Noticias de Carnide
(1900)
Domingo, 12 de junho de 1898.—No fim da tarde trovoada forte, e chuva grossa; d’estes chuveiros que no campo fazem bulha batendo nas folhagens do arvoredo; um rufar grave que se ouve a centos de metros. Em Carnide não cahiu granizo; nas Laranjeiras bastante, mais forte na Palhavã; no Matadouro a saraiva foi tão valente que partiu vidraças; e em Sacavem e Cabo Ruivo ficaram algumas propriedades arrazadas.
Não ha memoria por estes sitios de tempestade tão violenta.
Vespera de Santo Antonio.—Á noite fizeram-se sortes; quatro papelinhos, nome de senhora, nome de homem, sitio, e o que estavam fazendo. Permittem-se cousas... que fazem rir. Queimam-se alcachofras, ha a historia da moeda de cinco réis, os foguinhos de vistas, valverdes e bichas de rabiar. Uns rapazotes da visinhança estiveram n’um pateo, durante duas horas talvez, atirando bombas. A philarmonica tocou o seu reportorio no coreto armado no Alto do Poço. Junto do coreto raparigas e alguns rapazes dançavam e cantavam. Cantigas triviaes geraes; não ouvi nenhum cantar especial de Santo Antonio, nem na letra nem na musica. O mesmo succedeu pelo S. João; não encontrei nada particular nas celebrações populares. Brinca-se, riem, dançam, conversam sem mostrar feição local. Creio que ouvi mesmo a valsa dos Quadros dissolventes. Nada que recorde as cantigas do Alemtejo nem as da Beira, as fogueiras do valle do Mondego, que teem cunho especial, typos admiraveis, musicas que tão bem enquadram umas nas vastas campinas alemtejanas, outras na paisagem mimosa, nos frescos valles da Beira. É digno de reparo que estas cantigas populares de uma região não se vulgarisem fóra d’ella.
Teem suas espheras. Ao mesmo tempo ha cantigas de origem não popular que se generalisam rapidamente. A fogueira de Coimbra, arranjada no Burro do sr. Alcaide, a Noite serena lindo luar, tambem de Coimbra, que não são de origem popular, espalharam-se por todo o paiz. A valsa dos Quadros dissolventes foi uma explosão; os garotos assobiavam-n’a nos bairros de Lisboa, ouvia-se em pianos nas mansardas da baixa, aos operarios de Sacavem, e a vendedores torrejanos, isto dentro de um mez.
Duram mezes, ás vezes annos, certas cantigas; esvaem-se pouco a pouco, ou desapparecem de chofre como a Rosa tyranna. São modas que passam, como as reformas administrativas e as leis eleitoraes. Assim passou a epidemia do chocalhinho, o caso da salva brava, o pão de Kuhne. Não se recordam do Estás lá ou és de gêsso, do Lindos olhos tem o môcho, do Debaixo do sophá, do Vae-te embora Antonio?
As musicas de Offenbach foram muito populares, mas para estas concorreram certamente os theatros de feiras. No Alemtejo cantigas de mondadeiras, de vindimeiras, e as de S. João, que se cantam tambem pelo Santo Antonio e pelo S. Pedro, pertencem a fundo antigo popular. Só ha tempos ouvi em Carnide uma trova que me fez lembrar o Alemtejo, a cantilena muito comprida, melancholica, de um homem que lavrava com a sua junta de bois; conversámos, perguntei-lhe de onde era; de Villa Franca. É que o Ribatejo já tem muito de alemtejano.
Dia de Santo Antonio, de 1898.—Fez-se a eira no casal do Falcão; ante a grande frontaria do nascente, limpou-se da erva o amplo terreiro. Com a chuva da trovoada da tarde de hontem, e da noite, o terreno estava encharcado; depois de limpo entrou um rebanho de ovelhas para calcar, com o seu moroso voltear.
Foi no dia de Santo Antonio, 13 de junho de 1898, que obtive licença para vêr algumas salas do convento. Acompanhou-nos o reverendo capellão padre Louro, protector carinhoso das velhinhas recolhidas, tão modestas e tão religiosas.
A superiora chama-se D. Maria Guilhermina de S. José. As suas companheiras são Maria de Jesus, Maria Philomena, Maria Augusta, Josephina, Olympia, Maria do Carmo e Isabel. Vivem em perfeita communidade estas santas senhoras, na virtude, na oração e nos humildes trabalhos, como se Santa Thereza em pessoa ali estivesse fazendo cumprir a sua regra.
No claustro a arcada muito clara e limpa, a cantaria lavada e as paredes caiadas, tudo muito nitido, e cheio de reflexos de sol. No meio da quadra o jardim, ainda o jardim antigo, o tanque central, e os alegretes altos azulejados. E ainda as lindas flôres antigas, as rosas e os cravos, o novelleiro, a baunilha, o jasmineiro, a alfazema e a manjerona, a malva de cheiro, e a lucialima de fina folhagem.
A capella do Senhor dos Perdões está bem conservada na sua elegante architectura. Na quadra, junto do jardim, ha duas capellas; o lado de dentro das portas d’estas capellas é pintado a oleo, com folhagens em volutas e espiraes, bom exemplar de pintura decorativa do seculo XVII.
N’um altar do claustro vi azulejos iguaes aos dos altares do cruzeiro da egreja, e da capella do Senhor dos Passos; bellos exemplares do seculo XVII.
No tanque da cêrca está um quadro em azulejo representando a Samaritana.
As senhoras recolhidas comem no seu refeitorio, uma casa grande mui limpa, as paredes ornadas de pequenos quadros de devoção.
Sobre a toalha branca sem uma nodoa os pratos e canecas de faiança ordinaria, com sua marca; provavelmente louça especial feita para o mosteiro em tempos antigos.
Creio que os conventos de Lisboa tinham todos louça especial com marcas proprias, insignia ou divisa, ou inicial; e ainda mesmo algumas confrarias possuiram tambem as suas louças com monogrammas ou emblemas particulares.
O presépe.—A casa da recreação é uma sala grande muito illuminada por janellas rasgadas em duas paredes, com lindas vistas para os accidentados arredores de Carnide.
N’outra parede fica a porta de entrada e uma capella onde estão muitas imagens; na quarta parede fica o presépe.
As portas do presépe merecem attenção; teem o lado interior com ornamentos dourados sobre fundo preto, imitando charão antigo, pintura feita por uma freira, segundo a tradicção conventual.
As figuras do presépe são de barro cosido, colorido e tambem dourado, finas esculpturas em grupos e scenas bem combinadas. N’estes grandes presépes conservou-se a tradicção dos primeiros mestres flamengos que n’um só quadro accumulavam muitas scenas, a paixão toda, por exemplo, como succede n’essa maravilhosa pintura de um mestre desconhecido do começo do seculo XV, joia de alto preço, que se conserva no côro de cima da egreja da Madre de Deus (Xabregas). A scena principal é a do presépe, o Menino Jesus sobre as palhinhas entre a Virgem e S. José. Proximo o grupo vistoso, opulento, dos reis Magos. Ali a noticia, a grande nova aos pastores, além a fuga para o Egypto. Entre estes grandes grupos, outras scenas, as da vida popular tão interessante n’estes presépes antigos que sabiam combinar engenhosamente a vida humana com o sublime ensinamento religioso; de modo que hoje estes presépes além de todos os valores antigos da significação religiosa, e de merecimento artistico, teem para nós a importancia de documentos da vida popular; quantas vezes mesmo se encontram aqui notas, figurinos, por exemplo, que em nenhuma outra parte se topam.
N’este de Carnide entre os grupos ao divino das scenas da infancia do Menino ha alguns episodios profanos extraordinariamente executados: um grupo de populares sapateia a um lado com toda a bizarria; n’uma especie de gruta, a fugir da luz, dois homens jogam absorvidos; perto passa um cégo tocando sanfona; e camponezes alegres, com ovos, gallinhas, perdizes, coelhos...
Superior a tudo isto, em posição muito bem calculada para a perspectiva, um grande grupo de anjos cantando e tocando orgão, violas, e violão, e superior ainda a este grupo brilhante um anjo gentilissimo com a fita onde se lê gloria in excelsis, entre frescos e risonhos rostos alados de cherubins. N’essas figuras de impeccavel esculptura ha mais porém, ha em algumas grande expressão e movimento; o espanto dos pastores, a magestade bondosa dos reis, o enlevo musical do cégo, a furia nervosa dos jogadores, o enthusiasmo dos populares no seu fandango rijo, são d’um encanto irresistivel, qualquer d’esses grupos é de per si uma obra d’arte. Como isto chegou até nós, Santo Deus, atravessando estes tempos de progresso, de luzes, de leilões! bemditas as santas senhoras, tão singelas e honestas, que teem sabido conservar essa preciosidade. Cuidado com os amadores! com os poderosos, espirituosos e curiosos; é preciso conservar esse lindo presépe.
Na mesma casa da recreação ha outro presépe, pequenino, interessante, com o Menino dormente. E na capella ha uma adoravel imagem do Menino, em pé, de especial devoção antiga no convento, que tem o nome de o menino da compaixão. E é bem singular que a escultura do rosto dá a impressão de doce condolencia. Mas vejam como está bem afinada esta casa de recreação para as senhoras religiosas; a linda sala cheia de luz, os retratos das sublimidades da Ordem, dos modelos de virtudes e abnegação, o artistico presépe, vibrante de suggestões, a imagem consoladora do Menino, e pelas janellas largos trechos claros de paizagem variada, a paizagem campestre clemente e serena.
No convento de Santa Thereza de Carnide vi alguns retratos valiosos, não pela arte mas como documentos historicos, especialmente aquelles que teem em seus letreiros dados biographicos dos retratados.
Por exemplo, o retrato de==D. Fr. Luiz de Santa Thereza, carmelita descalço, lente de theologia, bispo de Pernambuco em 1738, falleceu a 17 de novembro de 1757, jaz na capella mor do convento de S. João da Cruz de Carnide.==
Pela extinção dos conventos de frades recolheram algumas pinturas e imagens nos das freiras e assim se salvaram naquelle cataclismo.
Outros: Retrato da infanta D. Maria filha de D. João IV.
Retrato da Madre Micaella Margarida de Santa Anna.
Retrato de... bispo de Penafiel confessor da princeza.
