O lindo sitio de Carnide


(1898)

Março de 1898.

Por tristissimo incidente na minha vida tendo de passar uma temporada em Carnide, onde a amabilidade de uma familia excellente nos quiz espairecer da fatalidade brutal que nos feriu, eu, seguindo a velha tendencia do meu animo, comecei de indagar historias, e dar passeios pelas azinhagas solitarias; os largos passeios pelos campos que são a melhor fórma de isolamento doloroso.

Muito naturalmente, para esclarecimento, consultei alguns livros; o primeiro que abri causou-me admiração; foi o Diccionario Popular publicado sob a direcção de Pinheiro Chagas.

—É sitio procurado no verão por alguns habitantes da cidade, que ali vão convidados pela sua amenidade. Gosa o logar egualmente de reputação de bons ares e abundancia de aguas, bem como alegre posição. Manda a verdade que se diga que o logar é detestavel, formado por algumas duzias de casas insalubres, dispostas em arruamentos sujissimos, para os quaes se fazem todos os despejos, e não tem passeios, nem jardins, nem quintas, nem arvoredos, nem bons pontos de vista. As aguas são extremamente escassas e os ares, por muito bons que podessem ser, resentem-se das más qualidades do sitio. Ainda assim o logar grangeou fama immerecida, e varias familias de Lisboa o procuram para terem dois mezes de campo! São gostos!—

Ora a verdade é que o sitio de Carnide me impressionou agradavelmente com as suas largas vistas, brilhantes, matizadas de verdes, as suas graciosas quintas, as suas azinhagas quietas entre vallados de madresilvas, caniços, heras, roseiras, pilriteiros e congossas nas juvenis florescencias do começo de primavera.

E abri outro livro.

Foi a Corografia Portugueza do bom padre Antonio Carvalho da Costa (Lisboa, 1712), que no seu tomo 3.ᵒ trata de Carnide, mui brevemente.

Menciona a egreja parochial de S. Lourenço. Diz que o seu cura era apresentado pelos priores do convento de Nossa Senhora da Luz e que o logar tem oitenta visinhos com nobreza, duas ermidas, e muitas quintas com uma fresca alameda: e relaciona os conventos.

A alameda fresca é sem duvida a do largo da Luz.

Recorri logo ao Pinho Leal, no seu Portugal antigo e moderno, enorme trabalho com algum joio, é verdade, mas onde o corajoso colleccionador archivou muita noticia de valia.

—Carnide, freguezia no districto de Lisboa, concelho de Belem (hoje é freguezia de Lisboa), a seis kilometros a NNO. de Lisboa.

Tem 260 fogos.

Em 1757 tinha 250 fogos.

É freguezia muito antiga, pois já existia em 1394.

A maior parte é situada em fertil e saudavel campina, com lindas vistas. Orago, S. Lourenço.

O cura era da apresentação do prior da Luz, da Ordem de Christo, depois passou a ser vigario collado perpetuo, com 80$000 réis de renda.

A egreja de Nossa Senhora da Luz foi fundada por 1540, pela infanta D. Maria, filha d’el-rei D. Manuel e de sua terceira mulher D. Leonor. A fundadora está sepultada na capella-mór.

O terremoto de 1755 damnificou muito esta egreja; existe apenas (agora em bom estado, depois da obra recente que ali se fez) a capella-mór e o cruzeiro.

Continúo a seguir o Pinho Leal.

Convento de freiras carmelitas descalças de Santa Thereza: é antigo, foi reedificado pela infanta D. Maria, filha natural de D. João IV, por 1680.

Frades carmelitas descalços, de S. João da Cruz, fundado pela princeza Michaela Margarida, filha de Rodolpho II, imperador de Allemanha, por 1642, que n’elle está sepultada (nem o imperador se chamava Rodolpho; e a pobre princeza está sepultada no convento de Santa Thereza, como logo contaremos). A infanta D. Maria, filha de D. João IV, viveu aqui (no convento de Santa Thereza) de 1649 até 1693. Foi mestra da infanta D. Luiza, filha bastarda de el-rei D. Pedro II.

Esta D. Luiza foi reconhecida por D. João V, que a casou com D. Luiz Alvares Pereira de Mello, duque de Cadaval; por morte d’este casou com D. Jayme, seu cunhado, que ficou sendo duque de Cadaval, porque o primogenito morreu sem geração.

A infanta D. Maria, filha natural de D. João IV, veiu para aqui de tenra idade. Reedificou a egreja e o mosteiro, ampliando muito o edificio. Viveu recolhida sem professar. O reconhecimento como filha do rei foi feito solemnemente na presença da familia real e da côrte, no mosteiro. Esta senhora era muito estimada; as rainhas D. Luiza de Gusmão, mulher de D. João IV, D. Maria Francisca Isabel de Saboya e D. Maria Sophia de Neubourg a visitavam muito. O irmão, D. Pedro II, encarregou-a da educação da filha, D. Luiza, que depois foi duqueza de Cadaval.


