A Última Batalha
O dia estava nublado quando Wayne foi para a morte junto com todo o seu exército em Kensington Gardens; estava novamente nublado quando o exército foi engolido pelos vastos exércitos de um novo mundo. Houve um intervalo quase sobrenatural de brilho solar, em que o superintendente de Notting Hill, com toda a placidez de um espectador, olhou os exércitos hostis sobre os grandes espaços de vegetação do lado oposto; as longas tiras de verde, azul e ouro estavam sobre todo o parque em quadrados e retângulos como uma proposição de Euclides forjada em um rico bordado. Mas a luz do sol estava fraca, como se fosse úmida, e foi logo engolida. Wayne falou ao rei, com uma estranha espécie de frieza e apatia, como para operações militares. Era como havia dito na noite anterior, que ao ser privado de seu sentido de impraticável retidão, estava, de fato, sendo privado de tudo. Ele estava fora de lugar, no mar de um mundo apenas de compromisso e competição, de Império contra Império, do razoavelmente certo e do razoavelmente errado. No entanto quando seus olhos caíram sobre o rei, que marchava muito grave com uma cartola e uma alabarda, se animou um pouco.
— Bem, vossa Majestade, pelo menos deve se orgulhar hoje. Se os seus filhos estão lutando entre si, pelo menos os que ganham são vossos filhos. Outros reis Outros distribuíram justiça, você distribuiu vida. Outros reis governaram uma nação, você criou nações. Outros fizeram reinos, você os gerou. Olhe para seus filhos, pai! — e estendeu a mão para o inimigo.
Auberon não levantou os olhos.
— Veja como esplendidamente — gritou Wayne — novas cidades chegam, as novas cidades além do rio. Veja onde Battersea avança sob a bandeira da Cão Perdido; e Putney, não vê o Homem no Javali Branco brilhando em seu emblema quando o sol o ilumina. É a chegada de uma nova era, vossa Majestade. Notting Hill não é um império comum, é como Atenas, a mãe de um modo de vida, de uma maneira de viver, que deverá renovar a juventude do mundo como Nazaré. Quando era jovem me lembro, nos velhos tempos sombrios, sabichões costumavam escrever livros sobre como os trens ficariam mais rápidos, e todo o mundo seria um império, e como carros elétricos iriam para a lua. E mesmo quando criança, costumava dizer a mim mesmo: “Muito mais provável que comecemos as cruzadas novamente, ou adoraremos os deuses da cidade.” E assim foi. E estou contente, embora esta seja minha última batalha.
Enquanto falava, veio um estrondo de aço a partir da esquerda, e virou a cabeça.
— Wilson! — gritou, com uma espécie de alegria. — Red Wilson atacou nossa esquerda. Ninguém pode segurá-lo; ele come espadas. Ele é tão afiado como soldado quanto Turnbull, mas menos paciente, realmente excelente. Ha! E Barker está se movendo. Como Barker melhorou; quão bonito está! Não é apenas as plumas, mas também ter uma alma na vida diária. Ha!
E outro estrondo de aço à direita mostrou que Barker fechou Notting Hill no outro lado.
— Turnbull está lá! — gritou Wayne. — Eu o vejo empurrá-los de volta! Barker está marcado! Turnbull ataca… e ganha! Mas nossa esquerda está aberta. Wilson esmagou Bowles e Mead, e pode revelar nosso flanco. Em frente, guarda do superintendente!
E todo o centro moveu-se para a frente, o rosto, cabelo e espada flamejante de Wayne na vanguarda.
O rei correu de repente para a frente.
No instante seguinte, um grande sobressalto indicou que haviam encontrado o inimigo. E bem defronte deles, através da madeira de suas próprias armas, Auberon viu a Águia Púrpura de Buck de North Kensington.
À esquerda, Red Wilson assaltou as fileiras quebradas, sua pequena figura verde visível até mesmo no emaranhado de homens e armas, com os bigodes flamejantes vermelhos e a coroa de louros. Bowles o cortou na altura da sua cabeça e arrancou parte da coroa, deixando o resto ensanguentado, e, com um rugido de um touro, Wilson saltou sobre ele, e depois de um ruído de esgrima, mergulhou sua arma no farmacêutico, que caiu, gritando: “Notting Hill!” Em seguida, os habitantes de Notting Hill vacilaram e Bayswater varreu-os de volta em confusão. Wilson levou tudo adiante dele.
