O Experimento do Sr. Buck

Um pedido sincero e eloquente foi enviado para o rei assinado com os nomes de Wilson, Barker, Buck, Swindon e outros. O pedido era que na próxima conferência a ser realizada na presença de Sua Majestade sobre a disposição final das propriedades em Pump Street, com todo o decoro político e com o respeito indizível que mantinham por sua Majestade, que eles pudessem vir vestidos normalmente, sem o traje designado para eles como superintendentes. Assim aconteceu que a companhia apareceu no conselho em casacos e que o próprio rei limitou seu amor a cerimônia ao aparecer (depois de sua forma usual), de vestido de noite com uma insígnia de uma ordem — neste caso não da Ordem da Jarreteira[1], mas o botão do Clube de melhores amigos do velho Clipper, uma decoração obtida (com dificuldade) a partir de uma publicação infantil de meio penny. Assim também aconteceu que o único toque de cor na sala era Adam Wayne, que entrou com grande dignidade usando grandes vestes vermelhas e uma grande espada.

— Nós nos encontramos — disse Auberon — para decidir o mais árduo dos problemas modernos. Que possamos ser bem sucedidos — e sentou-se gravemente.

Buck virou a cadeira levemente, e cruzou as pernas.

— Sua Majestade — disse ele, muito bem-humorado — só há uma coisa que eu não consigo entender: por que este assunto não pode ser resolvido rapidamente? Aqui está uma pequena propriedade que vale mil para nós e não vale cem para qualquer outra pessoa. Nós oferecemos mil. Não é um bom negócio, pois deveríamos conseguir por menos, não é razoável e não é justo para nós, mas não vejo qual é a dificuldade.

— A dificuldade pode ser explicada facilmente — disse Wayne. — Podem oferecer um milhão e ainda não terão Pump Street.

— Mas escute, Sr. Wayne — gritou Barker, golpeando com fria emoção. — Escute bem. Não tem o direito de assumir uma posição como essa. Pode barganhar por um preço maior, mas não está fazendo isso. Está recusando o que você, e qualquer homem são, sabe ser uma oferta esplêndida simplesmente por malícia ou rancor - deve ser malícia ou rancor. E isso é realmente criminoso, é contra o interesse público. O Governo do Rei poderia justificadamente forçá-lo.

Com os dedos magros espalhados sobre a mesa, olhava ansiosamente para o rosto de Wayne, que não se mexeu.

— Poderia forçá-lo… — repetiu.

— E o fará — disse Buck, breve, voltando-se para a mesa. — Fizemos o melhor para ser decentes.

Wayne levantou os grandes olhos lentamente:

— Foi o Lorde Buck, quem disse que o rei da Inglaterra ‘fará’ algo?

Buck corou e disse, irritado:

— Quero dizer que deveria. Como disse, fizemos o nosso melhor para ser generosos. Desafio qualquer um a negar. Sr. Wayne, não quero ser grosseiro, mas permita-me dizer que você deveria estar na prisão. É criminoso parar obras públicas por um capricho. Senão, com o mesmo direito que você almeja, um homem poderia também queimar dez mil cebolas em seu jardim da frente ou fazer suas crianças correr nuas na rua. Pessoas foram obrigadas a vender antes. O rei pode obrigá-lo, e espero que o faça.

— Até que o faça — disse Wayne, calmamente —, o poder e o governo desta grande nação está do meu lado e não do seu, e desafio você a desafiá-los.

—Em que sentido — gritou Barker, com os olhos e as mãos febris —, o Governo está do seu lado?

Com um movimento, Wayne desenrolou um grande pergaminho sobre a mesa. Ele foi decorado nas laterais com esboços de aquarela de sacristões em coroas e grinaldas.

— A Carta das Cidades... — começou.

Buck lançou uma imprecação brutal e riu:

— Essa tola piada. Já não tínhamos o suficiente...

— E aí você fica — gritou Wayne, erguendo-se com uma voz como de trombeta — sem argumentos, insultando o rei diante do seu rosto.

Buck ergueu-se também com os olhos ardentes:

— Sou difícil de intimidar... — começou. Mas as palavras lentas do rei soaram com incomparável gravidade:

— Lorde Buck, devo lembrar-lhe que seu rei está presente. Não é sempre que ele precisa se proteger de seus súditos.

Barker se virou para ele com gestos frenéticos:

— Pelo amor de Deus não apoie o louco agora — implorou. — Deixe sua piada para outra hora. Oh, pelo amor do céus...