A procissão dos Passos de Carnide faz-se na 5.ᵃ dominga de quaresma (este anno, 1898, foi em 27 de março).

A conhecida feira da Luz, com arraial e festa, é nos dias 7 e 8 de setembro.

O cirio do Cabo visitou Carnide pela primeira vez em 1437.

Carnide está na 7.ᵃ ordem do giro. Em 1795 houve festa ruidosa porque tomaram parte no cirio o principe D. João (depois D. João VI) e sua mulher D. Carlota Joaquina.

A Senhora do Cabo tem capella propria na egreja da Luz, na capella-mór, á esquerda; ainda ahi existe um formoso frontal, com o brazão da infanta D. Maria.

Vamos ouvir o Padre Luiz Cardoso, no seu Diccionario Chorographico, que infelizmente ficou incompleto. Este escreve em 1751:

—Na egreja de S. Lourenço ha cinco altares, o maior, o de N. S.ᵃ do Rosario, o de Christo crucificado, o de S. Miguel, e o de Jesus Maria José. Havia então tres irmandades: a do Senhor, a de N. S.ᵃ do Rosario, e a das Almas.

Tem (tinha) a freguezia mais as ermidas do Espirito Santo, a de S. Sebastião e a de N. S.ᵃ da Assumpção na quinta de José Falcão de Gamboa, hoje o casal do Falcão.

A fonte de N. S.ᵃ da Luz, antigamente da Machada, divide-se em duas, a fonte de dentro e a de fóra.

A de dentro está sob o altar-mór, a agua no sabor é grossa e salobra mas mui sádia, e principalmente contra a pedra tem especial virtude, e não consta que filho algum da terra padecesse semelhante achaque ou outra qualquer pessoa que d’ella usasse.—


O Santuario Mariano de fr. Agostinho de Santa Maria é repositorio de muitas informações, porque este extraordinario devoto de Nossa Senhora a proposito das imagens que descreve, dá noticias das egrejas e localidades onde se veneram.

No tomo I, pag. 98, escreve da imagem de Nossa Senhora da Luz em Carnide: e conta de como antes de 1463 foi captivo em Africa Pedro Martins, natural de Carnide; este homem teve sonhos milagrosos, fez promessas, e conseguindo livrar-se do captiveiro mourisco voltou á sua patria, onde já existia a fonte do Machado, e edificou a ermida. A fundação foi solemne, porque a ella assistiu D. Affonso V. É provavel que este Pedro Martins fosse algum antigo companheiro d’armas d’el-rei D. Affonso V, que a historia denominou o Africano, por causa das suas arrojadas emprezas e valentes brigas no Algarve d’além-mar. Pedro Martins collocou na ermida, em agradecimento, os grilhões do captiveiro.

A infanta D. Maria, filha de D. Manuel, fez a nova egreja em 1575.

A pag. 411 do mesmo tomo o padre Cardoso refere-se á imagem de Nossa Senhora da Conceição, do côro do convento da Conceição no sitio de Carnide (depois em Arroyos), sem dar noticia importante.

Fr. José de Jesus Maria, na Chronica de Carmelitas descalços da Provincia de Portugal, tomo III, pag. 147, acha o logar de Carnide situado em campo alegre e de ares puros, e cercado de muitas e curiosas quintas que servem igualmente para o lucro e ao recreio.

Compõe-se o logar de 264 visinhos (elle escreve em 1753).

Falla do convento da Conceição que na sua quinta fundou Nuno Barreto Fuzeiro.

Do convento de Santa Thereza, nobilissimo seminario de infantas e senhoras... onde tantas vezes chegou a pobreza, a ponto de ás vezes não terem de comer.

Mas as freiras tinham grande repugnancia em pedir; esperavam até á ultima; nada havendo, nem a esperança, tocavam uma sineta, a sineta da fome, pedindo soccorro. O mesmo succedia com as freiras do Calvario em Evora; tinham tambem o toque da fome. Quando nada havia, nem se esperava, iam para o côro, entoavam as suas rezas ao som do triste signal. Por vezes, no convento de Carnide, houve coincidencias que pareceram milagres. Uma vez ia a pobre soror, meio desfallecida, começar o signal da fome, quando bateram estrondosamente á portaria. Era um presente de atum assado que mandava a duqueza de Aveiro.

Outra vez appareceram uns navegantes, salvos de grande tormenta no mar, com uma esmola de 20$000 réis.

Em 1646 se dispôz a madre priora Michaela Margarida de Sant’Anna a lançar a primeira pedra do convento novo. Foi o duque de Aveiro quem lançou a pedra e d’isto se lavrou a inscripção==O duque de Aveiro, D. Raymundo de Lancastre botou a primeira pedra deste convento a 2 de junho de 1646.==

Nova obra começou em 15 de outubro de 1662, commemorada em outra lapide (hoje no cunhal da frontaria da egreja):==Maria Joannis Lusitaniae Regis Filia hoc opus struxit anno Domini 1662.==

A dedicação do templo de Santa Thereza foi em 15 de outubro de 1668.