Retrato de D. Fr. João da Cruz, carmelita, lente de filosofia e theologia, prior do collegio de Braga, e Santa Cruz do Bussaco, bispo do Rio de Janeiro em 1739 transferido para o bispado de Miranda em 1750. Falleceu a 20 de outubro de 1756.
La hermana Leonor Rodrigues (d’Evora).
S. Cassiano.—No côro de baixo ha um pequeno quadro com retrato a oleo, pintura antiga, que me tornou attento; representa um santo bispo com uma cartilha na mão; é S. Cassiano, que era mestre de meninos e todo dedicado á educação da infancia, que morreu martyrisado pelos discipulos. Exemplo raro sem duvida! No meu tempo, e desde quando viria o systema! era o mestre que martyrisava os rapazes com palmatoadas, varadas e sopapos, castigos deprimentes das pobres alminhas das creanças; e ás vezes os paes assomavam á porta da escola, e animavam de lá: «não m’o poupe, sr. mestre, não m’o poupe; ensine-me bem o rapazelho!»
Que differença tem havido nos ultimos tempos, em materia de educação, nos pontos de vista, nos processos, e meios intelligentes; mas é preciso educar as almas, para que sejam boas, fortes, livres e religiosas na grande accepção do termo.
Pinturas.—Os quadros da capella-mór das freiras de Carnide são de Ignacio d’Oliveira Bernardes, segundo affirma C. Volkmar Machado, na sua Collecção de Memorias (pag. 94). Oliveira Bernardes (1695-1781), era tambem architecto, e n’esta qualidade trabalhou no palacio de Queluz, e na casa e quinta de Gerardo Devisme (a S. Domingos de Bemfica, onde actualmente está o collegio de meninas).
A grande tela magistral do Transito de Santa Thereza, é do pincel de José da Costa Negreiros, que foi discipulo do celebre André Gonçalves. Negreiros falleceu em 1759, com 45 annos. Esta familia Negreiros produziu varios artistas.
Percorrendo agora a Collecção de Memorias de Cyrillo Volkmar Machado, tomei algumas notas a respeito de quadros pintados que se podem ver em egrejas dos arredores de Lisboa.
Jeronymo de Barros Ferreira nasceu em 1750, em Guimarães, morreu em Lisboa em 1803; pintou o tecto da capella de Santa Brigida na egreja parochial de S. João Baptista do Lumiar.
Vanegas, castelhano, imitador do Parmezão; o painel do retabulo na capella-mór de N. S.ᵃ da Luz é d’este pintor (V. Machado, pag. 60).
Diogo Teixeira, pintor do tempo de D. Sebastião. Na Luz, ao pé dos quadros de Vanegas estão pinturas d’este Teixeira (pag. 68).
André Gonçalves (pag. 88). Este pintor que trabalhou immenso, falleceu em 1736; são d’elle alguns quadros da capella de Queluz, os quadros da vida de S. João Baptista, no Lumiar, e os do côro de S. Domingos de Bemfica. Lendo estas Memorias de Volkmar Machado, fica-se com impressão dolorosa; como se trabalhou em Portugal no seculo passado e ainda no primeiro quartel d’este seculo! em pintura, architectura, esculptura, ourivesaria, em tecidos, em fundições. A enorme e violentissima crise das invasões francezas, não parou essa torrente de trabalho artistico; era o rei que encommendava estatuas e quadros, era Mafra e Ajuda que foram formidaveis escolas, e as casas fidalgas que mandavam fazer retratos, capellas, decorações dos seus palacios e jardins, eram os frades a querer azulejos e telas, e entalhados, e embrexados, eram os prelados, os cabidos, e até a humilde irmandade que ao menos queria ter o seu compromisso ou estatuto em bonita encadernação de velludo ou marroquim, com seus ornatos a ouro, e cantos e fecharia de prata.
Era uma corrente, uma orientação bem diversa da actual.
15 de junho, manhã, cedinho.—Da janella do meu quarto vejo no casal os homens de trabalho juntando mólhos em fascaes. Junto da terra do Lopes estão carregando fêno; muito está emmólhado na terra, não se póde emmédar porque está humido da chuva. Já se ceifa trigo; na terra do Castello anda um grande grupo de trabalhadores; para o lado de Falagueiras tambem. O trigo do Alto da Tonta está prompto a ceifar, está lindo, de um louro claro; á passagem do vento faz brandas ondas douradas. O da terra do Lopes tem um verde intenso. Agora distinguem-se bem os trigos de inverno e os da primavera, uns muito louros, outros em verde carregado.
Domingo, 19 de junho.—Festa das ervas para remedios em Alfornel, hoje em decadencia completa; vae mudando tudo. Antigamente era muito concorrida, vinha muita gente de Lisboa, que se espalhava pela serra procurando plantas medicinaes. Agora é rara a pessoa que conheça bem as ervas e saiba aproveital-as: e os ervanarios teem dado em droga.
—Nas boticas ha tanto remedio...
—Eu lhe digo, o boticario, eu ainda aqui conheci botica e boticario, comprava ervas para remedios, agora o pharmaceutico nem nada. Está tudo mudado!
O que não mudou foi a vegetação da serra, onde se encontra uma variedade singular de plantas.
Segundo o celebre Sande Elago, as plantas medicinaes dividem-se em classes correspondentes aos sete planetas: saturninas, joviaes, marciaes, solares, venereas, mercuriaes e lunares.
A versão portugueza de Elago (Compendio de Alveitaria tirado de varios auctores, composto na lingua hespanhola por Fernando de Sande Elago. Lisboa, Impressão Regia, 1832, in-4.ᵒ) merece attenção por, entre outras cousas, trazer uma grande relação de plantas com os seus nomes em vulgar.
Tambem na obra classica de Felix do Avellar Brotero, a Flora Lusitanica (Parte 2.ᵃ—Lisboa, 1804), a pag. 522, vem um indice de nomes vulgares das plantas.
Montalegre, 19 e 20 de junho.—Concurso de machinas agricolas na quinta de Montalegre, bella propriedade do snr. Carlos Anjos. Foi muito concorrido, appareceram muitas charruas de varios systemas que trabalharam puxadas a juntas de bois. A machina e o adubo serão a salvação da agricultura; é preciso aperfeiçoar e augmentar o trabalho, é necessario reforçar a terra, tornal-a propria para produzir bem. A meu vêr a machina e o adubo teem ainda outra vantagem, põem o machinista, o chimico, o agronomo em contacto com o agricultor; levam a sciencia ao campo; afinam mais facilmente com a experiencia, que o veterinario, que difficilmente se tem aproximado do lavrador.
Na obra Exposição da alfaia agricola na Real Tapada da Ajuda, em 1898 (Lisboa, Imp. Nacional. Publ. comm. do 4.ᵒ centenario do descobrimento do caminho maritimo da India) ha uma parte referente ao concurso de charruas na quinta de Montalegre, á Luz, com photographias de charruas, grades, semeadores, ceifeiras, enfardadoras, escolhedor, tararas, etc.
29 de junho, S. Pedro.—Fui a Lisboa no carro de Carnide. Este carro nos ultimos tempos tem seguido varios caminhos de Carnide á rua da Assumpção, por causa dos trabalhos das Avenidas, e do ascensor Rocio-S. Sebastião da Pedreira. Hoje é o ultimo dia do caminho pelo campo de Sant’Anna; Carnide, largo da Luz, estradas da Luz e Larangeiras, Sete Rios, Palhavã, S. Sebastião da Pedreira, Matadouro, Instituto Agricola, Cruz do Taboado, Campo de Sant’Anna, R. Arantes Pedroso, R. da Inveja, Principe Real, Mouraria, Praça da Figueira, Rocio e Travessa da Assumpção. Agora passa o itinerario á Estephania, porque as obras da Avenida que vai ao Matadouro estão muito adiantadas e cortam o caminho. Ha tempo que estão a desmanchar uma parte do aqueducto que vai de S. Sebastião da Pedreira ao Matadouro. Que bella construcção antiga, de magnificos silhares bem faciados, e de alvenaria firme, solidissima, com enormes pedregulhos; aproveitam agora este material nas novas construcções da Avenida, mas teem de trabalhar devéras para o arrancar.
Estas variantes do caminho seguido pelo carro de Carnide menciono eu para marcar o desenvolvimento dos novos bairros da capital.
Fogueiras de S. Marçal.—29 de junho: dia de S. Pedro. Á noite muitas fogueiras pelos campos. Estas são dedicadas a celebrar S. Marçal, advogado contra os fogos.
3 de julho, domingo.—Pelas 9 horas da noite, eclipse parcial da lua que durou, muito nitido, até depois das 10 horas.
Domingo, 17 de julho.—Festa a Nossa Senhora do Monte do Carmo, no convento de Santa Thereza, com os padres inglezinhos; foi ás 10 horas da manhã. Cantou a missa o rev.ᵒ P. Louro, capellão das freiras, e professor do Collegio Militar.
O côro dos inglezinhos era acompanhado a orgão. Executaram muito bem o seu solemne cantochão.
Na chan da quinta ha um recanto isolado, silencioso; junto do alto muro velho da cêrca das freiras está um poço d’onde se tira agua por uma picota; dois robustos cyprestes, figueiras de negros troncos tortuosos espalham fechadas sombras; além do recanto a terra do trigo, a vinha, as oliveiras; parece uma paizagem grega; o olhar de Homero não a estranharia.
Estive hoje a ler ali um trecho de Ruy de Pina (o silencio do logar e a sombra do arvoredo ainda m’o tornaram mais frisante) que me falla de Carnide.
Trata-se do amargo desastre de Tanger, de como ficou preso dos mouros o infante santo, pobre D. Fernando, filho de D. João I.
