O rei da Ericeira

Vou transcrever do Portugal cuidadoso e lastimado do padre José Pereira Bayão (paginas 732-734), a narrativa do caso estranho do rei da Ericeira; um dos varios episodios da nevrose, naturalissima, que assaltou o povo portuguez nos primeiros annos da dominação hespanhola. Este, a meu ver, é dos que melhor representa o estado ancioso e tumultuario das almas; ha n’elle o mysticismo, o vago anceio, o estonteamento no começo, inconsciente, ingenuo; depois a exploração d’esses sentimentos pelo espirito patriotico, e pela influencia do meio, que leva a incidentes comicos, á desordem, á loucura sinistra, ao crime; logo, naturalmente, á intervenção da politica dominante, á força, até ao final do morticinio em massa, e do supplicio tremendo.

==Succedeu isto no anno de 1584, no mez de julho, e podendo servir de exemplo (refere-se ao caso do rei de Penamacor) para emenda de outros taes atrevimentos, foi ao contrario; pois logo no anno seguinte se viu outro ainda mais estravagante pelos mesmos termos, fingindo-se ser el-rei D. Sebastião, um moço chamado Matheus Alvares, natural da ilha Terceira, filho de um pedreiro, o qual saindo-se do noviciado dos frades arrabidos do mosteiro de S. Miguel junto á villa de Obidos, se fez tambem hermitão em uma ermida de S. Julião, junto á villa da Ericeira. Aqui fazia uma vida ao parecer mui penitente, e se introduziu a ser rei antes que ninguem o imaginasse; disciplinava-se fortemente onde pudesse ser ouvido, e dizia com triste lamentação: Portugal, Portugal, que é feito de ti, que eu te puz no estado em que estás, oh! triste de ti Sebastião, que toda a penitencia é pouca em respeito de tuas culpas. Começaram alguns a crer, que elle era el-rei; e entre elles um lavrador rico chamado Pedro Affonso; juntaram-se até oitocentos homens, de que se fez general, accrescentando ao seu nome o apellido de Menezes; poz o fingido Rei Casa Real, e fortificou-se, casando-se com uma filha do dito Pedro Affonso, moça bem parecida, coroando-a como Rainha, com uma corôa de prata de uma imagem de Nossa Senhora, fazendo marquez de Torres Vedras a seu pae, e conde de Monsanto, Senhor de Cascaes, e alcaide mór de Lisboa.

E assim fazia outras mercês, passando provisões e alvarás com solemnidade de sellos reaes, occultando-se sempre, e mostrando-se a mui poucos por grande favor, aos quaes contava algumas particularidades da batalha, para os ter mais seguros n’esta presumpção, e mandando recado a D. Diogo de Sousa, general da armada, que lhe fosse fallar; tanto que soube, que elle perguntára ao mensageiro pelo signal, que lhe déra, receando-se que se descobrisse o engano, ou por outra alguma razão, que não consta, lhe tornou a mandar dizer, que não fosse; e comtudo indo lá, lhe não quiz fallar, dizendo, que o fazia assim porque não ia só.

Escreveu depois ao cardeal Alberto, que lhe desoccupasse o seu paço, e se fosse embora para Castella: porque já era tempo de que abrissem os olhos tantos enganados.

Foi preso o embaixador; e soltando-o logo cobrou mais forças a opinião de ser elle el-rei, por onde, o que assim se fingia se foi ensoberbecendo, e fazendo alguns graves castigos em todos aquelles, que o não queriam reconhecer, e lhe negavam a obediencia, sendo executor o marquez, seu sogro, que era homem cruelissimo, e deshumano; e agora muito mais com a vangloria dos titulos que lhe foram dados, e considerar-se sogro de el-rei.

Vendo o Cardeal Governador que se devia atalhar tão grande desordem antes que passasse a mais, deu ordem ao corregedor de Torres Vedras para que os fosse prender, e querendo-o executar foi morto arrebatadamente com os seus officiaes por aquella gente, que os seguia: e sendo isto reprehendido por Gaspar Pereira, ouvidor d’aquella comarca, o mataram tambem; e a um filho, e a um sobrinho; saqueando-lhe a casa como em guerra justa; passando já n’este tempo de mil a gente asoldada que o seguia: vindo todos a comprar polvora e bala á cidade, diziam publicamente, que era para acompanhar a el-rei D. Sebastião.

Pelo que, e porque não crescesse mais o damno, e insolencia, foi necessario acudir com mais forte remedio. Deu-se ordem ao corregedor da côrte, e se mandáram ajuntar todos os ministros da justiça com os seus officiaes, e com quatrocentos soldados castelhanos bem armados, foram fazer a diligencia; e chegando perto do couto do novo rei, ficaram os soldados embuscados em um valle, indo a justiça adiante, e sendo descoberta pela guarda, arremeteram a elles como lobos.

Fugiu a justiça com muita pressa até os irem metter na embuscada, donde saindo com furia lhe deram uma carga de tiros com que mataram e feriram a muitos dos fautores do rei, fazendo fugir aos outros pelos montes e valles; foi preso o rei, e alguns do seu conselho, e trazido a Lisboa fez confissão, de que não era el-rei, nem pretendia sel-o, e que só intentava dar sobre Lisboa com as armas dos seus seguidores, na madrugada do dia de S. João, e vencida ella, como esperava, pertendia dizer ao reino que já o havia posto em liberdade para que fizessem rei. Foi enforcado em 14 de junho do dito anno, cortando-lhe primeiro a mão direita no Pelourinho, onde ficou pendurada, por passar provisões e alvarás falsos, fingindo-se el-rei D. Sebastião; a cabeça esteve um mez pregada na forca, e os quartos foram postos pelas portas da cidade; e no dia seguinte enforcaram e esquartejaram os outros, que foram presos com elle, um que fazia o officio de védor, que seria de quarenta annos, e outro que era pagem privado, que seria de edade de vinte annos.

Na Ericeira foram enforcados vinte homens que eram deste bando, muitos foram lançados a galés; e Pedro Affonso, marquez e conde general, e secretario do triste rei, fugiu no dia da prisão dos mais; mas pouco depois foi preso, fazendo-lhe em Lisboa o mesmo, que tinha feito ao seu soberano, e os pobres moradores d’aquelle contorno despovoaram a terra com medo, por terem seguido a voz do rei enganoso. Foram tambem presos e castigados muitos, que enganados o favoreciam de Lisboa, e lhe mandavam dinheiro, e peças de valor, como foram Antonio Simões, escrivão dos armazens, e Gregorio de Barros, ourives d’el-rei, pagando miseravelmente o zelo, com que cuidavam servir ao seu rei.

Parece que foi o intento de mandar chamar D. Diogo de Sousa, saber delle se era certo, como se dizia, que el-rei veiu na armada, porque sendo assim, e sabendo delle onde estava, e se estava prompto para entrar a governar, ajustariam ambos a fórma de occupar Lisboa e desoccupal-a dos castelhanos com aquella sua gente, e entregal-a ao dito rei, com o que ficava restituido ao seu reino, e aquelles servidores seriam bem gratificados por elle e agradecidos de todo o reino. Isto se colhe da sua confissão, e outra cousa se não deve imaginar, pelos descaminhos ou impossibilidades, a que se expunha por todas as vias; o que qualquer mediano entendimento conheceria mui bem.==