A capella-mór é de Santa Thereza.

A do Evangelho é de S. João da Cruz.

A da Epistola é da Senhora da Conceição.

Defronte da grade do côro de baixo está a capella do Senhor dos Passos, com procissão na 5.ᵃ dominga de quaresma.

No côro alto ha muitas reliquias (é um grande relicario entalhado e dourado, que se vê da capella-mór).

A infanta D. Maria, filha de D. João IV, mandou fazer os retabulos.


Podemos affirmar, pois, que a egreja de Carnide era já parochial no seculo XIV. Que no seculo XVI era logar de certa importancia, pois a insigne infanta D. Maria, filha de D. Manuel, aqui veiu fundar egreja e hospital. Depois os differentes conventos e obras particulares; as grandes quintas com magnificas moradias, etc.

Em 1712 tinha 80 visinhos com nobreza, o que é extraordinario; verdade é que não sabemos bem onde chegaria então a freguezia de Carnide; que no termo de Carnide se encontram bastantes casas, que podemos chamar pequenas, com seus brazões em porticos e cunhaes, é verdade.

Em 1753 tinha 264 fogos.

Em 1757 » 250 »

Em 1875 » 260 »

Provavelmente a freguezia cedeu alguns fogos para a formação de outra qualquer, ou então houve largo estacionamento.

Actualmente (abril 1898) Carnide pertence ao 3.ᵒ bairro de Lisboa.

Fogos, 337.

Habitantes, 1:737.

Sendo: varões, 1:018; femeas, 719.

Solteiros, 710 varões e 404 femeas.

Casados, 277 varões e 255 femeas.

Viuvos, 31 varões e 57 femeas.

Analphabetos, 432 varões e 353 femeas.

Sabem ler, 6 varões e 18 femeas.

Sabem ler e escrever, 580 varões e 345 femeas.

É preciso lembrar que na freguezia de Carnide está o collegio militar, o que produz as grandes divergencias nos numeros dos solteiros, dos instruidos, etc.


O sitio é agradavel, de amoravel paizagem, brilhante mesmo nos dias bons; como o terreno é variavel na sua constituição, basaltos, calcareos, argilas, as culturas diversas, e de tons que vão do claro do rebento novo da vinha ao verde intenso do trigo, produzem um matiz onde o olhar repousa sem achar monotonia. Pelas quintas ha arvoredos sombrios, ou compridas latadas e hortejos cuidados, vinhas, searas, geiras de fava ou batata. Trabalha-se, cultiva-se com intensidade, e não sobram os braços porque os salarios dos trabalhadores ruraes são maiores que em outras partes.

A par da quinta antiga com seu palacio e capella ha o chalet moderno, com as suas varias traducções, vivenda, tugurio e não sei que mais. Bom exemplo de casa antiga é o casal do Falcão, com a sua varanda alta, e as suas dependencias; casa mais moderna, do começo do seculo XVIII, talvez, é a da quinta de Santa Martha, ou dos Azulejos, assim chamada por ter forradas de azulejos as paredes que deitam para o jardim, e as escadas, que são exteriores, a varanda, a nora, a parede do tanque, e as paredes dos alegretes altos, tudo em assumptos variados, em grandes quadros, em medalhões, com damas nobres, e archeiros, e deuses mythologicos, e quadrinhos que fazem lembrar o Nicolau Tolentino.

Ao lado da propriedade grande e custosa ha a pequena que o saloio rega com o suor do seu rosto, e com a agua que tira do poço ou do regato com a cegonha ou picota, a grande alavanca que já figura nas esculpturas do Egypto a levantar a agua do Nilo sagrado.

De Carnide-Luz ha estradas para o Campo Grande, Telheiras, Paço do Lumiar, Sete Rios, Bemfica, Odivellas ou da Beja, mais ou menos assombradas, sempre agradaveis, por vezes com grandes vistas. A estrada militar corta grande parte da freguezia, offerecendo sempre largo horizonte.

Eu tenho caminhado por estes sitios e acho adoraveis certas estradinhas discretas, humildes carreteiras bordadas de vallados agora floridos, de madresilvas e congossas, assombradas por oliveiras, olaias, cerejeiras; de vez em quando uma palmeira rompe entre as larangeiras, um cypreste ergue a sua pyramide verde escura.


Proximo da quinta dos Azulejos está o convento de Santa Thereza de Jesus. Eu ouço repetidas vezes a sineta com um som fraco, lamentoso, chamando á missa ou marcando as horas coraes.

Os sinos de S. Lourenço são vibrantes, mui sonoros; aos domingos tocam musicas festivas que ficam bem na grande e virente paizagem, annunciando o dia de repouso a essa gente que tanto trabalha. Gosto de os ouvir nas Ave-Marias da manhã quando o sol nascente rutila na grande vidraça da egreja do cemiterio dos Arneiros.