—E o infante D. Pedro, como sentiu o coração d’el-rei em algum mais socego, lhe pediu licença para trigosamente, e o melhor que pudesse, de Lisboa socorrer a seus irmãos, e a el-rei aprouve, e se veio logo apóz elle á aldêa de Carnide junto com Santa Maria da Luz, porque a cidade estava perigosa de pestilencia. Mas porque ordenou que o socorro fosse com muita gente e grande poder, em se aviando para isso as cousas necessarias, chegaram em tanto a Lisboa dos que vinham de Tanger, muitos navios que certificaram o caso como finalmente passara, de que el-rei foi logo avisado, e certamente foi mui aspero de ouvir, que o infante seu irmão ficava em poder de mouros; mas por saber que a mais da sua gente era em salvo, deu por isso muitas graças a Deus, e como rei virtuoso, humano e agradecido, deteve-se naquella aldêa, para vêr e agasalhar os que vinham do cerco, dos quaes muitos, ao tempo que iam fazer-lhe reverencia, em disformes semelhanças e tristes vestidos, que para isso de industria vestiam, e com palavras á desaventura conformes, se lhe mostravam, e delles fingiam ser muito mais damnificados do que na verdade o foram, com fundamento de carregarem mais na obrigação para o feito de seus requerimentos, que alguns logo faziam e outros esperavam fazer, de que el-rei recebia publica dôr e tristeza.
Mas a estes foi mui contrario o nobre e valente cavalleiro Alvaro Vaz d’Almada, capitão-mór do Mar que como quer que no cêrco de Tanger de sua fazenda perdesse muita, e da honra por merecimentos d’armas não ganhasse pouca como chegou a Lisboa, antes de ir fallar a el-rei, logo de finos pannos e alegres côres se vestiu, a si e a todos os seus, e com sua barba feita e o rosto cheio de alegria, chegou a Carnide, onde o rei andava passeiando fóra das casas, e com elle o infante D. Pedro, e depois de lhe beijar as mãos e lhe dizer palavras de grande conforto, el-rei o recebeu mui graciosamente, e louvou muito sua ida naquella maneira, que não sómente lhe apontou cousas e razões, para não dever por aquelle caso ter nojo nem tristeza, mas ainda que por elle devia ser mui alegre e contente, estimando em nada o captiveiro do Infante seu irmão, que era um homem só e mortal, em que havia muitos remedios, em respeito da grande fama que naquelle feito em seu nome se ganhára aconselhando-lhe mais o repique e alvoroço dos sinos, para honra e prazer dos vivos, que o dobrar d’elles, que ouvia, por tristeza e pelas almas dos mortos; pelo que el-rei começou a mostrar que aquelle era o primeiro descanço que seu coração recebia...
(Cap. 36 da Chronica de D. Duarte, de Ruy de Pina.—Ineditos da Acad. Tomo 1.ᵒ, pag. 172 e 173).
Onde seria o paço de D. Duarte?... não sei. Na rua do Machado ha ainda cunhaes de grossa silharia velha, restos seguros de mui antiga construcção. Por aquelles quintaes ainda se encontram vestigios antigos, não são sufficientes porém para se affirmar a existencia ali de solar ou castello. O velho paço de Carnide desappareceu. Ficou a narrativa de Ruy de Pina. Resalta ahi a figura de Alvaro Vaz d’Almada, n’uma luz e n’um ensinamento incomparavel. Coragem, para encarar perigos e reparar desastres; um homem não se prostra perante a dôr, soffre; o coração abafa de soluços, mas lucta-se sempre, engole-se a amargura, soffre-se a ferida, suga-se a esponja de fel, mas o espirito não se perturba, o animo esforça-se por não perder a sua energia.
Deixar ao lado os esmorecidos, ao longe, bem longe, os vis especuladores, e trabalhemos, sem fraquejar, ainda que as lagrimas salgadas nos queimem as faces, e a angustia nos aperte o coração; o espirito justo vence; Deus manda que se trabalhe, e que não nos deixemos vencer pela tristeza.
Antigamente no dia 17 de julho havia mercado de trigo em Mafra; era importante, servia para se saber do trigo existente, se havia mingua ou fartura, ver as qualidades, e tratar de preços. Reunia-se muita gente, importantes quadrilhas de carros de bois, dos lavradores, e muitas récuas de machos dos padeiros de Lisboa.
Agua de Santo Alberto.—Domingo, 7 de agosto de 1898. Logo que cheguei, bebi agua de Santo Alberto, que mandaram as freirinhas, em sua bilhinha de barro vermelho, com um ramo de murta florida preso na aza. É boa contra as febres. Na rua, raparigas apregoavam fogaças.
Esta agua de Santo Alberto tem fama muito antiga.—Em 7 de agosto, na capella dos Terceiros do Carmo se benze a agua com uma reliquia de Santo Alberto (Summario de varia historia, de Ribeiro Guimarães. IV. pag. 240).
Fr. Estevão de Santo Angelo, fez um romance heroico dedicado á virtude d’esta agua, no seu Jardim Carmelitano. Agora ha muitas aguas virtuosas, mas os reclamos não chegam a epopeias.
Carnide, 15 de agosto de 1898.—Ás 6 horas da manhã, estouros de morteiros, estalos altos de foguetes, e rompeu sonorosa musicata. É a festa do anniversario da Sociedade Philarmonica 15 d’agosto de 1880. Os bellos rapazes preparados por ensaios repetidos apresentaram-se em publico com o seu melhor reportorio.
15 d’agosto, o dia de Nossa Senhora, tão celebrado na minha terra, e em todas as que teem vida agricola. É o dia em que os lavradores de cereaes, sabem com certeza o que passou pela eira, e se vencem fóros e rendas de trigo, centeio e cevada.
Houve missa nas freiras ás 8¹⁄₂ da manhã. Estava em exposição o Senhor Formozo, muito fallado na chronica convental. É o Ecce homo, mãos atadas, o manto d’irrisão lançado para as costas; a imagem do Divino Justo, quando foi insultado pela gente ignara, pela sociedade culta e inculta de Jerusalem. Porque então, como hoje o cultismo não implica espirito de Justiça; não vemos nós nações das mais cultas, que se dizem christãs, arvorando a força sobre o direito?
Pobre Senhor Formozo! Se me não engano era uma regular pintura hespanhola, maneira energica, aspecto tragico, por isso talvez impressionava tanto as pobres antigas freiras. Era o rosto austero, o corpo já com livores de cadaver e gottejando sangue; a expressão do grande soffrimento sobrepujada todavia pelo incondicional perdão. Assustava as nervosas santas mulheres, e chamaram um grande pintor então afamado, para emendar a tela; vê-se bem que foi muito alterado no rosto; o pintor sabia do mundo, e fez um Christo precioso, de boquinha affectada, de expressão inoffensiva, incapaz de qualquer suggestão incommoda a espiritos assustadiços.
28 de agosto de 1898. Bolinhos de Santa Quiteria.—Hoje trouxeram-me bolinhos de Santa Quiteria, muito bons para evitar a hydrophobia em pessoas, cães e vaccas.
São uns pequenos cubos de massa de trigo, passada no forno.
Depois vieram homens vestidos de opas pedir esmola para a Irmandade de Santa Quiteria, do Senhor Roubado, perto de Odivellas.
1899. Dia de Anno Bom.—Assistiram á missa alguns alumnos do Collegio Militar, que não foram a ferias. Teem as familias muito longe... no ultramar. Depois da missa o capellão rev. Padre Louro, apresentou a imagem do Menino Jesus, em pé; as pessoas presentes foram beijar a imagem. Durante a missa o orgão executou musica solemne, e na apresentação do Menino tocou um motete alegre, com imitações de musica pastoril, de sanfona e gaita de folles. Pairava em todos um sorriso bom; só eu pensava n’um menino, n’um adoravel menino... luz que se apagou.
Estive hoje a lêr um livro que me deu noticias da egreja da Luz, d’este logar de Carnide: Historia do insigne apparecimento de Nossa Senhora da Luz e suas obras maravilhosas: Composta pelo Padre Fr. Roque do Soveral, religioso da Ordem de Christo. Lisboa, Pedro Crasbeeck, 1610.
É um volume in. 4.ᵒ de 213 pag.
O rosto do volume, gravado por Antonio Pinto, é muito interessante. A meio está o medalhão com a imagem de Nossa Senhora com o Menino no collo; e aos lados estão gravados feixes de muletas, navios pendurados, pelouros, e umas cousas que representam talvez mortalhas ou samarras de que se falla nos muitos milagres da veneravel imagem.
Tem muitas noticias este volume a respeito de pessoas e casos em diversas epochas, significantes para o estudo social e local.
Por exemplo, a pag. 52 v. a proposito da antiga romagem á Senhora da Luz, diz que este sitio de Carnide era dantes mui deserto, e depois de começarem as romagens os caminhos se tornaram mais seguros:—sendo dantes, segundo o que sabemos por tradição antiga tão espessos bosques, que para o logar de Carnide não havia mais caminho que um atalho, que se tomava no caminho de Bemfica para o tal logar, e nos mesmos bosques se recolhiam salteadores, da maneira que em Portugal na charneca de Monteargil, etc.: e cita varios bosques notaveis na Europa por serem asylo de ladrões: assim, antigamente eram tão temidas as brenhas e mattos de Carnide, que ninguem caminhava para elle sem muita junta de receios.
Feita a egreja e estabelecidas as romagens o sitio e os caminhos se tornaram mui frequentados; encontrava-se gente de todas as qualidades e nações, o hespanhol, o bretão, e o flamengo; os de pé, de cavallo e de coche, cantando e dançando, tocando violas e adufes:==disse por isso mui bem o outro, que os que vinham de Nossa Senhora da Luz, parecia virem de colher as lampas de S. João, que ou seja com canas verdes nas mãos, ou com capellas nas cabeças, sempre tornam para suas casas, como se vieram das hortas de colher cheirosas ervas.
Tanto assim que havia cinco mulheres==que só vivem e se sustentam de venderem candeias de offerecer, achando-se para isto de continuo em a egreja da Senhora. E diz depois (pag. 54 v.) das mais celebres romagens do seu tempo, em Portugal, a começar pela Senhora do Monte. O cap. II, (pag. 76 v.) é intitulado:==Particularidades da fonte de Nossa Senhora de Luz==, e tem muitas paginas consagradas á virtude dessa agua. E até o certificado de um medico (pag. 77 v.); mas eu não me posso demorar, e peço ao leitor curioso que veja o livro. Eu tenho que resumir. A pag. 190 conta==de algumas náos que a Senhora da Luz livrou da tormenta em que se viram perdidas, e logo abre o cap. XII:==Como Nossa Senhora da Luz é avogada dos mariantes.
