Santa Casa da Misericordia

É uma Santa Casa de Politica.

As eleições disputam-se (tudo por philanthropia) como as da Camara, ou do deputado. Impera sempre n’ellas, para suprema humilhação dos valencianos, a massa bruta da Urgeira, porque ha o cuidado de conservar alli a maioria dos irmãos.

Quem escreve estas linhas já teve, por duas vezes, a honra de ser convidado para irmão da Santa Casa. Por acaso, aconteceu sempre isso em vesperas de eleições. Mero acaso.

Na ultima lucta eleitoral entrou uma fornada de 60 ou 70 irmãos. Offereciam-se os diplomas com todas as despezas pagas, e depois da eleição houve regabofe de castanhas e vinho branco. O moderno carneiro com batatas ainda não estava inventado.

Foi uma eleição renhida, tenazmente disputada; e, com ropias de parva politiquice, dotou-se a terra com mais uma loja de... barbeiro!

Deus me livre de duvidar, por um momento, dos sentimentos caritativos dos especuladores, quero dizer, dos protectores da Santa Casa.

Mas (pergunta-me um diabo que tenho aqui, ao pé de mim, e que desconfia de tudo), porque será que em todo o anno ninguem se lembra do Hospital para lhe augmentar os rendimentos, ou para alargar a sua acção benefica?

Porque será que esse zelo se não manifesta agora, auxiliando os Provedores nos trabalhos da utilissima instituição que o legado Cruz fundou—o Asylo?

Porque vos não reunis agora em activa propaganda,—oh cafila de pantomineiros!—angariando no Concelho donativos em dinheiro e em materiaes que habilitem a Santa Casa a, quanto antes, poder levantar esse edificio tão util para os infelizes?

—Parece-me (diz o tal diabo) que se a Santa Casa, em vez de ter um capital de cento e tantos contos, em inscripções, escripturas com hypothecas, e fiadores com paes, manos e cunhados, tivesse apenas algumas de X, ninguem lhe disputaria as eleições.

Que diz V. Ex.ª a isto, interrogando a sua consciencia?

Teremos n’este caso Philantropia, Politica, ou... abandalhado Arranjo?

Em coisas da Santa Casa, por emquanto, vem só isto á luz do dia.


Ora aqui tem V. Ex.ª um rapido e superficial exame sobre as principaes instituições da nossa terra.

A Politica, a Hypocrisia e a Rotina imperam soberanamente em tudo que póde ser util em Valença. Por isso, quando a gente bate á porta de muitos filhos d’esta terra, que lá fóra, pela sua posição e pela sua fortuna podiam auxiliar novas instituições, só ouve queixas, reclamações e justos resentimentos.

O grande homem da nossa terra seria um velhaco qualquer que em eleição renhida pudesse empalmar o João de Gaiteira, ou o Abbade de Cerdal.

Se alguem conseguisse isso, á noite, na taberna do Pedro, teria uma apotheose de calhos e de chouriço com ovos, de rachar tudo.

*

—Mas, oh sr. Zinão, dirá V. Ex.ª, então não ha por ahi homens que tenham interesses no Concelho e que lucrem com o seu desenvolvimento?

—Oh, meu senhor! V. Ex.ª sabe quem verdadeiramente mexe os pausinhos da nossa Politica? São os pyrotechnicos da Questão da Santa. São dois homens que teem tantos interesses no Concelho como eu, que por duas perras chicas offereço a V. Ex.ª as minhas propriedades. São os que armam as baralhas.

Não teem um palmo de terra que os interesse no desenvolvimento da Agricultura; não teem uma capoeira nas freguezias, que lhes faça sentir a necessidade de estradas; não teem relações directas ou indirectas com o Commercio, nem com a Industria. Entre elles e as instituições civis ha um abysmo. Nunca fizeram parte d’uma corporação que tratasse do desenvolvimento do Concelho. De administração municipal sabem tanto, como eu sei quem V. Ex.ª é. Influencia pessoal: como são dois, levam dois votos. Tem Politica de sapa. Ensaiam as comedias, põem os actores na rua, mas quando veem fogo nas barbas da vizinhança mettem-se em casa e fecham as portas.

Posso francamente asseverar a V. Ex.ª que esses homens inspiram na povoação mais antipathias do que affectos. Elles que digam a V. Ex.ª se não teem a consciencia d’isso... Aos que lhes fazem a côrte oiço ás vezes cada arcada, em surdina...

Um quer por força pôr o pé nas muralhas para trepar á tina, onde se tingem as meias. O outro surgiu ahi na tripode das sibyllas sem a gente saber como nem porque; dizem que vê as coisas muito ao longe. Ás vezes adivinha, mas se dá a palavra d’honra... é tolice certa.

Ora, como na terra dos cegos e dos dorminhocos quem tem um ôlho é rei, os homens por cá vão arranjando a sua vida muito honradamente e livres de vergonhas do mundo.

*

Esses dois maioraes representam os dois partidos; porque nós, meu senhor, nominalmente, tambem temos dois partidos, como as terras grandes. A gente é sempre a mesma.

V. Ex.ª recorda-se do que succedeu ha quinze dias, em S. Pedro, com os comparsas d’aquelle Auto dos Moiros e Christãos?

O Zé da Cancella, o Chico da Aguilhada e o Tóne do Pernicas, no primeiro domingo faziam de judeus. N’aquella scena em que, por ordem do Bento Cambádas, que era o Herodes, matam os innocentes, o publico e especialmente o mulherio, escamou-se com elles, mandou-os p’ro raio que os parta e correu-os a soque.

No outro domingo nenhum d’elles quiz fazer de judeu e para que a peça se representasse, metteu-se o Senhor Abbade no caso. Os que eram christãos passaram para judeus e vice-versa.

Cá, nas farças da nossa Politica, succede o mesmo. Quem faz de Abbade é o Senhor Administrador.


Ora aqui está, meu senhor, a razão porque o Concelho ganhou o titulo de burgo podre e a razão porque a gente, quando vae offerecer o circulo a pessoas serias, como succedeu ha mezes, é posta no ôlho da rua pelo creado da casa.

*

Voltemos á Questão da Musica e encaremol-a pelo seu verdadeiro aspecto—o comico.

Esta celeberrima questão, decomposta nos seus factores, baseia-se n’uma simples formalidade, n’uma pueril e ridicula ceremonia: a licença do Conde de Lippe, a licença do Administrador, ou uma e outra concedidas ao mesmo tempo.

É um caso comico, como o do Hyssope.

Examinemos:

A Musica é a applicação artistica do som; influe poderosamente em a nossa natureza psychica, quer a agite com as sonatas de Beethoven, em que o Sentimento nos apparece burilado e subtil, como uma cinzeladura de Cellini, quer tumultue nas estranhas innovações de Wagner, em que a Harmonia, á primeira audição, nos fére de imprevista e áspera.

Decomposta nos seus elementos, a Musica reduz-se a simples vibrações, transmittidas pelas ondas sonoras. No caso presente, visto que na Questão da Musica se trata d’um grupo de labregos, que selvaticamente mortificam os nossos apparelhos auditivos, essas vibrações que, pela instrumentação, se transformam na Harmonia, partem do organismo humano.

Examinando o organismo humano, verificamos que os elementos essenciaes á potenciação d’essas vibrações podem, egualmente, ser fornecidos pelas duas extremidades do canal digestivo e modulados, ou regulados, pela articulação da maxilla inferior, ou pela elasticidade muscular do esphincter.

A composição molecular d’esses elementos será pois: oxygenio, azote, acido carbonico e vapor de agua (caso a), ou: hydrogenios carbonado e sulfurado e acido carbonico (caso b).

A sua acção vibratil chama-se vulgarmente sôpro, ou bufo; e n’esta ultima designação, que é a mais geral, para distincção dos dois casos a e b relativos á composição molecular, costuma o povo usar do genero masculino no primeiro caso, e do feminino no segundo.

Assim, por uma rigorosa analyse, de deducção em deducção, chegamos ao seguinte resultado: que a essencia (caso b), o valor, a importancia d’essa celebre questão, que fez perigar a paz das nações e que, por ahi, inspirou tanta facecia e tanto remoque de fino espirito—é um simples caso de sôpro, é um reles caso de bufo (b).

E continuando a empregar o methodo deductivo, visto que esse caso foi o producto d’uma laboriosissima gestação politica, com muita vigilia, muita tactica e muito estudo, por isso que foi cuidadosamente preparada pelos dois partidos contendores—visto que elle symbolisa e exprime os valimentos intellectuaes e politicos dos chefes e maioraes—afoitamente podemos dizer, synthetizando: tudo isso e todos elles não valem um bufo! (b)

Politiquemos:

*

Os dois partidos prepararam com longa antecipação, no remanso dos gabinetes, esse estupendo acontecimento.

Mediram-se as forças, calcularam-se os accidentes, preveniram-se as hypotheses, estudou-se cuidadosamente o terreno, escolheu-se a hora e inventou-se o pretexto. A malandragem de Ganfey foi assoldadada para deitar fogo ao rastilho.

Na vespera de rebentar a bomba, descobriram-se os jogos e todos ficaram logrados. Um dos chefes recebia ordem para ficar ás ordens do outro; este, esbarrava a cabeça na estupidez do Zé Povo e nos barrancos que a sua inepcia cavára.