A egreja de Santa Thereza é bonita, de linhas sobrias, com uma só nave.

O convento divide-se agora por duas communidades diversas. Uma parte pertence ás freiras portuguezas, senhoras mui virtuosas, e com excellente tradição por estes sitios. Outra parte ás freiras francezas, irmãs de S. José de Cluny. Estas são mais numerosas e teem pupilas e postulantes. Tem escola, e enviam pessoal para as missões africanas. As portuguezas resam no côro de baixo, as francezas no côro de cima.

Todo o tecto da egreja, nave, cruzeiro, capella-mór e côro alto é de pintura antiga, de 1662 provavelmente, com as suas flores e fructos, mascaras e garças, molduras quebradas e grinaldas, grandes espiraes de folhagens, e figuras inteiras de virtudes. É muito lindo.

Grandes paineis de azulejos com passos da vida de Santa Thereza forram a egreja até certa altura; télas pintadas a oleo, em grandes molduras de talha dourada, illuminam a parte mais alta das paredes.

Entre estas reparo na grande téla que representa o passamento de Santa Thereza notavel na composição, no desenho e no colorido. É boa obra d’arte e documento notavel na indumentaria e mobiliario. O quadro da capella-mór é muito lindo tambem: composição importante, com muitas figuras, e bem colorido.

A obra de talha da capella-mór, relativamente moderna, é muito elegante com o seu bello portico de columnas encimado pelas grandes figuras da Fé e da Esperança.

Os altares lateraes são revestidos de azulejos polycromos, com as armas de Portugal entre ramarias e animaes, e moldura fingindo embrechado de marmore amarello sobre fundo negro. Estes azulejos devem ser tambem do seculo XVII.

O pulpito e sua escada de páu brazil em torcidos e tremidos, com applicações de metal amarello, é notavel, e merece attenção tambem a especial pintura que cerca a janella, que está sobre a porta lateral da egreja, da parte de dentro.

A infanta D. Maria, filha de D. João IV, está no côro de baixo; sob a grade d’este côro repousa uma princeza germanica.

Reproduzo a inscripção desdobrando os breves:==Aqui debaixo d’esta grade jaz a veneravel madre Michaella Margarida de Sancta Anna filha do imperador Mathias, fundadora que foi d’este convento: resplandeceu em virtudes, faleceu em 28 de setembro de 1663 de idade de 82 annos havendo entrado na religião de 4 para 5 annos.==Esta inscripção está gravada em tres linhas, com bastantes lettras inclusas.

Ha n’esta egreja uma devoção especial a «Santa Agape V. M. cujos despojos mortaes foram achados em Roma no cemiterio de Prescilla, sito na estrada Salaria Nova, e pelo santo padre Gregorio XVI concedidos á egreja de Santa Thereza de Carnide a 25 de abril de 1843... sendo expostos á veneração dos fieis em 14 d’outubro de 1846.»

No exterior, templo e convento são de extrema singeleza. Sobre a porta principal a estatueta de Santa Thereza, e sobre a portaria a de S. José.

No cunhal da esquerda da frontaria, lá está a inscripção:

M.ᴬ F.ᴬ IOANNIS IIII LVSI
TANIAE REGIS HOC OP
VS STRVXIT, ANNO
DNI. M.DCLXII.

Este convento conheceu dias de tormenta; quantas angustias passaram atraz d’essas grades; nas grandes crises do tempo pombalino, dos francezes, das guerras civis, muitas damas, algumas das mais nobres familias de Portugal, aqui vieram asylar-se.

Aqui esteve a duqueza de Ficalho a quem um capellão esperto dava noticias dos filhos, todos no exercito do imperador, no meio de motejos e allusões que contava em voz alta ás pessoas que estavam no locutorio, em quanto a duqueza escutava em ancias na casa proxima.


N’este convento de Santa Thereza de Carnide viveu uma religiosa celebrada no seu tempo pelas suas virtudes, lettras, prendas, e bom humor. Era insigne no cravo, escreveu prosas e versos, e desenhava muito bem. A sua biographia encontra-se n’um volume com o titulo==Vida e obras da serva de Deus e madre soror Marianna Josepha Joaquina de Jesus, religiosa carmelita descalça do convento de Santa Thereza do logar de Carnide.==(Lisboa, 1783). É obra publicada sem nome de auctor, mas sabe-se que o foi D. José Maria de Mello, filho de Francisco de Mello, monteiro-mór do reino, oratoriano, bispo do Algarve, etc. Era sobrinho da insigne religiosa; e esta era filha do conde de Tarouca, o conhecido diplomata João Gomes da Silva.

As obras da madre Marianna são escriptos piedosos, em prosa e verso, em boa e fluente linguagem. As prosas são exercicios espirituaes, instrucções para as noviças, actos das virtudes, etc. E as poesias que se leem sem enfado porque tem certa animação são todas conventuaes, celebrando, festividades; sonetos, decimas, nas festas da prelada; sortes de exercicio de virtudes para se tirarem no dia da exaltação da cruz; sortes da paixão para se tirarem no domingo de Ramos. Ha um romance.==A uma noviça attribulada.== E varios desafios poeticos no tempo do advento, exaltação e quaresma.


