Os Provareis

«N’essa epocha (465 A. de C.) era Pericles o chefe do partido popular, que se intitulára o partido regenerador dos costumes, pervertidos durante a supremacia de Cimon Narigangorum e dos aristocratas, chamados progressistas.

Pericles era homem de compleição robusta, largo arcaboiço, avantajado de estatura; perspicaz, de razão escorreita, assaz prudente, sobrio de costumes e de variadissima erudição, graças á influencia de Zenão d’Elea, que fôra seu preceptor.

Apesar de não ser archonte, ou stratego[42], porque apenas tinha as honras de polemarcho, impoz-se rapidamente á consideração do Archontado, ao respeito do Areopago e ás boas graças do Eponymo Lourdes Domina.

A agudeza do seu espirito, o vasto alcance das suas ideas, a subtileza da sua estrategia e a finura da sua diplomacia, alcançaram-lhe logo no começo da sua interferencia no Governo... da cidade, o epitheto de Olympico, ou Oraculus, com que o povo geralmente o nomeava.

Rodeara-se Pericles de homens illustres e poderosos, que a seu talante dirigia, para combater o grupo, ainda predominante na politica, dos partidarios de Cimon Narigangorum e do seu parente Thucydides Attila—grupo que constituia o principal elemento do partido dos eupatridas, ou progressistas, e que, por todos os meios, tentava condemnar ao ostracismo[43] e desluzir, com protervias e calumnias, o valente caudilho dos contrarios.

Apesar do seu engenho e do seu valor, nem sempre lhe foi favoravel a sorte das armas. Nas luctas com esses inimigos, graves desgostos soffreu, que profunda e dolorosamente abalaram o seu espirito e o seu esforçado animo. Ainda hoje a Historia nos menciona a derrota de Deputarium, no ultimo dia da segunda decada do decimo mez, e o desbarate da Camária, no terceiro dia—da primeira decada, do mez undecimo[44], do mesmo anno da olympiada tal—em que as tropas de Pericles abandonaram armas e bagagens, deante do grande Narigangorum II, ex-rei da Administracónia e do seu parente Thucydides Attila, bojudo stratego e chefe dos registricos, povo contribuinte dos suburbios de Athenas, que usava das celebres camisas de onze váras[45] e que, por essa circumstancia, era tratado com toda a consideração official, pela gente graduada.

Tivera, tambem, de valer-se de toda a sua diplomacia e arte para empalmar o pennacho, (que nos strategos do partido era distinctivo de commando) ao archonte Judex Candidatus, homem de pequena estatura, mas de respeitavel influencia, emquanto Pericles lhe não surripiou, por occultos meios, o apoio e a correligionariedade do poderoso Joannus Zabumborum, sabio de reputado merito e de grande consideração popular.

Quando Pericles principiou a exercer a sua direcção politica, libertava-se Athenas, vagarosamente, da inercia em que até alli se conservara, e apurava, pouco a pouco, os seus usos e costumes; mas homens de tão superior talento, como elle, raras pessoas encontravam, na cidade, com quem podessem conviver intimamente.

Escasseava a illustração; o povo não tinha consciencia dos seus direitos politicos. Entre os prytamos[46] da cidade e, mesmo, entre os sacerdotes de Zeus suscitavam-se, a miudo, questões violentas; em que do argumento se passava á aggressão, recorrendo-se a todas as armas, incluindo as do apparelho roedor.

Dava-se pouca consideração ás auctoridades encarregadas do Governo da... cidade; censuravam-se as gratificações, que lhes eram arbitradas em occasiões de perigo, como guerras e epidemias; reduziam-se as vias... do accesso aos grandes strategos; preparava-se, occultamente, a transferencia... ao ostracismo para os leaes conselheiros; increpava-se officialmente, escandalosamente, a admissão nas dependencias do Governo... da cidade aos adeptos do partido popular, e nem o proprio Pericles escapava á maledicencia da turba porque, surdamente, o povo, e até, a maior parte dos seus adeptos e cortezãos o accusavam de ambicioso, invejando-lhe os redditos, discutindo-lhe a rapidez e legalidade do accesso... á chefia do partido, amesquinhando a sua illustração e refutando a sua competencia na vasta Sciencia da lettra redonda.

Muitos dos homens illustres, que o rodeavam, soffreram as consequencias d’essa contumaz opposição e implacavel vindicta.