Cá a gente (já se vê) n’essas alturas, arrebitava a pança com o brodio, a vêr os toiros de palanque; e, como elles ainda escabeceiam no curro, vae-lhes mettendo a sua farpa muito honradamente.

Depois da explosão da coisa, principiou a desembestar-se por ahi a mais sordida mistela de pilherias apanascadas, que tiveram echo no districto, como se o ridiculo de tudo isso não fosse bastante para nos fustigar o rosto e alvoroçar o sangue.

A partida perdeu-se. Quem a pagou (e foi carita) chorou sete dias e sete noites. Os pyrotechnicos metteram-se em copas. É da praxe: nas barracas do Pim-pam-pum, quem ageita os bonecos não paga entrada. Entra pela prenda...

*

Farpeemos...

Depois d’essa dejecção politica, os campos conservam-se armados, medindo-se os adversarios com rancor. No meio d’elles, lá está o sôpro, o bufo (caso b)—eterno pômo de discordia.

Progressistas teimam em obstar que a gente em occasião de festa, possa, á noite, dar a sua gaitada por essas ruas e muralhas.

Regeneradores, pela penna auctorizada do Senhor Joaquim, como Juiz da Senhora da Saude, invectivam o Ministerio, reclamando a livre expansão do bufo (b).

E agora, que estamos em maré de syndicatos, n’esta carencia de bufo (b) muito dinheiro podiam ganhar alguns senhores cá da terra e aquelle barqueiro de Vigo...

Ha coisas que, guardadas, engarrafadas, servem para occasiões de falta e dão muito dinheiro...

*

O certo é que não se obtem licença para Musica dentro de Valença; ou porque seja negada por mero capricho do Senhor Administrador, ou porque a recuse o Lippes.

Porque nós—louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo—somos cidadãos tão portuguezes, como os de Coura; pagamos decima, como os de Coura; damos votos, como os de Coura; fazemos filhos para o exercito, como os de Coura, mas não temos as liberdades civis, que teem os de Coura.

Pelos modos, ainda nos corre nas veias algum resto d’aquelle bulhento sangue dos nossos antepassados, os soldados de Viriato, que, segundo diz o Senhor Joseph Avelino, tanto assarapantaram o mundo com os seus feitos; e o Governo, em vez de uma auctoridade administrativa, manda-nos duas!

—Quer V. Ex.ª dar a sua gaitada? Precisa de dar o seu bufo?

Tem de ir pedir ao Administrador e á Praça; e antes de transitar por essas ruas tem de bufar, voltado para a casa do Governo. Se offerece as primicias do bufo á Camara, ou á Administração, a Praça amua e ha baralha, como succedeu com a fanfurrilha gallega.

—Tem V. Ex.ª fogo em casa?

Acodem, logo, da Praça e da Administração:

—Mando eu.

—Não mandas tu.

—Apago eu.

—Apaga tu.

Levanta-se questão; tudo grita, tudo berra, e V. Ex.ª, para se livrar de prejuizos, o que tem a pedir ao seu Anjo da Guarda é que o deixem ficar sósinho com o fogo, que é mais socegadinho e pacato.

—Ha banzé no theatro, ou na rua? Lá os temos em disputa.

De fórma que, se um dia, V. Ex.ª por esquecimento, por descuido, larga o seu bufo (b) na cara d’uma das auctoridades, e sem a devida licença, leva pancada dos dois.

É preso. Chega um paysanduco e agarra V. Ex.ª pelo braço direito. Vem o Balagota e agarra-o pelo esquerdo.

—Venha para a Praça!

—Venha para a Administração!

Puxa um; estica o outro.

V. Ex.ª atrapalha-se, reclama, gesticula, bufa... (b)

Se o faz na cara do paysanduco, mais pancada leva. Se mimoseia o Balagota, este põe-se ainda mais amarello do que é, e apita.

Santo nome de Maria! O que ha-de a gente fazer?

Sem musica, sem bufo não se póde passar. Fossem-no lá prohibir ao Senhor A. Seixas! Estoirava... de raiva.

Dentro de casa, felizmente, ainda V. Ex.ª póde mandar tocar a Musica e dar o seu bufo; mas eu estou a vêr isto de tal fórma que, d’aqui a pouco, se V. Ex.ª, em qualquer sitio, na sala de visitas, na cama—por exemplo—lhe appetece bufar, tem logo, ao seu lado, um paysanduco e o Balagota, procurando, investigando, cheirando, esmiuçando, por cima e por baixo da cama, levantando, até, a roupa para metterem os narizes (imagine V. Ex.ª a sua desgraça se, para essa operação, lhe apparece o nariz do Dr. Ladislau...) e berrando depois, irados:

Aqui deu-se um bufo!

E V. Ex.ª terá de pedir perdão, confessar o crime, ou desculpar-se humildemente, dizendo:

Não dei, não, senhor! E se dei... não foi por querer...

Ora a nossa desgraça!

Oh gentes do Kalakana! que dizeis a isto?

*

Esta interrupção dos tubos... musicaes—claro é—vem a acabar; e com a mesma imbecilidade, com que actualmente os progressistas impedem a livre circulação do bufo, os regeneradores, subindo ao poder, hão-de metter cá dentro, quanto nedio folle por ahi haja, previamente reforçado com alimentos explosivos.

E n’esse dia anti-pituitario, em que tenho de encontrar: uns, de vexados, em casa ou fugindo de corrida ao apupo; outros, de pança tesa e cara alegre, abraçando-se por essas ruas—e todos, supinamente idiotas e essencialmente ridiculos—cá me tendes, oh bufos e anti-bufos!, para vos estralejar nas ventas a mais sonora gargalhada, que gentes de Valença teem ouvido!

E tenho tambem uma idea...

Emfim, vocês merecem recompensa, pelo enthusiasmo com que teem tratado d’essa questão, de grande valor e importancia para a terra. Mastigae já em secco e ouvi lá marotinhos: (mas caluda, por emquanto):

Nos cómes-e-bébes dos philarmonicos hei de misturar umas gottasinhas d’um certo elemento drastico

—Oleo de Croton Tiglium—por exemplo, para que elles, nas ruidosas e puxadas explosões dos seus bufos, vos possam dar tambem—oh progressistas e regeneradores do pataco!—algo mais de...

...solido!

Toca a aguçar a dentuça, Politiqueiros de meia-tigela!


XV
As Muralhas

Em que condições vivemos?

Com pejo hesito em denuncial-as.

Vivemos acorrentados ao estupido regulamento, dado ás gentes, ha perto de seculo e meio, pelo Conde de Lippe.

Vivemos como os forçados e os grilhetas—cercados de muralhas.

O que significam, hoje, as muralhas?

O retrocesso, o dominio brutal da pedra; isto é, Pasteur, Edison, Comte, Jenner, Spencer, Hugo, Castelar, Capello, Ivens, Herculano, Pestalozzi, Broca, Kossuth, Humboldt, Chevreul, Wurtz, Lesseps, Eiffel, arremessados para a barbarie dos tempos primitivos, para a idade paleolithica, em que o homem usava cuecas, cozinhava de cocoras, contava pelos dedos e pescava trutas á unha, porque desconhecia, ainda, a engenhosa disposição do anzol e a grande vantagem da minhoca.

Significam os combates dos barbaros; a bruteza dos despotas; as luctas fratricidas; o assassinato legal; a ambição copulada pela força; a lucta braço a braço, arca por arca, alma a alma; a feroz e brutal sensualidade do vencedor, que sorve dos labios do vencido o ultimo alento; o escabujar do moribundo nas vascas de cruissima agonia...

Significam as pontes levadiças, o embate de duas ondas humanas que se chocam, se enroscam, se atropelam, se mordem e se agitam por fim, convulsivamente, n’um montão disforme de farrapos, de carnes ensanguentadas, onde rouquejam as maldições, os estertores, até que as rodas da carreta, ou as patas ferradas d’uma mula acabem de esmagar, de confundir e triturar.

Significam o assedio, o bombardeamento, o incendio, a fome, as mil privações e sobresaltos; a viuvez, a orphandade, o lucto—a morte; isto é: quatro pás de terra sobre um corpo amado, que jaz hirto e nú, ahi para qualquer canto, sobre o monturo, proximo á Sexta; as canções roucas e truanescas dos coveiros do Hamlet; o uivar sinistro da canzoada lazarenta, que escancara as mandibulas, esgaravatando a terra para esfarrapar as carnes; o crocitar lugubre dos corvos, que revolteiam no azul dos céos, espreitando lauto e succulento festim no rebordo ensanguentado das feridas...

Significam a agonia lenta, afflictiva; o velar-se da vista nas sombras da Morte e, n’esse debil bruxolear do espirito, a visão meiga e então dolorosa da familia, da infancia, dos affectos que nos ligaram á vida sem que, collados os labios, confundidos os alentos, n’um derradeiro olhar e n’um derradeiro beijo, se possa desprender a alma entre almas que nos amaram.

*

Com que veneração e respeito eu conservaria uma das tuas cans, benemerito Pasteur, apostolo bemdito do Bem, e com que tremendo pontapé eu te esmigalharia o busto, se aqui o tivesse, feroz Napoleão, negro chacal da Morte, para quem são poucos todos os horrores e tormentos, que a genial e portentosa imaginação de Dante phantasiou nos seus nove circulos!

