IV

Apollo, que até então tinha estado occulto, da sombra destacando o luminoso vulto, desatrella o Pegaso do prélo bemdito e o manda pastar em pello a aveia do infinito.

Depois, berrando como qualquer sacristão
que na egreja ronca safado cantochão,
com voz desafinada entoa esta cantiga,
batendo, á cautella, o compasso na barriga:

—«Companheiras senís, acanalhadas,
que, quando era potente, tanto amei:
o grande caldeirão das versalhadas
descei! descei!»

Ligeiras, como a rapida gazella,
atiraram-se ao cabo da panella;
e o caldeirão desceram, pressurosas,
tomando, pelo esforço, a côr das rosas.

Depois tomaram posições sensuaes
dos quadros vivos reles e triviaes.

E os poetas, então, prostrados pela terra,
entoaram este côro, na mais alta berra.

ORAÇÃO DOS POETAS

—«Ó vestaes da inspiração,
velhas donzellas:
assumptos de sensação
idéas bellas,
fazei-nos inventar
em nossos cacos;
e fazei-nos ganhar
bem bons patacos.

Multiplicae os tolos
p'ra nosso bem,
que vos daremos bolos.
Amen, amen, amen.»—

E, levantando os seus coiros do chão,
sacudiram o pó co'um escovão.

A um signal d'Apollo, dado com pratos,
fizeram as rev'rencias dos gaiatos.

Longa penna tirando da sacola, papel na mão, como rapaz d'escola, e p'ra a lição estando muito attentos, tomavam com cautella apontamentos.

APOLLO (cantando)

—«A sciencia genial das bagatellas,
que tendes como a compota nas tijelas,
lançae no caldeirão.
Adjectivos hydropicos, lancinantes,
figuras colossaes; como os elephantes
em grossa multidão,
com quanta massa realista de balelas
tendes em vossa mão:
lançae no caldeirão
co'a sciencia genial das bagatellas.»

Tres vezes cantou isto e calou-se.
O Pegaso fóra deu um coice.

Avançam Euterpe e Clio
cantando ao som de assobio.

—«Lançamos no panellão
um primoroso croquis
da guerra do Rossilhão
e dos bordeis de Paris.

Lançamos a Rigolboche
com rameiras messalinas,
fazendo todo o deboche
junto aos sapos das latrinas.

N'alma d'um paria,
Locusta má,
cantando uma ária
em tom de lá;

Cesares romanos,
Faustos impotentes,
mil ratas dos canos,
risos innocentes,

lançamos com copahiba mais o nitrato de prata. Tirando d'um carahiba luxuria sensual de gata,

teremos, com toda esta misturada, um adubo real p'ra a panellada.»

Feitos uns fradescos cumprimentos
as musas tomaram seus assentos.

Avançam Melpomene e a Thalia
trazendo material de gran valia.

—«Lançamos roseas petalas d'alma
e beijos de Julietta:
de Tartufo a seriedade calma
e muita outra peta;

muitas portas falsas,
maridos c'roados,
mulheres com calças,
noivos esfaimados.

Tudo isto se acondimenta com choradeiras de fel, cantharidas e pimenta e beijos da lua de mel.»

Ninguem faz caso d'uma tal cantiga
porque o theatro não enche barriga.

De Terpsichore e Urania chega a vez:
pouco, porém, dão p'ra este entremez.

—«Lançamos os cometas d'aço
em leitos sensuaes de nublosas;
a gran mangedoura do espaço
alem de—muchas otras cosas:

a abobada commua, o grande guarda-sol dos requeijões da lua, e o tinteiro do sol.

Refrescamos toda esta panellada com agua do ceu e gelo em palitos; e p'ra terminar tamanha estopada deitamos a dança dos aerolithos.»

(Um vate apontou: alguns fandangos…
uns requeijões da lua com morangos…)

Tocou a vez á agoirenta Erato.
Esta recitou este cavaco:

—«Não tenho que botar no caldeirão,
seguindo uma bem sensata opinião,
senão:
coisas funebres e outras porcarias
na Parvonia publicadas ha dias.

