos.
Se nos perguntassem:
Quem é, que n’este anno vem a ter:
melhores peras?—o Chico Veiga.
melhores melancias?—o Boticario.
melhores melões?—o Ascencio.
melhores uvas?—O senhor José Rodrigues.
A este senhor José Rodrigues sempre tivemos muito respeito. Quando, por acaso, nos encontrava perto do Prazo, ou da Boavista, (a gente, já se vê, andava a passear innocentemente) falava logo em tiros, mortes, carabinas, punhaes, ratoeiras, facadas, cães de Castro Laboreiro... o diabo!
Por isso, não era como os outros:
o Chico Veiga,
o Boticario,
ou o Ascencio;
era: o Senhor José Rodrigues.
A final, foi sempre um santo, e pagava o seu tributo em bellas uvas e bons melões, como os outros.
Eu falei no boticario...
Era assim nos outros tempos, mas hoje é camarista e chama-se—o sr. Fontoura.
Este senhor é que nos pregou um susto! Eu conto, se não me torno massador para V. Ex.ª
*
As propriedades, como disse, estavam debaixo da nossa vigilancia permanente.
Logo que a uva principiava a pintar, a pera a mudar de côr, a melancia a ganhar casca—dava-mos assaltos medonhos!
Uma vez, combinamos o ataque ás melancias do sr. Fontoura. Ainda estavam verdes, mas duas, ou tres, principiavam a carregar na côr.
O calor abrazava. Era necessario ser um Santo, para resistir á tentação.
Á hora combinada, entramos na propriedade, cautelosamente, sorrateiramente, como quem anda aos grillos.
Tinhamos, já, duas melancias cortadas e tratava-mos de metter a unha, em certa parte das outras (de que eu não digo o nome, porque póde ser lido por senhoras) para verificar se estava molle ou rija, quando ouvimos gritos de agarra! agarra! e logo, após, o estampido d’um tiro!
Eu não posso explicar o que succedeu. Parece que nos agarraram pela golla da jaqueta e nos levaram, pelo ar, até á Esplanada!
Alli paramos, porque já não havia ar no mundo para os nossos pulmões. Consideramos no caso...
Apalpamo-nos cuidadosamente, demoradamente. Estendemos primeiramente uma perna; depois outra; depois um braço.
Cuspimos. Passamos a mão pela cabeça.
Não havia sangue.
Serenamos. Voltou-nos a voz.
Só então verifiquei que, no auge da afflicção, sem querer, tinha trazido as melancias!
Não estava tudo perdido. O que é o instincto da conservação!
Ainda nos incommodava a ideia, de que o sr. Fontoura fosse fazer queixa ás familias—o que significaria uma valente tapona.
Felizmente não succedeu isso, porque elle, no auge do seu furor, (do qual V. Ex.ª pode fazer idea, quando o ouve ameaçar céos e terra, clamando, á porta da pharmacia, contra os seus devedores) não nos conheceu.
Parece que Deus não o dispoz para a nobre carreira das armas, porque, ao apontar a espingarda, fez como os pretos e os soldados brazileiros—voltou a cabeça.
Quando novamente olhou, diz elle, que só viu fumo. Não era só fumo; eram nuvens de pó, que nós levantavamos.
Eu contei agora este caso, porque somos todos de maioridade, paes de filhos, eleitores, elegiveis, e já não temos receio de tapona em casa. Mas, até hoje, tem estado debaixo d’um certo segredo.
Como d’aquelle endiabrado rancho sahiram tão bons paes de familia, é que eu não sei.
São effeitos da edade.
A gente muda muito.
Eu conheço pessoas, que na juventude faziam o que podiam. Chegaram, mesmo, a dar nome; e que agora, sendo uns santos, em certas occasiões embicam com qualquer coisa, e nem sequer consentem, que no theatro se aqueçam os pés.
Isto vae tambem muito dos genios... e dos corações.
São como Deus os quer.
Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo...
*
Mas, veja V. Ex.ª como eu perdi o fio ao discurso! Tudo isto veiu a lume, para dizer que o sr. Zagallo, na Camara, me lembrava a aula do Conego Vaz.
Eu queria-me safar, como disse, e, volta e meia, dizia ao Conego, levantando o dedo:
—Senhor Mestre, dá licença de ir lá fóra?
O Conego, ou dizia: vá,—ou:
—Está lá gente.
Mas aquillo tanto vez se repetia, que o Conego principiou a desconfiar que era doença, como teve o sr. Sampaio nas noites do cordão sanitario, doença que tanto dinheiro deu a ganhar á lavadeira...
Uma vez disse-me elle: Oh, senhor! Eu não sei para que cá vem. Nunca tenho a certeza se o senhor está fóra, ou dentro. Ao menos, quando sahir, deixe aqui ficar um papelinho.
E foi d’este papelinho que me lembrei, com os officios do sr. Zagallo.
*
Voltemos ao Justininho.
Justininho escrevia nas gazetas. Inventou o Mensageiro das salas, aquella interessante secção, que eu nunca deixo de ler, em todos os jornaes, porque é muito mais barato remedio, do que o Sedlitz Chanteaud.
Foi tambem elle, quem arranjou as seguintes classificações para as differentes posições sociaes:
| Juizes | integerrimos. |
| Delegados | meritissimos e dignissimos. |
| Medicos | habeis.[4] |
| Negociantes | probos e honrados. |
| Bispos e Padres | virtuosos prelados. |
| Proprietarios | abastados. |
| Cavalheiros | de fino trato. |
| Officiaes do exercito | illustrados e briosos. |
| Galopins eleitoraes | valentes candilhos. |
| Meninas | galantes. |
| Noivas | gentis e encantadoras. |
| Senhoras solteiras | gentilissimas damas. |
| ditas casadas | virtuosas esposas. |
| ditas viuvas | inconsolaveis. |
| Quarentonas | interessantes senhoras. |
| Jarrões | respeitaveis damas. |
| Creanças que nascem | robustos meninos. |
| ditas que vivem | interessantes filhinhos. |
| ditas que morrem | innocentes anjinhos. |
| ditas que, nem nascem, nem morrem, nem vivem | mallogrados.[5] |
| Estudantes | intelligentes e esperançosos. |
| Meninas... de fallar | infelizes peccadoras. |
Como V. Ex.ª vê, aqui ha para tudo.
É pedir por bocca.
Esta classificação teve voga. Foi adoptada em Monsão, em Caminha pelo sr. Ricardinho, em Cerveira pelo sr. Romeu, em Vianna pelo sr. Eugenio Martins, em Paris pelo sr. Xavier de Carvalho, etc.
Nas ilhas Sandwich é que eu não sei, mas vou sabel-o.
Ora, nós podiamos fazer um contracto com as redacções: abatiam uns tantos por cento nas assignaturas e mandavam depois, sem adjectivos, os Cavalheiros, os Padres, as Meninas... de fallar, etc., que a gente cá se punha... a dispôr os virtuosos e finos tratos.
Esta evidentissima e valiosa manifestação do progresso intellectual do nosso jornalismo deve-se, como disse, ao Justininho.
*
Justininho era correspondente de varios jornaes.
Tinha um estylo especial, caracteristico, archaico, indigesto, tirante a classico.
Por exemplo: se fosse necessario dizer n’um jornal, que a esposa do meu amigo Fabricio dera á luz um rapaz, e que já estava prompta para outro, eu empregaria, pouco mais ou menos, essas palavras.
Justininho diria:
Como prenoticiamos, a virtuosa consorte do nosso dilecto amigo Fabricio, probo e honrado negociante d’esta formidolosa Praça, deu á luz na preterita terça feira, um robusto e interessante menino, que presentemente é o enlevo dos seus tão extremosos, quão apreciaveis progenitores, e o encanto de todos os que hoje gozam a doçura ineffavel, d’aquelle pequenino ser.
