Capiteis romanicos
Na egreja de Santa Maria do Castello, em Torres Vedras, vi dois capiteis romanicos na porta principal, que olha para o poente. O templo tem soffrido reconstrucções, todavia as linhas principaes são as primitivas. Os portaes, de volta redonda, estão nos seus logares de origem. Aquella silva que orna a parte superior dos capiteis, formando um friso, repete-se aos lados da porta que diz para sul. Os capiteis são de calcareo muito rijo, trabalho ingenuo, relevo fundo; pouco teem soffrido do tempo. São decorativos e symbolicos; o esculptor quiz representar motivos do Cantico dos canticos; é o lyrio dos valles, a pomba do rochedo, a maçã entre a folhagem agreste; as comparações amaveis feitas á Sulamite, que a egreja christã adoptou. Obra d’arte, da alta edade média, é isto o que resta n’esse templo, alvejante entre oliveiras, aninhado entre as muralhas vetustas, cubélos e quadrelas negras do castello.
Faz-se alli festa religiosa em 15 d’agosto, porque parece que foi n’este dia que D. Affonso Henriques tomou a villa aos mouros, em 1148. Ainda no começo do seculo XIX, na noite do dia 14, vespera da festa, faziam grandes fogueiras no adro e por entre as ameias.
Perdeu-se a usança pittoresca, ante esta onda de semsaboria que vae estragando tudo.
Os priores d’esta egreja eram capellães d’el-rei; varias rainhas foram padroeiras e lhe fizeram donativos.
D. Beatriz, mãe de D. Diniz, residiu em seu paço, que ficava proximo. É difficil hoje achar vestigios de paços reaes, ou de quaesquer edificios muito antigos em Torres Vedras. Ahi residiram por largas temporadas reis e rainhas, por duas vezes se reuniram côrtes, no seculo XV, e quasi nada d’essa época se encontra na villa. Tem soffrido muito com os terremotos; a parte baixa está visivelmente muito soterrada; isto explica em parte o desapparecimento de antiguidades na historica e interessante villa.