A egreja parochial de S. Lourenço de Carnide está agora bem reparada; é antiga como mostra a sua orientação e disposição. Todavia pouco resta, á vista, dos seus primeiros tempos. Na frontaria á direita ha uma pedra que é precioso monumento. Diz assim:==Era de 1380, 14 de maio o bispo Dom João mandou edificar esta egreja por Pero Sanches chantre de Lisboa á honra de S. Lourenço e deu-a a João Dor, seu capellão 24 dias do dito mez e passou o dito bispo 24 de julho da dita era ao qual Deus perdôe. Amen. Isto declara o que diz a pedra antiga correspondente.==

A qual pedra não se vê hoje.

Á esquerda da frontaria está em pedra lavrada, um brazão raro; tem na parte superior uma barra com vincos obliquos, sob isto uma estrella, uma perna com meia e sapato, que pousa sobre uma nuvem.

Na igreja ha um quadro bom, o lavapedes, mal restaurado infelizmente; algumas campas, duas pias de agua benta que são dois capiteis do seculo xiv escavados, e na sacristia um arcaz de boa madeira, bom trabalho, com metaes bem lavrados.

O terreno em redor da igreja era antigamente o cemiterio e ainda ahi está uma urna com inscripção que será bom registar:==Josephus Joannes de Pinna de Soveral e Barbuda speciosus forma oritur ut moriatur 23 die decembris anno 1710 et plenus gratia per merita domini nostri Jesus Christi moritur ut vivat 1.ᵒ die mayi anno 1742,==o lettreiro está na face da urna em moldura, tendo na facha superior==Deo laus honor et gloria, amen,==e na inferior==Spes et voluntas in Deo.==

Visinha da igreja de S. Lourenço está uma fonte com bello aspecto mas sem agua. Tem seu terreiro bem empedrado defendido por frades de pedra, tanque, e um corpo central encimado por uma estatua, uma figura de mulher que me intriga um tanto. Esta figura está mutilada, sem braços, e pegaram-lhe ao lado uma pedra com seu lettreiro:==Encanamento de ferro pela vereação de 1858.==Mais em baixo o dizer:==Camara Municipal de Belem, 1857.==Apesar dos lettreiros e dos canos de ferro a fonte está enxuta.

No passeio de cima chamado antigamente do Espirito Santo, agora o alto do poço, está uma fonte, isto é, um poço com bomba, e uma urna de pedra bem tosca com a indicação:==C. M. B. 1859.==Dizem os de Carnide que a agua da fonte de baixo era excellente. Parece que n’este caso como em tantos outros a companhia apanhou as aguas boas, misturou-as com as ruins, e fornece a mistura aos consumidores, que em certas localidades ficaram prejudicados.

Agora a respeito da estatua; é uma figura de mulher, com tunica de pregas miudas, e amplo manto cingido. Parece-me uma estatua romana, pelo trabalho, disposição, rosto e cabello. Provavelmente foi aproveitada alli como o satyro da fonte de S. Domingos de Bemfica.

Carnide tem illuminação a gaz, agua da Companhia, estação telegrapho-postal, posto de bombeiros, posto de policia civil, a sua philarmonica com aprendizes de cornetim, a pharmacia com seu gamão, um theatro particular, um club e duas escolas municipaes primarias officiaes de ensino gratuito, uma para meninas e outra para meninos que me parecem regularmente frequentadas.

As irmãs de S. José tem escola de meninas.

O que anima muito o sitio é o collegio militar, que está muito bem installado no sólido edificio que ainda conserva na sua frente o brazão da fundadora, a inclita infanta D. Maria, filha de el-rei D. Manuel.

Na procissão dos Passos faziam a guarda de honra os alumnos do Collegio Militar com as suas carabinas no braço, marchando muito garbosamente, entre o povo e as familias d’elles que os acompanhavam, cobrindo-os com os seus melhores olhares. Sentia-se um certo perfume de familia, patria, dever, brio, mocidade, um ramilhete de cousas boas, ao vêr passar, musica na frente, aquelles bellos rapazes, entre a multidão sympathica.