À direita, no entanto, Turnbull tinha levado a bandeira do Leão vermelho com uma arrancada contra os homens de Barker, e a bandeira dos Pássaros Dourados estava com dificuldades diante dele. Os homens de Barker caíram rapidamente. No centro Wayne e Buck estavam engajados, teimosos e confusos. A luta estava precisamente equilibrada. Mas a luta era uma farsa. Por trás dos três pequenos exércitos contra os quais o pequeno exército de Wayne estava engajado, apresentava-se o grande mar dos exércitos aliados, que pareciam ainda como espectadores escarnecedores, mas poderiam ter quebrado todos os quatro exércitos com o mover um dedo.
De repente, eles se moveram. Alguns dos contingentes da frente, os chefes pastorais de Shepherd´s Bush, com suas lanças e telas, foram vistos avançando, e os rudes clãs de Paddington Green. Estavam avançando por uma razão muito boa. Buck, de North Kensington, estava sinalizando descontroladamente, estava cercado e totalmente isolado. Seus regimentos eram uma massa de pessoas em dificuldades, ilhados num mar vermelho de Notting Hill.
Os aliados tinham sido muito descuidados e confiantes. Haviam permitido a força de Barker ser quebrada em pedaços por Turnbull, e no momento em que isso foi feito, o astuto velho líder de Notting Hill virou os homens e atacou Buck por trás e em ambos os lados. No mesmo instante, Wayne gritou: “Carga!” e o golpeou pela frente como um raio.
Dois terços dos homens de Buck foram cortados em pedaços antes de seus aliados poderem alcançá-los. Em seguida, o mar de cidades veio com suas bandeiras, como quebradores de linhas, e engoliram Notting Hill para sempre. A batalha não acabou, pois nenhum dos homens de Wayne iria se render, e durou até o pôr do sol, e ainda depois. Mas estava decidida, a história de Notting Hill foi encerrada.
Quando Turnbull viu isso, parou um momento de lutar, e olhou em volta dele. A luz do sol do entardecer atingiu seu rosto, ele parecia uma criança.
— Tive a minha juventude — disse ele. Então, pegando um machado, correu para o grosso das lanças de Shepherd’s Bush, e morreu em algum lugar dentro das profundezas de suas cambaleantes fileiras. Então a batalha rugia; todo homem de Notting Hill foi morto antes da noite.
Wayne estava só apoiado em uma árvore depois da batalha. Vários homens aproximaram-se dele com machados. Um atingiu-o. Seu pé parecia parcialmente escorregar, mas ele firmou a mão na árvore.
Barker surgiu depois dele, a espada na mão, tremendo de emoção:
— Quão grande agora, meu senhor, é o império de Notting Hill?
Wayne sorriu na escuridão crescente.
— Sempre tão grande quanto isto — disse ele, e varreu sua espada ao redor em um semicírculo de prata.
Barker caiu, ferido no pescoço, e Wilson pulou sobre o seu corpo como um tigre, apressando-se até Wayne. No mesmo instante, veio por trás do Lorde do Leão Vermelho um grito e um clarão amarelo, e uma massa de alabardeiros de West Kensington lavrou a encosta, na grama até os joelhos, tendo a bandeira amarela da cidade diante deles, e gritando em voz alta.
Ao mesmo tempo, Wilson caiu debaixo da espada de Wayne, aparentemente esmagado como uma mosca. A grande espada subiu novamente como um pássaro, mas Wilson pareceu subir com ele, e, com a espada quebrada, saltou para a garganta de Wayne como um cão. O mais importante dos alabardeiros amarelos alcançou a árvore e girou o machado acima de Wayne em dificuldades. Praguejando o rei virou sua própria alabarda, e disparou a lâmina no rosto do homem. Ele cambaleou e rolou ladeira abaixo, assim como o furioso Wilson que foi arremessado de costas novamente. E mais uma vez ele estava de pé, e novamente atacando a garganta de Wayne. Em seguida, foi arremessado novamente, mas desta vez rindo triunfante. Na sua mão estava o distintivo vermelho e amarelo que Wayne usava como superintendente de Notting Hill. Ele o rasgou do lugar onde esteve por vinte e cinco anos.
Com um grito, os homens de West Kensington cercaram Wayne, a grande bandeira amarela batendo sobre a sua cabeça.
— Onde está o seu distintivo agora, superintendente? — gritou o líder de West Kensington.
E subiu uma gargalhada.
Adam atacou um porta-estandarte e o levou cambaleando para a frente. Com a bandeira encurvada, agarrou as dobras amarelas e arrancou um fiapo. Um alabardeiro atingiu-lhe no ombro, fazendo uma ferida sangrenta.
— Aqui está uma das cores| — gritou, empurrando o fiapo amarelo no cinto. — E aqui — gritou, apontando para o seu próprio sangue — está a outra.