A parturiente encontra-se já, graças ao Altissimo, liberta de perigo, devendo, tambem, a sua rapida convalescença ao desvelo e intelligentes cuidados do distincto e perito facultativo, o sr. dr. Pacheco.[6]
A suas ex.ᵃˢ endereçamos, em nome da redacção, os nossos emboras; e seja permittido ao auctor d’estas mal esboçadas linhas, incluir as suas cordiaes felicitações, que já algures exprimiu, como o mais obscuro, o mais somenos admirador das excelsas virtudes, que exuberantemente adornam suas Ex.ᵃˢ[7]
*
Ora aqui tem V. Ex.ª o que é uma imaginação fertil, e a triste figura que faz um pobre Fabiano, como eu, quando escreve nas gazetas.
O sr. Verissimo de Moraes, em tal caso, escreveria, ou não escreveria o mesmo.
Se fosse convidado para a festa do baptisado, usava exactamente d’aquelles termos, e accrescentava:
Todos os convidados d’aquella esplendurosa e inolvidavel festa se retiraram altamente penhorados, com a maneira fina e delicada, e inexcedivel amabilidade—que só a verdadeira fidalguia de sentimentos e nobreza de caracter podem conceder—com que o Ex.ᵐᵒ Sr. Fabricio e sua Ex.ᵐᵃ Esposa acolheram as pessoas, que tiveram a honra de entrar em sua casa.
Que perduravel ventura, e immensas felicidades, bafejem o berço do penhor de tantos affectos...
Se não fosse convidado, o parto e o baptisado seriam assim annunciados:
A esposa do sr. Fabricio deu á luz um rapaz, que hontem, ás seis e meia da tarde, foi baptisado na egreja parochial de S. Estevão.
E eu faria o mesmo, se tivesse jornal. A gente trata bem, quem bem a trata. Isto já era assim no tempo de Noé e ainda não havia gazetas.
N’esta classe de gazeteiros, quem rasoavelmente se distingue, é o Aurelio.
Tem um estylo á Victor Hugo e á Guerra Junqueiro.
Isso explica-se muito facilmente.
Está provado que a Materia anda n’este mundo, em constante giro; e que as moleculas, que actualmente estão no corpo A, podem muito bem estar, ámanhã, no corpo B.
E sendo assim, não admira que na massa cerebral aureliana, se anichem algumas cellulasitas vagabundas e patuscas dos grandes poetas.
Recordo-me, ainda, d’aquella grande questão, que elle sustentou, no Primeiro de Janeiro, contra o Exercito, por causa do Real d’Agua.
Ahi vae um trecho e diga-me V. Ex.ª, se lhe não parece que está lendo a Morte de D. João, ou a Legenda dos Seculos:
A lei é só uma com a espada da Justiça!
Palpitam corações nobres, sob as dobras da jaqueta,
Como palpitam e se orgulham debaixo da fardeta.
Quer se cinja uma espada, quer o cabo da rabiça,
Ha leis a obedecer. E com vontade, ou com magua,
Das batatas e do bacalhau que gastaes da Cooperativa,
Haveis de pagar, inteira, completa e positiva
A decima que todos pagam: os direitos do Real d’Agua![8]
Aurelio tem, tambem, incontestavel merecimento no theatro; mas nas doiradas espheras em que, entre nós, a Arte alli se expande e libra, nunca a minha nervosidade e a dynamica do meu espirito foram, tão extraordinariamente abaladas, como n’essa saudosa noite, em que aos meus olhos e sentidos, se patenteou a intuição artistica mais nitida, a percepção psychologica mais frisante, que tenho logrado admirar nos palcos dos grandes centros civilizados.
Alludo á magistral execução e genial relevo que, na Morgadinha de Val d’Amores, deram aos seus papeis, os meus amigos Machado e Romano.
V. Ex.ª deve recordar-se...
Representava-se o auto entre moiros e christãos. Figuravam reis, prophetas, anjos, princezes, pagens, donzellas, pastores e pastorinhas.
Das bandas do Oriente surgem: Manassés—o propheta, e Adonis—o princez.
As meias da sopeira, solidamente atadas, com tres voltas de fio de vela e nó cego, acima da articulação do femur com a tibia, desenhavam-lhes as linhas bamboleantes do pernil, escassamente roliço para despertar sensações eroticas; o pé, pequenino e adamado, encafuava se, gentilmente, n’um cambado sapato de entrada abaixo, com fivela doirada; o calção retesado limitava-lhes a curvatura das nadegas; dos hombros pendia-lhes graciosa quinzeninha de velludo defuncteiro; na cabeça, um carapucinho patusco, com o seu tope arrebitado.
Nas faces mimosas e assetinadas, espetára a mão endiabrada do Rocha ferozes matacões de caprina pellugem, e enfarruscára as sobrancelhas avelludadas, com repetidas fricções de rolha queimada, embebida no azeite do purgueira.
Marchavam com fronte altaneira, nariz repontante, seguidos pela sua côrte de paradas-velhas, ao compasso do hymno picaresco, que o meu amigo Argar, com a sua finissima intuição artistica, tão caracteristicamente soube conceber, adaptar e colorir.
Ao apparecimento de tão illustres personagens—um propheta e um princez—abalaram-se os alicerces do edificio, com a violenta expansibilidade dos applausos. Ao longo da medulla espinal, desde o bolbo rachidiano até á cauda equina, corriam-nos vibrações de enthusiasmo; as senhoras choravam; os homens arremessavam os chapéos; os paradas-velhas e esplanadas do loiceiro, impregnando o ambiente, no sonoro explodir do seu arrebatamento, de exhalações duvidosas e aromas assaz compromettedores, irrompiam em galhofeiras invectivas de affectuoso e intimo conhecimento, com os pagens e as donzellas da real côrte:
—Vira para lá a rabáda, oh Transmontana!
—Tens o rancho á espera, oh 35 da 4.ª
—Pica o pé, oh Estrella!
..............................
E na intima audição do meu espirito, entre os fulgores e as scintillações d’aquelle gloriosissimo triumpho, subjectivou-me, subito, o Senso:
Oh filho! Quanto póde a... Arte!
..............................
Mas... onde diabo está o Justininho?
*
Justininho era o fiel depositario, o mais denodado paladino das gloriosas tradições, que apresentam Valença, como a terra da provincia, em que ha mais convivencia, e em que as senhoras se apresentam, melhor, n’um baile. É uma superioridade, esta, como qualquer outra. Cornelia, Joanna d’Arc, Filippa de Vilhena, Deu-la-deu e outras matronas distinguiram-se a seu modo. São feitios.
Foi elle, tambem, o inventor d’aquella celebre phrase, ainda hoje acceite e adoptada, quando necessitamos occultar a nossa inercia, as nossas fraquezas, ou a nossa ingenuidade provinciana. Valença é madrasta para os seus e mãe para os estranhos.
Nunca pude comprehender o que Justininho, e outros sectarios da sua eschola philosophica, querem dizer na sua—n’uma terra, que não acceitou o legado do Conde de Ferreira, em que a Politica é o que sabemos, e em que os jovens engraçados, que hoje possue, se riem franca e desassombradamente, quando, nos bailes da Assemblea, uma senhora tem a infelicidade de cahir, ou quando, nos bailes de Tuy, onde são obsequiosamente acolhidos, mettem os cotovellos á cara dos infelizes pares, que de perto os seguem.[9]
São tambem opiniões... e feitios.