A igreja de Nossa Senhora da Luz é bem conhecida; eu mesmo já escrevi algures da formosa téla onde se vê retratada a infanta D. Maria (ha outro retrato no quadro da capella do collegio militar), do extraordinario altar-mór com os seus finos baixos relevos, da capella-mór que é um monumento da arte nacional, excepcionalmente bem conservado. No exterior está a fonte, a velha estatua da Virgem e uma longa inscripção repartida em duas lapides de marmore avermelhado, que diz o seguinte:

==No anno de 1463 reinando em Portugal D. Affonso V os visinhos de Carnide com devoção das revelações que Pedro Martins, natural deste logar, teve em seu captiveiro, donde sahiu milagrosamente, lhe ajudaram a fazer uma capella a nossa Senhora da Luz sobre esta fonte. O lugar como determinado pela divina providencia para este effeito se via dantes claro e resplandecente com visão e lumes do Céo, como depois se viu resplandecer com grandes e innumeraveis milagres na terra. E seguindo em tudo a ordem e revelação que a Virgem purissima inspirou a Pedro Martins, lhe puzeram o nome que tem da Luz, em cuja memoria e louvor a infanta D. Maria filha delrei D. Manuel o primeiro deste nome, rei de Portugal, e da Christianissima rainha D. Leonor infanta de Castella, mandou reedificar e levantar o templo de novo nesta ordenança e grandeza, no anno de 1575.==


Domingo de Ramos, 3 abril 1898.

Pela manhã cedo dei um pequeno passeio até á Casa da Pontinha, proxima da estrada militar. É casa antiga, com algumas alterações modernas; na parede que deita para a estrada, a pouca altura, está um marmore com lettreiro:

Louvado seja
o santissimo
sacramento.

Se quereis
saber quem
he o serafi
co Frc.ᵒ está
junto a IHS
Cristo que
16 assim o te 37
mos por
fee

Superior á lapide está um quadro de azulejo; a Senhora da Conceição, em azul sobre o branco, de bom desenho, em moldura de azulejos policromos.

Proximo da Casa da Pontinha, na estrada que vem para Carnide, está uma casa quadrada, na ponta da horta do casal do Falcão, n’um angulo de muro, que conserva um friso ornamentado, uma grega singela em relevo de cal, um esgrafitto, datado «1622».

Depois ouvi a sineta das freiras, que sôa como uma voz debil, triste, e entrei na linda igreja. O capellão lia no seu missal a grande narrativa do triumpho em Jerusalem, que foi terminar na paixão, na cruz do Calvario, verdadeiro symbolo da vida humana, que a dias de puras alegrias e risonhas esperanças faz succeder horas de desespero e uma eternidade de angustias.

O capellão lançou a sua benção sobre os ramos, folhas de palmeira sem ornato algum, e deu-os pela grade do côro de baixo ás religiosas portuguezas. Entraram processionalmente as irmãs de S. José de Cluny, com as suas tunicas azues e mantos pretos; toucas brancas moldurando os rostos; atravessaram o cruzeiro e ajoelharam no degrau da capella-mór. Ahi receberam as palmas, os ramos do grande triumpho. Não havia musicas, nem canto; um grande silencio apenas. E retiraram na mesma ordem, e no mesmo silencio para a sua clausura.

Quantas estarão de marcha para as missões africanas!


Quinta-feira santa, 7 d’abril 1898.

Hoje o passeio foi longo, quiz verificar o que havia a respeito de certas antiguidades na ribeira de Carenque.

Ha tempos, nem me recordo porque circumstancia, folheei um opusculo intitulado==Representações dirigidas a S. M. a Rainha e ao corpo legislativo pela Camara Municipal de Lisboa sobre o abastecimento d’aguas na Capital==(Lisboa, 1853). Ora estas representações são acompanhadas de pequenas memorias de J. M. O. Pimentel e do engenheiro Pézerat, duas summidades do seu tempo. A de Pézerat começa a pag. 53:==Memoria sobre as conservas d’agua da Quintam até ao Salto Grande.==

Tratava-se de estabelecer tanques nos valles superiores (da ribeira de Carenque), ou conserva para a repreza de todas as aguas de sobejo fornecidas no inverno pelos differentes nascentes d’este systema de aqueducto (o das Aguas Livres). E diz Pézerat:==Descobri o valle da Quintam, com condições muito favoraveis porquanto já tinha servido em tempos remotos de conserva ou bacia para uma immensa repreza, cuja existencia está provada pelos restos do antigo paredão ou marachão com 11 metros de largura, e 9 de altura, e que os habitantes attribuiam á epocha do dominio romano, e como tal o denominam, porém mui facilmente reconheci pertencer á epocha mourisca.==

Na planta que vem com a memoria marcam-se o casal da Fonte Santa, o resto do marachão, as linhas do aqueducto de D. João V, as mães d’agua, velha e nova, a escavação de um aqueducto abandonado, o valle de Fornos, o casal da Quintam e as ruinas do Castello velho.

Eu desejava ver estas antigualhas.

Parti de Carnide á Porcalhota, ao sitio da Amadora, passei por um grande arco sob a linha ferrea, e entrei na estrada de Carenque, que vae seguindo a corrente. Um valle muito comprido, accidentado, com dois logares, Carenque de baixo, Carenque de cima, alguns grupos de casebres, azenhas, pequenas hortas, e dominando tudo a formidavel obra do aqueducto das Aguas Livres, sempre bem feita, de silharia sempre bem faciada, formidavel monumento.

