O POETA
—«A agua que do ceu cae
e em gotas pousa na planta,
como a perola a abrilhanta
até que por fim se vae
rolando p'ra o chão,
indo tornar mais fermosa
co'a vegetação,
quem tornou, talvez, vaidosa
pela ostentação.
—E a gota d'agua singela
duas vezes a faz bella.»—
A MUSA
—«Cala-te, menino! não digas tanta asneira que me obrigas a pôr atraz uma torneira. E, demais, isso é velho na fórma e na idéa, e foi, com certeza, roubado d'obra alheia.»
—«Que este pensamento, alguem já tivesse tido, isso póde ser, póde ter acontecido; porém, não me recordo de o ter encontrado em prosa, nem verso d'esta fórma guisado.»
* * * * *
Dez minutos depois chovia em pingos grossos, batendo na cara como batem tremoços, doendo, como dói jogando entrudo bruto. Ameaçava não ficar um fio só enxuto.
A lua no seu occaso illuminava a chuva par'cendo queda de brilhantes bagos d'uva, e no dizer da musa—escarros luminosos— genuinos rivaes dos—brilhantes fulgurosos.
Dando uma corrida ligeira, alfim chegámos á entrada do Parnaso, onde descançámos.