Ainda hei-de interrogar, sobre este ponto, os srs. Abreu e Oliveira, que são os homens que, por aqui, vejo mais nos casos de fallar de tudo e de todos, com auctoridade e competencia. Esses senhores devem saber muitas coisas e todas a fundo. Basta observar aquella constante concentração de espirito, e completa indifferença, com que encaram este mundo.
São cerebros, que, indubitavelmente, trabalham na resolução de grandes problemas sociaes.
Lembram-me tanto Mr. Prudhomme...
*
Justininho tinha muitos diplomas de Socio Honorario e de dito benemerito; tinha pennas d’oiro e de prata, etc. Era um perfeito rapaz de sala; recitava poesias; tinha album para ellas; conhecia uma infinidade de marcas no jogo do Senhor Abbade; e, para os rapazes, tinha uma grande habilidade: assobiava magistralmente.
Atacando um spartito de Mozart, de Verdi, de Gounod, ou a cadencia das valsas de Strauss, de Metra, ou de Waldteufel, aquelle assobio tinha a malleabilidade d’um rouxinol, a limpidez das notas da Patti, o crystallino da escala de Gayarre, ou do Masini. Quando, em noites de luar, Justininho passava na rua de S. João, todas as janellas se abriam para dar passagem, até aos leitos conjugaes, ás ondas sonoras, deslocadas pelo assobio.
*
Ora, como V. Ex.ª deve ter verificado, não lhe faltavam condições para inspirar sympathia e, certamente, vae ficar admirado, quando lhe disser, que havia quem embirrasse com elle!
Era o sr. Coronel Almeida. Chamou-lhe, por ironia, importante cá da terra.
Ignoro as razões, que originaram a antipathia de sua Ex.ª
Tambem por cá havia muita gente, que embirrava com o sr. Coronel. O Isidoro diz que elle era um homem muito fino; mas o Agostinho torce o nariz e Agostinho é homem, que se não engana, que é consultado pelas pessoas mais importantes da nossa terra, homem que sabe o que diz, e que não dá ponto sem nó.
Seria bom, ou mau, como quizerem. O que eu digo, é que era muito feio; mais feio ainda, do que o sr. dr. Salgado!
Devo ao sr. Coronel um grande serviço e um grande desgosto.
Conto o primeiro:
*
Eu tinha ido ouvir um sermão do Padre Capellão, em que sua Reverendissima, desviando-se, completamente, no estylo, na fórma, na sublimidade das ideas, na concepção das imagens, no arrojado da Phantasia, da vulgar Oratoria do Palmeirão e quejandos, me descreveu, d’uma fórma completamente original, intuitiva e concludente, em face da moderna Sciencia, a maneira como o animal homem appareceu n’este mundo.
Foi no Eden. Eva tinha ido aos grillos, mas estes, sahindo rebeldes á palheira e, como ella não conhecia ainda o outro meio natural de os fazer abandonar a toca, andou por montes e valles, cançou-se, e... adormeceu.
Veiu então Nosso Senhor, tirou-lhe uma costella, bufou-lhe e sahiu, já prompto e acabado, o nosso primeiro Pae.
Ora, isto satisfez completamente o meu espirito; dissipou todas as duvidas, porque é, realmente, uma das mais... respeitaveis e maravilhosas concepções dos livros sagrados.
Mas, passado pouco tempo, soube eu que, lá fóra, andavam ás turras differentes sabios por causa de novas theorias de evolução, selecção natural, transformismo, etc., sustentadas por Darwin e Lamark e combatidas por Linneu e Cuvier.
Alvoroçou-se a minha curiosidade e tratei de estudar a questão, com a attenção devida á sua importancia.
Durante muito tempo, nunca tirei o caso a limpo. Se passava por o sr. José Luiz,[10] dizia com os meus botões: vou com Darwin; se passava por o sr. Velloso dizia: vou com Cuvier.
Assim estive muito tempo, hesitando, e sem saber se, realmente, o meu coccyx foi sempre o extremo da columna vertebral, ou se em tempos remotos, esteve ligado a algum appendice, que hoje tem um nome muito sympathico ao sr. Marquez de Vallada.
Chegou o sr. Coronel a Valença e entrou a verdade no meu espirito. Fez-se a luz! Venceu Darwin.
Indubitavelmente, inquestionavelmente, o sr. Almeida não teve a mesma origem, que teve o sr. Velloso; a não ser, que se possa admittir uma hypothese, mas com essa nada tenho, porque não entra no meu programma. É questão de portas a dentro:—que houvesse troca nas vias da expedição...
*
Agora conto o desgosto:
Já lá vão quinze annos! Minha mulher andava, com licença de V. Ex.ª, no seu estado interessante.
Uma noite, para lhe combater a insomnia, li-lhe uma historia do Egypto, em que figurava o grande Sesostris, que morreu, como se sabe, ha perto de 4:000 annos e de que existe a mumia n’um museu qualquer.
Havia, n’essa historia, mortes, egypcios de barriga furada, pharaós com as tripas de fóra, creanças desventradas, velhos postejados—uma matança de arrepiar carnes e cabellos.
O livro tinha gravuras e n’uma pagina, via-se o grande Sesostris mumificado por aquelles processos, ainda hoje ignorados, dos antigos egypcios.
Minha mulher não gostou e affligiu-se. Fechei o livro e abri a porta, para ir cumprir uma necessidade urgente.
N’isto, passa na rua o sr. Coronel, e logo que minha mulher o vê, desata a berrar:
—Ai o Sesostris! Ai o Sesostris!
Teve uma syncope e, depois, dôres violentas.
D’alli a duas horas a sr.ª Maria do Hospital aproximava-se de mim e, com aquella amabilidade, delicadeza e fino trato que, infelizmente, lhe conhecemos, dizia-me estas terriveis e significativas palavras:
—Senhor, nada de affligir, porque a fabrica ainda cá fica; mas esta... deu-a para fóra!
..............................
Comprehendi. E no auge da minha dôr, para explosão da minha cólera, só pude exclamar:
Raios partam o Sesostris!
*
Deixemos coisas tristes...
Eu fallei no Velloso...
Este Candido Velloso, com os seus olhos negros, com o seu collete branco, o seu collar decotado, a sua perna bem lançada e elegante, o seu pequenino bigode á mosqueteiro, e com o oiro do seu uniforme, é o terror dos Paes de familia d’esta região peninsular.
João, é Candido e candido; meigo, carinhoso, delicado, para o bello sexo. Tem a sensibilidade d’um bardo; a alma sonhadora d’um menestrel; o espirito cavalheiresco d’um paladino; a pureza immaculada d’um Abeillard; o lyrismo d’um Romeu; a altivez d’um Quichote—todos os attractivos, emfim, d’um João com Dom e ás direitas.
Cinco seculos antes, e Velloso seria um dos onze companheiros de Magriço, n’aquella cavalheiresca aventura da côrte ingleza.
Apparece em toda a parte, onde ha senhoras. Corteja, sorri, offerece os seus serviços e conta coisas, que entretêm.
A sua organisação affectiva é poderosissima. Com o amôr, as contracções dos ventriculos, para a diastole e para a systole, realisam-se com uma força equivalente a 750 kilogrammetros por segundo.
O seu coração é um enorme caravanserail. Tem cem auriculas e cem ventriculos, com a capacidade de 64 metros cubicos cada um. Os amôres cabem lá dentro vestidos, calçados e com guarda-chuva aberto.
Cada um tem o seu quarto numerado. Ao levantar-se, Velloso, passa em revista todos os seus affectos e escolhe para o dia.
Não revela preferencias, para não originar baralhas. Ás vezes desapparece da circulação, porque os Papás valencianos e tudenses, aterrados, inquietos, vão ter com o sr. Silva Pereira e exigem-lhe a deportação do incendiario.