*

Felizmente, toda esta sentina de granito que os espiritos bellicos e phantasistas denominam formidolosa Praça, nunca teve um real de importancia, na historia militar do nosso paiz.

Isto foi sempre o que hoje é—uma feira da ladra de tarecos velhos e de cacada guerreira.

Quando em 1809, Soult atravessou a fronteira, o aspecto d’esta carcassa não o atrazou um minuto na marcha. Passou ao largo, sorriu, atirou cá dentro meia duzia de obuzes e continuou em paz o seu caminho. Palpitou-lhe que não valia a pena subir a Gaviarra, porque não tinhamos custodias d’oiro para roubar, nem preciosidades artisticas; n’essa epocha não existia o muzeu do sr. Sampaio, nem se falava na mystica collecção do Albininho.

Em 34, Napier, a cavallo n’um burro pôdre, veio de Caminha a Valença, seguido por um pelotão de marujos inglezes. Sem estribos, com a volta das meias cahidas sobre os sapatos, rindo com bom humor, berrou alli da Esplanada: «Ao governador de Valença! Senhor: tenho uma esquadra em Caminha e se vos não entregaes, mandarei buscar cem peças de artilheria, cercarei a praça e a vossa guarnição será passada á espada.»[38]

D’alli a um quarto de hora, Napier estava cá dentro.

Depois d’isso, os grandes successos militares da nossa terra limitam-se a breves assedios, nas luctas civis de 37 e 47. Houve muito susto, muito fanico nos dois sexos, alguma granada para espalhar tristezas, e assim se arranjou um simulacrosito pacato e economico d’um cerco em regra, como o que soffreu, ha 19 annos, Strasburgo—(senhoras e senhores, que ainda fallaes com pavor de 37 e 47)—em que aquella desgraçada cidade teve constantemente, vomitando a morte e a ruina para dentro dos seus muros, umas 170 boccas de fogo—ninharia que devia fazer um poucochito de barulho...

Mas apesar d’isso, de nada valeram os ultimos assedios; eu—com franqueza—sinto-me muito mais feliz do que os srs. Manoel Antonio de Barros, José e João Seixas, Santa Clara e outros que assistiram a essas tristes scenas das nossas dissenções politicas; e sinto-me mais feliz, porque, emfim, não me destinou Deus para emprezas guerreiras e contento-me em conhecer os effeitos e propriedades da polvora nas bichinhas de rabear do S. João, ou nos devaneios pyrotechnicos da palerma Urgeira, sem offensa para o sr. Chiquinho Veiga.

*

Mas vejamos qual é a necessidade de conservar essas odiosas reliquias dos tempos barbaros e qual a razão que se oppõe, a que nos seja permittido o que já conseguiram outras terras da fronteira, como Caminha, Cerveira, Monsão e Melgaço—o arrasamento de tão brutaes construcções.

Será a posição estrategica?

Condições excepcionalmente favoraveis na opposição a uma invasão extrangeira?

O inexpugnavel d’aquella posição?

Cartas na mesa, teias d’aranha limpas e jogo franco, senhores da alta militança, lá das Secretarias da Guerra.

Toda esta coisa, com as suas muralhas, baluartes, fortes, contra-fortes, revelins, fossos, falsas bragas, casamatas, cortinas, tenalhas, poternas, escarpas, contra-escarpas, banquetas, meias-luas, taludes, pontes levadiças, abobadas, etc., etc., que constituem na sua complicada relação a arte de Vauban, toda esta coisa, repito—não vale um pataco sebento do sebentissimo D. João VI!

E tanto não vale um pataco, que apesar do apregoado valor estrategico augmentar com a Ponte internacional e de os engenheiros militares terem lembrado, quando se construiu a linha ferrea, certas obras que garantissem as condições da defeza, prejudicada com os aterros e desaterros—até á data nada se fez, nem se fará, se Deus Nosso Senhor quizer.

E tanto não vale um pataco, que se eu tiver em Lisboa um bom trunfo politico para empenho: se eu fôr, por exemplo, um João da Gaiteira, elevado politicamente em potencia votante, ao quadrado ou ao cubo, obterei, não só licença para construir nos arrabaldes da Praça, como, tambem, limite de altura superior ao que eu desejar, embora a isso se opponham todos os paysanducos e todos os regulamentos do sabio conde de Lippes.

Ora, de duas, uma: é ou não é importante o valor estrategico da Praça?

Não é. Dil-o a sua historia; dil-o a historia das ultimas campanhas europeas e encarrega-se de nol-o dizer o Governo de S. Magestade, quando o apertam com a tarracha do voto.

Será parvoiçada suppor que, no caso d’uma invasão, o inimigo se deteria por um momento com as momices e os esgares d’esta desdentada carcassa.

Perguntem a Strasburgo, a Verdun, a Bitche, a Toul, a Soissons, a Metz, a Schelestadt, para que lhes serviram as vantagens do terreno e as prevenções de Vauban.

E sendo nullo o apregoado valor estrategico, que outra causa fundamenta a estupida prohibição que se oppõe á construcção de novos edificios, ao desenvolvimento de povoação, tornando odiosa a missão d’esse official que, com um curso de engenharia e com a elevada orientação scientifica, que hoje se obtem nas Escholas superiores, ahi está de sentinella ao regulamento senil que tresanda a raposinho, a catinga, e de que a rotina, o egoismo, e por vezes a velhacaria fazem instrumento de valimento e, até, de vinganças pessoaes?[39]

Attende-se á probabilidade d’um cerco, d’um acampamento, e á necessidade de inutilizar, rapidamente, ao inimigo quaesquer pontos de abrigo?

Mas, oh Molkes pataqueiros! Então prohibis que em minha casa possa elevar meio palmo ao cano da latrina, impedis que no meu quintal levante uma barraca para guardar as melancias e os nabos, e deixaes ahi cavar, a dezenas de metros da praça, esse desaterro, onde se abriga uma divisão com as respectivas familias, se tanto fôr necessario?

Impedis que lá fóra, na minha horta, levante um pau com o gallo, para catavento, ou equilibre quatro taboas, que um cão, alçando a perna no exercicio de certa funcção, faz cahir, e mandaes construir essa outra fortaleza de granito—a estação do caminho de ferro?

Admittindo, mesmo, que o inimigo se estabelecesse para cá da fronteira, que seria de Valença se no Faro, no Marco, ou em qualquer outra eminencia, elle assestasse quatro canhões Krupp, Bange, Amstrong ou Fraser, que arremessam projecteis com menos peso do que as vossas cabeças—verdade é, porque não teem tanto municio—a 12 e 16 kilometros de distancia?

Para que nos asphyxiaes, pois, com estas montanhas de pedra, militarões lá das altas repartições da Lysbia, estrategicos de meia tigela, que por ahi inficionaes de rheumatismo, de gotta, de rapozinho e de pingo simontado o que póde haver de proveitoso e util nas instituições militares da nossa Patria?

*

As muralhas para nada mais servem do que para attestar aos extranhos que—portas a dentro—o Progresso deixou de actuar.

Servem, como pittorescamente disseram, ha mezes, uns lisboetas que ousaram entrar cá dentro: para impedir que a porcaria e... manchem a belleza dos arrabaldes; servem para balde do lixo, das immundicies, e para os habitantes da villa satisfazerem, prompta e commodamente, um determinado numero de necessidades, tanto em funcções de reproducção, como em funcções de nutrição.

Servem para a gente se desfazer das ninhadas de gatos, que a Malteza arranja em janeiro com as suas serenatas ao luar; servem para uma entrevista baratinha e recatada com pudibunda sopeirinha; servem para manter certas artes e officios; servem para fornecer o Hospital militar de bronchites, tysicas, pneumonias e doenças assizicas, que essas desgraçadas sentinellas arranjam em larga copia nas frigidissimas noites de inverno, quando o nordeste, que corta e açoita, as apanha amarradas com a trela da disciplina á carreta d’uma peça rachada, vigiando que o gallego não escale as muralhas e a leve para berloque da cadeia.

E servem, mais, para sustentar essa coisa caduca, ridicula, inutil, offenbachicamente intitulada o

Governo da Praça!

*

—Governo da Praça!

Raciocinemos logicamente.

Qual é a idea implicita n’este titulo?

Commando, direcção na defeza da dita Praça.

O que exigem estas funcções?

Conhecimentos estrategicos e noções de todos os ramos da moderna Sciencia militar, alliados ao senso, ao valor, á prudencia, ao prestigio e á energia.

A quem tem sido confiado tão importante cargo?

Ao Zé da Rosa...

Ora, meus senhores, com franqueza; eu aposto aquillo de que se faziam as barretinas, quando não eram da pelle d’urso, se—declarada a Praça em estado de sitio e confiado o commando supremo com a direcção de tudo ao Senhor Zé da Rosa—a cavallo n’um cabo de vassoira, com um espeto de assar cabritos, com tres malzabetes, dois paus-reaes e um fileiras, não tomar Valença e não levar a toque de caixa na minha frente até ás Bornetas, o Senhor Governador e todo o seu Excellentissimo Estado-maior!

E para isto, para conservar a esta latrina uns apparatos bellicos de opereta, estou eu arriscado, por um descuido, por uma descarga electrica, a dar o meu passeio aereo até aos reinos da Lua, com a conservação estupida de milhares de kilos de polvora, que uma noite podem ter a phantasia de condemnar a minha humilde pessoa áquellas maravilhosas viagens de Julio Verne.