É inutil dizer que todas essas paginas teem interessante lição e importancia historica.==Escreve ácerca da náo Luz, em 1497, e a este respeito se cita o templo de Nossa Senhora da Luz, em Goa, fundado sem duvida em lembrança da Luz, de Lisboa. E affirma que era costume os mariantes dessa longa viagem da India virem antes de embarcar em romagem á Luz de Carnide, depois de lá chegados á Luz de Goa. Que esta romagem da Luz está ligada ás primeiras navegações não offerece duvida. Conta (cap. XIII) o caso horrivel da náo Chagas (1560); e em memoria deste milagre,==hoje 7 de junho de 1570 vieram a esta casa da Luz com procissão todos os marinheiros da mesma náo.==E vem a historia da urca Fortuna, e da caravella de Pero Marques, a da náo hespanhola S.ᵗᵃ Ana, a da náo Betancor, e a do Salvador; e a de uma escotilha em que se salvou Pero Gonçalves, estando tres dias sobre ella no alto mar!
Na egreja havia quadros de milagres, imagens de cera, muletas de aleijados, grilhões de captivos, mortalhas de salvos na agonia, velas de naufragos escapos ao vendaval, pedaços de amarras de náos, pares de algemas, pelouros de artilheria grossa, (pag. 104 v.) e náos, pequeninas náos; «do côro ficam pendendo sobre a egreja quatro náos, que em fórma pequena contrafazem bem toda a fabrica das que navegam; e ha pouco tempo (note-se isto) que estavam oito que se tiraram assim por pôrem outras que vinham de novo, e não tinham lugar, como por se darem a algumas pessoas que as pediram».
E antes mais cousas havia:==na ermida antiga de todas estas cousas havia mór numero, de que tiraram algumas menos gastadas do tempo, para as mudarem aonde agora dizemos estão (pag. 204 v.)==As samarras, segundo a tradição, eram de uns homens que, na volta da India, naufragaram na costa da Cafraria, e andaram muito tempo perdidos pelo matto, fugindo das féras e dos pretos, até que, invocada a Senhora da Luz, lhes appareceram uns cafres misericordiosos que lhes deram suas proprias vestimentas.
Havia tambem cobras, isto é, pelles de cobras, uma de 4 varas de comprimento, provenientes do Brazil; mortas por milagres quando intentavam matar as pobres victimas nos seus anneis roliços, e com seus venenos fulminantes. Era uma collecção suggestiva essa, hoje sumida de todo perante esta moderna correcção idiota que tudo invade e vae dominando, matando arte e poesia e fé.
Carnide. Domingo, 15 de janeiro de 1899.—Começou hoje a funcionar o ascensor Rocio-S. Sebastião da Pedreira. Fui a Carnide no carro da rua da Asumpção. Carro cheio; pessoas que iam ao collegio militar visitar os filhos. Nestes domingos de visita ha sempre no carro conversas interessantes; dos filhos que vão bem, d’outros que perderam o anno; e corre-se uma larga escala de affectos, de caracteres, e de saudades. Viuvas que vão vêr os seus filhos, amigos que vão vêr os filhos dos que estão no ultramar para lhes dar noticias, tutores que visitam pobres orphãos. Todos levam uma lembrança, um embrulho atadinho, para os rapazes. Com as senhoras vão ás vezes meninas, mui palreiras, enthusiasmadas com a visita aos pequenos militares. Que estes carros de Carnide favorecem o cavaco, com os seus pulos e solavancos; vae uma pessoa muito correcta, zás solavanco, e vem uma senhora nervosa cair-nos nos joelhos; um cavalheiro solemne e mui serio, pula o carro, e elle apanha na cara com um chapeu de plumas, ou um papeluço de bolos. Quer a gente mover-se, não póde, está presa, as taboinhas dos assentos do carro apertam abas de casacos e dobras de vestidos; não faltam os preguinhos atrevidos que rasgam tecidos e ás vezes a pelle; ha sempre episodios; depois logo ao entrar na estrada das Larangeiras, o ar é mais fino, e fresco, com perfumes campesinos; a estrada da Luz tem vista de campos, de varzeas e arvoredo. Alegram-se os olhos de vêr a paizagem e os pulmões gozam ar mais puro.
Mas hoje, 15 de janeiro, o aspecto é outro, o vento é desabrido, de rajadas, ha nevoeiro denso, humido, que mal deixa vêr as arvores proximas, num esbatido leve. Na Luz alguns carros, e varios grupos; ha corridas pedestres e de bicycletas, e prepara-se uma partida de foot-ball.
Fomos até ao casal do Falcão, e ainda mais adiante a Alfornel vêr o faval nascente. Os trigos nasceram bem mas estão amuados.
A paisagem é extraordinaria hoje, porque a nevoa tem intermitencias; é um nevoeiro muito humido, irregular, de densidade diversa, e como a camada de nevoa que está passando não tem grande espessura, de vez em quando rompe-se e apparece logo o ceu velho, e um jorro de sol.
Como isto agora tem o aspecto triste, no nevoeiro frio e humido, rasgado pelo vento convulso que vae passando; o casal tão velho, ruina tragica, as figueiras, as vinhas sem folhas, como tiritando no frio de janeiro.
Jantar de familia, casa cheia; como a sopinha quente sabe bem neste frio de janeiro, em dia de nevoa cerrada; depois algumas especialidades, os nabos guisados, a carne de porco assada, com a loura agua pé; o pudim delicioso; as raivinhas e os esquecidos do Bom Successo. Ao café, com o competente cognac caseiro, entraram os srs. Duartes, de Mafra, que trouxeram elementos novos á cavaqueira. Contaram que el-rei mandára deitar javardos na tapada de Mafra; já entraram oito de Castello Branco, e um que nasceu no parque das Necessidades. Na Tapada, a comida é pouca; em tempos antigos houve porcos bravos ali, mas acabaram com elles porque nada lhes escapava.
De subito entrou uma mascarada animada, os meninos e meninas T., uma série muito gentil, vibrantes de riso; houve piano, valsas, improvisou-se um concerto: a sr.ᵃ D. G. cantou superiormente alguns trechos.
—Já 9 e um quarto! toca a ir para o carro.
Eu fiquei; da janella do meu gabinete a vista era admiravel; estava o ceu muito estrellado, havia algum luar, o ar muito frio e sereno; a nevoa abaixára, e estava agora quieta e branca sobre as varzeas, os campos do valle; muito salientes, a massa negra do casal do Falcão, e a collina triste coroada de cyprestes do cemiterio dos Arneiros; um grande silencio frio; como uma palpebra semicerrada de agonisante, a esvaír-se de luz e de vida, a lua em minguante, muito obliqua, branqueando a toalha de nevoa quieta sobre as terras mais baixas, as varzeas humidas.
Carnide, domingo 28 de janeiro de 1899.—Vi hoje lindas flôres do logar de Telheiras; com a inverneira que tem corrido, frios, geadas, tempestades, notei as flôres; é que o logar de Telheiras é mais ameno e abrigado, a este de Carnide mais alto e exposto ás grandes correntes do ar. O antigo oratorio, convento e egreja de Nossa Senhora da Porta do Ceu, em Telheiras, está hoje abandonado. É n’esta egreja que está a sepultura do principe de Candia, o pobre rei do Ceylão, fundador do edificio, que veiu morrer tão longe das suas florestas de canella.
O oratorio de Nossa Senhora da Porta do Ceu, de Telheiras, foi fundado pelo principe D. João de Candia. Este infeliz principe nasceu em Ceylão, por 1578, e teve de abandonar o seu throno de marfim e perolas, entre luctas politicas e religiosas; era criança ainda. Levaram-o para a ilha de Manar, depois a Gôa, e ao collegio dos Reis Magos de Bardez; veiu parar a S. Francisco de Lisboa, mais tarde a S. Francisco da Ponte, em Coimbra, e gastou o resto da vida a requerer e representar entre Lisboa e Madrid, porque então dominavam os Filippes. O que isto seria, Santo Deus! n’aquelles tempos, quando hoje basta uma burocracia para abafar e esterilisar todas as vontades, o que seria no tempo da dominação hespanhola com tantos officios e dezembargos em Lisboa e Madrid.
A historia d’este homem é interessante; pobre soberano de Candia, Cota, Ceytavaca e Cettecorlas, que veiu descançar aqui em Telheiras, cingindo o cordão franciscano.
Dizem que hoje não é assim; os soberanos desthronados vão direitinhos ás folias de Paris, e as alfayas e tapeçarias apparecem no Druot, escapando aos ministros de que falla o chronista Soledade.
Infeliz principe singalez, chamaram-lhe D. João d’Austria, e principe de Candia, e foi um martyr toda a vida; teimaram em ensinar-lhe latim e theologia, andou em bolandas pelos conventos intrigado e explorado, e nem mesmo cumpriram a sua ultima vontade. Morreu em 1 de abril de 1642, a sua morte foi um lauto regabofe para muita gente... «pelas mãos dos ministros, como ficaram todas as tapeçarias, peças de prata, e outras muitas alfayas preciosas, que elle tinha consignado á egreja d’este seu convento, as quaes levaram d’elle com violencia os ditos ministros, e sem obstarem os requerimentos dos religiosos, tudo repartiram e consumiram entre si.»
Isto escreve fr. Fernando da Soledade, na sua Chronica serafica, 5.ᵒ vol. n.ᵒ 893, pag. 611.
Elle diz ainda mais coisas que eu não estou para transcrever; foi uma patifaria, como tantas outras que se teem feito modernamente.
Paço do Lumiar, 2 de fevereiro de 1899.—Dia de Nossa Senhora da Purificação, as Candeias, como se diz vulgarmente.
Fui vêr a festa religiosa e a feira, na egreja parochial de S. João Baptista do Lumiar, e no bello adro que a cérca.
A festa é a Santa Brigida.
Na egreja esteve exposta a reliquia da Santa, uma parte do craneo, em uma urna de prata dourada, muito bem trabalhada, elegantissima: uma das urnas mais gentis que tenho visto em estylo D. João V.
Dizem que veiu esta urna do mosteiro de Odivellas.
Na feira havia gado suino alemtejano, vaccas leiteiras com bezerros, vidros, louças, queijadas e bolos.
Ha uma especialidade n’estas feiras saloias; as leitoas assadas, abertas a meio e espalmadas, seccas e rijas, de uma côr apetitosa, expostas á venda em canastras ou caixotes com ramos de louro.
O saloio com a canastra de leitoas emparelhava bem com a collareja, assentadinha, chapeu de chuva aberto, com a cesta de queijadas de Cintra.