Lá vae para Castro Laboreiro. Quando é necessario por cá, basta pronunciar baixinho, esta palavra:—baile. No aureo tempo, em que João Morães era enthusiasta pelas danças e promovia aquellas apatuscadas reuniões-familiares, em que a gente ía á Assemblêa, para apprender a fazer meia, ou para ajudar a dobar maçarocas e novelos ás senhoras—acontecia ás vezes o seguinte:
João Morães lembrava-se d’um baile. Só no seu cerebro se definia essa idea. Matutava sobre o caso. Fechava-se no gabinete e, concentrando todas as suas faculdades, principiava o orçamento.
Calculava e annotava:
Total 30 mil e tanto. Por cabeça—tanto. João Morães verificava. Tirava a prova dos nove. N’isto, batiam discretamente á porta. João abria e cahia-lhe o Velloso nos braços, offegante, pallido. Vinha do Castro Laboreiro a pé, a cavallo, no comboyo.
—Sei que projectas um baile. Ahi tens a minha quota. Risca; e olha lá—oh menino—vê se arranjas isso depressa. Passam-se tão bem aquellas horas...
Este João deve ficar na terra. Deve ser expropriado por utilidade publica. Barcellos, que se arranje lá, como quizer. O Velloso Candido é que para lá não volta. D. Joões temos muitos por cá; agora, candidos, ha só um, que é elle; e esses, é que se apreciam, porque não fazem mal.
Velloso Candido! Trata de te matrimoniar, filho.
Oh diabo!... E a Mé...?
*
Em Politica, Justininho foi sempre, como eu—um desgraçado. O mais que podia conseguir, (e n’isso levou-me a palma) era um convite para fazer parte das mesas eleitoraes. Pois arranjou popularidade nas aldeias. Os lavradores respeitavam-n’o e affirmavam, que tinha lume no ôlho.
Em leis do Real d’agua e da Contribuição do Registro era um Salomão.
Ahi vae um exemplo:
Os guardas do fisco trouxeram-lhe, preso, um camponio, que tentára introduzir na villa, sem direitos, um garrafão com meio almude de vinho.
Perguntou o desgraçado quanto tinha a pagar e, aterrado com a multa e tantos por cento, nas barbas honradas da auctoridade, levou o garrafão á bocca e despejou-o d’um trago.
Nada se podia fazer, porque o Regulamento não previne esse caso.
Sahiu o homem, mas ao virar a primeira esquina, sentindo-se afflicto, levou as mãos á bocca e despejou o vinho.
Justininho vê isso e manda-o novamente prender. Intima-o a pagar direitos e multas correspondentes.
—Mas eu bebi o vinho, senhor!
—Bebeu, mas deixou-o ficar na villa, dentro de barreiras. Alli está, introduzido sem pagamento de direitos. Art. 1007.º do Regulamento de 6 de Maio de 1884. Pague!
—Mas eu esgumitei-o[11], senhor!
—O dito Regulamento, no seu paragrapho de isenções, não lembra esse caso. Pague!
E pagou, que não houve volta a dar-lhe. Nem sete doutores o salvavam.
*
Ora aqui está, o que pude apanhar ao Justininho d’outros tempos. Hoje está homem sério, como eu; já nem escreve nas gazetas, o que é realmente para lastimar, porque nem a gente sabe quantos robustos meninos, por ahi nascem.
Justininho,
boas noites.
III
Carta a Sua Excellencia, o sr. Governador... de Paysandu
Senhor!
Tenho a honra de me apresentar a V. Ex.ª
Sou o Zinão.
Quarenta annos; casado, e com bom comportamento moral, civil e religioso.
Nunca tive contas com o Borralho, nem com o Assiz dos Algarves, nem com o Julinho.
Sou de muito bom genio; depois que vi as caras feias, que fazem os srs. Barros e João Monteiro, quando se zangam, abracei immediatamente as doutrinas philosophicas da eschola optimista, e digo com Leibnitz: «Tudo vae bem n’este mundo, que é o melhor possivel.»
Sou irmão da Misericordia e approvei a admissão das irmãs de Caridade, porque em coisas de religião sou muito temente a Deus, como o sr. José Narciso. Tenho bulla, porque se a não tivesse, quero dizer, se a não pagasse, diz a Santa Madre Egreja, que era peccado comer carne.
Vou á missa e á desobriga; além d’isso, sendo amigo intimo do sr. Baptista e, como affirma o dictado, os amigos dos meus amigos, meus amigos são, tambem sou das relações intimas da Senhora do Faro, que tem tomado chá na casa d’elle, e com quem este senhor se trata por tu, jogando, nas noites de inverno, a bisca e o 31 de bocca.
Tambem sou militar, porque pertenço á terceira reserva.
Respeito a mulher do meu proximo. Sou economico; tenho chapéos ainda mais antigos, que os do sr. Polycarpo.
Como portuguez, amo a minha patria; odeio os ibericos, como o sr. João Ignacio.
Em Politica sou legitimista, como o sr. Santa Clara, porque ninguem me tira da cabeça, que estes reinos pertencem ao sr. D. Miguel e a mais ninguem.
Tenho sido, por vezes, Juiz de Paz e, se na minha terra me não guindei, ainda, ás alturas a que chegaram os srs. Joaquim, que se carteia com o Ministro do Reino, ou o sr. Illydio Dias, que com a sua Bibliotheco-mania telegrapha ao Rei, como amigo velho, quem viver verá, que talvez consiga roubar-lhes o pennacho.
Ora aqui está a minha folha corrida; e por ella já Vossa Excellencia vê, que sou homem sério e que, se não moro na rua de S. João, podia muito bem lá morar.
Excellentissimo Senhor!
Dizem-me que Vossa Excellencia está prestes a deixar-nos, para ir fulgurar na brilhante constellação dos nossos generaes; e não quero que isso succeda, sem apresentar a Vossa Excellencia a homenagem sincera do meu respeito e enthusiastica veneração, porque considero Vossa Excellencia, como um dos melhores Governadores, a quem, para felicidade d’estes povos e d’estes reinos, Sua Magestade tem havido por bem confiar o governo d’esta Praça.
Na pleiade de homens illustres que, ha doze annos para cá, teem governado Valença, Vossa Excellencia destaca-se pelo seu senso, illustração, excessiva modestia e desprendimento das glorias do mundo, que tão tentadoras e offuscantes são, quando, após annos de lucta, de vigilias, de laboriosas lucubrações de espirito, de penosissimo labutar das funcções cerebraes com senos, cosenos, raizes quadradas de a e ditas cubicas de b, chega a gente a alcandorar-se nos inaccessiveis pinaculos d’uma tão elevada posição social.
Os dois illustres antecessores, que precederam Vossa Excellencia, eram e são muito boas pessoas; mas alargavam demasiadamente a esphera das dependencias da Praça, de fórma que faziam incluir no seu Estado-maior uma certa pessoa, clara já, talvez, á perspicacia de Vossa Excellencia—pessoa que, até alli, tinha a seu cargo o caridoso e humanitario mistér de desobrigar pessoas serias, como eu, Excellentissimo Senhor, e que, depois da chegada de Suas Excellencias, se viram na dura necessidade de, ou desviar para outra applicação a sua potencia vital, como, por exemplo, para o estudo de construcções, principiando com a rudimentar disposição das traves nos tectos, ou a curtir... as suas maguas pelas muralhas, entregando, assim, o organismo á terrivel atonia d’essa perigosa enfermidade, que a todos ataca na puberdade. (Vossa Excellencia tambem devia dar o seu contingente...)
