III

Estava n'uma gruta escura e fedorenta.
Havia emanações d'ardores de pimenta.
Tal escassez de luz havia á sua entrada
que adiante do nariz não se via mesmo nada.
E, como isto estranhasse, a musa me explicava:

O azeite litt'rario de preço não baixava: assim, cada luz tinha apenas a ração igual á d'aguardente que d'inverno dão aos soldados da Parvonia, filhos de Marte; que muito de proposito em aquella parte se punham as luzes em menos quantidade, a fim de mais brilhar a interna claridade… —é a arte dos effeitos, a arte phenom'nal, a grande alavanca do moderno ideal.—

E, caminhando por eterno corredor lodacento e escuro e de grande pendôr, topamos finalmente co'um largo portão, feito por modelo dos de repartição, com oculos de vidro e faces de baêta de sebenta, ignota côr, mas que par'cia preta.

Companheira musa com chave original (pois era retorcida em fórma d'espiral), a porta abrindo, diz, em tom desprezador:

—«Livraria-museu dos poetas de valor.»

Espantado, vi mumias negras e mirradas em buracas, nas duras rochas escavadas, immoveis, lugubres, horrivelmente feias. Passeavam por cima vermes e centopeias; toldavam-nas o bolor, a humidade e o pó; e torpes ratos insultavam-nas sem dó.

—«Ahi tendes Homero todo encapotado pelas teias d'aranha como um juiz togado. Vê, á Sapho gentil, como lhe ficam bem aquellas vegetações que nos labios tem: e como são curiosos esses cogumellos, pelo logar onde estão… tão roseos, tão bellos.»

«Deixa-me, por quem és, ó musa tagarella,
d'este quadro medonho fazer a—aguarella

—«Será a tua estreia: está dito então.
Mas has de fazel-a, logo, no salão.»

* * * * *

Talhado em rocha escura, formas angulosas e salientes, phantasticas e caprichosas, era o antro infecto, sinistro, a que a megera o pomposo nome—salão—ufana dera.

No topo havia um throno infame, original, feito de coisas varias que cheiravam mal. N'elle, repimpada, dirigia os trabalhos velha deshonesta, c'roada a resteas d'alhos: na dextra aureo sceptro—colossal estadulho; e, para dominar a borrasca do barulho, empunha, na esquerda, safardana chocalho, chavelho retorcido, armado co'um bogalho servindo de badalo—estranha campainha!

Aos pés os classicos por almofada tinha.

As outras musas estavam acocoradas sobre grossos montões de pardas papelladas. Eram como gallinhas: estavam no chôco chocando muito poema, tal como este,—ôco.

Em mochos de pinho vil, os modernos bardos
sobraçando mais pennas que no campo ha cardos,
com carga de papel manteigueiro, barato,
como o grosseiro alarve d'um burguez pacato.

Ao centro do salão, crepitante fogueira da mais genuina essencia da mais pura asneira, aquece com chammas febris, avermelhadas, o enorme caldeirão das grandes versalhadas.

Os olhos em mim postos, o auditorio tinha; e quando esp'rava a eterna e velha ladainha do—quid petis—chronico, do gráu Coimbrão, e me preparava p'ra pedir ser poetão: larga dama presidenta um—«como pachaste?»

Acaso viste já, do rojão a haste
ao toiro apontada?
a ferrea ponta penetrar-lhe o coiro,
e c'o a cruel picada
saltar feroz com fero olhar de moiro?

O—como pachaste—foi o rojão;
o mal ferido toiro o meu coração.

A MUSA

—«Eis a reles conquista pulha que hoje fiz: e, com quanto este asno não tenha bom nariz, espero delle muito; tem muita vontade.»

A PRESIDENTA

—«Tem cara de pateta;-lá isso é verdade. Emfim, mostrar-lhe-hemos n'uma só lição o solido material da nossa instrucção.»