Acompanhae meu canto, Apollo, ó menestrel,
tocando n'um pente forrado de papel.

—Almas côr de rosa, subindo p'ra o céu; a morte amorosa tirando o chapéo.

Vae n'este bilhete, desenhado a giz, loculeo banquete:

podridões gentis, larvas proletarias em mesa quadrada roendo nos parias…

Não lhes digo nada… Se um dia morrer, —ai que desprazer!— não posso ter dobres de modo nenhum:

foram-se-me os cobres
*Na valla commum.*

O ultimo dueto se faz ouvir alfim;
Calliope e Polymnia cantaram assim

—«Temos grande collecção
de hyperboles arrojadas,
e portentosas rajadas
de causar admiração.

Ha no nosso botequim
gordos melros com chouriço,
e tonsurado toitiço
com carcassas d'arlequim;

evangelhos com trufas e Biblia com champagne; e ha quem isto amanhe tudo em operas buffas.

Escrevei, ó poetas namorados!
com a tinta geniosa dos enxurros
estes sadios e modernos guisados
capazes só de sustentar os burros.

Libae poetas! e bebei n'um pulo
o sangue com gangrena
pelas aurifras taças de Loculo,
nos braços da pequena.

Lambei os lambusados pratos
d'esta babylonica orgia:
e p'ra rimar mettei Pilatos,
mettei no credo a gemonia.

E Gehovah e Jonas e Vitellio
almoçaram aqui ventres de sapos,
e embrulharam-nos em ostias de trapos,
andando na pandega com Aurellio.

Astarteia com os dentes de Ugolino
roe por vezes podridões syphiliticas,
indo depois ás sergetas mephiticas
com Torquemada descantar um hymno.

A luxuria d'um frade
com varios paradoxos,
dão da melhor vontade
relinchos orthodoxos,
rindo-se do cisco dos ripansos,
e das varreduras dos missaes,
e cabritando pelos passaes
de pescoço alçado como um ganso.

Aqui temos muitas vezes
Job e Falstaff e Ezequiel,
o que rima com Ariel
e come esterco das rezes.

Aqui vêm todas as Venus sensuaes,
carregadas d'escarros luminosos,
abraçadas com uns pobres gotosos
que lhes pagam as scenas jantaraes.

Temos a latrina de Pandora
p'ra casos do aperto mais velhaco.
Tambem ha a caverna de Caco
mas vive n'ella, Agrippina, agora.

Á noute, luzes ha, de brancos ais,
velas, tochas de pedantes,
ais de luz agonisantes
e mais outras lamparinas que taes.»

E tomando as reles pinturas allegoricas de todas estas hyperboles semaphoricas, com os recortes das figuras principaes, funambulas e grotescas e originaes, tudo no panellão deitaram em tropel.

(Um poeta não tira os olhos do papel; e movendo a penna com rapidez electrica escreve, a serio, esta michordia phonetica.)

* * * * *

Então a musa Clio, que á festa presidiu, a palavra alterosa assim me dirigiu:

—«Neophito! acabas de penetrar os arcanos do saber que sómente dão os muitos annos. Não julgues porém tu, que sómente com isso, que não passa de bagaço e reles palhiço, conseguirás talvez hombrear os geniaes, altivos, sonorosos poetas actuaes.

Isso só consegues indo calçar ao ferrador, e dando muitos coices, com ataques de estupor, na grammatica mais na Lua, em Deus e na Razão. Descoberto este segredo serás um sabichão.»—

* * * * *

Termina a festa. Apollo empunha a lyra d'ouro e, soltando aos ares o seu cabello louro, dedilha, debruçado no instrumento qu'rido, o puro do fadinho, o popular, corrido.

E as musas dando á gambia, á canella, batem o fado em roda da panella.

Com zumbidos feios, torpes emanações, a grande panellada ferve em borbulhões lascivos de luxuria, quentes, abbaciaes, espalhando no espaço vapores sensuaes, emquanto que o Pegaso farto de pastar, como burro indecente, se poz a ornear.