II
Eis-me transportado pelo espaço furando por pesada athmosphera, com risco de quebrar o espinhaço, pois nem umas azas de chimera a pulha da musa m'emprestou. Ella pela gola me agarrava e todo o caminho me levou suspendido, emquanto caminhava.
Por fim pousou-me n'uma rua estreita como um bêcco da decantada Alfama.
—«Amigo! tudo que vires, attento, espreita, se queres ser apregoado pela Fama. Estamos no meu Reino: aqui tudo respira quanto a teu estro falta e tão sedento aspira.»
E vi o solo lamacento, immundo, exhalando o cheiro acre e nauseabundo que sae das negras aguas d'um enxurro. Aqui, além, saltavam do monturo vadios e magros cães de torvo olhar, desconfiados que lhes vão disputar, andrajosos mendigos seus collegas, as presas immergidas nas bodegas.
Escorregando como um borrachão vi-me em risco de beijocar o chão; e se a musa amiga me não ampara certamente que partiria a cara.
* * * * *
Corridos varios bêccos tortuosos, que a bebeda co'os nomes mais pomposos, cantando, nomeava alegremente, á laia de cicerone intelligente: topei com um palacio illuminado, e com lacaio á porta enfardalhado.
—«Quem mora ali?»—perguntei assombrado.
—«É a orgia! a filha do argentario que gasta o ouro vil do usurario, que roubando o suor do proletario…»
—«Ai! Deus meu! historia da carochinha
que é formosa e bonitinha…»
—«Não me falles á mão! aliás
nunca alexandrinos tu farás!
Presta ao meu discurso toda a attenção
se queres que te dê inspiração.
—É a orgia! a filha do argentario, que gasta o ouro vil do usurario, e que talvez deixasse na miseria o pobre proletario—vil materia!
É a orgia! a impura mulher do vicio! que tem ha tanto seculo o baixo officio de macular as timidas consciencias.
É a orgia! que, sem guardar conveniencias, prostitue as gordas carnes oleosas n'um sidereo leito, ideal, de nublosas.
É a orgia!… Com seu halito pestifero (que é mil vezes ainda mais mortifero do que o bacillus-virgula do Ganges) mata o coração das virtuosas Langes; e tem feito baquear testas coroadas quando o povo levanta barricadas.
É a orgia que fez cahir os Romanos, aqui ha uns centos d'annos.
É filha della a walsa tentadora que, veloz, sensual, animadora, queima innocencia e queima candura.
Alcovitas prazer de pouca dura
e nos dás bellos sonhos côr da rosa:
mas findas na botica—ó walsa caprichosa—
comprando copahiba, enxofre e capa rosa.»
—«Lá estás tu com pharmacia a contas
e, de rimar, no officio não me apromptas.»
—«Attenta bem, tu, n'isto, meu bilhostre; attenta bem, se queres que te mostre os arcanos da sabencia—hodierna, que é velho e é soez dizer—moderna.
—Nas luxuosas salas ostentam roçagantes, rafadas toilettes, dignas de farçantes, os gotosos e senís peccados mortaes, emquanto, ao fogão, as virtudes theologaes fazem soalheiro da vida das visinhas.
E se não fossem umas bellas niñas —obras de misericordia positivas— com toilettes de verão allusivas a appetitosas scenas sensuaes, das de comer e de gritar por mais: juro-te! ninguem iria ás soirées. Pelo menos, eu, não punha lá pés.»
—«Não comprehendo como, sendo tu mulher, em assumptos de—femea—mettes a colher.»
—«Ó innocente e parvo poetoide, acaso serás tu o purgueroide? Não sabes tu, que a musa e a poetiza se podem pôr em mangas de camisa? amar como qualquer homem bem macho?
Em a nossa litteratura ha um facho que de homem tem o nome e é mulher, e assigna seus artigos como quer.
O Antonio Maria procurou-lhe o til e para tal assumpto não pediu bill.»
—«Vou explorar o caso, embora indecente!»
—«Indecente és tu, por seres innocente!»
* * * * *
De novo caminhámos. A manhã rompia.
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—«Andemos mais depressa…» a musa me dizia, «ao novo Parnaso, ao grande laboratorio das idéas modernas; não a esse mistiforio das drogas litterarias da classica escola: d'isso bem sabemos que já não sou carola. É bom ficar sabendo que ninguem faz caso do velho e carunchoso e classico Parnaso.
Aperta mais o passo. O ceu está nublado; se chove molho-me eu, que só tu tens—telhado, pois inda fallas na Flor, no Sonho, e na Lua e coisas que só prestam p'ra deitar á rua.
Apanhamos uma chuvada tesa…
É mais que provavel, tenho a certeza;
até parece que senti na cara
um pingo d'agua…»
—«Isso, sim!»
—«Repara.