Ora, o tal monopolio, Excellentissimo Senhor, tornou-se muito funesto á povoação. Foi, até, na epocha d’elle, e por causa d’elle, que aconteceu aquella grande desgraça ao sr. Abilio Araujo...
Eu sou muito amigo de Vossa Excellencia e Vossa Excellencia tambem é meu amigo. Sou d’aquelles que, no dia do Anno Novo, apanham o seu quinhão nas boas festas que Vossa Excellencia, lá das alturas, se digna dar, como os antigos senhores feudaes, á burguezada e aos paradas-velhas, cá da terra.
Depois, venero Vossa Excellencia, porque é um homem energico, que tem, como o povo diz (e realmente tem) cabellinhos na venta (com o devido respeito).
Aquella felicissima resposta, que Vossa Excellencia deu ao Padre Magalhães, quando elle foi pedir para a Semana Santa com o innocente sr. Joaquim e com o ingenuo Abbade das Gandras, foi fulminante de espirito; foi á Pombal, á Richelieu, á Pitt, á Bismarck, á Duque d’Olivares; teve a potencia explosiva d’uma bomba á Orsini, ou d’um petardo nihilista, preparado chimicamente, com os mais poderosos elementos endothermicos.
Disse-se, por ahi, que Vossa Excellencia procedera mal; porque, se queria dar carambola ao Noticioso, que lhe chamára General não sei de que, não devia escolher para bola vermelha um homem que ia de preto, que tinha entrado na sua sala de visitas, onde, até a pretalhada do Bonga, que pouco sabe de hospitalidade, recebe e trata bem a gente.
Accusaram Vossa Excellencia de ter faltado, n’essa occasião, aos mais rudimentares preceitos da delicadeza e até se asseverou, fazendo justiça ao caracter de Vossa Excellencia, que a tal resposta foi soprada ao ouvido, por Sua Excellencia, o Senhor Vice.
Eu não sou d’essa opinião. Vossa Excellencia respondeu e respondeu muito bem. N’isto de militanças praceiras, não ha attenções, nem hospitalidades, nem sala de visitas, ha... o regulamento do Conde de Lippe! Quem o não acatar... leva a sua conta, e assim é que deve ser.
O Padre devia ficar ainda mais pequeno do que é, mas Vossa Excellencia tambem escapou de boa! Se elle tem ao lado o Sant’Anna, lá do Porto, Vossa Excellencia bem podia gritar por Sua Excellencia, o Senhor Vice...
Então o caso era serio!
*
Depois, quem não ha-de respeitar Vossa Excellencia, com a sua variadissima illustração?
Nunca me hei-de esquecer d’aquelle esplendido discurso, que Vossa Excellencia, de improviso, pronunciou na Assemblea, em 20 de janeiro de 1887, quando tomou conta da Presidencia. Sei-o de cór; e tão profunda foi a impressão, que causou no meu espirito, que até n’elle ficaram gravados os ápartes e as interrupções.
Se Vossa Excellencia dá licença, eu repito alguns periodos. Os ápartes, para falar a verdade, são ainda para mim um tanto enigmaticos, mas deve haver por ahi, quem os possa explicar a Vossa Excellencia.
Ahi vae uma tirada:[12]
«... As prestimosas agremiações, como esta, com que as Sociedades modernas procuram deleitar e amenizar os espiritos, após as laboriosissimas horas da lucta e contrariedades da vida, nascem, crescem e desenvolvem-se, como essas enormes, vas- (o sr. capitão Marques da Costa:—Vaz? É o amigo Lopo? Então appoiado!) tas e florescentes ilhas do Atlantico e Pacifico, formadas pela organisação rudimentar das algas marinhas e de myriadas de seres microscopicos, da familia dos polypos, classe dos coelenterados, grande grupo dos radiados, ou zoophitos. (Os srs. Roldão, Polycarpo Monteiro, Zagallo e outros cavalheiros versados em sciencias naturaes:—muito bem!)
«Da Natureza, meus senhores, deliciam-nos as suaves fragancias das flores: a modestia da violeta; a pureza immaculada do lirio; o murmurar dos bosques, os seios tumidos (o sr. José Lopes, da Principal:—appoiado!) da donzella, os alvores da madrugada e o canto das avesinhas. (Os srs. Alberto Marques, Gaspar Durães, Justino Guerra e outros poetas e prosadores da estafada eschola romantica:—muito bem!)
«Pois na vida social, as horas fugitivas, que aqui deslizam em encantador e aprazivel convivio, com os Cavalheiros de fino trato (o sr. Verissimo de Morães:—appoiado!) e com as amaveis, airosas e donairosas e gentilissimas damas d’esta formidolosa Praça (os srs. Justino Guerra, Eugenio Martins e Soares Romeu, interessantes collaboradores do interessantissimo «Mensageiro das salas»:—appoiado!) ou com as encantadoras hijas da hidalga y noble Espãna (o sr. D. Ramon:—Ká! Muy bien! Maunifico! Precioso. Ká! Seño Gobernador: Viva la gracia! Ká!) bellas, como uma virgem de Murillo e castas, como a esposa de Jacob, de que me não recorda agora o nome (diversas pessoas serias:—appoiado!) quando as cingimos em suave enleio, no vertiginoso redemoinhar da valsa (o sr. Salazar Muscoso: muitobemmuitobemmuitobem!)[13] ou quando as brindamos com preciosas iguarias e delicados vinhos (os srs. C. Oliveira, Verissimo de Morães, um Cavalheiro de Tuy e outro de Monsão, que não tive a honra de conhecer:—appoiado!) essas horas, repito, representam em a nossa vida social aquellas alegrias da Natureza!
«Não ter alma para sentir isto, meus senhores, como muito bem disse o nosso grande ex-historiador[14] Alexandre Herculano, é proprio d’um ser doentio; é, como vulgarmente se diz, proprio de gente pequena. (Protestos ruidosos dos srs. dr. Ladislau, Alvaro Garção e P. Magalhães.—O sr. dr. Pestana:—peço a palavra para explicações.)
Trabalhar, pois, para esta Sociedade é uma acção de elevado patriotismo; (o sr. José Lopes, da Principal:—muito bem!) é uma acção de larga influencia regeneradora (protestos dos srs. Alvares d’Oliveira, P. Cunha e Agostinho) para os nossos costumes; é um symptoma da benefica evolução progressista; (protestos dos srs. Appollinario, Camisão e do dito sr. Agostinho) é, emfim, como ainda ha pouco me disse, e disse muito bem, o sr. Capellão (o sr. Leopoldo Gomes:—qual d’elles? Então Vossa Excellencia também gasta? Por isso eu estive á espera!...) que aqui me ouve, uma missão altamente honrosa e humanitaria!
«Por isso, meus senhores, unamos os nossos esforços e como os polypos e as algas.................... as algas.....................»
Que Vossa Excellencia me perdõe o que vou dizer, mas... perdi o fio ao discurso e o melhor é ficar por aqui, porque, n’estas questões de Historia, não quero metter de minha casa.
Verba volant, scripta manent...[15]
*
Eu atrapalho-me sempre, quando falo de Vossa Excellencia, que representa para mim o que ha de mais alto, mais nobre e augusto, nas elevadas jerarchias e coisas serias da minha terra.
Quando encontro Sua Excellencia nas ruas da vizinha cidade de Tuy, pisando com arrogancia e altivez, genuinamente portuguezas, o solo d’aquelles odiosos Filippes, seguido automaticamente, á distancia regulamentar, por alentado e escolhido artilheiro, como estabelece o regulamento de Sua Excellencia, o Senhor Conde de Lippe, eu tremo de respeito e envergonho-me de mim mesmo—pobre e mesquinho verme da terra.