Ora, além do perigo, imagine V. Ex.ª a que enormes responsabilidades, a que enormes complicações diplomaticas, a que enormes indemnisações o nosso Governo se arrisca, conservando por cá essa materia explosiva, que dava para tanta bichinha de rabear e para tanto caganitão, se lhe quizesse dar applicação differente da que ella hoje felizmente tem: estoirar fragas e rasgar montanhas para facilitar o avanço da locomotiva.

Imagine V. Ex.ª que em noite estrellada de agosto, Don Benito Naveas e sua Ex.ᵐᵃ Familia tomam socegadamente o , na sua habitacion de Tuy.

Don Benito, fiel ao partido legitimista encarece mais uma vez a bondade e os merecimentos de D. Carlos, commentando tranquillamente entre saboreadas fumaças d’um pitilho e goles de , as noticias que, sobre o Pretendente, em o numero de miercoles, apresenta La Integridad, luminosa gazeta assotaina da inventora dos malzabetes.

«Con securidad, Don Carlos és muy bueno hombre; una gran cabeza; el unico rey que debia gobernar la Espana; es un hombre de religion, y que tal... y que sei yo...»

Subito, ouve-se um estampido medonho. A casa abala-se nos seus alicerces; as paredes oscillam; as traves gemem; as loiças tocam nos aparadores e saltam em furiosa dança macabra. Ouve-se um crac medonho, fende-se o tecto e apparece em cima da mesa del comedor... quem?—o Senhor Abel Seixas, em pello e em cabello, tal qual estava na cama, sem chinó, pança sumida e olhinhos espavoridos!

V. Ex.ª ri-se? Pois o caso não é para isso. Se chegam uma isca de fogo ao paiol, a qualquer de nós póde succeder o mesmo.

E diga-me V. Ex.ª quanto teria o nosso Governo de pagar a Don Benito pela perturbação do seu socego e—o que é muito peor—pela alimentação d’esse insondavel abysmo—a barriga do snr. Seixas—emquanto este cavalheiro, arrancado bruscamente do seu leito e atirado por esses ares em escandalosa nudez, se recusasse, pudicamente, a ostentar pelas calles de Tuy, no regresso á Patria, as linhas bambaleantes das suas formas esculpturaes.

Matutae sobre o caso, homens da Governança!


XVI
A Manifestação de 14 de Janeiro[40]
(PROTESTO)

Para cá dos limites que tracei á critica dos acontecimentos, por qualquer aspecto evidentes e impressionaveis na chronica politica d’esta terra, disponho hoje, serenamente, os apontamentos colligidos sobre a manifestação de 14 do corrente, para os sujeitar á analyse recta e imparcial, isenta de considerações pessoaes ou collectivas, sem tergiversações de ameaças ou de lisonjas, a que subordinei o programma dos Sinapismos.

Á frente d’essa manifestação eu vi homens a quem dedico verdadeira amizade; que respeito nos actos da sua vida particular; que me honram com as suas relações, porque se impõem á consideração de Valença pelo seu caracter digno e pela sua honradez inconcussa.

Esses homens organizaram uma manifestação popular, que annunciaram como patriotica e que outros classificaram como politica. Inspirada no amor da Patria, ou na paixão partidaria, essa manifestação, evidenciada nas ruas e nas praças, discutida na Imprensa como expressão dos sentimentos d’uma parte da população, perdeu o caracter, para mim respeitavel, d’um acto isolado da vida particular e adquiriu a importancia d’um facto social, publico e, portanto, sob o dominio da critica.

Abstraio, pois, do meu espirito as relações que me unem a essas individualidades, e nos periodos que vou ordenar para a composição d’este artigo, declaro, outra vez ainda, que aprecio a manifestação promovida por um grupo anonymo de cidadãos e não por um grupo de individuos, d’esta ou d’aquella classe, d’aquella ou d’esta côr politica.

A violencia da phrase com que tenha de censurar qualquer aspecto d’essa manifestação, que me pareça menos digno, não irá, pois, desvirtuar a sinceridade de relações, mais ou menos affectuosas; nem poderá, tambem, ser reputada como indicio de adhesão a opiniões já manifestadas por quem, em identicas apreciações, se deixa desorientar pelas paixões partidarias que levam a applaudir toda a inepcia d’um grupo em que se está filiado, e a estigmatizar qualquer idea, muitas vezes util e proveitosa, suggerida pelos contrarios.

Esta é a missão do critico e praza a Deus que a consciencia nunca me accuse de escrever o contrario do que ella, á luz da imparcialidade e d’um livre criterio, dieta á minha penna.

Nos periodos d’este artigo abandono a feição humoristica dos restantes. Tenho de me referir á crise dolorosa por que actualmente passa a alma da nacionalidade a que me orgulho de pertencer; e n’essa referencia, quando a humilhação nos ruboriza as faces e a recordação das passadas grandezas nos amargura e entristece, o sorriso seria uma villania e a gargalhada seria uma infamia.

*

A força inicial dos acontecimentos de 14 do corrente não se póde attribuir á expansão d’um sentimento patriotico, provocada pela recente affronta de Lord Salisbury; na agitação do grupo que promoveu a manifestação não vibrou a alma da Patria: tumultuou o espirito d’um partido.

Mas de qualquer caracter, patriotico ou politico, essa manifestação, nas condições em que se realizou, envolvendo a bandeira nacional e a responsabilidade d’uma povoação, não merece classificação diversa da que se póde exprimir com estas palavras:

foi aviltante para Valença.

Os homens que a promoveram não teem direito á consideração e, muito menos, ao applauso dos seus conterraneos, porque não são patriotas sinceros, nem politicos dignos. São escravos inconscientes da politica sertaneja, d’essa degradante aberração de principios sãos, de crenças firmes, de convicções honestas, que desorienta, humilha e arrasta pela lama da indignidade, caracteres respeitaveis e talentos privilegiados.

Envolveu-se n’essa manifestação a responsabilidade de Valença.

Pois, em nome dos brios d’um povo que é portuguez, em nome d’uma terra que amo, e que se faz respeitar no paiz pela auctoridade intellectual dos filhos que a representam nos mais elevados cargos sociaes—eu protesto contra o labeu infamante, com que o grupo organizador da manifestação de 14 do corrente aviltou a nobilissima attitude da Patria na desaffronta d’um insulto e na defeza de direitos conquistados pelo sangue d’esses heroicos luctadores que,—transpondo novos oceanos e descobrindo novas constellações, arrostando os ignotos perigos do Mar Tenebroso que a phantasia popular envolvera na nebulosa dos mythos, luctando contra a aspereza de inhospitos climas e contra as rudes vicissitudes da guerra,—ás mais remotas regiões, ás mais distantes e mysteriosas paragens, levaram o nome portuguez, desfraldando a bandeira, onde não se lia, como nas dos modernos exploradores inglezes: Infamia e Oppressão, mas:

Liberdade. Civilisação. Progresso.


—Impulsionou-nos, dizem, o amor da Patria.

Discutamos, então, a manifestação, sob esse aspecto.

*

Lord Salisbury, representante d’um povo egoista, perfido e covarde, cuja Historia tem a gangrena da infamia, as pustulas da devassidão e o excremento das villanias, fustigou com o chicote do seu ultimatum as faces de todo o homem que se honra com o nome de portuguez.

A grosseria avinhada do insulto, a brutalidade do attentado contra todos os direitos estabelecidos, a ferocidade do egoismo, a covardia da imposição d’uma besta superior em força, a dolosa argumentação abonatoria do ultimatum e—sobretudo—a consciencia da nossa fraqueza e da nossa impotencia para a defeza energica de direitos indiscutiveis,—afistularam dolorosamente o coração da Patria e, de norte a sul, de oriente a poente, da cidade ao burgo, homens de todas as classes, de todas as condições e partidos, sentindo despertar, redivivo e forte, o espirito da nacionalidade e o orgulho d’outras eras gloriosas, ergueram-se, gritando: Infamia!—e occultaram o rosto, para que n’elle ninguem visse o rubor da vergonha e o vasquejar do desalento.

A Imprensa, o Exercito, a Academia, a Magistratura, o Commercio, a Industria, os Municipios, as Sociedades recreativas, as Agremiações de classes, o banqueiro e o artista, o pobre e o rico,—arrebatados, galvanizados pela mesma chispa de acrisolado patriotismo—disputaram primazia de nobreza nos seus protestos.

Mas no rosto de todos esses homens, na eloquencia dos seus discursos, no ardor das suas invectivas e no esgrimir da sua argumentação, eu vi sempre, evidentes, sinceros, expontaneos e fervorosos, os impulsos de nobilissimos sentimentos.

Resaltava-lhes dos labios a indignação e, a espaços, no avincado da fronte e no amortecido do olhar, eu descubri o anciar d’uma grande dôr e o revolutear infernal do insulto humilhante, que não se póde vingar.

*

Um cortejo grotesco, esfarrapado, ululante, recrutado na Parada-velha e avolumado por essa massa anonyma e inconsciente de povo, babugem na onda de todas as manifestações e comparsa indispensavel em todas as farças que tresandem a borga e a quartilhos de vinho, precedia o grupo promotor da manifestação patriotica valenciana.