— Lorde Superintendente de South Kensington — disse o rei Auberon, firmemente —, não entendo suas observações, que são proferidas com uma velocidade incomum na corte. Nem seus bem-intencionados esforços para transmitir o resto com os dedos me ajuda materialmente. Digo que o Lorde Superintendente de North Kensington, a quem falava, não deve, na presença de seu soberano, falar desrespeitosamente de ordenanças de seu soberano. Discorda?

Barker se moveu inquieto na cadeira, e Buck amaldiçoou sem falar. O rei prosseguiu em um tom de voz satisfeito:

— Lorde Superintendente de Notting Hill, prossiga.

Wayne voltou seus olhos azuis para o Rei, e para a surpresa de todos, não aparecia neles triunfo, mas uma certa angústia infantil:

— Sinto muito, vossa majestade, temo que eu seja mais que igualmente culpado que o Lorde Superintendente de North Kensington. Estávamos debatendo um pouco ansiosos, e ambos nos excedemos. Fiz isso primeiro, tenho vergonha de dizer. O Superintendente de North Kensington é, portanto, relativamente inocente. Rogo a Vossa Majestade para direcionar a sua repreensão principalmente a mim. O Sr. Buck não é inocente, pois ele falou, sem dúvida, no calor do momento, de maneira desrespeitosa. Mas no resto da discussão, ele pareceu-me ter conduzido com ótimo temperamento.

Buck parecia genuinamente satisfeito, pois homens de negócio são todos sérios e focados, e, portanto, têm certo grau de comunhão com fanáticos. O Rei, por alguma razão, parecia, pela primeira vez em sua vida, envergonhado.

— Este gentil discurso do Superintendente de Notting Hill — começou Buck, agradavelmente —, parece-me mostrar que temos pelo menos uma relação amistosa. Agora veja, Sr. Wayne. Quinhentas libras lhe foram oferecidas por um imóvel que admite não valer cem. Bem, sou um homem rico e ainda sou generoso. Digamos mil e quinhentas libras, fechamos negócio e apertamos as mãos — e levantou-se, brilhando e rindo.

— Mil e quinhentas libras — sussurrou o Sr. Wilson de Bayswater —, podemos oferecer mil e quinhentas libras?

— Mantenho a oferta — disse Buck, com vontade. — O Sr. Wayne é um cavalheiro e me defendeu. Então suponho que as negociações estão encerradas.

Wayne fez uma reverência:

— Estão realmente encerradas. Sinto muito. Não posso vender a propriedade.

— O que? — gritou o Sr. Barker, levantando-se

— O senhor Buck falou corretamente — disse o rei.

— Sim, falei — gritou Buck, levantando-se também. — Eu disse...

— O senhor Buck falou corretamente — disse o Rei —, as negociações estão encerradas.

Todos os homens da mesa levantaram-se; Wayne sozinho levantou-se sem emoção.

— Então, tenho a permissão de Vossa Majestade para partir? Dei minha última resposta. — Você a tem — disse Auberon, sorrindo, mas sem levantar os olhos da mesa. E em meio a um silêncio mortal, o Superintendente de Notting Hill saiu da sala.

— Bem... — Wilson disse, voltando-se para Barker. — E agora?

Barker balançou a cabeça desesperadamente:

— O homem devia estar em um asilo. Mas uma coisa é clara: não precisamos nos preocupar mais com ele. O homem pode ser tratado como louco.

— É claro — disse Buck, virando-se para ele com uma decisão sombria. — Está completamente certo, Barker. Ele é um bom companheiro, mas deve ser tratado como louco. Vamos colocar de forma simples. Fale com qualquer homem em qualquer cidade, a qualquer médico em qualquer cidade, que há um homem a que ofereceram mil e quinhentas libras por uma coisa que ele poderia vender normalmente por quatrocentos, e que, quando perguntado por um motivo para não aceitar, clama pela santidade inviolável de Notting Hill e a chama de Montanha Sagrada. O que diriam eles? O que mais podemos ter do nosso lado além do senso comum de todos? Sobre o que mais se baseiam as leis? Vou te dizer, Barker, o que é melhor do que qualquer discussão. Vamos enviar operários no local para derrubar Pump Street. E se o velho Wayne disser uma palavra, o prenderemos como um lunático. Isso é tudo.

Os olhos Barker se acenderam:

— Sempre considerei você, Buck, se você não se importa que eu diga, como um homem muito forte. Conte comigo.

— E comigo, é claro — disse Wilson.