Quando assisto á entrada de Sua Excellencia, solemne, magestoso, omnipotente, rutilante de oiro e pedrarias, constellado de crachás, faiscante de venéras,—no templo de Santa Maria, em festividade da Semana Santa, para mandar prevenir as auctoridades civis e ecclesiasticas, que superintendem no cerimonial, que está alli, para, como unico e fiel representante de Sua Magestade El-rei, n’estes burgos,[16] depôr o osculo de respeito nos chagados pés do Senhor dos Passos, exactamente como, á mesma hora, faz o mesmo Augusto Senhor Rei, no templo da Graça—quando o vejo aproximar vagarosamente da veneranda imagem, n’aquelle passo grave, solemne e arrastado de solas, com que os prophetas de barba de guita e cara borrada com pós de sapato, acompanham em Tuy o sagrado esquife, e o ouço depôr o respeitoso osculo, confundindo assim, em edificante e enternecedora homenagem, a magestade dos céos com a magestade da terra—quando sigo, depois, Sua Excellencia na retirada do templo, rodeado do seu luzido e brilhante Estado-Maior, essa pleiade de homens illustres, que representam o que ha de mais intelligente, nobre e indispensavel nas instituições militares do meu paiz, homens encanecidos em mil batalhas contra columnas cerradas de algarismos, cifras e cifrões de indomitas contas de feijão e batata, do rancho geral, ou dos cadernos da arrecadação dos puxa-frictores, morteiros, colubrinas, missagras, lanternetas, chapuzes, cepos, boldriés, sacres, caçoletas, falconetes, lanadas, cucharras, soquetes, munhões, sotroços, trinque-bales, tira e mette-buchas e outros tarecos velhos, que nas dependencias da Praça são do exclusivo dominio e usofructo dos ratos e aranhões, formando, no seu conjuncto, collecção superior, em inutilidade, á feira da Ladra—quando eu vejo tudo isso, meu Senhor, sinto-me mais pequeno do que um feijão fradinho; mais sumido, do que um certo parasita que Vossa Excellencia, d’essas alturas em que vive, não enxerga, mas com o qual, eu, infelizmente, estou relacionado, desde que commetti a imprudencia de (com licença de Vossa Excellencia) verter aguas, detraz das portas do Meio, onde tambem o faz a soldadesca!
Vossa Excellencia deslumbra-me; offusca-me; tem para mim as proporções d’um semi-Deus; mas quer Vossa Excellencia saber, respeitabilissimo Senhor?
Ha, por ahi, gente tão nescia, tão ignorante, tão alheia ao mechanismo d’esta complicada engrenagem das instituições sociaes, que chega a perguntar (perdõe-lhe Vossa Excellencia) para que serve o Governo da Praça, alliando, ainda, á ignorancia, a grosseria de lastimar que, do que a gente paga nas decimas, do que se rouba ao trabalho honrado e aspero do lavrador e do padeiro, se desviem 500 e tantos mil reis mensaes, obra de sete contos por anno, para ter ahi (que malcreados!) n’um rasoavel sybaritismo, cinco ou seis servidores da patria, equiparados escandalosamente (dizem elles) em honras e proventos, ao official, que nos corpos atura, diariamente, o brutal trabalho do quartel, com enorme responsabilidade, com necessidade de instrucção e arriscado a, d’um momento para outro, receber ordem para expôr a caixa craneana á bala do trabuco assassino, que anda a monte, ou ao zagalote do bacamarte desordeiro e avinhado, nas grandes borgas eleitoraes.
Eu, até, já ouvi dizer, Excellentissimo Senhor, que se isso era por causa das procissões, das missas pela alma do Senhor D. Pedro IV, ou da recepção das musicas gallegas, o Governo podia muito bem contractar, para tal effeito, os gigantones de Tuy, ou os barbacenas da Guarda romana, porque eram de mais apparato, era outra limpeza e ficava muito mais barato.
Mas quer Vossa Excellencia saber ainda mais? Ha, até, n’esta terra de cafres, quem reponte com a posição original que Vossa Excellencia dá á sua boquilha, quando, nas ruas, se delicia com os aromas d’um bom charuto! Como se Vossa Excellencia, pelo simples facto de não ter Tosão, d’Oiro, que dá honras de principe e direitos a poder fazer a gente o que quizer, não tenha a plenissima faculdade de trazer uma coisa (a boquilha), como muito bem lhe appetecer, horisontal, ou ao dependuro, e como se esta ultima posição não fosse, realmente, a mais decente e apropriada á edade de Vossa Excellencia!
Ora diga-me Vossa Excellencia, agora que desceu commigo a estes profundos abysmos da ignorancia popular, se é, ou não, necessario applicar, de vez em quando, a estes barbaros, umas espadeiradas á Macedo, ou quatro mimos com o historico chicote do Bruto, digo, do Barão do Rio Zezere...
Excellentissimo Senhor!
Eu folgo de ter encontrado pretexto, para manifestar o meu respeito e veneração a Vossa Excellencia, mas, como esta já vae longa, abrevio o muito que lhe tinha a dizer e contar.
Não se incommode Vossa Excellencia com as más linguas. Nosso Senhor Jesus Christo perdoou aos que não sabiam o que faziam. As realezas da terra, meu Senhor, são representantes legitimos da realeza dos céos. Affonso Henriques, quando em Ourique dava tapona na moirama, a folhas tantas, olhou para o céo e de lá fizeram-lhe um signal com a cruz, que queria dizer: vences. Constantino, quando se viu atrapalhado com os barbaros, olhou tambem para lá e o Padre Eterno fez-lhe o que a gente faz, quando está sentado na praia com o namoro, deante do futuro sogro e da rabujenta futura sogra e, não podendo dizer á rapariga: amo-te, oh filha! escreve sorrateiramente essas palavras na areia, com a ponta da bengala. Pois o Padre Eterno foi-se ás areias do céo e, com a vergastinha com que tosa a canalhada miuda dos anjos e seraphins, escreveu tambem disfarçadamente:
In hoc signo vincis.
Ainda ha mais exemplos, mas eu sou muito fraco em mnemonica.
Ora, sendo as realezas da terra representantes da realeza dos céos, e sendo Vossa Excellencia representante da nossa realeza, como muito e muito bem disse e declarou, ao annunciar o seu osculo nos chagados pés do Senhor dos Passos, ergo, por irrefutavel syllogismo, Vossa Excellencia é tambem representante n’esta terra, de Nosso Senhor Jesus Christo! Isto não falha.
Por conseguinte, Vossa Excellencia póde e deve perdoar, aos que não sabem o que dizem.
Eu não lhe aconselho isto com interesse directo, meu Senhor. Vossa Excellencia nada tem que me perdoar.
Eu adoro tanto as instituições da minha Patria, reputo tão necessarias e consentaneas, com as aspirações da epocha hodierna, as disposições dos regulamentos do sr. Conde de Lippe (que o diabo levou ha perto de 200 annos e podia, mesmo, ter levado logo ao nascer) das quaes, a mais branda e attenciosa é mandar varar por uma bala[17] o desgraçado, que tenha o atrevimento de—utilizando-se da unica applicação d’essas muralhas e torturado com as ancias e arrancos de urgentissima necessidade corporea, sem poder esperar um unico segundo,—baixar as calças, (permitta-me Vossa Excellencia a liberdade que vae expressa, ainda assim, em portuguez de lei, do que usava o Padre Antonio Vieira) que, se tivesse alguma importancia politica, se fosse homem de prestigio e d’estes que valem uma eleição, como os srs. Joaquim, Cardoso e seu amigo P. Cunha, Alvares d’Oliveira, Santa Clara e Agostinho que, unidos todos no mesmo partido, belliscados para a victoria do mesmo candidato, são capazes de levar á urna, não digo 6, mas, talvez, para cima de 3 votos, se fosse homem d’essas craveiras, repito, era capaz de ir a Lisboa, apresentar-me ao sr. Zé Luciano, ao Senhor Rei, se tanto fosse necessario, e reclamar energicamente, como indispensavel ao brilho das nossas instituições, ao prestigio do nosso exercito, á manutenção da nossa dignidade nacional, mais um segundo Governador, com um segundo... (não me lembro do nome... ah!) Estado Maior.