Lá na frente, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da Patria.

No conjuncto, uma arruaça carnavalesca, uma desordenada fantochada, scintillante de archotes, tocos de sebo e phosphoros de espera-gallego; ruidosa de gaiteiros e caixas de rufo, latas de petroleo, assobios de barro, arrotos, berros asselvajados, graçolas de bordel, acclamações roucas e avinhadas.

Nos olhos, nas faces, na voz, no gesto dos promotores da manifestação patriotica, uma alegria evidente, saltitante, irreprimivel, estoirando nas expansões ensurdecedoras d’um jubilo guindado aos pinos do delirio, pelo sopro bestial d’uma pandorga de encarvoados hottentotes, já celebres na Questão da Santa.

Abraços, fremitos de contentamento, chapeos no ar, demonstrações de affecto, apotheoses jogralescas, guizalhadas de truão, vivas a Deus, ao Rei, ao Regedor da Parochia, ao Exercito, ás Artes, ao pendão das quinas, a Serpa, aos abbades, ao João da Gaiteira.

Á frente, um homem de cabellos brancos agitando a bandeira nacional.

Dominando a turba, no frontão dos Paços do Concelho, o escudo da Patria: a honra portugueza aviltada, as tradições gloriosas d’um gloriosissimo passado, a epopea das Indias, a harpa eolia dos Lusiadas vibrando, soluçante, com os derradeiros alentos do Infante navegador, de Vasco da Gama, de Alvares Cabral, de Affonso de Albuquerque, de Gonçalves Zarco, de Tristão Vaz, de Gonçalo Cabral, de Diogo Cam, de Bartholomeu Dias, de Fernão de Magalhães, de Godinho de Eredia, de Affonso de Souza, de D. João de Castro;—a fulgentissima constellação das nossas conquistas: Ceuta, Arzilla, Cabo Verde, Açores, Madeira, o Brazil, a Guiné, Mombaça, Quiloa, Mascate, Ormuz, Diu, Calecut, Goa, Malaca, Cananor, Ceylão—empallidecendo com os clarões avermelhados da archotada.

E quando o nojento e sinistro abutre inglez, sulcando a escuridão da noite, poisava no frontão municipal e perante a illustre, benemerita e patriotica Commissão manchava, abrindo um pouco as pernas, o escudo da Patria, com o excremento e com o vomito—quando em todas as povoações de Portugal se erguia, energico, o brado da desaffronta e, dolente, o gemido da humilhação—das varandas d’uma casa que pertence ao Estado e que representa, entre nós, a instituição mais nobre, porque é a fiel depositaria das nossas glorias e dos nossos direitos—essas tres palavras ôcas, golfadas, em comica explosão de inconcebivel calinice, sobre os ervaçaes de Paysandu:

Viva Valença... restaurada!

..............................

Fumemos um cigarro para espalhar tristezas...............................

*

Continuemos.

Á frente, sempre á frente, rindo, e chorando lagrimas de pathetica sensibilidade, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da Patria.

E ao longe, mais ao longe, para lá do Minho, essa nação cavalheiresca, como nenhuma, quando offendem os seus brios: a patria do Cid, de Cortés, de Pizarro e de Balboa; povo altivo que diz aos seus reis, em Aragão: nós, que valemos tanto como vós; que impõe a Carlos I pela bocca de Padilla, heroico chefe dos cumuneros, o codigo das suas liberdades; que ainda, ha pouco, se convulsionava fremente e ameaçador perante a reclamação ingleza do Chanceller de ferro—povo rico de generosos enthusiasmos e enthusiasta de generosas ideas, nosso irmão de raça e companheiro nosso nas aventurosas emprezas d’alem mar—essa nobilissima Hespanha, escutando, absorta e commovida, os ruidos da bacchanal, o tumultuar da arruaça, o cornetear dos hymnos e a vozearia da magna caterva.

E quando esse povo, pela bocca da sua Academia, do seu Exercito, da sua Marinha, das suas Sociedades de Geographia, nos enviava calorosos brados de affecto e nos insufflava alento e coragem—a illustrada, benemerita e patriotica Commissão promotora da manifestação erguia aos ares saudações á Hespanha e desfilava perante o representante d’aquella nação, em marcha fandanga, ao compasso esbodegado do hymno da Restauração!

Á nota burlesca, a nota grosseira.

*

Quem hoje possue vagas noções de Historia patria, no mechanismo da sua evolução politica, reconhece, com verdadeiro desalento, quanto tem sido errado o plano das nossas allianças.

Desprezaram-se as affinidades da raça, a continuidade do solo, a homogeneidade das aspirações, a reciprocidade dos interesses, a egual fertilidade do clima, a riqueza dos productos, todas essas especialissimas condições de independencia e de defeza que, aproveitadas para beneficio commum em estreita alliança de dois povos—garantidas a liberdade e a autonomia das instituições politicas de cada um—podiam tornar a Peninsula uma facha de terreno inexpugnavel e inaccessivel ás ambições de qualquer despota.

Com o rapido exame d’um mappa, a Natureza nos indica as vantagens d’essa alliança com a Hespanha.

As truanescas manifestações do Primeiro de Dezembro invariavelmente ajoujadas a uma oratoria desenxabida e bolorenta, cinzelada a largos traços pelo escopro da Rotina, mirabolante de imagens sediças colhidas nos marneis paludosos d’um sentimentalismo piegas em materia de patriotismo—acirrando odios contra quem respeita a nossa autonomia, acata os nossos direitos e liberdades, e partilha, com egual dedicação, o nectar das nossas alegrias nas grandes consagrações civicas e o fel das nossas amarguras n’estes tristes dias de decadencia—devem banir-se para sempre em terras, como esta, que merecem cotação intellectual superior á de Paio Pires.

Os sessenta annos do captiveiro chocalham constantemente nos cerebros dos gafados patriotas, para despertarem no povo o espirito da sua nacionalidade e a altivez da sua autonomia. Mas esse periodo sumiu-se nas brumas do Passado e pela heroicidade dos quarenta immortaes—o que é muito discutivel—ou por circumstancias occasionaes e propicias á nossa emancipação, ha duzentos e cincoenta annos que somos livres e independentes, entre as demais nações da Europa.

Transmittimos aos nossos filhos esse odio á Hespanha; sobre os bancos das praças, golfamos, em façanhuda oratoria, rancorosas recordações dos Filippes, das luctas da Independencia, das agruras do captiveiro, do despotismo de Olivares; e, entretanto, entra-nos John Bull em casa, empalma-nos as mais ricas colonias, impõe-nos esses vergonhosos tratados de 1642, 1661, 1703 (Metwen), 1810, 1842, 1878 e esse celebre tratado de Lourenço Marques, em que os dois actuaes partidos da nossa politica teem graves responsabilidades, um porque o redigiu, outro porque o approvou, embora modificado.

A Hespanha subjugou-nos por 60 annos. A Inglaterra subjuga-nos ha perto de tres seculos, dispondo da nossa Politica e absorvendo lentamente todos os elementos da nossa riqueza e da nossa vitalidade. Com a Hespanha não queremos relações, porque todos os nossos affectos são para a Inglaterra, que nos acorrenta a allianças, onde ha perfidias e traições, e nos socorre, quando lhe convém—com exercitos de bandidos que devastam e roubam este desgraçado paiz com sofreguidão superior á do inimigo, que nos forçou a pedir soccorro.

A Hespanha festeja e acolhe bizarramente os nossos exploradores. A Inglaterra sorri desdenhosamente, orgulhosa de Stanley, o feroz Attila dos sertões africanos. E quando nos vê abatidos, impotentes e pobres, insulta-nos pelas boccas do poltrão Bright, do troca-tintas eleitoral Salisbury e por essa horda de bandalhos, redactores do Times e do Standart, assalariados para abafarem as asquerosas applicações dos Telegraph’s boys.

Todavia, quando Sua Alteza o Principe de Galles vem a Lisboa gastam-se centenas de contos com a sua recepção, e quando a graciosa Magestade, (que graça!) Mamã do dito Principe, solemnisa o jubileu, os representantes do povo portuguez curvam-se, reverentes, em respeitosos salamaleques, aos graciosos pés da graciosa Imperatriz das Indias!

E no Primeiro de Dezembro, já se vê, grossa pancadaria de gaiteiros e um nunca acabar de foguetes com tres respostas.

O hymno da Restauração desperta antigos rancores e origina odios, que a Hespanha não merece. Mandar tocar esse hymno, aqui, na fronteira, exactamente na occasião em que aquella nação estremece com o insulto que o inglez nos vibrou, não denota, sómente, grosseria, denota ignorancia.

Temos, pois, já outra nota:—a da ignorancia; e como burlesca, grosseira, e ignorante, repetimos:

a manifestação de 14 do corrente foi aviltante para Valença,

porque aviltou a bandeira da Patria que, á frente, um homem de cabellos brancos agitava.

Examinemos agora, respeitosamente, este homem.

*

Descubro-me perante elle.

Tem 74 annos.

É um espirito embalado pelas doiradas crenças da velhice, que se assemelham ás ingenuas convicções da mocidade.

Tem enthusiasmos pueris e cultos idolatrados.

Influe a mais rigida honestidade nos actos da sua vida particular.