Buck se levantou de novo impulsivamente.

— Vossa Majestade — disse ele, brilhando com popularidade —, peço a Vossa Majestade que considere favoravelmente a proposta a que nos comprometemos. A clemência de Vossa Majestade e as nossas próprias ofertas foram em vão para aquele homem extraordinário. Ele pode estar certo. Ele pode ser Deus. Ele pode ser o diabo. Mas achamos que, para fins práticos, o mais provável é que ele está fora de si. A menos que essa suposição seja considerada na prática, todos os assuntos humanos vão ser despedaçados. Nós agimos sobre ela, e propomos o inicio das operações em Notting Hill de uma vez.

O Rei recostou-se na cadeira:

— A Carta das Cidades … — disse ele de forma eloquente.

Mas Buck, recuperando a seriedade, também foi cauteloso, e não mais cometeu o erro do desrespeito.

— Vossa Majestade — disse ele, curvando-se, não estou aqui para dizer uma palavra contra qualquer coisa que vossa Majestade tenha dito ou feito. É um homem muito melhor educado do que eu, e sem dúvida havia razões, com fundamentos intelectuais, para tais processos. Mas posso perguntar-lhe e apelar à sua boa natureza por uma resposta sincera? Quando elaborou a Carta das Cidades, contemplou a ascensão de um homem como Adam Wayne? Esperava que a Carta — seja uma experiência, um esquema de decoração, ou uma piada – - poderia realmente levar a isto? Parar um vasto plano de negócios, fechar uma estrada, estragar as chances de táxis, ônibus, estações de trem, desorganizar metade da cidade, arriscar uma espécie de guerra civil? Quais eram seus objetivos, eram estes?

Barker e Wilson olharam para ele com admiração, o Rei mais admirado ainda.

— Superintendente Buck — disse Auberon —, fala em público incomumente bem. Reconheço isso com a magnanimidade de um artista. Meu esquema não incluía o aparecimento do Sr. Wayne. Ai! Gostaria que minha força poética fosse grande o suficiente.

— Agradeço a Vossa Majestade — disse Buck, com cortesia, mas rapidamente. — As declarações de Vossa Majestade sempre são claras e estudadas, por isso pude deduzir. Como o esquema pretendido, qualquer que fosse, não incluía o aparecimento do Sr. Wayne, irá sobreviver a sua remoção. Por que não nos deixa limpar Pump Street em particular, que interfere com os nossos planos, e que, por declaração própria de Vossa Majestade, não interfere com os vossos.

— Pego! — disse o Rei, com entusiasmo e de forma bastante impessoal, como se estivesse assistindo a uma partida de críquete.

— Este homem, Wayne — continuou Buck —, seria internado por qualquer médico da Inglaterra. Mas só pedimos para que ele seja colocado diante deles. Enquanto isso os interesses de ninguém, nem mesmo com toda a probabilidade os dele, serão realmente prejudicados continuando com as melhorias em Notting Hill. Não nossos interesses, é claro, pois foi um trabalho árduo e calmo de dez anos. Não os interesses de Notting Hill, pois quase todos os seus habitantes educados desejam a mudança. Nem os interesses de vossa Majestade, pois disse, com seu senso característico, que nunca contemplou a ascensão do lunático. Nem mesmo os próprios interesses dele, pois o homem tem um bom coração e muitos talentos, e um par de bons médicos provavelmente seriam melhor para ele do que todas as cidades livres e montanhas sagradas na criação. Por isso, assumo, se posso usar uma palavra tão ousada, que vossa Majestade não vai oferecer nenhum obstáculo para o nosso processo de melhorias.

E o Sr. Buck sentou-se em meio a aplausos suaves mas animados de seus aliados.

— Sr. Buck — disse o Rei —, perdoe-me por diversos pensamentos belos e sagrados, onde você era geralmente classificado como um tolo. Mas há outra coisa a ser considerada. Suponha que envie seus trabalhadores e o Sr. Wayne faça uma ação lamentável, mas que, lamento dizer, acho que ele seja bem capaz — de quebrar-lhes os dentes?

— Pensei nisso, vossa Majestade — disse Buck, tranquilo —, e acho que é simples de se precaver. Vamos enviar uma forte guarda de, digamos, uma centena de homens, uma centena de alabardeiros de North Kensington — sorriu sobriamente — que vossa Majestade aprecia tanto. Ou cento e cinquenta. Imagino que toda a população de Pump Street é de apenas uma centena.

— Ainda assim eles podem juntar-se e dar-lhes uma surra — disse o Rei, em dúvida.