Phidias Cambronneia[47] Negoptius foi retirado do Governo... da cidade; Anaxagoras Mata Marianus foi deportado.

Abstinha-se, pois, Pericles de apparecer em publico e entretinha escassas relações, já porque a nobreza da sua jerarchia o distanciava dos thetas[48] e da plebe, já porque o intimo conhecimento do seu merito e da sua importancia lhe aquilatavam de mesquinhos e ridiculos os demais proceres do Estado.

Foi perante esta necessidade de se isolar, e para reforçar os elementos de resistencia aos rudes ataques dos seus inimigos, que elle fundou a Sociedade, que mais tarde o povo denominou: os Provareis.

Com esse grupo de fieis adeptos praticava, então, largas horas em passeio, conferenciando demoradamente; e quando o povo folgava nos jogos olympicos, ou pythicos, se acotovellava no Odeon para ouvir as maravilhosas producções de Eschylo e de Sophocles, ou nos jardins publicos para se deliciar com os harmoniosos sons das magadias, cytharas, lyras e flautas, que compunham as orchestras d’aquelles tempos, não era raro o vêr-se ao longe, no cabeço d’um oiteiro, o grupo magestoso dos Provareis, que solemnes, graves, com movimentos vagarosos e isochronos, rodeavam o grande Pericles, ouvindo-o divagar philosophicamente sobre a miseria das coisas humanas, sobre a leviandade das gentes e sobre a ignorancia da ignorante humanidade!

No tocante a competencia, Pericles Oraculus reunia todos os dotes necessarios a um completo homem de Estado. Provera-o a Natureza de extraordinaria actividade e de genio inventivo para todos os ramos da publica administração.

Era copiosamente versado nas leis de Lycurgo, de Solon, de Pisistrato e de Lippes, tendo particular predilecção por este ultimo legislador, cujos regulamentos, que a plebe classificava de estupidos, a todo o transe defendia, como indispensaveis á conservação da cidade e dos... seus redditos[49].

Possuia, já, noções muito positivas sobre a futura Sciencia da Economia politica. Considerando a Agricultura como fonte principal da riqueza d’um paiz, tomara a si o desenvolvel-a, dedicando-lhe particular attenção e cuidado.

Por isso, quando com o grupo de fieis partidarios divagava pelos arrabaldes de Athenas, vizitava a miudo os grandes eupatridas[50] e, para obter noções perfeitas sobre a producção dos terrenos, influencia atmospherica e outras condições modificadoras, inspeccionava cuidadosamente as colheitas, examinava os fructos e provava... as aguas.

O povo, sempre rude e sempre ignorante, d’essas provas a que aquelles homens illustres frequentemente se entregavam (mormente nas tardes do verão) para interesse da Patria e da Agricultura que nada é, como se sabe, sem abundantes mananciaes que refresquem o solo e possam alimentar a planta—originou o titulo de Sociedade dos Provareis, com que, d’alli em deante, designava o grupo de Pericles e seus adeptos, quando lá ao longe, entre os atalhos das aldeias, via uma serie de pontos negros caminhando vagarosamente, ora para o norte, ora para o sul, como previamente o indicara a provavel condescendencia ou a natural liberalidade dos eupatridas amigos e partidarios.

Pericles era tambem escriptor emerito e actor de talento. A fama das suas producções chega, ainda, até nós.

Todos conhecem a Prisão da Santa, a Licença Zagallica Muzical e a Batalha dos Cooperativos—comedias de fino enredo, astucioso desenlace e primorosa concepção.

Nas horas de descanço que lhe permittia a faina da administração politica, ensaiava Pericles os seus adeptos Provareis que depois, em conjuncção propria e solemne, apresentava em publico, dirigindo-os mui circumspectamente por detraz da cortina e colhendo applausos em barda.

A comedia que obteve mais exito foi a Prisão da Santa. Fundava-se n’uma antiga lenda mencionada no Rig-Veda, dos hindus. Era o caso da prisão de Brahma, ao entrar n’uma velha fortaleza, contra as disposições do codigo de Manu, e levada depois pelos kshatrias[51] ao carcere, onde jaziam os infimos sudras[52].

Este pueril e comico incidente, baseado n’uma simples questão de bufo, ou sopro, forneceu a Pericles recursos para ruidosamente explorar a estupidez das massas e o fanatismo do povo, que estrebuchava com arrancos de colera, quando via o feroz Attila.

