Da Villa da Eyriceyra
Uma legua ao noroeste de Mafra (será escusado lembrar que havia então leguas pequenas, e leguas da Póvoa), tres ao sudoeste da villa de Torres Vedras, e sete ao Sul de Peniche, tem seu assento a villa da Eyriceyra, a quem banham pela parte do occidente as salgadas e ceruleas aguas do cubiçoso Oceano, que a faz abundante de bom pescado e excellente marisco, especialmente eyriços, donde a villa tomou o nome, o que approvam suas armas, que são um eyriço em campo branco.
Elrei D. Diniz lhe deu foral (o primeiro foral é mais antigo), que confirmou depois elrei D. Manuel, fazendo doação della ao infante D. Luiz seu filho, de quem a herdou o sr. D. Antonio, seu filho illegitimo, ao qual (sendo expulsado da successão do reino por el Rei D. Fillippe o de Castella, e vencido na ponte de Alcantara pelo duque de Alba, que com poderoso exercito entrou neste reino) lhe confiscaram todas suas rendas, e entre ellas a villa da Eyriceyra, a qual deu em satisfação de divida a Luiz Alvares de Azevedo de juro, e herdade para elle, e seus descendentes, com que ficou excluida da Corôa, como bens patrimoniaes; e pertencendo ella a uma sua filha, religiosa de S. Bernardo no mosteiro de Odivellas, a vendeu a abbadessa por 8:000 cruzados a D. Diogo de Menezes com todas suas rendas e direitos reaes, e a quinta parte do morgado da villa de Mafra, e a vintena do peixe, que se paga aos senhores da dita villa, que é em todas as partes em que fóra della pescam seus naturaes, mui exercitados neste officio.
Tem 250 visinhos com uma egreja parochial da invocação de S. Pedro, curado, que apresenta o conego da Sé de Lisboa, o qual tambem apresenta a vigairaria de Mafra: tem mais Casa da Misericordia, e estas ermidas, o Espirito Santo, Nossa senhora da Boa Viagem, S. Sebastião, e S. Martha, e ha nesta villa tres fontes perennes.
Assistem ao seu governo civil um ouvidor posto pelos condes (que nesta terra tem os oitavos do pão e vinho), dois vereadores, um procurador do conselho, um escrivão da Camara annual, que o é tambem da almotaçaria, outro escrivão dos orfãos, que o é tambem dos direitos reaes e do judicial e notas. Tem uma companhia da Ordenança, e um forte com cinco peças de artilharia, que sustentam os moradores, e os condes consultam o governador. É hoje senhor e conde desta villa D. Francisco Xavier de Menezes, cuja illustre varonia é a seguinte:==e segue uma noticia da genealogia d’essa bella familia dos condes da Ericeira, D. Diogo de Menezes, 1.ᵒ, D. Fernando de Menezes, 2.ᵒ, D. Luiz de Menezes, 3.ᵒ, D. Francisco Xavier de Menezes, 4.ᵒ, série brilhante na fidalguia portugueza.
Foi este ultimo que animou Carvalho da Costa a escrever a sua chorographia que tantos serviços presta ainda agora.
A respeito da villa de Mafra conta-nos Carvalho da Costa: o seu termo é abundante de pão, gado, e caça: tem uma egreja parochial dedicada a S. Izidoro, curado, que apresentam os moradores (note-se isto, eram os moradores que apresentavam o cura), os quaes passam de cento e sessenta divididos por estes lugares, Azambujal, Quintal Gonçalvinhos, Grocinhos, Lombo da Villa, Almada, Ribeira, Murteira, Pinheiro, Murgeira, Cachossa, Roxeira, Amoreira, Póvoa, Valle de Carreira, Caeiros, Fonte Santa, Relva, Sobreiro, Fonte Boa dos Nabos, Figueiredo, Picanceira, Penagache, Lagôa, Montegudel, Ribamar de cima e de baixo, com muitos casaes. Tem mais este termo o forte de Milreu, e o de Santa Susana com duas peças d’artilharia.
A corographia de Carvalho da Costa imprimiu-se em 1712; estava-se longe da importancia posterior de Mafra, realçada pelo seu colossal monumento.
O que me chama a attenção na descripção de Mafra, feita por tal authoridade em 1712 (isto é em 1709, porque 1712 é a data da impressão) é que nesse tempo, em que se conservavam ainda vigorosas as antigas instituições, no termo da villa de Mafra a freguezia mais importante era a de Santo Isidoro; e que o seu parocho curado era apresentado pelos moradores. Isto mostra que esta freguezia ou parochia era uma entidade muito sobre si: e abrangia um territorio vasto e importante, como o é ainda agora.