É um homem antigo, como diz o povo; e n’esta epocha de decadencia, em que na alma da nação existem, narcotisados pela mais criminosa indifferença e pelo mais repugnante egoismo, todos os sentimentos nobres e todas as crenças sans—este homem continúa caminhando impassivel para o occaso da vida, com os olhos fitos n’um Ideal de Honestidade e de Convicções—especie de mytho, com que, apontando para o Passado, tentamos hoje inocular no espirito dos nossos filhos o virus preservativo contra a Descrença e contra o Scepticismo.

Este homem conserva ainda, immarcessivel, a pureza de todos os cultos e de todas as tradições que seus Paes lhe legaram.

Crê na infallibilidade do Papa, na moralidade dos partidos, na sinceridade das convicções, na respeitabilidade dos conselheiros, na seriedade d’um marmanjo sertanejo qualquer, que, sentado no confessionario, descança, hoje, das fadigas que lhe vergam as pernas, depois das arruaças politicas d’hontem.

Atraz das procissões sente-se feliz e orgulhoso com o seu habito, marchando, altivo, ao lado do pantomimeiro, que em troca d’uma tranquibernia eleitoral chegará a ser commendador de Malta, ou Marquez, em dez vidas, de Paysandú, ou Chão das Pipas.

É fanaticamente liberal; quando, n’um dos artigos d’este livro, por inoffensivo trocadilho, lhe chamei miguelista, teve explosões de colera e arrancos de indignação.

Chamam-lhe: o liberal de 34.

Soffreu com as luctas d’essa epocha e com as seguintes.

Foi perseguido; andou a monte, passou fome e foi preso.

Respeita as instituições vigentes. Não admitte manchas na vida politica de D. Pedro IV, o seu legitimo Rei. Desculpa as fragilidades d’esse sebento poltrão, D. João VI. Odeia os republicanos e ajudaria a enforcar um iberico.

Por consequencia, na sua alma existe, profundamente enraizado, o amor da Patria; não o amor originado no funccionalismo da barriga, mas o que parte do coração, o que é verdadeiro, intransigente e expotaneo.

Pois este homem foi ignobilmente explorado para o scenario da manifestação patriotica e, acorrentado pela Politica, exposto por essas ruas ao mais degradante ridiculo.

Dedilharam as cordas do seu sincero patriotismo; falaram-lhe na Patria offendida; mostraram-lhe a bandeira. Abraçou-se a ella, nervoso, soluçando, humedecendo-a com lagrimas.

Empurraram-no para a rua.

Quando na minha frente passou o grotesco cortejo, eu já não vi o velho respeitavel, nem o homem liberal. Vi um macaco vestido de azul e branco, com a corôa real na cabeça, pinchando e bailando ao som dos hymnos esmoidos pelo realejo da philarmonica africana.

De quando em quando, o realejo cessava de tocar.

Um patriota discursava á turba; outro extendia o prato e pedia a esmola dos vivas.

O macaco ria, ou chorava.

Viva a Reliquia!—exclamavam á frente do cortejo.

Viva o Relicas!—berravam os paradas-velhas.

Do liberal de 34 a Politica acerdalada fizera aquillo: uma coisa ridicula, comica, irrisoria, tristemente deploravel, porque tinha cabellos brancos. Essa coisa já não era a Reliquia dos homens liberaes de 34; era uma Reliquia falsificada, de contrabando, como seria o rabo do meu gato, exposto em Santo Estevão á veneração das beatas, como uma trança de cabello de Santa Margarida de Cortona.

Á porta do Sr. Palhares, a cabeça branca d’esse velho recebia picaresca consagração, n’esta phantasiosa e alcoolica imagem:

Viva a Rosa de 74 annos, estramplantada para o nosso Jardim!

E a caterva parada-velha repetia:

Viva a Rosa Relicas!

Do homem liberal ficou para Valença a: Rosa Relicas.

*

Este homem, lendo o que escrevo deve considerar-se offendido pela rudeza da ironia.

Oxalá que a caterva dos falsos amigos, que o guindaram para o andor do Ridiculo, o respeitassem como eu o respeito e venerassem, como eu venero, a sinceridade das suas crenças!

Homem de 34!

Escuta:

A minha idade é muito inferior a metade dos teus annos. Entrei no periodo activo da vida, quando já estavam suffocadas as agitações politicas a que assististe. Não tenho relações intimas comtigo, mas respeito-te, porque és dos homens que trabalharam e soffreram para eu gosar as liberdades d’esta epocha. Não tenho a experiencia da vida que tu tens, mas peço-te que attendas ao que te vou dizer, porque conheço, melhor do que tu, os individuos que nos rodeiam, a natureza dos seus sentimentos e a sinceridade das suas crenças. Quando a minha razão principiou a funccionar, já por ahi lavrava, intensa, a immoralidade, e os homens, pela irrefutavel logica dos factos, encarregaram-se de inutilizar no meu espirito as illusões que tu ainda conservas, porque vives um pouco arredado d’elles.

Escuta, pois!

Quem, como tu, soffreu as deploraveis consequencias das nossas dissenções politicas e provou o fel d’essa malfadada epocha, em que dois partidos, irmãos no sangue, se perseguiam com encarniçado odio, a tiro, a faca, a cacete e a machado,—quem, como tu, avaliou os dolorosos transes e as indescriptiveis angustias que infernaram a alma das familias e dilaceraram os affectos d’uma povoação, constantemente sobresaltada com a incerteza nas vidas e com a noticia das mortes,—quem conheceu os horrores da fome, as tristezas do exilio, os negrumes do futuro,—quem viu o corpo d’um portuguez baloiçar-se, sinistramente, na forca infamante, e viu as costas d’um homem esfarrapadas pela chibata do corneta,—quem teve amigos que foram assassinados a machado em Extremoz, arrastados, semi-vivos, pelas ruas do Porto, espingardeados nas linhas e no reducto dos Mortos, garrotados em Lisboa, fusilados em Vizeu,—quem viu cabeças, gottejando sangue, espetadas em mastros e ouviu falar das ferocidades do Telles-Jordão e do seu menino, bestiaes cerberos de S. Julião,—quem escutou por todo esse paiz o choro afflictivo das viuvas, o soluçar das creanças e o estertor dos moribundos entre as ruinas da Patria, ennegrecidas pela fumarada do incendio e avermelhadas pelo sangue fratricida,

homem de 34!

quem viu e ouviu tudo isso, nunca deve contribuir com a sua presença e com o seu applauso para acirrar o odio dos partidos, ou para estimular em terras pequenas, como Valença, essas divergencias de opiniões que, levadas pela allucinação á infamia das vinganças e ao rancor das represalias, podem preparar, no futuro, nova serie de horrores, como os que tu viste e como os que tu soffreste.

Esses cabellos brancos nunca se devem prender ao Passado para trazerem á terra em que vives e onde tens os teus affectos de familia, o bacamarte assassino e o facho incendiario, em que se podem transformar esses archotes do teu sequito de paradas-velhas. Devem prender-se ao Passado, mas para de lá arrancarem com o vigor da experiencia: o conselho, o ensinamento, a reflexão, que podem suffocar o ardor das paixões e prevenir os excessos da allucinação.

Tens umas convicções partidarias; acceitas um credo politico. Respeito essas convicções e a doutrina d’esse credo, porque ao teu partido deve a Patria valiosos serviços na honrosissima cruzada do seu engrandecimento, d’onde emanam a paz e as liberdades que hoje fruimos.

Sustenta as tuas idéas politicas, mas descreve, sempre, aos homens de todos os partidos o que foram as luctas e as agitações de 30 a 51.

Tu és honesto, crente, sincero e bom. Não manches a respeitabilidade das tuas cans n’essas abandalhadas orgias, onde vês como principaes heroes, exigindo musica e borga, ministros d’uma religião de paz, de tolerancia e amor, afeitos ás esturdias sertanejas e acerdaladas d’uma politica de barriga, de arroz de forno, e de chouriço com ovos.

Talvez que n’essas horas de esturdia algum pobre velho agonizasse, pedindo, em vão, o amparo de Christo...

Como patriota, modera esses enthusiasmos, que tão violentamente agitam a tua alma.

Crês, acaso, na intensidade d’esta explosão de colera que Lord Salisbury provocou?

Verás como, dentro de dois mezes, não resta uma faula de todo este incendio. Temos á porta novas eleições; o vinho das borgas se encarregará de apagar as labaredas.

Crês na efficacia dos meios, até hoje apresentados para a nossa defeza e para a nossa desaffronta?

Será mais um triste couraçado para, em frente de Belem, chorar as nossas passadas grandezas.

Acreditas na persistencia da lucta commercial?

Dentro d’um anno, a chita e a lona virão outra vez de Manchester, porque lá, custa cada peça menos 2 shillings e 6 pence do que n’outra parte. Em mil peças, essa diferença produz cerca de seiscentos mil reis que, a juro de 6 por cento, rendem oito libras annuaes. Ora, essa diferença, bom homem, não se póde perder. Esta coisa de patriotismo é bonita, fica bem a todos; inspira discursos, que põem a gente a dançar na corda bamba do enthusiasmo, mas... alli, o meu visinho vende o metro da lona a sete menos cinco, e a que eu tenho custou sete vintens em algures. Nós—eu, tu, os teus amigos e os meus—vamos a quem vende mais barato. Precisamos de economizar, porque está tudo, como sabes, pela hora da Morte.