Como já n’essa epocha eu trabalhava para reunir materiaes, com que podesse encetar os projectados estudos sobre a Historia da minha Patria, grandes eram os desejos que nutria de poder assistir a alguma das reuniões d’aquelles homens illustres onde, indubitavelmente, com a lucidez de tão poderosos cerebros se deviam discutir os destinos e a Politica da confederação athenico-cerveirensis.

Pude emfim conseguil-o, subornando os dmoes[53] do sacerdote Pinus Abbates que, mediante vinte talentos[54], consentiram em me occultar na adega d’uma propriedade, a doze stadios[55] ao sul de Athenas onde, como sitio retirado e fresco, de preferencia se reuniam os Provareis.

Alli os ouvi; alli tive, a meio passo de distancia, todos esses homens illustres, que tão poderosamente tinham contribuido para o engrandecimento de Athenas e para a sua hegemonia na confederação.

Era uma tarde calmosa; reunidos no escuro subterraneo, os Provareis mais uma vez estudaram as aguas com abundantes e saboreadas libações. Por largo tempo ouvi um craquejar de maxillas e um glugluar de pharynges, indicios terriveis d’essas assombrosas devastações, que depois inspiravam aos servos e dmoes do Abbates estas dolorosas palavras:

É impossivel que nas altas horas da noite, quando a pallida Phebe desce a visitar Endymion, Hades, o deus infernal, não mande a estas paragens uma praga de gafanhotos! Que prejuizo soffreram as nossas colheitas, grande Zeus!

Concluidas as provas, ergueu Pericles a fronte; poz o pennacho de pennas de capão, insignia de polemarcho; afivelou a catana e as esporas; limpou os galões brancos e, trepando a um escabello, annunciou com ar solemne o thema da sua conferencia:

UM PROBLEMA POLITICO DA FUTURA ERA DE CHRISTO, SECULO XIX

Amigos e Provareis[56].

É commettimento facil para espiritos medianamente esclarecidos a resolução de problemas na Politica contemporanea. Estudando os elementos ethnologicos, a influencia das civilizações estranhas, as aspirações collectivas e as relações indestructiveis da Historia nos cyclos que as suas leis estabelecem, podemos fatalmente traçar a orientação a que os povos teem de obedecer.

Abandonarei esse campo já explorado pelo vulgo e pelos espiritos d’uma illustração comesinha. Asphyxia o meu intellecto nos acanhados horisontes do Presente. Anceia o meu espirito pelas luminosas regiões do Futuro, na lidima aspiração d’uma visualidade perscrutadora do destino dos povos e da evolução das sociedades.

Rasgar as trevas do porvir, prever as luctas e as contrariedades, guiar a incauta Humanidade nas tortuosas sendas a que o Destino a condemna, leval-a pela mão á beira dos abysmos para lhe bradar carinhosamente: não vás além!—é a missão que a Divindade traçou ao Genio, a isto de superior, de maravilhoso, de prophetico, que me distingue do vulgo, que me aparta da plebe, e que dá á minha individualidade, no meio d’este constante marulhar das paixões e da ignorancia humanas, a previdente luz do fanal que, entre escolhos e baixios, guia o amargurado nauta nas cerradas trevas de noite caliginosa.

Transpondo um periodo de dois mil e quatrocentos annos no futuro da Humanidade, eu vou annunciar os perigos amontoados no horisonte dos povos que no seculo XIX d’uma nova era hão de occupar as ignotas regiões, que um grande mar banha e onde os phenicios já estabeleceram dominio e poderio.

Phantasiae, amigos, que viveis commigo n’uma peninsula que, por occulta, o phenicio denominou Spania, e que me ouvis discreteando com os homens politicos d’esse futuro seculo:

Aconselho a alliança das raças latinas. O horisonte da Europa annuncia borrasca.

Ha negrumes para o Norte. Não receeis o teutonico; temei o slavo! Haja outro Metternich para esse inimigo commum.

Bismarck é um imbecil. Com a sua germanisação fez-se testamenteiro de Frederico, o Grande. Crispi é um visionario. Salisbury um bebedo. Sagasta uma nullidade. Zé Luciano um comparsa.

Na Politica internacional o melhor systema é o de Machiavel. Tenho-me dado bem com elle e não quero outro.

Quando, na conferencia de Berlim, me pediram conselho, disse e repeti: vocês reparem no russo!