Sómente estabeleceria uma condição:—baseada no muito apreço, em que tenho os grandes homens da minha Patria; convencido da necessidade de haver aqui, na fronteira, nas barbas do hespanhol, quem dignamente possa representar o paiz—e seria: que, para fazer pár com Vossa Excellencia, não me dariam outro bis-Governador, que não fosse o grande, o saudoso, o inimitavel
Zé da Rosa!!
*
E se tal conseguisse, ai que alegria a minha, quando encontrasse Vossa Excellencia na rua de S. João, com a gravidade propria a um representante de Sua Magestade El-Rei, de braço dado ao sr. Zé da Rosa, outro representante de Sua Magestade (a Rainha, não meu Senhor?), seguidos por Sua Excellencia o Senhor Vice, com o seu chapéo de pennas de capão, e com a espada politica de Brenno, ao lado do outro Senhor Vice (quem devia ser? O sr. Roldão, por exemplo. É da arma de cavallaria...) e depois, atraz, o Senhor Baptista da Senhora do Faro com os outros Estados-Maiores; e depois ainda, atraz, muita gente, a sociedade do Provarei, o Fileiras, o João de Ganfey, o Senhor Martinho, que deitava la coca, o Capellão (o n.º 2), todos os paradas-velhas, etc., etc.
Com que arrebatamento então, meu Senhor, eu perderia as estribeiras e, mandando para o diabo a minha seriedade de Juiz de Paz, de irmão da Misericordia, de pae de filhos, como eu saltaria para a frente de Vocellencias e perdido, enthusiasmado, louco, distribuindo pançadinhas e piparotes e atando nas Excellentissimas trazeiras este raboleva de ridiculo,—que é a suprema essencia de toda essa grotesca mascarada, com que gargalhada homerica, ensurdecedora, colossal, lhes não bradaria:
—Oh que rica tropa fandanga!
—Quebra esquina, minhá gente!
Com o respeito devido a um Representante de Sua Magestade El-Rei, sauda Vocellencia o
Zinão.
IV
Uma descoberta do Dr. Charcot
Accedendo a frequentes reclamações diplomaticas do governo de Sua Magestade, o Imperador do Brazil, resolvera o Governo de Sua Magestade El-Rei de Portugal, que o primeiro fôsse auctorizado a expulsar dois cidadãos portuguezes que, segundo officialmente se asseverava, incalculavel prejuizo estavam causando ao regular movimento dos negocios commerciaes e, portanto, ao desenvolvimento material d’aquelle florescente imperio.
Não se fundamentava a necessidade da expulsão na cumplicidade em crimes politicos; attentados contra o Imperador, ou imperial familia; propaganda de ideas reaccionarias; troça ás preciosas producções poeticas de Sua Magestade; capoeirada nos chimpanzés da policia urbana, ou assuada ao Senhor Conde d’Eu.
Allegava-se, unicamente, que esses individuos, penetrando nas repartições do Estado, nos estabelecimentos commerciaes, nos grandes edificios de industria, nas escholas, nas egrejas, nos clubs, nos passeios publicos, nas chacaras e nos xadrezes, em qualquer parte—emfim—interrompiam as manifestações da actividade d’aquelle labôrioso povo e creanças, mulheres e homens abandonavam, immediatamente, o exercicio de qualquer mestér, fugindo espavoridos e como fustigados, por mal extranho e desconhecido.
A origem d’aquella nociva influencia, a natureza dos phenomenos que ella produzia, a complexidade dos seus effeitos, escaparam, sempre, á perspicacia dos doutos Galenos das terras do sabiá, porque as mesmas propriedades repulsivas obstavam ao demorado exame, que o caso requeria.
Annunciava, n’essa epocha, o eminente Pasteur os seus primeiros trabalhos sobre Microbiologia, que tão poderosa influencia vieram exercer na orientação das sciencias medicas; e não faltou, no estudo investigador dos clinicos d’alem-mar, a applicação das novissimas theorias, com pacientes trabalhos de microscopio, observações por analyse e por synthese e outros processos que a Chimica medica aconselha e, até, com demoradas experiencias nas fezes em acção sobre os orgãos das cinco funcções especiaes da sensibilidade, incluindo a pituitaria e a membrana, onde se ramifica o nervo de Wrisberg.
Lembrou-se alguem de classificar aquelles phenomenos, como suggestões motrizes do moderno Hypnotismo; mas Charcot, Richer e Bernheim, consultados sobre o caso, oppozeram-se á diagnose, visto que elles se manifestavam sempre com a mesma intensidade, isto é, que todos os individuos soffriam egual influencia repulsiva e não se evidenciavam as differenças na sensibilidade á hypnose, que nos sujets estabelece, como caracteristico, a diversidade de circumstancias physiologicas e pathologicas.
Nada se podia descobrir.
Havia no organismo dos dois individuos uma propriedade repulsiva, identica á das tremelgas, ordem dos selacios, grupo dos peixes cartilaginosos; mas desconheciam-se os elementos constitutivos d’essas propriedades e elles continuavam a exercer, em toda a parte, e a toda a hora, a sua funestissima influencia.
Uma unica circumstancia se pôde descobrir, graças á perspicacia do mais reputado Esculapio da Tijuca, a quem se deve a preciosa descoberta da cataplasma de linhaça e foi: que diminuia, consideravelmente, a intensidade d’aquelles phenomenos, quando se isolavam os dois individuos, ou quando permaneciam incommunicaveis.
Utilizando-se d’esta descoberta, o Governo do Imperador, attendendo aos laços de sangue e affecto, que unem os dois paizes, resolveu exportar a praga em epocha e vapor differentes. Assim se fez, com effeito.
O governo portuguez, assustado com o flagello, que subitamente cahia no solo da Patria, reuniu immediatamente a Junta de Saude e, por indicação d’esta, foram os dois compatriotas enviados a Pariz—onde, n’outras espheras e com outros horisontes se dilata a intelligencia humana—para lá serem submettidos á analyse dos grandes Mestres da Sciencia.
Após demorada observação e attento exame, o eminente Charcot, encontrou, emfim, a resolução do problema, que largamente foi demonstrada no Boletim da Academia de Medicina de Pariz, (mez de novembro de 1876) e, com prodigioso interesse, escutada por selecto auditorio, na mesma Academia, em sessão extraordinaria de 27 de dezembro, do mesmo anno.
Não tendo aqui, presente, a lucida exposição do eminente sabio, limito-me a reproduzir, e certamente d’uma maneira deficiente e incompleta—attendendo á escassez dos meus conhecimentos scientificos—a theoria, em que Charcot baseou a explicação do estranho phenomeno.
*
V. Ex.ª sabe, como a moderna Sciencia explica, na Acustica, a producção e a propagação do som.
«O som é o resultado d’um movimento vibratorio, communicado á materia ponderavel»—eis a base da theoria, hoje adoptada e conhecida por «theoria das ondulações».
Conhece, tambem, o mechanismo da voz humana. A voz provem da acção do ar nas cordas vocaes. O ar, que sahe dos pulmões, produz, n’essas cordas, vibrações, mais ou menos rapidas, que transmittindo-se ás paredes da larynge se tornam sonoras, e que, depois, a acção combinada da lingua, das maxillas e dos labios, altera modifica e articula.
