Abilio

Examinando-os, apreciando-os isoladamente, reconheço os valiosos serviços que os meus amigos—Abilio e Leopoldo—teem prestado ao desenvolvimento material e intellectual da nossa terra; e não se esquiva a minha consciencia a declarar, que são uteis e, mesmo, indispensaveis, entre nós, as suas individualidades.

Abilio entrou, por um generosissimo impulso de gratidão, na Politica activa de Valença.

Accusam-n’o de violento, de precipitado, de faccioso, ou, como diz o povo, de... petroleiro. Eu classifico todo o seu proceder politico, como o de um innocente noviço, ou ingenuo collegial.

É um homem, meus senhores, que trabalhando ha seis annos em eleições, n’esta terra, independente em Politica, como se sabe, tem sustentado a creancice de seguir um só partido e respeitar uma só opinião—a dos regeneradores!!!

Ora isto, em Valença, se não indica falta de senso, revela excesso de ingenuidade e para esta ultima hypothese me inclino, porque não admitto que, para umas manifestações da mentalidade humana, haja falta de senso e isso se não dê com as outras.

Abilio é, pois, um ingenuo politico e—o que mais é—um ingenuo faccioso. Referindo-se á administração progressista, tem a eloquencia de Danton, a arrebatadora oratoria de Robespierre, a impetuosa dialectica de Cassagnac.

É violento, incisivo, caustico.

N’aquellas medonhas explosões de colera, fere, trucida, chacina, esposteja nas hordas contrarias, como S. Thiago na moirama.

Chega a rubro a temperatura da sua palavra.

«É preciso, meus senhores, mostrar ao povo os seus direitos, para que elle saiba expulsar, a chicote, das cadeiras do poder e de tudo aquillo, esses bandidos, sem eira nem beira, que estão delapidando os dinheiros publicos e tudo aquillo, que representa o trabalho honrado do povo, o suor do seu rosto, tudo aquillo, que ganha para o sustento dos seus e de tudo aquillo, que lhe pertence.

As nossas finanças vão, de cada vez, a peor, tudo aquillo, que representa a riqueza da nação vae parar, vae sumir-se n’esse insondavel abysmo de ladroeiras, de arranjos, de afilhados, de metades, de tudo aquillo

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N’este periodo de excitação, Abilio deixa-se apoderar, tanto, da sua convicção partidaria, perde, de tal fórma, a cabeça, que se esquece de tudo e de todos, concentrando todo o seu ser, toda a sua vitalidade na idea e na palavra, com que, mais rapidamente, possa inutilizar o adversario.

É assim que, ás vezes, o vemos sahir de casa, arrebatado, irado contra algum arranjo, que lhe foram annunciar, e entrar, precipitadamente, na sala das sessões da nossa Excellentissima Camara, com uma bota branca, outra preta; assoar-se a uma luva, suppondo-a um lenço; metter o cigarro na bocca pelo lado acceso; tirar rapé d’uma caixa de phosphoros—perfeitamente allucinado, colerico, perdido!

Originam-lhe inimigos estes arrebatamentos; mas se o Papa, como unico correspondente, cá na terra, do Padre Eterno, me enviasse o livro das informações particulares, que hão-de influir no tremendo dia de Juizo e d’onde dependerá, ou a nossa absolvição, ou a condemnação ás caldeiras de Pero Botelho, em que fazem caras tão feias aquelles bispos mitrados, que por ahi vemos nas alminhas dos caminhos ruraes, na folha corrida do Abilio, eu não hesitaria—desassombradamente o declaro, sem pretenções a adulador, sem interesse occulto presente ou futuro, sem desejar provar a Paraty, ou tencionar pedir dinheiro emprestado—em exprimir o conceito e a consideração, que este homem me merece, sobretudo quando a lente da minha observação se desvia um pouco do campo, que lhe tracei para a critica e m’o apresenta no outro, que respeito em todos: a familia,—n’estas cinco palavras:

É um homem de bem.

E ao escrever isto, com plena consciencia e convicção, vem-me á lembrança, não sei como, nem porque, a constante recommendação, que o meu tutor me fazia, quando, ao partir para os estudos, me introduzia na mão, com uma generosidade vanderbiltica, coisa de dois patacos em cobre, com estas reflexões de moral preventiva:

—Ahi tens dinheiro... Tem juizo; foge dos cafés, das ruas de movimento e... das más companhias.

... das más companhias...

Para fugir d’ellas, e dos seus perigos, é que se fundou a sociedade dos Provareis...

Valha-me Nosso Senhor Jesus Christo!

Que tentações...