N’essas regiões do Norte a maré sobe e, qualquer dia, rompem-se os diques.

Teremos novas invasões. É a lei fatal da Historia: sangue novo para corpo velho.

Acautelem-se, porém, com o processo da inoculação; o russo é feroz.

Latinos, teutonicos, toca a reunir!

Bismarck, deixe essas coisas d’Africa; você tem um certo fio para isto de Politica, mas ainda está um pouco ingenuo. Appareça lá por casa, ás noites, com o seu rapaz, com o Herbert. Jogaremos a bisca de tres e terei occasião de lhes dar umas noções politico-sociaes mais amplas.

Emin Pacha cahiu na ratoeira de Stanley. Já quebrou a cabeça com uma tremenda borracheira. É o resultado das más companhias. Soffre as consequencias da indifferença com que ouviu as minhas recommendações.

Recebi hoje carta do general Deodoro. Eu tinha vaticinado a transformação politica do Brazil. No organismo monarchico apodreceu mais aquelle membro. Cortem até ao osso para que o mal não avance.

Isto por cá, vae mal. D. Carlos escreveu-me. O rapaz anda atrapalhadote. A Mãe telegraphou pedindo-me para lhes ir valer. Não estou para os aturar.

Preferiram o Barjona para a missão de Londres. Antes de partir procurou-me e conferenciamos. É dos nossos e deve-se proteger.

A caracteristica evidente d’esta assombrosa phase da evolução social.

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Subito ruido interrompeu o discurso do grande homem. A porta da adega abriu-se com estrepito. Assustados, os Provareis rodearam Pericles, como as avesinhas implumes rodeiam os paes, quando no azul dos céos paira, ou zigzagueia o milhafre.

No limiar apparecera, offegante e rubro, um paysanduco, que pronunciou estas palavras de magico effeito:

Oh filhos! Venho de Tuy. A Noya «matou» hoje, e sempre tem uma «agua», que é mesmo de chupeta! Póde «cortar-se» á faca.

Á Noya! Á Noya!

exclamaram os Provareis; e em desordenada carreira, a grandes pernadas, desappareceram ao longe, furando a linha circular do horisonte.

Que mysteriosa influencia seria a d’aquella Noya?

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XVIII
Uma recita de curiosos
(FRAGMENTO)

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Passou-se ao segundo acto.

O panno subiu, e á luz da ribalta appareceu o Nascimento.

Nascimento—diga-se a verdade—não é precisamente um Brazão.

Tenho assistido, por vezes, aos trabalhos d’este actor. Brazão ri, chora, soluça, tem arrancos de colera, tem na voz a doçura d’uma supplica, a suavidade d’uma prece, a meiguice d’um carinho, o vigor d’uma maldicção, o rugido d’uma ameaça.

A melancholia da saudade, as expansões do amor, as torturas do remorso, as angustias do ciume resaltam nitidas, vibrantes, envolvendo-nos a alma—comprimindo-a, dilatando-a—com o fluido subtil de uma verdadeira interpretação artistica.

Por doze vintens, eu tenho visto o Nascimento fulgurando na gloriosa constellação—grande Ursa dos nossos céos artisticos—de que fazem parte: Sampaio, Guilherme, Aurelio, Romano, Machado, Ernesto.

Com franqueza:—sem querer irritar a indisposição que no espirito do Nascimento violentamente se denunciou contra o Zinão, sem querer amesquinhar o culto idolatrado que elle nutre pela Arte dramatica, ou apoucar as suas aptidões—direi em homenagem á Verdade: Nascimento é um barbaro!

É um barbaro quando pisa o palco, porque não tem naturalidade, nem expressão, nem relevo.

Apresenta-se em todas as scenas com o mesmo fato amarello, de tecido africano, que o Isidoro lhe empresta; tem para todas as surprezas o mesmo oh!; para todas as dores o mesmo: ai Jesus!; para todas as saudações o mesmo: ora viva!; para todos os cumprimentos o mesmo: Comoestá? Passoubem? Bemmuitoobrigado.

Os pés soldam-se-lhe ao pavimento: as peças das articulações unificam-se, como se as membranas synoviaes segregassem chumbo derretido; os musculos tomam a rigidez do aço, permanecendo hirtos, inteiriços, refractarios ao imperio da vontade e á malleabilidade dos sentimentos.