A principio ia desanimando, ninguem me sabia dizer das velharias mouriscas ou romanas, nem da Quintam, e cheguei assim ao casal do Ernesto.

Ahi depois de expôr a minha questão a um grupo que nada sabia, surgiu-me um sujeito côxo conhecedor do caso, da obra dos mouros (não me fallou de romanos) e da Quintam. Este côxo providencial chama-se João Silvestre, e foi pastor na sua mocidade. Pastores sabem muito, andam pelos montes e charnecas, por atalhos e a corta-matto; são sempre bons informadores.

Com o Silvestre passei as terras do casal do Ernesto; em breve estava na ponte entre as mães d’agua; a chamada nova (D. João V) é uma linda construcção oitavada, de elegantes fórmas singelas, classicas, parece uma obra grega. Pouco acima avistava-se outra obra inconfundivel, o marachão, enorme, firme, apezar das cheias, dos seculos e dos homens.

Porque já para a obra do aqueducto de D. João V tiveram de o romper a poente, e mais recentemente a nascente para a passagem de uma estrada; todavia o que existe é pouco menos do que viu Pézerat.

Nas dimensões que elle apresenta, na da largura do paredão, houve engano me parece. Contando com os encostos ou gigantes, na base, chega-se a 11 metros, mas a parede em si tem 7 metros, o que é bem respeitavel. É feito de camadas de pedregulho e argamassa, revestido de pedras grandes irregulares e mal faciadas, em fiadas; por isto me parece obra dos arabes; os romanos em obra de tal importancia empregavam os seus bellos apparelhos. O paredão tem 9 metros de altura na face do sul. Completo teria 40 a 50 metros de comprimento, e 5 ou 6 de altura sobre o terreno a montante; ora a montante segue-se uma varzea consideravel que fechada formaria uma grande albufeira. Mais acima, a 2 kilometros, fica a Quintam, um casal muito velho; ao lado restos da muralha com ameias, e um grande portal.

É de notar que junto de Odivellas, sahindo da povoação a entrar no atalho que vem ao moinho da Luz, na estrada militar, está um muro ameiado, com seu portico em ogiva, resto tambem de uma construcção fortificada. Castellos não seriam, mas habitações fortificadas talvez.

E disse-me o Silvestre,—mas por aqui ainda ha melhor, se tem tempo e vontade eu lhe vou mostrar a eira dos mouros.—Trepámos por atalho até uma chapada, proxima e inferior á crista do cerro que é formado de calcareo secundario muito fragmentado. E achei-me em face de um problema.

É uma chapada ligeiramente inclinada de poente para nascente. N’este declive traçaram um octogono regular, menos a face do nascente que está de nivel com o terreno natural. Este octogono está cercado por um muro duplo, isto é, por dois muros parallelos que entre si conservam um intervallo de meio metro; estes muros conservam a mesma altura em cinco lados do octogono, decrescem nos dois a nascente até chegar ao nivel do solo. Os muros teem 0,5 de espessura; nos cinco lados a poente, norte e sul, quasi um metro de altura na face interior, porque na exterior, a poente estão com o terreno, que é mais alto ahi. São de alvenaria bem solida. No espaço assim limitado arranjaram um centro plano e das paredes para esse centro ha declives regulares, artificiaes. Todo este espaço interior está, não calçado de pedra, mas forrado de uma forte camada de alvenaria, que assenta, como se vê n’um ponto que está escavado (por algum caçador, ou mais provavelmente por algum sonhador de thesouros; porque, notou o antigo pastor, dizem que ha muita somma de dinheiro e outras cousas enterradas por estes sitios), em grande camada de pedregulhos.

—Dizem que era aqui que os mouros se vinham divertir,—informou o Silvestre. Um theatro, uma palestra, uma praça de touros? quasi que parece; mas para que a dupla parede com a sua sanja ou caneiro? E os declives, e a solidissima alvenaria que forra o fundo? Para um fim industrial, ou assento de grande arribana, tambem não vejo; se fosse questão de aguas, tanques de lavagem, então não fariam aquella obra na altura, porque o rio corre muito abaixo. O espaço é consideravel; tem proximamente 35 metros de diametro maximo, e os lados, muito regulares, tem 15 metros cada um na face interna. Ha outras eiras de mouros, disse Silvestre, mas sem o duplo muro, n’uns outeiros mais distantes.


10 de abril de 1898.

Hoje pela manhã fui vêr uma obra d’arte na quinta da Marqueza. A meio do jardim quadrado agora exhuberante de bellas rosas, de macissos de flôres, está um tanque de fino marmore, grande, formado de enormes blocos lavrados, com seus chanfros e curvas, decorado de quatro mascaras collossaes; sobre a borda do tanque quatro golphinhos decorativos de cauda erguida, infelizmente quebradas as extremidades, que lançam jorros d’agua para o tanque. No centro um grande grupo, um tritão vigoroso, uma formosa sereia e um genio marinho, em posições movimentadas, dando um todo agradavel de qualquer lado que se observe. É uma peça de esculptura notavel em marmore de Italia.