Em 1844 temos outra noticia a respeito da Ericeira no famoso Panorama (Serie 2.ᵃ Vol. 3.ᵒ pag. 335).
É um artigo de Henriques Nogueira. Acompanha-o uma gravura ingenua mas curiosa; mostra os rochedos, a alta escarpa, a ladeira que vem ao pequenino porto, as paredes do forte, agora em parte desmoronado, e ao longe a ermida de S. Sebastião.
==Em documentos antigos é conhecida por Oyriceira e Eyriceyra, e d’aqui vem serem as armas do concelho um ouriço.
==Os mais antigos assentos da separação da parochia de Mafra são de 1406. D. João V prestou grande auxilio á reedificação de S. Pedro.
==O estabelecimento mais importante que esta villa possue é a casa da Misericordia a qual foi fundada onde havia uma ermida do Espirito Santo, por Francisco Lopes Franco, em 1678. Este doou-lhe um padrão de juro de 480$000 réis, e os pescadores obrigam-se a pagar-lhe annualmente todo o ganho d’uma rede de pesca, cujo onus solveram pela quantia de 6$400 réis que ainda hoje pagam cada um dos dez barcos de pesca. O rendimento actual (1844) em juros e fóros é de 1:679$700 réis. Despende com encargos pios e despezas do culto 725$300 réis e com o hospital 479$300 réis. O excedente da receita é empregado em esmolas e vestuario aos pobres. Os habitantes empregam-se pela maior parte nas pescarias ao longo do nosso littoral, na costa de Marrocos, e tambem já fizeram tres expedições ao Banco de Terra Nova n’estes ultimos annos (como isto passou!). O numero de embarcações de todos os lotes, incluindo as do commercio de cabotagem é de 98, empregando 670 individuos. A população orça por 2:769 almas com 750 fogos; no principio d’este seculo tinha apenas 600.==(lembro ainda que isto se escrevia em 1844).
==O forte está sobranceiro á calçada que dá para a praia, e hoje acha-se desguarnecido. Segundo se deprehende de uma inscripção sobre a porta foi edificado por D. Pedro 2.ᵒ
==No chafariz chamado a Fonte do Cabo existe uma pedra embutida na parede com um emblema e legenda em caracteres gothicos em relevo, que parece significar: «Feita na era de mil e quatrocentos e cincoenta e sete annos.»
==Ainda existem restos do palacio do senhorio d’esta villa, o conde da Ericeira: pela parte superior de algumas janellas veem-se pedras com um leão esculpido. Estas paredes a que o povo chama o Paço, são dignas de veneração por terem servido de residencia, e quem sabe se de academia, ao nosso douto escriptor D. Francisco de Menezes.
==A meia legua ao nascente d’esta villa está aberta uma mina de barro branco no sitio chamado a Avesseira, que já tem sido explorada por conta das fabricas de louça das Janellas Verdes e Vista Alegre (Actualmente os finissimos barros dos arredores da Ericeira, que eu saiba, são explorados muito rudimentarmente pelos louceiros da Sobreira, Lapa da Serra, etc., que fabricam a louça chamada de Mafra).
==Tambem por este mesmo sitio é situado o chamado Pinhal dos frades, por ter pertencido ao convento de Mafra.
==É uma importante propriedade nacional assim pelo numero como pela bondade e prestimo das arvores, que excedem em diametro e altura as de todos os outros pinhaes circumvisinhos.==Agora o Pinhal dos frades não tem um só pinheiro fradesco; tudo foi reduzido a lenha; é todo novo o pinhal; e que bom seria alarga-lo porque daria aos arredores da Ericeira um encanto a mais, principalmente agora que tanto se louva o ar do pinhal. Esses novos pinhaes que eu percorri seguindo a estrada de Mafra, e no lindo caminho para a quinta dos Chãos e Santo Isidóro, são viçosos, e recebem em primeira mão a viração pura do mar; dá prazer respirar no ar do pinhal!
Achei muito curiosa esta noticia da Ericeira, em 1844! Ora vejam como isto muda; o forte está em grande parte destruido, a escarpa tem falhado em muitas partes, desappareceram as navegações longinquas, diminuiu a pescaria em muito, e o pinhal dos frades perdeu as arvores venerandas.