Não tem flexibilidade nos movimentos, nem elasticidade nas formas que as diversas situações exigem, porque uma barreira de frieza e de immobilidade—quiçá composto de espessas cellulas philosophicas (?)—se oppõe á intima e immediata transmissão dos phenomenos psychicos aos orgãos e ramificações do systema nervoso.

Predominam em todas as modulações da sua voz aquellas notas seccas, asperas, do: Carregar! Alto!

Denuncia-se em todas as posições a rigidez d’aquella linha d’uma convexidade opisthotonica, que a Ordenança militar traça para o Perfilar!

E assim, Nascimento, como Boticario da Morgadinha, como carcereiro de 1640, ou como Mano Gaspar do Mano Aniceto—é sempre o mesmo Nascimento: gordinho, obeso, rechonchudo, espartilhado, vestido de mabella africana.

Todavia, estudando as minuciosidades dos seus trabalhos dramaticos, analysando a mechanica dos seus movimentos, comparando a dynamica dos sentimentos que elle tenta exprimir com as manifestações da sua vitalidade no convivio diario e com os actos exteriores da sua existencia social, eu chego á seguinte conclusão que poderá ser considerada como paradoxal: Nascimento, no desempenho dos seus papeis, na interpretação d’um caracter, na reproducção d’um typo, consome mais Sentimento do que o Brazão. O seu trabalho psychico é superior ao d’aquelle artista; na sua alma as situações definem-se, as individualidades esclarecem-se, as faculdades actuam. Nascimento pensa, sente e quer, como Boticario de Val d’Amores; mas o que não possue é esse colorido, ou—por assim dizer—essa moldura artistica que dá relevo ás interpretações e vida aos personagens.

E como a sensibilidade affectiva é um requisito indispensavel ao actor, e talvez o mais essencial, porque é ella que o guia nos reconditos escaninhos da alma de Hamlet, Nascimento, que possue essa faculdade em superior grau, tem direito a ser considerado a par de Brazão, dos Rosas, e até, ao lado de Lekain, de Kean, de Rossi, de Irving, de Kronsweg.

Vou demonstrar a existencia d’essa sensibilidade apuradissima no Boticario da Morgadinha.


Nascimento tem um sanctuario:—a sua officina.

Alli passa as noites e os dias, com a blusa de operario,—aplainando madeiras, envernizando quadros, esquadrando molduras, curando a telha dos relogios, deitando gatos em terrinas quebradas, endireitando a espinhela a leques, brocando pulseiras, parafusando engrenagens, limando metaes, furando boquilhas, cinzelando coronhas, soldando rabos de colheres, aguçando pinos, collando cacos, cosendo botões, deitando pingos em panellas, enfiando agulhas, inventando flores exoticas de couvelórinton, preparando pilhas, misturando acidos, bases, metaes, metalloides, oxydos, protoxydos, bioxydos, azotatos, azotitos, chloratos, chloretos, chloritos, etc., etc.

Nas horas de descanço que as suas occupações lhe permittem, sente-se feliz com as multiplices e encyclopedicas applicações da sua actividade e do seu engenho; consome, pacientemente, sessenta e quatro horas com o encaixe d’uma insignificante peça de metal para a sua locomovel microscopica; aplaina e replaina o empeno d’uma taboa para a sua mobilia; gasta uma noite, duas noites, trez noites com o estudo analytico da reacção d’um acido sobre uma base.

Com a applicação d’uma lei chimica, no desenvolvimento d’uma formula mechanica, na adaptação d’uma propriedade physica, Nascimento concentra todo o seu ser, toda a sua actividade mental, abandonando as distracções, os prazeres, e esquecendo-se até, das horas das refeições.

No seu cerebro amontoam-se os projectos, chocam-se as theorias, amalgamam-se as applicações.

Tem o arrojo de Lesseps, a tenacidade de Edison, a phantasia de Eiffel.

A sua alma, o seu corpo, os seus orgãos, os seus musculos, estão alli:—no torno, na serra, no serrote, no brocador, no pichel da colla, no arame dos gatos.

O seu engenho tem o quer que seja de epileptico: ataca trinta emprezas ao mesmo tempo: mobilias, machinas photographicas, installações electricas, bobinas, telegraphos, telephones, phonographos, campainhas de alarme, etc., etc.