— Então digamos duzentos — disse Buck, alegremente.

— Pode acontecer — disse o Rei, inquieto — que um de Notting Hill lute melhor do que dois de North Kensington.

— Pode — disse Buck, friamente —, então digamos duzentos e cinquenta.

O Rei mordeu o lábio.

— E se ainda forem espancados? — disse violentamente.

— Vossa Majestade — disse Buck recostando-se em sua cadeira —, suponha que consigam. É claro que todas as questões de combate são meras questões de aritmética. Por exemplo, aqui temos cento e cinquenta soldados de Notting Hill. Ou, digamos duzentos. Se um deles pode lutar contra dois, podemos enviar, não quatrocentos, mas seiscentos, e acabamos com eles. Isso é tudo. Está fora de toda probabilidade que qualquer um deles possa lutar contra quatro de nós. Então, o que digo é que não corramos riscos. Acabemos com isso de uma só vez. Enviemos oitocentos homens e esmagamos ele - esmagamos ele quase sem sequer vê-lo. E continuamos com as melhorias.

E o Sr. Buck tirou um lenço e assoou o nariz.

— Sabe sr. Buck — disse o rei, olhando melancolicamente para a mesa —, a clareza admirável de sua razão produz em minha mente um sentimento, espero não ofendê-lo ao descrever como uma aspiração de socar sua cabeça. Irrita-me sublimemente. Que pode ser isto? A relíquia de um senso moral?

— Mas, Majestade — disse Barker, ansiosamente e com suavidade —, não recusa as nossas propostas?

— Meu querido Barker, suas propostas são tão condenáveis como suas maneiras. Não quero ter nada a ver com elas. Suponha que as pare completamente. O que iria acontecer?

Barker respondeu numa voz muito baixa:

— Revolução.

O Rei olhou rapidamente para os homens à volta da mesa. Eles estavam todos olhando para baixo em silêncio: suas sobrancelhas estavam vermelhas.

Levantou-se com uma rapidez surpreendente, e uma palidez incomum:

— Senhores, vocês me venceram. Portanto, posso falar abertamente. Acho que Adam Wayne, que é tão louco como um chapeleiro, vale mais que um milhão de vocês. Mas vocês têm a força, e, admito, o senso comum, e ele está perdido. Levem seus oitocentos alabardeiros e o esmaguem. Embora fosse mais esportivo levar duzentos.

— Mais esportivo — disse Buck, severamente —, mas muito menos humano. Nós não somos artistas, e ruas manchadas de sangue não são uma boa visão.

— É lamentável — disse Auberon. — Com cinco a seis vezes o seu número, não haverá nenhuma luta.

— Espero que não — disse Buck, levantando-se e ajustando suas luvas. — Não desejamos nenhuma luta, Majestade. Somos pacíficos homens de negócios.

— Bem — disse o rei, cansado —, a conferência finalmente terminou.

E saiu da sala antes que qualquer outra pessoa se mexesse.


Quarenta operários, uma centena de alabardeiros de Bayswater, duzentos de South Kensington e trezentos de North Kensington se reuniram ao pé de Holland Walk e marcharam sob a direção geral de Barker, que parecia corado e feliz em traje completo. No final da procissão uma figura pequena e mal-humorado permaneceu como um moleque. Era o rei.

— Barker — disse por fim, apelativo —, você é um velho amigo meu, entende meus passatempos como entendo os seus. Por que não pode deixá-lo sozinho? Tinha esperanças da diversão que pudesse vir deste negócio do Wayne. Por que não pode deixá-lo sozinho? Realmente não importa muito – o que é uma estrada para você? Para mim, é a piada que pode me salvar de pessimismo. Leve menos homens e me divirta por uma hora. Realmente e verdadeiramente, James, se você colecionasse moedas ou colibris, e eu pudesse comprar um com o preço de sua estrada, iria comprá-lo. Coleciono incidentes, aqueles raros, essas coisas preciosas. Deixe-me ter um. Pago algumas libras por ele. Dê a estes habitantes de Notting Hill uma chance. Deixe-os em paz.

— Auberon – disse Barker, gentilmente, esquecendo todos os títulos reais em um raro momento de sinceridade —, compreendo o que você quer dizer. Tive momentos em que esses passatempos me atingiram. Tive momentos em que simpatizava com seus humores. Tive momentos, pode não acreditar facilmente, em que simpatizava com a loucura de Adam Wayne. Mas o mundo, Auberon, o mundo real, não funciona como esses passatempos. Funciona sobre grandes rodas brutais de fatos – rodas em que você é a borboleta, e Wayne é a mosca na roda.

