O Tumulo dos Perestrellos
A egreja parochial de S. Pedro de Torres Vedras tem a sua porta principal voltada a poente, como todos os templos antigos, medievos, da interessante villa. Essa porta é muito ornamentada em estylo manuelino; sobre o arco assenta um escudo bipartido com armas do rei e da rainha. Em dois arcos do cruzeiro ha tambem ornamentação no mesmo gosto, mais singela. A egreja tem tres naves, a central é coberta de madeira apainelada, com as molduras pintadas e douradas. As naves lateraes conservam ainda trechos de antigas abobadas com artezões. Parte das paredes está vestida de azulejos brancos e verdes, em uso nos seculos XVI e XVII. Ha em varios pontos da egreja e capellas outros typos de azulejo de épocas mais modernas.
Alguns quadros pintados em madeira, antiga escola portugueza, outros em tela, na egreja, na sacristia e na annexa casa dos clerigos pobres; algumas esculpturas religiosas, especialmente a estatueta de S. Pedro d’Alcantara, merecem attenção.
No cruzeiro, á direita, está um elegante ediculo com uma urna sepulcral.
É no mesmo estylo da porta principal. O ediculo é em pedra da localidade, que é rija, resiste bem ao tempo, e toma, no passar dos seculos, uma côr amarella torrada, agradavel á vista. A urna é em jaspe, em fino trabalho.
Sobre bases facetadas erguem-se columnas que sustentam arcos concentricos; ha uma facha muito lavrada, de folhas e flores, com um pequeno busto em baixo relevo, imitando medalha, que parece um retrato; mostra a cabeça coberta com um capacete um tanto raro. Busto egual se vê na porta da egreja.
No ediculo as columnas e arco exterior representam troncos arboreos cingidos por fitas.
A urna pousa sobre leões de inferior trabalho. Na face anterior tem o lettreiro e aos lados o brazão, repetido, dos Perestrellos.
N’esta urna estão os ossos de João Lopes Perestrello e de sua mulher Filippa Lourenço. Este homem foi fidalgo da côrte de D. João II. Foi para a India, capitão de uma nau, na armada de Vasco da Grama, em 1502. É um dos vultos d’essa notavel familia que tantos homens produziu que bem serviram o paiz em Ormuz, em Malaca. Um filho d’elle, Raphael Perestrello, andou na descoberta da costa da China, e esteve nas Moluccas. Outro filho jaz na mesma egreja de S. Pedro; sob uma campa enorme, de mais de dois metros de comprimento, com um lettreiro em gothico:—Aqui acerqua de seus quyrydos pais he mai Antonyo Perestrelo seu filho escolheo casa para sempre.—
É bom typo de familia d’aquella época; as grandes aventuras, as viagens ultramarinas; uns ficaram nos mares ou nas guerras, outros voltaram ricos, fizeram morgados, e arranjaram na egreja da sua terra uma capella para eterno descanço.