Depois segui para o casal do Falcão, que não tinha ainda examinado internamente. É um grande predio apalaçado, com suas dependencias; palacio e centro de exploração agricola. Da casa de residencia está metade em pé, outra que olhava ao norte, e que tinha como a do nascente a sua alta varanda coberta, com finas pilastras, foi derrubada ha muito tempo. Tem dois pavimentos; no terreo estão cosinhas e arrecadações; no superior, o andar nobre, salas e alcovas. As salas eram ladrilhadas, com altos rodapés de azulejo, e tectos de madeira em caixilhos ou almofadas.

Tem capella. Sobre a porta da pequena mas elegante egrejinha está o lettreiro:==Dedicada a Nosa Snra da Asumsão ano de 1705 (?).==

Parece-me 1705, mas os dois ultimos algarismos estão muito gastos. O altar-mór tem seu retabulo em marmores lavrados, com seus nichos, em trabalho que tem movimento. Nas paredes ha azulejos bem conservados, e em frente da pequena tribuna um lettreiro diz que alli está enterrado João Coelho que instituiu a quinta em morgado em 1647. Esta casa com suas dependencias, lagares, arribanas, abegoarias, é um bello exemplar de construcção portugueza no seculo XVII.

Entre almoço e jantar fui vêr o casal e o moinho do Castello, para lá de Alfornellos ou talvez melhor, Alfornel.

Estes nomes de Fornos, Fornellos e Alfornellos indicam a existencia de antigos fornos, os d’estes sitios provavelmente só destinados a coser calcareo e grossa ceramica; não encontrei ainda escorias de metaes.

O moinho do Castello desappareceu, está lá como testemunha a grande pedra do frechal. A altura é formada por calcareo jurassico, cujas cristas parallelas afloram sobre o solo. Não vi grandes movimentos de terra ou pedra que indiquem trincheiras bem definidas. Nem fragmentos de ceramica, escorias, ou outra qualquer cousa que indique trabalho humano. É possivel todavia que alli tenha havido alguma fortificação prehistorica; á vista e não muito distante está outro monte a que um pastor tambem chamou do Castello.

A proposito de movimentos de pedra e terra direi que nos arredores de Lisboa o archeologo precisa estar sempre lembrado de que dois formidaveis trabalhos se proseguem ha muitos seculos por estes sitios; a exploração das pedreiras, e a pesquiza e captagem das aguas.

O trabalho das pedreiras em varias epochas, depois dos terremotos da capital, foi collossal. A formação de aqueductos para Lisboa, especialmente o prodigioso trabalho da rede do Aqueducto das Aguas Livres que acompanha e alimenta o cano geral deu origem tambem a grande deslocação de material.

Seguindo do casal do Castello para Falagueiras segui eu um ramo do aqueducto, e um caneiro para regularisar a sahida das aguas do valle, tudo bem feito, com solidas fiadas de silhares, suas caixas d’agua, algumas das quaes me pareceram muito anteriores ás suas visinhas do tempo de D. João V. Exactamente, antes de chegar á queda da ribeira onde está uma grande caixa d’agua, vi muitos movimentos de terra, comoros artificiaes, que n’outra região tomaria por mamunhas ou mamoas tumulares.


O rev. padre Pereira, actual prior de S. Lourenço de Carnide, tem colligido muitas noticias para a historia d’este logar.

Para o estudo da topographia de Carnide e seus arredores serve muito bem a carta n.ᵒ 7, publicada pelo Corpo d’Estado Maior.

A historia da egreja de Nossa Senhora da Luz, e do edificio onde actualmente se acha installado o Collegio Militar, encontra-se na Vida da infanta D. Maria, filha de D. Manuel, por fr. Miguel Pacheco (Lisboa, 1675); em O Occidente, vol. de 1890, pag. 219; e no Archivo Pittoresco, vol. de 1863, pag. 299.

O casal do Falcão mereceu estudo especial ao sr. Julio de Castilho, 2.ᵒ visconde de Castilho, gentil espirito que esmalta de poesia a mais variada erudição. O sr. visconde publicou no Instituto de Coimbra, vols. de 1889-90, uma serie de artigos historiando os dramaticos amores do pintor Francisco Vieira de Mattos, o Vieira Lusitano, com a firme e leal senhora, D. Ignez Helena de Lima e Mello, que apoz dolorosos episodios foi esposa do grande artista.

Esses amores puros, honestos, bem portuguezes, que douram de deliciosa poesia os restos, agora tristes, da fidalga vivenda, de ha muito chamada o casal do Falcão, foram contados pelo proprio Vieira n’um livro: «O insigne pintor e leal esposo Vieira Lusitano, historia verdadeira que elle escreve em cantos lyricos (Lisboa, 1780)»; livro interessante porque além do poema amoroso, apresenta grande numero de quadros de costumes, scenas palacianas, festas populares, e noticias artisticas.