Dois ou tres homens vendiam bordões, chibatas, varas e varapaus armados.
Na feira de S. João, em Evora, apparecem tambem saloios, uns vendendo varapaus, e outros a que chamam saloios da Nazareth com taboleiros de pederneiras para isca. Agora com as guerras á isca feitas pelos phosphoros, não sei se vão desapparecer de todo estes representantes ultimos da edade do silex lascado.
Passeavam lavradores invocando ou agradecendo a protecção da Santa, em volta da egreja, com juntas de bois, algumas muito enfeitadas de fitas de côres vivas, com entrançados e bordados.
Dentro da egreja, á direita da entrada, dois homens recebiam esmolas, em trigo na sua arca especial, ou em dinheiro, e vendiam registos, milagres de cêra, bois e peitos, e muito pavio de cêra amarella ás braçadas. O pavio amarello é bom para livrar o gado de doenças, olhados e desastres; enrola-se dando volta aos dois chifres do boi, e ahi se deixa ficar até se estragar.
Sobre o altar de Santa Brigida foram collocar alguns boisinhos de cêra.
Depois da festa houve communhão na capella da Santa, tocando o orgão, e em seguida o padre deu a reliquia a beijar; e foi muito beijada, por mais de cem pessoas, com muita devoção.
Esta Santa Brigida, protectora do gado bovino, da-me que pensar. Brigitta, Brigida, Brigides, Birgida, Birgita, Britta, etc., virgem, natural da Escocia, abbadessa de Kildare na Irlanda, morreu em 523, no 1.ᵒ de fevereiro, segundo affirmam.
As lendas d’esta Santa ligam-se com a famosa de S. Brandão (Brendanus, Bredan) abbade de Chainfort, na Irlanda, que morreu em 578 (16 de maio ou 5 de junho).
A reliquia, a cabeça da Santa, segundo diz a inscripção no exterior da capella, foi trazida por tres cavalleiros hibernios, ou irlandezes.
O que eu vi na urna pareceu-me effectivamente um fragmento de craneo, o occipital, talvez; não se vê bem por causa dos ornatos.
Que esta devoção por Santa Brigida vem pelo menos do seculo XIII, com certeza, e continúa ainda intensa; ha pouco ainda uma devota offereceu uma cabeça de prata.
Este sitio do Lumiar e Paço do Lumiar merece um estudo especial; foi aqui o paço do famoso infante Affonso Sanches; ha estreitas relações entre esta egreja e o sitio e mosteiro de Odivellas, antigos santuarios que estão no principal caminho de Lisboa para o interior, o caminho de Alvallade, onde se encontraram os exercitos na sanhosa guerra civil de D. Diniz.
A inscripção dos cavalleiros hibernios está no exterior da capella de Santa Brigida, da egreja de S. João Baptista do Lumiar, lado norte. É copia da antiga que de ha muito se sumiu. É a seguinte:
Aqvi nestas tres sepvltvras iazẽ enterados os tres caval.ʳᵒ ibernios q. trouxerã a cabeça da bẽ avẽtvrada S. Brizida virgẽ natvral da Ibernia cuia reliqvia está nesta capella p.ᵃ memoria do qval hos oficiais da mesa da bẽaventvrada S. mão darão fazer este ẽ ian.ʳᵒ de 1283.
Quinta feira da Ascensão, 11 de maio de 1899.—A chuva miudinha de hontem não regou bem as terras, mas abateu a poeira das estradas, e lavou as folhagens que estão viçosissimas, com o brilho setinoso, exuberante de primavera.
Chegando á rua do Norte admirei-me de vêr a calçada coalhada de folhas de rosa. Houve uma grande festa na egreja das Freirinhas, e tive pena de não ter assistido. Foi a primeira communhão a alguns alumnos do Collegio Militar; pela primeira vez, ao que me disseram, se lembraram de fazer este acto com certa solemnidade. Nem tudo póde lembrar. N’um estabelecimento de educação, internato militar, ha tanto que fazer, tamanhas responsabilidades! O ensino dos compendios, a alimentação, a disciplina, as formaturas, os toques de cornetas, não deixam tempo para pensar n’estas questões da alma. Este anno, emfim, houve ensejo de celebrar solemnemente a entrada dos jovens militares n’este primeiro gráo de consciencia responsavel com hymnos religiosos, musicas e bençãos, e mãos finas de senhoras lhes atapetaram o caminho com folhas de rosa.
Estes já tiveram na vida um dia florido, esperem outros ainda melhores, os que se seguem aos trabalhos vencidos, ás bellas acções de honra e abnegação.
Celebraram a linda festividade na egreja das freiras, ornamentada pelo dr. Sant’Anna; de todos os pontos vieram taboleiros de flôres.
Este anno os campos estão menos verdes do que no anno passado, os trigaes são menos fortes, menos densos; principalmente nos terrenos altos as seáras não encobrem o chão; terreja muito; mas as oliveiras e as vinhas apresentam-se cheias de promessas.
Quando eu ia por entre as latadas da quinta, opulentas de folhagem, na paisagem quieta de searas e olivedos, lá do sul, de além do sevéro macisso de Monsanto, veiu o estrondo das salvas de grossa artilheria. Estão no Tejo duas formidaveis esquadras, ingleza e allemã, grandes navios de aço, maravilhas de construcção naval, collossos de força, suprema expressão da energia dos arsenaes. Como o ruido d’esses poderosos canhões desafina na paisagem de primavera florida! sobre esses campos e logarejos respirando a serena vida da natureza.
É o dia da espiga, como o povo chama aqui, nos arredores de Lisboa, á quinta-feira da Ascensão; até os carros de trabalho vão enfeitados com ramos de oliveira, espigas de trigo, rubras papoulas, brancos malmequeres; tambem enfeitam de espigas e flôres as cabeçadas dos animaes; e passam ranchos animados, palreiros e galhofantes, as raparigas com grandes ramos nas mãos, os rapazes com raminhos atados nos varapaus.
É a festa agricola que vae por esses seculos atravez raças e religiões, provavelmente até ao dia em que o espirito do homem pela primeira vez admirou e agradeceu com ternura a planta florida, a suprema graça e o divino aroma da corolla, promessa do saboroso fructo.
Na minha terra além das maias do primeiro dia do mez e da festa da Ascensão, o povo da cidade e dos campos celebra tambem o dia 3 de maio, o da invenção da Santa Cruz, e ornamenta de flôres as cruzes dos logares publicos, as das vias sacras, as que marcam nos campos, nas estradas, os logares onde cairam os assassinados; a cruz de azulejo do sitio do fusilamento dos frades patriotas na catastrophe de 1808, no tempo dos francezes, a cruz na base do aqueducto junto do antigo fosso da muralha, onde se realisou o ultimo fusilamento militar.
Estes campos de Carnide são menos tragicos; hoje porém as salvas das esquadras, algumas vezes repetidas, que parece fazem estremecer o robusto massiço de Monsanto, dão uma preoccupação morbida ao espirito; para que tal apparato de força, para que a reunião das duas mais poderosas esquadras de Inglaterra e Allemanha, será apenas para mostrar ao mundo a sua boa harmonia, no grande porto do paiz pequeno e neutral? O que é com certeza é a pomposa, a estrondosa manifestação de força, convicção deprimente, expressão ultima da civilisação n’este findar de seculo de tão maravilhosas descobertas, que termina affirmando o direito do mais forte, em que tanto se luctou pelas liberdades, acabando no militarismo ruinoso, e tanto pela melhoria social, pela equação de direitos, em quanto se erguem implacaveis, cada vez mais ameaçadores, os monopolios da finança, industria e commercio.
Passam os ranchos alegres, de vez em quando roda na estrada um trem com mulheres e creanças, flôres e gargalhadas, na linda tarde de primavera. Outro rancho ahi vem agora, lento e sereno pelo trigal verde; é um grupo de religiosas de S. José de Cluny, que veiu ao campo florido respirar no ar tepido e aromatico.
Vestem os seus habitos severos, trazem nas mãos ramos de flôres do campo; andam vagarosas como cançadas ou enfraquecidas; são novas, sorriem, sorrisos de doentes em rostos palidos: interessante grupo! são convalescentes sem duvida; vieram dos hospitaes e escolas do ultramar dominadas pelas febres, procurar restabelecer a saude n’este lindo sitio de Carnide.
O que Mousinho de Albuquerque no seu livro Moçambique escreve a respeito d’estas religiosas é encantador. Elle falla dos extraordinarios serviços por ellas prestados nos hospitaes de Lourenço Marques, de Inhambane, e Moçambique, nas escolas, por uma fórma acima de todo o elogio; e em Gaza, e no Chibuto.==O carinho e dedicação com que tratavam os doentes e feridos, procurando não só proporcionar-lhes todas as commodidades que as circumstancias permittiam, mas não se esquecendo um só momento de lhes confortar o animo, de lhes levantar o moral, sómente póde avalial-o quem o testemunhou.==Ou eu não sei o que é caridade, ou o que as Irmãs de S. José de Cluny estão fazendo na provincia de Moçambique é a sua manifestação mais elevada e commovedora==.
Em Carnide sabe-se que esses serviços ultramarinos são uma verdadeira batalha. Das que lá morrem não consta, as lévas de doentes que voltam essas todos as vêem. Algumas voltam anemicas, ás vezes tuberculosas; chegam, descansam, melhoram, e lá partem outra vez para os hospitaes e escolas.
Domingo, 14 de maio de 1899.—Scena inesperada; um touro da manada do conselheiro Alvares Pereira, n’uma corrida em Algés, partiu uma perna, e foi recolhido n’um pateo do casal do Falcão. É bicho de estimação, de muito genio e boa estampa. Foi amarrado sobre um carro e tratado com todos os cuidados, algodão borico, arnica, talas, ligaduras, nada faltou.
O aspecto do touro no carro era extraordinario; os olhos negros e vermelhos com uma expressão de furia mais que de dôr; suava em grossas bagas; mordeu-se nos beiços até levantar a pelle. Alli, atadinho no carro, sim, que a gente podia vêr um touro de pertinho. De repente deu um puchão, e assoprou; isso é que foi panico, não sei se cahiu alguem, ouvi dizer que sim. O resto do caso foi visto de cima do muro. E lá foi o carro pela estrada fóra, á noitinha, caminho da leziria, com o seu cortejo de campinos nas suas ligeiras facas.