Conhecido é, tambem, o mechanismo da audição. As vibrações executadas pelas cordas e transmittidas, em ondas, ao ar exterior, chegam-nos ao pavilhão do ouvido e vêm, pelo tubo auditivo, actuar na membrana do tympano. Seguem, depois, até ao ouvido medio, no ar n’elle contido, e, pela cadeia do estribo, do martello, da bigorna e do osso lenticular, reproduzem-se, ainda, nas membranas das janellas redonda e oval, communicam-se ao liquido, que existe no ouvido interno e d’alli, pelos filetes do nervo acustico, ao cerebro.[18]
A potencia das vibrações, o deslocamento, mais ou menos violento, das ondas sonoras depende, portanto, alem d’outras circumstancias, da força com que os pulmões fornecem o ar, e da maior ou menor vibratilidade das cordas vocaes. Por isso, vêmos individuos com voz forte e penetrante, como o sr. Barros, e outros, com voz debil e sumida, como o sr. Nunes de Azevedo, que difficilmente se percebe.
Ora succedia que, por uma disposição especial dos pulmões, da larynge e das cordas vocaes, aquella força expulsiva do ar e a vibratilidade das cordas, existiam nos dois individuos em grau extraordinario e ainda desconhecido para os mais eminentes physiologistas. D’essa disposição especial resultava, tambem, que a voz, já potente e forte, obtinha, ainda, consideravel augmento de intensidade com a reflexão nas paredes da larynge, attingindo o que em Acustica se denomina resonancia.
Quando as vozes não encontravam obstaculo, pouco se conhecia esse augmento de intensidade, porque, então, se perdiam na atmosphera; mas, se as ondas deslocadas por cada uma se encontravam, era tal a violencia do choque e das vibrações, d’elle provenientes, que só a poderemos comparar, nos grandes phenomenos da Natureza, á rapidez e violencia das ondas do Oceano quando, açoitadas por furioso vendaval, avançam, chocam-se, equilibram-se com medonha expansão de força, recuam para formar novo salto, até que uma perde a força resistente, e a outra vence, esmigalhando, com espantoso ruido, tudo o que se oppõe á sua passagem.
Este effeito destruidor soffriam todas as peças dos apparelhos auditivos, que o circulo da primeira projecção podia abranger.
As membranas do tympano dilatavam-se n’uma dolorosa expansibilidade; o martello batia desesperadamente na bigorna com o mesmo furor, com que Mestre Borralho batia a sola, quando não era director dos Presidios civis; o estribo andava aos saltos, como anda em corcel fogoso, quando, no meio da batalha, entre o rugir da artilheria e o sibilar das balas, perde o cavalleiro e parte, desvairado e furioso.
Na trompa de Eustachio desencadeava-se um verdadeiro cyclone.
Nem as trombetas de Josaphat, n’esse terrivel dia do Juizo final, poderão egualar o infernal ruido, que supportavam os apparelhos auditivos.
Depois, para aggravar o flagello, dotára Deus os dois individos com uma extraordinaria loquacidade, e constante verborrhea que, de dia e de noite, lhes agitavam nervosamente os labios para questionarem, discutirem, argumentarem sobre tudo e sobre todos, em portuguez, em francez, em latim, em allemão, em quantas linguas vieram de Babel.
Era sempre de funestos resultados, de dolorosas consequencias a sua presença, e por isso, homens, mulheres e creanças fugiam, prestes, ao sentil-os, interrompendo todas as manifestações da sua actividade e todo o exercicio dos seus mestéres.
Desculpavel fôra, pois, o proceder do Governo brazileiro, expulsando os nossos compatriotas.
*
Ora aqui tem V. Ex.ª, sem exaggero, sem alterações da verdade (que, por ahi, n’este assumpto, tanto tem sido alterada) subordinada a rigorosa demonstração scientifica—a razão, porque regressaram a esta terra, e se respeitam, e se evitam, a ponto de viverem separados pelas grossas muralhas da Praça, os nossos amigos:
Leopoldo Gomes
e
Abilio Lucas.
*
Evitam-se e respeitam-se—disse eu, e demonstro.
Um vive dentro, outro fóra. Um foi a Paris em 75; outro em 79. Quando um é da Camara, o outro é da Commissão do Recenseamento. Abilio é socio da Assemblea e frequenta-a; Leopoldo despede-se. Entra novamente Leopoldo; Abilio deixa de frequentar aquella casa. Leopoldo conta a historia dos relogios; Abilio sorri maliciosamente e insinua a duvida; explica Abilio o remedio, que descobrira o ilheu, para salvar a senhora mãe; Leopoldo mastiga em secco e pisca o ôlho para os circumstantes. Um faz-se agricultor e trata de terras no Arraial, em Picões, na Esplanada; o outro faz-se politico e «provarei». Entra o segundo na Politica activa; desvia-se o primeiro, e trata de terras em Gondomil—polo opposto. Um, gosta do Capellão e fala-lhe a miudo, como homem temente a Deus; outro, não se dá com esse ministro do Senhor e rosna-se, até, que tem as suas questões com elle. Um, move-se, agita-se, apparece de manhã na villa, ao meio dia em Monsão, á tarde em Gandra e sempre a pé; outro, limita o exercicio dos seus membros locomotores á loja do sr. José Lopes, ou do sr. José Seixas.
É evidente, palpavel, esta incompatibilidade, esta heterogeneidade de individualidades, que se origina na intima convicção, que elles teem da sua influencia destruidora e no accordo, ou modus-vivendi, que, para mutua conveniencia, secretamente estipularam, ao fixarem a residencia na terra, em que nasceram.
*
Quando, ha annos, estive em Paris, no regresso da minha viagem de estudo pelo Oriente—á Mongolia, ao Turkestan, a Niphon, a King-Ki-Tao e outros centros da Asia—onde fui recolher materiaes e elementos comparativos de civilização, com os da minha terra, para a composição d’este livro, encontrei-me, na Academia de Medicina de Paris, com o sr. Zagallo, que alli estudava, commissionado pela Excellentissima Camara d’esta villa, a organisação do serviço de Hygiene publica, indicado, por aquella faculdade, á municipalidade parisiense;—missão, essa, que Sua Excellencia, tão brilhantemente desempenhou, e que tão beneficos resultados produziu para esta povoação, como se prova com esse elegante, commodo e original water-closet do jardim publico.
Tive, n’essa occasião, a honra de ser recebido pelo eminente dr. Charcot.
Falando no meu paiz, alludiu o illustre clinico aos dois portuguezes, que em 74 examinára, por recommendação do Governo; e foi grande a sua admiração, quando lhe affirmei, que com elles vivia em Valença, e que, ha dez annos, permaneciam na mesma localidade, se bem que, nas condições especiaes de isolamento, que já referi.
Mas, a minha asserção tocou para Charcot as raias do inverosimil, quando, á supposição, que me apresentou, da existencia inevitavel de graves doenças e perturbações no apparelho auditivo dos meus conterraneos, sujeitos á convivencia e aos perigosos effeitos da presença e communicabilidade d’aquelles amigos, eu lhe affiancei que não eram essas enfermidades, as que mais avultavam nas estatisticas da secção de Hygiene municipal.
Charcot fazia bem em duvidar. Eu faltei á verdade, e a isso me levou a amizade, que a esses Cavalheiros me liga, e a repugnancia, que tive, em tornar odiosa, para o eminente sabio, a existencia de dois patricios, que tanto prezo, acato e... respeito.
Mas V. Ex.ª sabe o que por cá vae...