Pensa bem e reconhecerás que, hoje, a Patria não merece essas lagrimas, com que humedeceste a sua bandeira.

Vês este enthusiasmo na subscripção nacional?

Lembras-te do que houve na subscripção do Baquet?

Pois ninguem se lembra das victimas e ninguem conhece a applicação que teve o dinheiro que demos.

Alegra-se a tua alma com este furor contra o inglez?

Tens visto a excitação que se levanta por esse paiz, quando algum sotaina arrebata, do seio da familia para a clausura do Recolhimento, qualquer herdeira endinheirada?

Comicios—representações—protestos—morras ao Jesuita!—abaixo a reacção!—o diabo!

Quinze dias depois, já ninguem fala em tal. A rhetorica entra novamente na gaveta das coisas ricas e asseadas. Depois... Quartel general em Abrantes.

N’esta propaganda anti-ingleza só encontras enthusiasmo sincero nas manifestações da mocidade e na indignação dos velhos—duas epochas da vida, que se assemelham, como sabes.

Esses que te envolveram na manifestação patriotica gastaram, com a esturdia e com as ultimas eleições, cerca de trezentos mil reis. Vae saber quanto elles dão para o couraçado e para os torpedeiros.

Andaram comtigo em charola e adoraram-te, de joelhos e mãos postas, como uma Reliquia dos homens liberaes.

Ataram os seus enthusiasmos aos teus cabellos brancos e elevaram, aos céos da popularidade, o balão flammejante dos patriotismos. Curvam-se arrebatados, extasiados, sensibilizados, perante as venerandas Reliquias dos homens liberaes; mas—ouve lá—pergunta-lhes se alguma vez se lembraram d’esse pobre velho de cem annos, que desembarcou no Mindello, que teve a Torre Espada e que para ahi viveu cego, decrepito e idiotado, com tristes patacos, emquanto que muito...

—Bom homem! Dá cá outro cigarro...

*

Resumindo, meu velho, aconselho-te a que moderes esses teus enthusiasmos patrioticos, porque excluindo, como disse, as manifestações dos novos que ainda não roçaram as azas pela immoralidade d’estes tempos, todas essas celeumas e gritarias não valem—crê—uma das tuas lagrimas. Isto, emquanto a patriotismo. Ora, ácerca da Politica e dos homens que por cá dirigem os partidos, quando elles te agarrarem nas pernas para o andor da fantochada, faze-lhes como eu fiz aos paysanducos, que me quizeram matar por causa da carta ao Restaurador:

esguicha-os.

Olha que, politicamente falando, entre Fonsecas, Vices & Abbades, ou Moraeses, Agostinhos & Cunhas

venha o diabo e escolha.

*

Agora, dá-me a bandeira e grita commigo a esses patriotas, que te querem levar para as freguezias:

Abaixo as mascaras!

Vae socegado para tua casa, e deixa-me com elles, porque lhes quero dizer, ainda, duas coisas, antes que saiam da Coroada.


Já podemos rir, respeitabilissima Commissão patriotica:

Arrancadas as mascaras, vocellencias ficaram o que realmente são: não patriotas, mas politicos de gaiteiro.

Disse eu, no principio d’este artigo, que a manifestação, quer tivesse o caracter politico, quer o patriotico, aviltára Valença. Demonstrei a asserção relativa á segunda das classificações e vou evidenciar a indignidade da primeira.

Estes banzés de musicas, foguetes, vivas, archotadas, cómes-e-bebes, brindes etc., etc., podem fazer effeito entre abbades sertanejos, dos que não sabem verdadeiramente quaes são as leis de equilibrio que obrigam a gente a andar com as mãos no ar, sendo a cabeça mais pesada do que os pés.

Esses regabofes trescalam, sempre, essencias do alho, do carneiro assado, do esturro das batatas, da vinhaça, do vomito—essencias que denunciam o suborno, a pressão, a compra de voto, a immoralidade, a inconsciencia e o servilismo.

Os partidos compõem-se de homens, que nos actos da sua vida social, como nos actos da sua vida particular, acertam e erram.

Por estes e por aquelles accidentes sobem ao poder e sahem d’elle. Uns e outros decretam leis inuteis, uteis e prejudiciaes, porque infallivel dizem que só é o Papa e, ainda assim, ha muita gente que embica com essa infallibilidade.

O partido progressista, como o partido regenerador, tem tradições honrosas e tem manchas; o partido regenerador, como o partido progressista tem no seu seio homens dignos, que honram o paiz.

Quem póde, em momentos de reflexão serena, deixar de prestar homenagem de gratidão e de respeito á memoria d’esse homem, que dedicou toda a sua existencia ao engrandecimento da Patria e que, apesar de ter palacios em Londres, morreu pobre e legou dividas:—Fontes Pereira de Mello?

Quem póde recusar-se a honrar o nome de Anselmo Braamcamp, o cidadão prestante, o caracter nobilissimo, a quem o paiz tanto deve?

Os defeitos da Politica portugueza, desde 32: os arranjos, as ambições, o desperdicio dos dinheiros publicos, o desamparo das instituições proveitosas, o abandono da Agricultura, da Industria, das Colonias, são communs, e d’elles teem eguaes responsabilidades todos os partidos.

Esses defeitos vem de cima e vão para cima. Apparecem nas imposições eleitoraes, na recommendação governamental dos candidatos, na necessidade das maiorias etc.; e nascem alli, nas pretensões do Sr. Abbade, que precisa de livrar os mancebos X e Y do recrutamento, nas exigencias do magnate Fulano, que pretende uma estrada para a quinta etc.

De cima vem as imposições; de baixo vão as exigencias. Ora, n’esta permutação de generos, por conta propria, ou á commissão, ganham sempre os de baixo e os de cima; e, sendo assim, claro é que deve haver um terceiro para os prejuízos:—ha o Paiz.

Isto é coisa velha e sabida.

Vocellencias terão a ingenuidade de suppôr que haja alguem, n’este anno de Christo, que repute sinceras, emanadas d’uma profunda convicção politica, essas ruidosas manifestações?

Na fantochada de 14 o que se evidenciou foi isto: a explosão partidaria de quem estava por baixo, a pirraça aos Moraeses, o nectar das abandalhadas vinganças, os mancebos livres do recrutamento, a provocação da beiça e outros elementos que a ignorancia gera.

Quando vocellencias passavam, a gente,—emfim, por delicadeza: Maria vae com as outras—sorria e cortejava; mas cá dentro, no escaninho da nossa razão, onde, á noite, guardamos a gravata e o Senso commum, appareciam logo, nitidas e causticas, estas palavras:

Que sucia de pataratas!

*

Quando cahiu o partido regenerador, os progressistas promoveram egual borga por essas ruas; quando, ha mezes, se realisaram as eleições, P. Alexandre atordoou os ouvidos da humanidade com bombas de dynamite.

Toda a gente se riu das gaitadas especiaes que tiveram os Srs. Agostinho, Dr. Ladislau e outros senhores evidentemente progressistas. No coice da procissão, lá iam os nossos paradas-velhas, muito lepidos e repontantes, nariz no ar, chinela rota e fralda de fóra.

Toda a gente se riu dos foguetes do Alexandre e, até, no cerebro de alguem, fuzilaram, como relampagos, vividos clarões de suspeitas exquisitas...

Vocellencias apepinaram o caso, como eu apepinei, porque, emfim, Valença não é o mesmo que Urgeira, Cerdal ou Gandra (salvo o devido respeito a Montes Claros e ao Patriarcha).

Passam os annos, e quando eu suppunha que na mioleira de vocellencias existia algo differente do que se suspeitou no cerebro alexandrino, saltam vocellencias para a rua, transformando Valença no Pandemonium de Milton!

Esses espectaculos são frequentes nos grandes centros. Organizam-se os cortejos nos bairros immundos, onde o real d’agua obtem maior rendimento; onde o Rosa Araujo gasta seis contos na compra de votos; onde o Sentieiro e o Cagaçal conservam fechada e vigiada, durante os tres dias anteriores á eleição, a turba ignara dos cidadãos (?) votantes.

Quando a onda da escoria se alastra pelas ruas centraes, ninguem que possue senso, deixa de encarar com verdadeira repugnancia a babugem do servilismo e da estupidez.

Quem promoveu e planeou essa arruaça de 14? A Politica pataqueira que nas provincias provoca odios de familias, instiga resentimentos, prejudica interesses, origina represalias, prepara transferencias, requer perseguições judiciaes—emquanto que os candidatos protegidos e combatidos riem á mesa do Matta, commentando, em tom faceto, as parvas pretensões dos parvos magnates do circulo.

Foi essa coisa amanhada com a Ignorancia e com a Velhacaria que, ha annos, aqui inaugurou o regime das perseguições e das represalias—regime que ao carrejão d’hontem, hoje feito trunfo—concede a faculdade de exigir a transferencia d’um Juiz, se tal idea surgir nas torvas especulações da sua gafada orientação politica.

Ha pouco tempo, censuravamos com phrases de verdadeira e justissima indignação, a transferencia d’um funccionario publico, que lucta com difficuldades para sustentar numerosa familia. Lá foi o desgraçado para cascos de rolhas.

Existe, ainda, em nosso espirito o nojo que inspirou esse processo de nullidade tentado contra a nomeação d’um professor, por uma corporação tão zelosa pela instrucção popular, que conserva fechada ha cinco mezes a unica eschola que temos para o sexo feminino!