Nomes dos animaes.—Á sombra da parreira vestida de bellos cachos; entre os alegretes azulejados, azul em fundo branco, em pequenos quadros de galanteria, episodios comicos, italianices e chinezices, á moda do seculo XVIII; proximo da nóra onde barulha a agua ao som emolliente e rhytmico do engenho, cavaqueia-se em cousas diversas; appareceu o sr. F. V. que tem lavoura e gados no Alemtejo; e logo se fallou de searas, pastagens, touros, casos de pastores...
—E sabe os nomes dos bois?
—Ora, essa! dos bois, dos cavallos, dos touros...
E eu fui tomando nota dos nomes dos animaes.
Nomes de touros.—Artilheiro—Azeitono—Barqueiro—Batoque—Bugino—Caçador—Caixeiro—Caldeiro—Camarinho—Capirote—Caraça—Carvoeiro—Corvacho—Espingardo—Estandarte—Estorninho—Estrello—Foguete—Forcado—Gaiato—Gaveto—Lanceiro—Luviano—Murtinho—Rabalvo—Rasteiro—Teimoso—Verdugo.
Nomes de cabrestos.—Calçado—Caminhante—Caminheiro—Ligeiro—Pardal.
Nomes de bois de trabalho.—Alfayate—Bigode—Bonito—Castanho—Esperto—Formoso—Galante—Galhardo—Joeiro—Lagarto—Mourisco—Trigueiro.
Dois bois de trabalho, de egual marca, fazem uma junta; aqui por estes sitios os bois da junta teem nomes certos; se um é castanho o outro é mourisco; o formoso com o galante; o galhardo com o ramalhete, e o damasco com diamante.
Nomes de vaccas.—Andorinha—Bonecra—Bonita—Borracha—Branca—Briosa—Carriça—Catita—Caterina—Coimbra—Corvina—Doirada—Estrella—Gadanha—Janota—Padeira—Pomba—Rita.
Nomes de cavallos.—Carocho—Catrapim—Palmeiro—Pardal—Pirata—Tareco.
Nomes de cabras.—Alvadia—Carocha—Cartaxa—Condeça—Marmella—Rasteira.
Nomes de cães e cadellas.—Tejo—Nilo—Maltez—Leão—Navio—Norte—Beirollas—Ladina—Esperta—Belleza—Brincatudo—Digoélla (diga-o ella).
Agora em Carnide ha nomes de cães e gatos, de origem culta, Macbeth, Castor; a par da Tartaruga a Giroflée; ao lado do Rabicho e do Janota os gatos Zixacha, Gungunhana, e o Godide, de nomes gloriosos.
Noticias várias.—O padre Anastacio resou a missa de corpo presente por alma do principe de La Rochejacquelin (Luiz), morto na furiosa carga de cavallaria nas terras do marquez de Louriçal, á Palhavan (agora dos condes da Azambuja). A missa foi celebrada na egreja de Carnide. O padre Anastacio morreu em idade muito avançada em 1896.
Carnide tem o seu papel importante nas crises da primeira metade do seculo XIX. Na Luz esteve um deposito de cavallaria organisado no tempo de Junot; aqui esteve o brilhante official que foi depois o glorioso marquez de Sá da Bandeira.
No palacio da quinta do Street, agora residencia da sr.ᵃ condessa de Carnide (o conde de Carnide era Street Arriaga e Cunha) esteve o quartel general de Bourmont, commandante em chefe das forças miguelistas que atacaram Lisboa.
Esta quinta dos condes de Carnide foi em tempo muito nomeada pelas experiencias agricolas, adubações, drenagens, empregos de machinismos, que o primeiro conde, homem instruido e grande enthusiasta da agricultura, aqui realisou. Os ultimos proprietarios não teem seguido a tradição.
A celebre cascata da quinta dos condes de Mossamedes, complicada fabrica de embrechados e nichos, foi destruida ultimamente.
Tambem a infanta D. Maria habitou em Carnide; assim o declara fr. Miguel Pacheco, na Vida de la serenissima infanta Dona Maria (Lisboa, 1675):==Vivió la senora infanta algun tiempo cerca del convento de la Luz, distante una legua de Lisboa, en un lugar que llaman Carnide (pag. 109-121)==.
A feira da Luz ainda hoje tem nome, mas em tempos antigos foi muito afamada; a gente de Lisboa abandonava a capital, empenhava tudo para ir á feira, havia brigas para obter seges, ou mesmo burrinhos. Tomavam ponche, ou limonadas, e compravam fitas, anneis, figas e corações. Isto li eu na Nova e pequena peça critica e moral; os Carrinhos da feira da Luz: composta por Joseph Daniel Rodrigues da Costa (Lisboa, 1784).
Na casa proxima á sacristia da egreja de N. Senhora da Luz, no pavimento, está uma campa com letreiro:
S.ᵃ DE DOM FREI PEDRO
SANCHES, RELIGIOSO D’ESTA
ORDEM E BISPO D’ANGOLA
FALECEO A 30 DE
NOVEMBRO DE 1671
Quando se fez o cemiterio de Bemfica, chamado dos Arneiros, transportaram para lá algumas campas do antigo cemiterio de Carnide, que era em volta da egreja de S. Lourenço. Lá está a campa da marqueza Ravara com seu letreiro:
AQUI JAZ D. AN
NA MARIA GUI
DO MARQUEZA
RAVARA FALE
CEO AOS 24 DE
JANEIRO DE
1752
Nas Memorias de Garrett diz-se que a quinta do Pinheiro fica em Carnide. A quinta do Pinheiro que foi de Duarte Sá está entre Palhavã e Larangeiras. Ahi se representou pela primeira vez o drama Frei Luiz de Sousa, a obra immortal de Garrett. Hoje installaram um hospicio n’essa bella vivenda.
O palacete e quinta do Sarmento onde residiu o visconde de Juromenha ficam proximos da parochial de S. Lourenço de Carnide na estrada que vae do Alto do Poço para Bemfica, a azinhaga do Poço do Chão.
O visconde de Juromenha falleceu muito velhinho. Foi n’esta casa do Sarmento que elle escreveu a sua obra classica, monumental, sobre os Luziadas. Esta propriedade pertence hoje por herança á sua antiga governanta.
Um folheto que julgo raro é a «Memoria sobre a união perpétua da paroquial igreja de Carnide ao priorado do convento de Nossa Senhora da Luz». É um opusculo de 7 pag. in-4.ᵒ, que me parece escripto por 1810.
O pinto preto.—Veiu uma mulher, da estrada do Paço do Lumiar, a comprar um pintaínho preto.
—Para que é o pinto preto?
—É para um doente que tem uma fraqueza, e não ha nada que lh’a tire. Dizem agora que só com o pinto preto... E a mulher instou que lh’o vendessem, ou emprestassem, depois traria outro.
—Não se vende, nem se empresta. Vá a outra porta. Vá á botica comprar remedios.
—Mas então, é para caldos?
—Não senhor! isto é uma crendice d’esta pobre gente. Abrem-no com uma faca pelo meio e applicam-no palpitante sobre o peito ou estomago se é fraqueza; se fôr por alguma dôr, sobre a região onde lhes dóe. É uma das taes tolices que não sáe dos cascos d’esta gente. Para estas cousas não sou capaz de vender o pobre animal.
Em livros de medicina mui velhos apparece o singular curativo; e recordo-me de ter lido que um medico de Lisboa, no seculo XVI, receitava ainda a ave aberta viva para a peste bubonica.
Jogo do pião.—Vi um grupo de rapazes jogando o pião. Nas cabeças dos piões os rapazes tinham mettido tachas de ferro de haste curta e cabeça larga de modo que os piões ficam com a cabeça protegida contra o ferrão do inimigo, é invenção nova para mim. E a isto chamam os rapazes pôr sêllo no pião, e é obrigatoria a sellagem; se apanham algum sem a cabeça couraçada, dizem logo:
Pião que não tem sêllo
Vae a casa do camêllo,
e atiram com elle para o telhado mais proximo.
Carnide, 1 de janeiro de 1900.—Caso novo, missa do gallo á entrada do anno. Disseram-me que por ordem do Santo Padre se transferiu a missa do Natal, por esta e a vez seguinte, para celebração do novo seculo, visto que surgiram duvidas (a meu vêr singulares) ácerca de qual é o primeiro anno do seculo XX, se é 1900 ou 1901.
Não consta que se começasse a datar do anno zero, do seculo zero; mas assim vae o mundo. Começou pois o anno santo pela missa do gallo.
Antes da missa do gallo passiei no Alto do Poço, a noite estava muito serena e agradavel, e casualmente assisti a uma scena dramatica, a chegada de um expedicionario africanista, inesperada pela familia, que móra num predio daquelle sitio. O pobre soldado, minado pela febre, embarcára mui doente em Lourenço Marques; não poude avisar a familia, chegára a Lisboa já melhor, foi á inspecção ao hospital da Estrella, e logo lhe deram licença para passar alguns mezes em casa, ares patrios; e elle assim que apanhou a guia foi direitinho a Carnide. Como elle ia nervoso, febril, vêr os seus queridos nunca esquecidos, exalçados pela ausencia larga em regiões e climas remotos.
Na familia, durante a ausencia do moço soldado, houve mortes de pessoas queridas, que não lhe participaram para o não contristar, pobre rapaz.
Chega o soldado em sobresalto febril e logo reparou nos vestidos de luto; veiu gente conhecida da visinhança e romperam em parabens e lamentos, numa confusão de lagrimas.
No theatrinho de Carnide representou-se nessa noite, espectaculo feito por alguns curiosos da localidade, e terminado o ultimo acto um grupo animado, cantarolando, veiu da quinta do Sarmento, passando pela casa do pobre expedicionario. Eram conhecidos e amigos d’elle.
Missa do gallo! annunciava a sineta do convento, n’uma vibração fina cortando a noite.
Na egreja, cheia de devotos em muito silencio, como n’um mysterio, ergueu-se a voz do capellão.
Houve exposição do Santissimo, e communhão, na grade ás religiosas portuguezas, e na capella do Senhor dos Passos ás irmans de Missão. E exposição do Menino, com o seu alegre motete executado no orgão velhinho, por uma velhinha no seu habito de Santa Thereza.
Que singular espiritualidade acho neste cantar das velhinhas religiosas, tremulo, enfraquecido, esmorecendo como a toada de um sino que se esvae no ar. E contraste ainda nestas duas instituições aqui a par, a antiga, a que se apaga, a da vida contemplativa, ascetica, a da clausura austera, orante áparte da humanidade, e a nova da actividade christan, luctadora dos hospitaes, trabalhadora das escolas, militante em regiões longinquas, arrostando os paizes das febres e dos selvagens.
Missa do gallo em noite de anno novo, foi caso inedito para mim. O meu pobre espirito estava abalado pelos contrastes que presenceára, e ao mesmo tempo lembrava-me da antiga missa do galo, na minha freguezia de Santo Antão, seguida da canja no meu lar, tudo n’uma aureola de familia e de pureza santa!
D. Sebastião enamorado.—No jornal A Arte, de 1879 (pag. 158), se transcreve um antigo manuscripto que trata da—«Origem da desgraçada jornada de Africa que executou el-rei D. Sebastião para ruina total d’este reino».
É singular escripto e parece ter um fundo verdadeiro.
O sr. A. Pimentel tambem se lhe refere no seu bello livro Atravez do Passado (pag. 119).
Alguem, talvez com o fim de deprimir a familia do duque de Aveiro, no tempo pombalino, lhe juntou ou alterou umas linhas que no meu espirito não originam duvidas sobre os factos do seculo XVI ali relatados. O que ha escripto sobre D. Sebastião tem origens muito alheias á intenção historica simples; assim como o pobre infeliz rei viveu rodeado de intrigas palacianas, assim a sua memoria serviu ainda para enredadas phantasias, e manias politicas.
Que em roda do rapaz houve lucta de influencias a proposito do casamento d’Estado, provam-no muitos papeis velhos; que um amor natural perturbasse o coração do joven rei não custa a crer; que um duque, proximo do throno, favorecesse a inclinação do rei para sua filha, é bem possivel; que D. Catharina, e os politicos, vissem com inquieto olhar esses amores, é provavel tambem. Ora é esta a essencia do papel a que me refiro, e que vou mencionar aqui por se fallar n’elle de uma quinta de Carnide.
—O duque de Aveiro, D. Jorge de Lencastre, teve uma filha unica chamada D. Juliana, a quem creou no Paço a rainha D. Catharina, sendo Regente d’este reino. Era dama formosa, bem feita, e muito esperta; ao menos, quando não tivesse estas qualidades, agradou-se d’ella El-Rei D. Sebastião, sendo mancebo, e veiu a declarar-se mais depois do anno de 1568 em que tomou o governo. Similhantes inclinações, que não podem ser occultas muito tempo, principalmente entre pessoas taes, chegaram á noticia da Rainha, e do duque de Aveiro; porém com differentes sentimentos, porque a Rainha receiava a consequencia d’estes amores, de que era objecto uma bisneta de el-rei D. João o 2.ᵒ, e o genio apaixonado de seu neto, que teria então 20 annos, e D. Juliana, 16, com pouca differença; e o duque com uma vaidade disfarçada, e fingindo-se ignorante, do que todos sabiam, aspirava a altas ideias, lembrando-se de que era neto de um rei, da sua grande representação e casa, e tudo isto o persuadia de que algum dia sua filha a contariam no catalogo das Rainhas de Portugal—.
Fallaram os politicos, os cortezãos, os invejosos, a Rainha fallou ao Cardeal infante D. Henrique e começaram a querer fazer casamento a D. Juliana, dando ao duque de Aveiro mais honras e mercês. E foi subindo a intriga, e D. Sebastião o bello rapaz sempre contrariado, a querer mal a D. Henrique seu tio, e a faltar ao respeito a D. Catharina sua avó.
Faltava-lhe a mãe; talvez a origem da desgraça esteja n’isto.
O rei desconfiava de todos, a camarilha enjoava-o; evitava-a quanto podia, ia caçar; andar pelos montes onde o ar é sempre puro. Os seus amigos e companheiros eram D. Alvaro de Castro, Christovão de Tavora e o duque de Aveiro.
A uma caçada em Cintra foi muita gente da côrte; o duque levou sua filha; a Rainha D. Catharina encarregou uma dama de observar os passos de D. Sebastião. E esta dama foi descobrir no alto da serra, apartados dos caçadores, o rei, e o duque de Aveiro com sua filha D. Juliana!
Outros ajuntamentos houve a seguir, affirmando-se que el-rei promovia essas festas agitadas e com muita gente para se encontrar com D. Juliana.
—Ultimamente houve um ajuntamento que muito dissaboreou a Rainha, e o Cardeal infante, e foi uma mascarada de noute, em uma quinta no districto de Carnide, na qual se acharam grandes senhores e o duque de Aveiro com sua filha vestida á turqueza, e muitas outras damas lusidamente ataviadas; e do que ali se passou teve a Rainha circumstanciadas informações; mas não se disse com certeza quem as dera, supposto que se presumiu ser o prior do Crato, D. Antonio, filho do infante D. Luiz—.
A Rainha D. Catharina, o tio Cardeal censuraram el-rei; e elle começou a fallar de ir á Africa.
Nem em Cintra, nem em Carnide o deixavam á vontade.
Só Africa, para casos d’estes.
A primeira ida á Africa foi effectivamente uma surpreza para a côrte. D. Sebastião foi caçar nos arredores de Ceuta e Tanger e parece que encontrou lá uma filha do Xarife que se parecia com D. Juliana.
De cá choviam os avisos da Rainha-avó, do tio Cardeal, dos bispos; custou a vir.
Parece que D. Juliana, a ladina turqueza de Carnide, foi offuscada pela filha do Xarife; encanto de moura!
Na segunda jornada o duque de Aveiro, apesar de ter perdidas as esperanças no casamento da filha, acompanhou D. Sebastião; e morreu com o seu rei e amigo.
No seu testamento, feito antes de partir, recommendava que D. Juliana casasse com D. Jorge de Lencastre; este morreu tambem na batalha.
D. Juliana, nova, herdeira riquissima, teve varias propostas de casamento com os maiores de Hespanha, que não acceitou; esperaria o rei? só dez annos depois de Alcacer casou com D. Alvaro de Lencastre, que foi o 3.ᵒ duque de Aveiro.
Agora, onde a quinta do districto de Carnide? Gostaria de saber, gostaria, mas é certo que não encontro vestigios a que possa attribuir grande antiguidade, nem mesmo tradição local. As grandes casas de Carnide e seu termo são do seculo XVII e do XVIII; e estas na maioria ainda modificadas e transformadas modernamente.
A familia Carnide.—Em antigo codice genealogico encontro este appellido, de origem local. Um homem natural de Carnide adquiriu bens, fez serviços e alcançou a nobreza. Diz o codice: «é Carnide logar de 80 visinhos, com boas e rendosas fazendas, e entre os visinhos alguns que se tratam nobremente, e viveram em tempos antigos com abundancia e nobreza.»
O primeiro mencionado é Pedro Gonçalves de Carnide, do tempo de Affonso V. Seu filho Pedro de Carnide morou em Cintra.
Balthazar de Carnide foi moço da camara de D. Manuel. A familia Carnide apparece em seguida alliada a Gamboas e Ayalas.
Jeronymo de Carnide, moço da camara, esteve em Roma com o embaixador D. Alvaro de Castro: foi provedor de saude no periodo terrivel das pestes e contagios; basta dizer que foi guarda-mór de saude do Reino em tempo de D. Sebastião. Era natural de Cintra; viveu 120 annos (1503-1623), alcançando os reinados de D. Manuel, D. João III, D. Sebastião, D. Henrique e os Filippes I e II. Um seu filho, Balthazar de Carnide, viveu 100 annos.
Os Carnides mencionados nas genealogias são quasi todos de Cintra; é certo que ainda hoje apparece este appellido em familias de Cintra e de Torres Vedras.
Propriedade territorial na idade média.—Ha documentos relativos a propriedade territorial em Carnide, nos fins do seculo XII, e primeiro quartel do XIII. É bem raro encontrar uma série tão variada de taes documentos. Não nos é todavia possivel marcar com precisão, com exactidão, o local da propriedade, ou quinta de que se trata.
Porque as propriedades variam muito, dividem-se, aggregam-se; as extremas fluctuam; os nomes alteram-se.
Os documentos de Urraca Machado, dóna de Chellas, isto é, freira do mosteiro de Chellas, foram publicados pelo erudito sr. Pedro de Azevedo, no Archivo Historico Portuguez, vol. III, pag. 5 e seg.
Quem era esta senhora? era dona Orraca Martins, filha de Martim Machado, professa do Mosteiro de Chellas, que andava fóra da Ordem, quer dizer, ausente por muito tempo do seu convento. Tinha bens e parentes proximos em Carnide, e o seu compromisso com a Ordem. Ora constou que ella vendia e desbaratava esses bens, em damno do mosteiro, este protestou, e por isto a série de documentos muito especiaes e valiosos. O protesto é de 1299, tempo de D. Diniz; foi lavrado no concelho da cidade de Lisboa, perante o alcaide e alvazis.
No terceiro documento, de 1308, falla-se da quinta de Carnide, em que a freira tinha uma parte. No quarto documento, de 1309, se diz que as rendas de Carnide foram arrematadas a Salomão Negro, judeu. A familia judaica Negro apparece em documentos do seculo XIII ao XV.
David Negro era o famoso thesoureiro de Leonor Telles, quando proprietario em Camarate e na Outra Banda. A outra parte da quinta pertencia a Martim Martins Machado, irmão da freira. O documento é interessante; trata do arrendamento, almoeda, e negocios, em que houve malfeitoria; o instrumento ou contracto que o judeu apresentou não afinava com a nota tabellioa, havia mentira e burla. Este instrumento, declara o tabellião, foi escripto em papel porque não havia porgamyo decoyro. Acontecia isto por vezes; em cousas officiaes usava-se o pergaminho; quando este faltava, lançavam mão do papel. E certo é que papel e tinta chegaram até nós; bom papel e boa tinta; não sei quantos annos durarão certos papeis e tintas usados actualmente.
O documento n.ᵒ 7 é uma carta regia, ou sentença de D. Diniz, passada em 1311, sobre a partição dos bens da freira e de João Machado, tambem seu irmão. A monja de Chellas tinha terras em Carnide, nos sitios da Panasqueira e na Feiteira.
Panasqueira é na parte norte da moderna quinta de Montalegre, formada pelo fallecido Carlos Anjos, entre as estradas de Telheiras, Luz e da Fonte.
Não é facil marcar os sitios das propriedades; diz-se sob a fonte, na varzea, na corredoura, designando as fazendas pelos nomes dos donos, pessoas bem conhecidas em 1311. Mas já havia no sitio vinha velha, moinho e almoinha ou horta, courellas e ferrageaes, adega com material vinario, tinas, toneis e cubas, já se falla das covas de Carnide. Trata-se me parece de covas de guardar pão ou cereaes, silos; em 1908, modificando-se a calçada no Alto do Poço, appareceram duas grandes covas, abertas no solo, de dois metros de fundo por um e meio de diametro, quasi totalmente entulhadas. As paredes estavam nitidas, bem conservadas. As pessoas da localidade ignoravam o destino d’aquellas grandes cavidades, o que succede, me parece, por todo o paiz. E todavia no seculo XVI ainda se utilisavam os silos ou matamorras, e no centro de Espanha ainda hoje estão em uso. Em Lisboa, na grande obra municipal de ha poucos annos, ao Arco do Marquez do Alegrete, tambem appareceram silos, ao longo da muralha fernandina.
O documento n.ᵒ 10 é de 1312; refere-se a certa divida de João Machado a Isaac, filho de Judas Negro, outro judeu da familia Negro; e a uma courella do Cano, pertencente a Urraca Machado. O n.ᵒ 12, de 1313, falla-nos da courella da Coelheira, da qual traz as confrontações pelo sol levante, aguião, poente e avrego. Aguião quer dizer aquilão ou norte, e avrego vem de africo, ou vento de Africa, isto é, sul. N’este documento figura Domingas Eanes, prioreza de Chellas, e Ousenda Domingues, sub-prioreza. Já menciona a aldeia de Carnide com seu rocío.
Em 1321, com licença do mosteiro de Chellas, a freira Urraca Machado entregava por aforamento os seus bens de Carnide a um Rodrigo Eanes, por duzentos maravedis de Portugal, pagos ás metades do anno por Paschoa e Santa Iria, mais doze almudes de vinho. Não é bem um aforamento, é um arrendamento a longo prazo, em vidas, pois só termina depois da morte do rendeiro, de sua mulher e filho. O contracto tem penas severas e condições bem determinadas, como a de o rendeiro fazer á sua propria custa almoinha ou hortejo, e plantação de vinha, concertos de casas, adegas e lagares, e de sua louça.
Em 1325 já a dóna Urraca era fallecida; mas havia freiras de Chellas na sua casa de Carnide; por causa de certa questão de posse foram ahi notarios que viram duas freiras em uma camara sob a torre. N’esse tempo era Clara Gonçalves prioreza de Chellas; é notavel que n’este mesmo documento se lhe chama abbadessa. N’esta época a questão chegou á maior intensidade, houve violencia, e Martim Machado foi excommungado.
Em 1390 foi a quinta de Carnide emprazada em tres vidas a Martim Annes; confrontava com as herdades de fuão e fuão, e do mosteiro de Santa Clara de Lisboa...
Era uma quintam de herdades de vinhas e de pão que o dito mosteiro ha na aldeia de Carnide, termo da dita cidade (Lisboa).
A par dos elementos relativos á quintam, apparecem outros em razão das confrontações, das testemunhas, etc.
Assim n’um documento de 1313 se falla de uns quartos de courellas de vinhas que o mosteiro havia em Carnide no herdamento do Louro; de uma testemunha se diz: fuão morador ao Louro, no casal da Ordim.
Em 1352: quinta no logo que chamam Alperiate... casal e herdades de pão sitas em Queylus... uma vinha que chamam a Coelheira, a par de Carnide. Alperiate, ou Alpriate, é o nome de uma localidade perto da Povoa de Santa Iria.
Em 1356: courella do Pereiro, alem de Carnide que parte com vinha de Santaloy.
Deve ser Santo Eloy, no caminho da Pontinha para A da Beja.
Em 1366: vinha no Cano, logo, ou logar, de Carnide.
Em 1397: em Carnide... em logo que chamam a Soeira.
Em 1438: fulano morador na Payãa. Agora diz-se Payam.
De 1443 temos um documento interessante: trata de uns Tintaes de vinha, um acerca do outeiro... confrontando com caminho da Granja, outro com azinhaga que foi da fonte do Machado; são nomes que ainda vivem.
Em 1466... vinha do morgado de Mem de Brito.
Em 1481... vinha que parte com a ermida de Santa Maria da Luz, em Carnide.
Um documento de 1484 menciona as courellas que pagavam o quarto á quinta de Carnide, duas entestavam com a Luz e caminho que vae para o Lomear. Outra com estrada que vae de Carnide para Lisboa. Menciona-se um fulano morador na Ribeira de Agoa Livre; é um sitio da ribeira ou do valle de Carenque. Uma courella no cabo do Rego, outra na estrada de Lisboa e na do Lumiar.
A pag. 32 da publicação do sr. P. d’Azevedo (Archivo Historico Portuguez, vol. III), vem o titulo dos canos: F. morador na de Dona Maria (é a aldeia que fica a norte de A da Beja) tinha uma courella de vinho e azeite que entesta no ribeiro do Bom Nome (a quinta do Bom Nome é agora a do Sarmento), e com o Resyo do logar. O rocio de Carnide era a poente da egreja de S. Lourenço, a parochial, que é do seculo XIII.
F. morador nas Fontellas, na ribeira de Loures tinha uma courella que entesta com o rio do Bom Nome e com o resyo de Carnide. F. tinha metade de um quarto de courella. Vê-se que a propriedade estava muito dividida.
A albergaria de Carnide trazia tambem um meio quarto de courella. Passou depois a pequena fazenda para o hospital de Carnide.
Outra courella entesta no rio do Bom Nome e com o adro de S. Lourenço; deve ser a fazenda onde está agora uma vaccaria.
F. do Calhariz possue uma terra que vem á estrada na do Correia... caminho de Bemfica. F. tem uns quinhões na almoinha do Machado defronte da porta travessa de Nossa Senhora da Luz. Correia é o nome da quinta do sr. conselheiro Pequito. Um quinhão do lagar do Espongeiro... parte do aguião ao longo da estrada na do Correia, e do vendaval (sul) entesta com o caminho de Bemfica e da travessia (poente)...
No Esparageiro; será variante de Espongeiro? Esparageiro virá de espargo?
Agora apparece-nos um nome estranho, quinhões dos Feytaes layrasos, e tambem Feytaes castelhanos. Nada conheço agora que se lhe avisinhe. Todos estes nomes estão no titulo dos Canos: este era pois o nome de uma região, entre a estrada do Poço do Chão e a estrada que vae de S. Lourenço para a Porcalhota, agora, recentemente, Amadora, passando pela actual quinta da Correia. É possivel que este nome de Canos tenha a sua origem em antigos pequenos aqueductos.
Finalmente apparece-nos um documento com autos de medição de certas propriedades; é de 1554. A vinha da Coelheira que parte com caminho da Granja, tinha de largura 28 varas e de comprido 246 varas, era um tira de terra: outra vinha tinha de largura 51 varas e de comprido 280 varas, era uma fazenda com pouco mais de hectare e meio.
Esta collecção de documentos é importante para o estudo da marcha do processo civil; especialmente o grupo que pertence ao primeiro quartel do seculo XIV. Brigam no comprido pleito particulares, freiras, o convento; chegam á excommunhão. Ha instrumentos de protesto, de testemunho, de intimação, procuração, cartas regias, sentenças, recibos e obrigações, aforamento, arrendamento a longo praso, e suas condições, carta de excommunhão, posse, emprazamentos em tres vidas; todos estes variados instrumentos entram no seculo XIV, a maior parte no seu primeiro quartel (1299 a 1325).
As conclusões a que chegamos são: no termo de Carnide a propriedade estava muito dividida; havia proprietarios de meia courella, de quarto, de meio quarto de courella.
A cultura era variada, vinhas, olivaes, terras de seara ou de pão; almoinhas ou hortas. Falla-se numa vinha velha.
Não vejo nos nomes de proprietarios ou rendeiros nomes mouriscos; muitos teem dito que os saloios são de origem mourisca, nestes documentos não apparecem nomes desse elemento; apparecem individuos da familia Negro, judaica, proprietarios ou gente de negocio. Nestes documentos falla-se em muitos predios porque tratando da quinta de Carnide, cabeça dos predios rusticos de Urraca Martins Machado, e das suas dependencias ou terras annexas, ao mesmo tempo se mencionam varias com que confrontam. Não vejo mencionar cercas, tapadas, muros. Como noutras partes accumularam propriedades, arredondaram e muraram. Aqui a construcção dos conventos com suas cercas importantes alterou immenso a topographia dos predios.
Os conventos da Luz, de Santa Thereza, dos Carmelitas, o Hospicio das freiras de Christo, alastraram no fim do seculo XVI e no XVII os seus vastos edificios e amplas cercas de altos muros.
Todavia as estradas indicadas existem ainda hoje, a azinhaga da Fonte, o caminho de S. Lourenço para Bemfica, que é a estrada do Poço do Chão, que passa pela Granja, a estrada de A do Correia, estradas da Luz para o Lumiar, e da Luz para Lisboa. Em frente da porta travessa da egreja da Luz lá está ainda uma almoinha com suas latadas e canteiros; a quinta do Bom Nome, é agora chamada do Sarmento. A do Correia é a quinta da Correia, os logares ou aldeias de A da Beja, Dona Maria, Calhariz, Payam, Santo Eloy existem. O valle de Odivellas tão interessante conserva-se dividido em pequenas propriedades, de intensa cultura onde o saloio moureja.
Fóra d’esse valle a pequena propriedade quasi desappareceu; a tendencia é para accumular. Depois dos conventos, ou contemporaneamente, formaram as quintas depois chamadas do Oliveira, da Condessa, do Mossamedes, do casal do Falcão. Modernamente formou-se a grande quinta de Montalegre que fundiu cinco propriedades grandes; o collegio militar tambem alargou as suas terras. Só entre o logar de Carnide e o Paço do Lumiar se encontram os grandes vallados antigos, as propriedades sem muros.