No mesmo instante, o choque súbito de uma forte alabarda deixou o rei atordoado ou morto. Nas visões selvagens enquanto a consciência desaparecia, viu novamente algo que pertencia a uma época totalmente esquecida, algo que tinha visto em algum lugar há muito tempo em um restaurante. Ele viu, com os olhos úmidos, vermelho e amarelo, as cores da Nicarágua.
Quin não viu o fim. Wilson, selvagem e alegre, saltou novamente para Adam Wayne, e a grande espada de Notting Hill girou novamente. Em seguida, os homens se abaixaram instintivamente com o ruído da espada descendo do céu, e Wilson de Bayswater foi esmagado e varrido no chão como uma mosca. Nada restou dele, exceto destroços; mas a lâmina que o quebrou estava quebrada. Ao morrer, estalou a grande espada e o encanto desta, a espada de Wayne estava quebrada no punho. Uma arremetida do inimigo forçou Wayne contra a árvore. Estavam muito perto para usar alabarda ou mesmo espada, pois estavam peito contra peito, até mesmo narina contra narina. Mas Buck conseguiu libertar sua adaga.
— Matem-no! — gritou, com uma voz abafada estranha. — Matem-no! Bom ou mau, ele não é nenhum de nós! Não se deixem cegar pelo rosto... Deus! Se não estivéssemos cegos o tempo todo! — e puxou o braço para trás para uma facada, e pareceu fechar os olhos.
Wayne não soltou a mão que estava pendurada no galho da árvore. Mas um poderoso suspiro passou sobre seu peito e toda a sua enorme figura, como um terremoto ao longo de grandes colinas. E com essa convulsão de esforço, arrancou o ramo da árvore, com farpas de madeira; e, balançando-o apenas uma vez, jogou a clava lascada em Buck, quebrando seu pescoço. O planejador da Grande Estrada caiu morto, com sua adaga em um aperto de aço.
— Para você e para mim, e para todos os homens valentes, meu irmão — disse Wayne, numa estranha oração — haverá bom vinho vertido na pousada do fim do mundo.
Os homens ao redor fizeram outros movimentos em direção a ele; era quase escuro demais para uma luta clara. Ele agarrou-se no carvalho novamente, desta vez colocando a mão em uma grande fenda e prendendo-se, por assim dizer, nas entranhas da árvore. A multidão toda, em torno de trinta homens, fez um esforço para afastá-lo dela, pendurando todo o seu peso e número, e nada se mexeu. A solidão não poderia ter sido mais imóvel do que aquele grupo de homens tensos. Então, houve um som fraco.
— A mão dele está escorregando — gritaram dois homens em júbilo.
— Você não o conhece — disse outro, tristemente (um homem da velha guerra). — É mais provável que seus ossos estejam quebrando.
—Não é nem um, nem outro. Meu Deus! — disse um dos dois primeiros.
— O que, então? — perguntou o segundo.
— A árvore está caindo.
— À medida que a árvore cai, assim deita-se — disse a voz de Wayne para a escuridão, e tinha o mesmo ar doce mas ainda horrível de estar por toda parte, vindo de uma grande distância, de antes ou depois do evento. Mesmo quando estava lutando como uma enguia ou golpeando como um louco, falava como um espectador. — À medida que a árvore cai, assim deita-se — disse ele. — Os homens chamaram de um texto sombrio. É a essência de toda a exultação. Estou fazendo agora o que tenho feito toda a minha vida, que é a única felicidade, que é a única universalidade. Estou agarrado a alguma coisa. Deixe-o cair, e deixe-o deitar. Tolos, vão passear e ver os reinos da terra, tão liberais, sábios e cosmopolitas, que é tudo que o diabo pode lhes dar, tudo o que ele poderia oferecer a Cristo, apenas para ser rejeitado imediatamente. Estou fazendo o que o verdadeiro sábio faz. Quando uma criança sai para o jardim e se apodera de uma árvore, dizendo: ‘Que esta árvore seja tudo o que tenho’, naquele momento suas raízes tomam posse no inferno e seus ramos sobre as estrelas. A alegria que tenho é a do amante que sabe quando uma mulher é tudo. É a de um selvagem que sabe quando seu ídolo é tudo. É a que tenho quando sei quando Notting Hill é tudo. Eu tenho uma cidade. Esteja ela de pé ou caída.
Enquanto falava, a turfa levantou-se como uma coisa viva, e dela subiram lentamente, como uma crista de serpentes, as raízes do carvalho. Então, a grande cabeça da árvore, que parecia uma nuvem verde entre as cinzas, varreu o céu de repente como uma vassoura, e toda a árvore balançou como um navio, esmagando todos na sua queda.