Tudo isso se classificou como indigno, como torpe, como vil.

Mudam as situações; mudam as cabeças e cá temos as represalias—essas infamissimas represalias—annunciando, pela bocca dos bigorrilhas politiqueiros, novas transferencias e novas villanias para saldo de contas!

Os homens da actual Politica andam açodados em mysteriosas (?) combinações; escoam-se nas sombras da noite, pelos becos e travessas que conduzem ao centro (!?!); segredam, cochicham, mostram cartas e telegrammas; sorriem, piscam os olhos, ostentando parvoamente á luz do dia as multiplices transformações d’esse implacavel Ridiculo que os envolve, quando a gente se lembra que são os mesmos homens do sr. Serpa e que todos elles, de pernas para o ar, não deitam uma duzia de votos!

Em todo esse afan, em todas essas mysteriosas combinações, em todo esse serzir de esfarrapados planos, imagina V. Ex.ª, querido leitor, que se tratou alguma vez de melhorar as condições materiaes do concelho, de ampliar as suas instituições, ou reorganizar a sua administração? Nem uma palavra a tal respeito!

Estudam-se, combinam-se, discutem-se unicamente os meios de obter as transferencias de Fulanos e de Cicranos, como medida inadiavel e urgentissima. Nas horas vagas d’essas nojentas lucubrações, raspam-se as picheis e lavam-se as gamellas para a proxima bambochata eleitoral.

Ah Saltamontes e Grices dos dois partidos! Muito dinheiro podia ganhar quem vos apresentasse no Colyseu!

A Physiologia demonstra a hereditariedade dos defeitos organicos. A Politica d’esta terra é nojenta e a manifestação de 14, como producto d’essa Politica, apresentou-se com todos os vicios da origem.

Portanto, concluo, repetindo: essa manifestação, como patriotica ou como politica,

foi aviltante para Valença.

*

Nota final:

O principal heroe da rusga foi um abbade. Chapéo de fadista, casaco de pelles, nariz de furão, ponta de cigarro na orelha—razoavel exemplar d’esse typo muito vulgar pelo Alto Minho:—o capador de porcos.

Resolvo rifal-o. Bilhetes a pataco, que desde já estão á venda no estabelecimento do compadre Pedro.

Lembro a V. Ex.ª, querido leitor, que é tempo de semear as ervilhas e convém

afugentar os pardaes.

Valença 20-1-90.


XVII
A Sociedade dos Provareis
(FRAGMENTO DA HISTORIA GREGA)

Como actualmente predomina nos espiritos illustrados uma tendencia absoluta para a analyse e para a investigação, parece-me que não serão aqui mal cabidas as seguintes linhas, que esclarecem, com os informes de um historiador classico, o periodo, indubitavelmente mais interessante e curioso, da civilização grega—o seculo de Pericles.

Na Litteratura e nas Artes estuda-se tenazmente o Passado, arrancando-se das trevas da tradição e das brumas da lenda, as producções maravilhosas dos grandes genios e os elementos constitutivos das grandes sociedades.

Recompõe-se a organização social da velha India; analysam-se os factores principaes d’essa assombrosa civilização hellenica e os do immenso poderio da antiga e soberba Roma; acompanham-se os Carthaginezes e os Phenicios nas suas audaciosas correrias; reproduzem-se as maravilhas da Arte arabe e investigam-se pacientemente as Sciencias, n’esse glorioso periodo dos Omniadas, que tão brilhantes vestigios deixaram da sua dominação na Peninsula iberica.

Assim, tudo o que actualmente póde representar para o homem illustrado, uma reliquia dos povos e das civilizações antigas—um livro, um pergaminho, um papyro, uma inscripção cuneiforme, um hieroglypho, uma lasca de silex, um fragmento de bronze, o dente d’um mastodonte, o coccyx d’um almoravide, o vomer d’um Ramsés, a tibia d’um khalifa—tem o mesmo valor, n’este culto pela Tradição, n’esta religião do Passado, que para o beaterio póde ter um ossinho de S. Francisco, um cabellinho da venta de S. Pancracio, ou uma unha das onze mil Virgens, que ainda hoje, nos grandes estabelecimentos commerciaes de reliquias sagradas e preventivas contra bexigas, massadores e outras coisas más, obtem elevado preço, apesar da enorme edição que se espalhou no mercado:—duzentos mil exemplares!

Nas Academias, nas Sociedades de Geographia, de Anthropologia, de Geologia, de Linguistica, de Numismatica, e congeneres, fundadas em todas as capitaes e centros civilizados, já com o auxilio dos governos, já pela iniciativa particular, organiza-se e apresenta-se ao exame do publico uma verdadeira exposição retrospectiva da actividade e da intelligencia do homem, desde as primeiras manifestações da sua vitalidade no globo terraqueo, até aos nossos dias.

Claro é que Valença não podia ficar indifferente a esta nova orientação dos espiritos cultos; e até, primeiro que n’outras terras, aqui rapidamente se desenvolveu o gosto pelas antiguidades, o culto ás coisas passadas, que o povo, na sua linguagem rude, pittorescamente classifica como: mania de cacos velhos.

Ha por ahi muitas collecções e muitos colleccionadores:

*

Teias de aranha, microbios, tarecos velhos e empregos, collecciona o sr. Sampaio. O sr. Agostinho, partidos politicos e casacophones; chinós, ovos de passarada e instrumentos de vento, o sr. Abel Seixas; o sr. Zagallo, caixas de phosphoros, officios de despedida ao Senado e santinhos; sermões gallegos e patacaria de D. João VI, a Assemblea; o Club, homens pacatos da rua de S. João; commendas e pergaminhos, o sr. Verissimo de Moraes; o sr. Leopoldo, machados de bronze, volumes do Almocreve das petas e coisas das edades paleolithica e neolithica; o sr. Palhares collecciona moleques, macaquinhos empalhados e uma raça maldicta de papagaios, que o diabo inventou, para estoirar a membrana do tympano á desgraçada humanidade.

O Albininho collecciona tudo e é um colleccionador precioso, porque commenta; preparando, assim, inexgotavel thesoiro para as investigações historicas dos posteros.

Conserva cuidadosamente ordenadas por dia, mez, anno e seculo, atadas com fitinha de seda verde, azul, ou branca, conforme o signatario, todas as cartas que tem recebido, desde que traduz lettra redonda. Cada missiva mostra, no verso, uma nota explicativa:

14 de Outubro de 1876 (e seis)
Fulano de tal.
Valença do Minho.

(Pede-me sete e vinte emprestados. Desculpei-me, porque anda n’um desarranjo completo e, qualquer dia, vae de bruços.)


5 de Fevereiro de 1869 (e nove)
F. ou C. de tal.[41]

(Pede dez tostões—Ficam-me agora a doze e cinco... Preciso de me desforrar.)


4 de Maio de 1875 (e cinco)

Officio da Camara, convidando para a procissão de Corpus-Christi.

(Agradeci tão graduada prova de consideração official. Estes, não são como os da missa do Rei. Compareci, vestindo pela trigesima sexta vez a minha casaca n.º 3. Chapeo alto n.º 7, do Roxo—Lisboa—(3$570 com correio). Sapatos de polimento n.º 4 (5.ª prateleira, 2.ª estante, á direita). Gravata do Blanco (12 reales e uma perra chica; setim creme, com pintas de prata). Luvas n.º 207, do Baron.

Offereceram-me um logar graduado, ao lado do sr. Joaquim.)

*

Eu tambem tenho a mania de colleccionador. É uma coisa que não fica mal; é da Moda e até dá um certo tom distincto.

Collecciono alfarrabios, cartas de arrhas, cartapacios, papyros, foraes—toda essa papelada, que por ahi apparece furada pela traça, encarquilhada pelo tempo e com a côr que teriam os rostos d’aquelles esforçados campeões da Guia, quando batiam em retirada, acossados pelo gentio gallego.

Esta mania fez com que, ha mezes, descobrisse uma verdadeira preciosidade, no bazar de antiguidades do sr. Maia.

Imaginem V. Ex.ᵃˢ o meu contentamento quando alli encontrei, entre taboadas e cartilhas, rolhas e torneiras, piões de faniqueira grande e ditos para nicas—um volume authentico, genuino, verdadeiro, do grande e immortal Plutarcho!

Tremi de commoção e de respeito com tão veneranda reliquia!

Li-o, reli-o e quasi treslia com elle.

Referia-se ao seculo do glorioso Pericles, áquelle aureo periodo da civilização de Athenas e, entre as suas paginas, fui encontrar—gratissima surpresa!—os elementos que, com verdadeiro afan, ha muito tempo procurava, para estabelecer as bases da historia d’essa mysteriosa agremiação a que Pericles presidia, e que tão poderosamente influiu no engrandecimento do povo hellenico:—a Sociedade dos Provareis.

Conhecendo o interesse que em Valença teem despertado os estudos, que outros auctores apresentaram, sobre esta curiosa parte da Historia antiga, offereço tambem o meu modesto subsidio, vertendo para a nossa lingua alguns periodos de Plutarcho, visto que por ahi são escassamente conhecidos os caracteres gregos.

Para os menos versados na Historia hellenica acompanharei a traducção com notas explicativas.

Fala Plutarcho: