O POETA
—«Tal é a dôr que este meu peito opprime, vendo os classicos tão abandonados, que não encontro rima com que rime, nem attento, por mal dos meus peccados, em descrever o estado lastimoso em que os conservam cá pelo Parnaso.
É preciso ser de peito animoso para affrontar tão inaudito caso, sem á dôr e á vergonha succumbir, ao vêr a Patria Lingua derruir.»
—«Fóra! Fóra!»—berrou em tremebunda grita, dos poetas e musas a troupe maldita.
Esperando, pela turba, em borra ser desfeito, co'os olhos no ceu, cruzo os braços sobre o peito. …………………………………………..
—«Bravo! Bravo!» me applaudem todos presto.
—«Salvaste-te sómente pelo gesto.
Serve-te d'elle; não é má pimenta.»
Accrescentando logo a presidenta:
—«Em honra ao teu gesto fradesco e manual, vaes ter espectac'lo com todo o ritual. Aprestae, minha côrte, as armas, a metralha que impavido, o realismo, emprega na batalha.»
* * * * *
Circulam os poetas e giram as musas (umas fufias velhas, caras de semi-fusas), mechendo em armarios e cortando papel, e borrando pinturas co'um grosso pincel, d'uns que são usados em lavar certos vasos que pomos em serviço em reservados casos. Andam sempre em vertiginoso rodopio atarefados todos, té que um assobio de machina a vapor sibila pelo espaço.
Entra um prélo gigantesco, luzidio, d'aço, puchado p'lo Pegaso e movido a vapor.
—«A postos, meus senhores, se fazem favor.»