Os olhos de Auberon se fixaram francamente nos de Baker:

— Obrigado, James. O que diz é verdade. É só um consolo entre parênteses para eu comparar a inteligência de moscas favoravelmente com a inteligência das rodas, mas é da natureza das moscas morrer logo, e da natureza de rodas andar para sempre. Vá em frente com a roda. Adeus, meu velho.

E James Barker continuou, rindo, com a tez corada, batendo o bambu em sua perna.

O rei viu a cauda do regimento recuando com um olhar genuíno de depressão, o que o fazia parecer mais um bebê do que nunca. Então, girou e juntou as mãos.

— Em um mundo sem humor, o único a fazer é comer. E quão perfeita exceção! Como podem ter estas atitudes as pessoas dignas, e fingir que algo importa, quando o ridículo total da vida é provado pelo próprio método pelo qual é suportada? Um homem atinge a lira, e diz: "A vida é real, a vida é séria", e depois entra em um quarto e se estufa com substâncias estranhas por um buraco em sua cabeça. Acho que a Natureza era de fato um pouco maior em seu humor nesses assuntos. Mas todos nós voltamos a pantomina, como voltei neste caso municipal. A natureza tem suas farsas, como o ato de comer ou a forma do canguru, para o apetite mais brutal. E mantém estrelas e montanhas para aqueles que apreciam coisas ridículas mais sutis. — Ele voltou-se para o seu escudeiro. — Mas, como eu disse ’comer’, vamos fazer um piquenique como duas boas crianças. Basta correr e trazer-me uma mesa e uma dúzia de pratos, e muita champanhe, e sob estes galhos balançando, Bowler, vamos voltar para a natureza.

Levou cerca de uma hora para erguer em Holland Lane a refeição simples do monarca, durante o qual ele andava para cima e para baixo assobiando, mas ainda com um ar afetado de tristeza. Realmente tinha abandonado um prazer que tinha prometido a si mesmo, e tinha aquele sentimento de vazio e desgosto de uma criança quando se decepciona com uma pantomima. Quando ele e o escudeiro se sentaram, no entanto, e consumiram uma quantidade considerável de champanhe seco, seu animo começou a reviver lentamente:

— As coisas levam muito tempo neste mundo. Detesto todo este negócio Barkeriano sobre evolução e modificação gradual das coisas. Queria que o mundo tivesse sido feito em seis dias, e feito em pedaços de novo em mais seis. E gostaria de ter feito isso. A piada é boa no geral, o sol, a lua, à imagem de Deus, e tudo mais, mas é terrivelmente longa. Já desejou um milagre, Bowler?

— Não, senhor — disse Bowler, que era um evolucionista, e que tinha sido criado cuidadosamente.

— Então, eu desejo — respondeu o rei. — Tenho andado ao longo de uma rua com o melhor charuto no cosmos na minha boca, e mais Borgonha dentro de mim do que você já viu em sua vida, e desejo que o poste se transforme num elefante para me salvar do inferno da existência vazia. Acredite na minha palavra, meu evolucionista Bowler, não acredite quando lhe dizem que as pessoas procuraram um sinal, e que acreditavam em milagres porque eram ignorantes. As pessoas faziam isso porque eram sábias, imundamente, vilmente sábias - sábias demais para comer, dormir ou se colocar em seu lugar com paciência. Isto parece deliciosamente como uma nova teoria sobre a origem do cristianismo, o que por si só, é uma coisa de não mero absurdo. Beba mais vinho.

O vento soprava em volta deles enquanto se sentaram à pequena mesa, com seu pano branco e brilhantes copos de vinho, e jogava as copas das árvores de Holland Park umas contra as outras, mas o sol estava naquele temperamento forte, que torna o verde em ouro. O rei afastou seu prato, acendeu um charuto lentamente, e continuou:

— Ontem pensei que estava próximo de presenciar um milagre realmente divertido antes de virar comida para os vermes. Ver aquele maníaco ruivo acenando com uma grande espada, e fazendo discursos para seus seguidores incomparáveis​​, seria um vislumbre da Terra da Juventude de onde formos expulsos pelas Parcas. Tinha planejado algumas coisas deliciosas. Um Congresso em Knightsbridge com um tratado, eu na cadeira, talvez um triunfo romano, com o velho alegre Barker levado em correntes. E agora esses miseráveis ​​pedantes vão acabar completamente com o requintado sr. Wayne. Suponho que vão colocá-lo em algum asilo privado de acordo com seus malditos preceitos humanistas. Pense nos tesouros que serão diariamente derramados ao seu guarda insatisfeito! Gostaria de saber se eles iriam me deixar ser seu guarda. Mas a vida é um vale. Nunca se esqueça, em qualquer momento de sua existência a considerá-la à luz de um vale. Este hábito gracioso, se não for adquirido na juventude...