Vencidas as difficuldades, contornadas, cortadas e limadas as peças, nova explosão de inadiaveis projectos interrompe a conclusão dos antecedentes; e assim, Nascimento, fazendo tudo, nada faz, porque a epilepsia do engenho dá ás suas obras a incommensurabilidade do Infinito: todas tiveram principio e nenhuma tem fim.

Como se pode explicar, pois, que, annunciada uma recita de Santo Antonio, ou da Morgadinha, este homem abandone immediatamente o seu meio, o seu sanctuario e enthusiasticamente se venha offerecer para desempenhar o papel de Mano Gaspar, ou de Boticario?

Pela extrema sensibilidade das suas faculdades affectivas.

Nascimento lê o drama, a comedia, ou a scena comica; a sua alma vibrou, agitou-se com o caracter d’este ou d’aquelle personagem; identificou-se com os sentimentos do galan, ou do comico; e, possuido de irresistivel enthusiasmo, abandona a officina, troca o alicate ou o saca-trapos pelo caderno almaço e lá vae para as muralhas metter na cabeça, em giros constantes—para traz, para deante—os periodos do papel.

Este enthusiasmo, em qualquer de nós—no Albino, por exemplo, que já representou de mulher, nos paysanducos, eximios na Comedia—seria uma coisa vulgar, insignificante; mas no Nascimento que nós conhecemos e que eu examinei na officina, revela uma enorme tensão de faculdades affectivas.

Os trabalhos do Brazão são correctos e são artisticos; mas este actor adquiriu já a physiologia dos sentimentos; os seus musculos contraem-se, por assim dizer, inconscientemente, independentes do imperio da vontade, como nas acções reflexas. Mostra no rosto a agitação d’um mar de paixões, quando na alma tem a tranquillidade d’um lago.

Alem d’isso, Brazão tem o scenario de D. Maria; tem o Keil, a luva do Baron; o talhe elegante, o perfil distincto, a perna flexivel, o bigode loiro, o monoculo—todas essas pequenas coisas que emmolduram e aristocratizam o actor.

Nascimento tem o desbotado scenario do nosso theatro, ainda saturado de irritantes aromas dos meios com cebolada que, ha annos, o meu amigo S. Lima arremessava ás fauces de toda a tribu pica-calcantes; tem a roupa de mabella; a rigidez linear da Ordenança conturbando a flexibilidade dos movimentos; a reacção dos acidos paralysando a acção dos nervos centrifugos; o ordinario marche! pruindo compassadamente na sola dos pés e na barriga das pernas...

*

Examinado pelo prisma da Arte, Nascimento actor é—repito—um barbaro. Mas analysado pelo prisma do Sentimento revela-nos uma organisação especialissima, que seria a gloria de nossos palcos e da nossa terra, se um defeito organico a não prejudicasse.

Nascimento ouve uma valsa de Metra, uma symphonia de Berlioz; ouve Rubinstein e Sarasate, a Patti e a Nilsson. Permanece mudo, quedo, insensivel.

Tem nas mãos uma flôr mimosa: uma Captain Christi ou Bertha Mackart; uma Alba imbricata ou Countess of Derby; a violeta, o lirio, a sensitiva. Os dedos afastam-se e a bella flôr cae abandonada, cerrando as petalas...

Não gosto de muzica; não gosto de flores—diz o Nascimento.

Poderemos acreditar na sinceridade d’estas palavras pronunciadas pelo homem, em quem os insipidos gracejos do Mano Aniceto exercem tal influencia e inspiram tal enthusiasmo que, arrancando-o da sua Thebaida, da sua officina, o expõem, vestido de amarello, á extatica contemplação dos loiceiros?

Não! Nascimento é accessivel á vibratilidade das commoções; os seus nervos sensitivos communicam ás cellulas cerebraes toda a intensidade dos enthusiasmos, mas o tal defeito organico—um enfraquecimento dos nervos centrifugos—oppõe-se á transmissão da força necessaria para a mechanica muscular e para a movimentação das situações dramaticas.

*

Terminou o segundo acto. Tenho de estudar os outros curiosos da Companhia; mas ao despedir-me de ti, Nascimento, permitte um conselho: abandona o theatro. Trata d’esse enfraquecimento do tecido nervoso.

Com seis mezes de cuidadoso regimen, póde ser que um dia, na apotheose das nossas glorias theatraes, como já annuncio:

Sampaio—o Jeremias da Balagota...

possa tambem dizer:

Nascimento—o Irving valenciano.................................