O Rei parou, com seu charuto levantado, pois tinha deslizado seus olhos para o olhar assustado de um homem que escutava. Não se moveu por alguns momentos, então virou a cabeça bruscamente para a paliçada alta, magra, e como ripa que isolava amplos jardins e espaços similares da faixa de rodagem. De trás vinha um barulho curioso de escalada e raspagem, como algo desesperado preso em uma caixa de madeira fina. O Rei jogou fora seu charuto, e saltou para cima da mesa. A partir dessa posição, ele viu um par de mãos penduradas agarradas em cima do muro. Em seguida, as mãos tremeram com um esforço convulsivo, e entre elas surgiu uma cabeça – o chefe de uma as cidades do Conselho de Bayswater, seus olhos e bigodes com medo selvagem. Ele se impulsionou, e caiu do outro lado de bruços, gemendo sem parar. No momento seguinte, a madeira fina e esticada da cerca foi atingida por uma bala, reverberando como um tambor, e sobre ela vieram empurrando e xingando, com roupas rasgadas, unhas quebradas e rostos vermelhos, vinte homens correndo de uma vez. O Rei saltou os cinco pés da mesa para o chão. No momento seguinte a mesa foi arremessada, garrafas e copos voaram, e os detritos foram literalmente arrastados no chão pelo fluxo de homens que passaram, e Bowler foi levado junto com eles, como o Rei disse em seu famoso artigo de jornal, “como uma noiva raptada”. A cerca balançou e rachou sob a carga de alpinistas que ainda escalavam. Brechas enormes se abriam pela artilharia viva, e através delas o rei pode ver mais rostos frenéticos, como em um sonho, e mais homens correndo. Eram tão diversos como se alguém tivesse tirado a tampa de uma lata de lixo humano. Alguns estavam intocados, alguns estavam cortados, golpeados e sangrando, alguns estavam esplendidamente vestidos, alguns esfarrapados seminus, alguns estavam com o traje fantástico das cidades burlescas, alguns em monótonos trajes modernos. O Rei olhou para todos eles, mas nenhum deles olhou para o rei. De repente, se adiantou:

— Barker, o que é tudo isso?

— Vencido... — disse o político. — Vencido completamente... Inferno! — E lançou-se com as narinas trêmulas como a de um cavalo, e mais homens foram atrás dele.

Quase enquanto falava, a última tira da cerca em pé inclinou-se e quebrou, atirando, como uma catapulta, uma nova figura na estrada. Ele usava o vermelho flamejante dos alabardeiros de Notting Hill, e em sua arma havia sangue, e em sua face vitória. Em seguida, massas em vermelho brilhavam através dos vãos da cerca, e os perseguidores, com suas alabardas, vieram enchendo a pista. Perseguidos e perseguidores, igualmente, passavam pela pequena figura com olhos de coruja, que não tirava as mãos dos bolsos.

O rei sentiu pouco além da confusão de um homem preso numa torrente – o sentimento de homens procurando por bordas. Então aconteceu algo que nunca foi capaz depois de descrever, e que não podemos descrever por ele. De repente, na entrada escura, entre os portões quebrados de um jardim, apareceu enquadrado uma figura flamejante.

Adam Wayne, o conquistador, com o rosto atirado para trás, sua juba como um leão, estava com sua grande espada apontando para o alto, a vestimenta vermelha de seu trabalho batendo ao seu redor como as asas vermelhas de um arcanjo. E o Rei viu, não sabia como, algo novo e irresistível. As grandes árvores verdes e as túnicas vermelhas balançavam juntas com o vento. A espada parecia feita para a luz do sol. As máscaras absurdas, nascidas de seu próprio escárnio, se elevavam e abraçavam o mundo. Este era o normal, isto era sanidade, esta era a natureza, e ele mesmo, com sua racionalidade e seu desprendimento e sua sobrecasaca preta, ele era a exceção e o acidente, uma mancha preta sobre um mundo vermelho e dourado.


[1]

tradicional ordem de cavalaria britânica

Livro IV