Passeio a Santa Cruz de Ribamar

No dia 27 de setembro de 1905, depois do banho e do almoço, em commodo trem, fui a Santa Cruz.

A estrada vae ao campo do Amial, pelo sopé do monte de S. Vicente, que nos fica á direita; depois pela esquerda a falda do Varatojo. A estrada segue na grande varzea, comprida e ampla, importante, onde o Sizandro abre o seu leito.

Vinhas magnificas, cepas fortissimas carregadas de esplendida uva. A estrada incómmoda pela muita poeira. Fiz uma paragem na quinta dos Chãos, á direita do caminho. Pouco dista da estrada, bem accessivel ao trem. A velha ermida serve de armazem; só me chamou a attenção uma pedra com lettreiro, do seculo XV, solta, na pequena sacristia; não tirei apontamento porque imaginei que a tinha visto publicada nas Memorias de Torres Vedras. Verifiquei depois que não está! seria bom, e creio que facil, recolher a pedra na Camara Municipal, onde se guardam já algumas pedras significativas na historia de Torres Vedras. Alguns homens cavavam; eu vi a descoberto um grosso paredão de alvenaria em argamassa mui antigo.

No terreno d’esta propriedade teem apparecido por vezes vestigios romanos; provavelmente existiu alli alguma villa rustica.

Seguindo o passeio. Passamos por boas propriedades, e alguns grupos de casaes.

Os campos estão animados, as estradas concorridas; é uma festa agora; a grande festa das vindimas. Tudo sorri com os bellos racimos do divino Baccho, doce e aromatico.

Calcula-se em 80:000 pipas a producção do vinho no termo de Torres Vedras; mas este anno ha crise de fartura, os preços estão muito baixos; queima-se por isto muito vinho para fazer aguardente, que se vende de 80 a 85 mil réis a pipa de 534ˡ,24, posta em Villa Nova de Gaya.

Todos estes terrenos são de alluvião moderna, mas passadas tres quartas partes do caminho começa a apparecer a areia maritima. Cultiva-se milho, feijão frade, grão de bico.

Passamos junto de alguns moinhos em grande businada, as cordas cheias de louça, dezenas de vasos de barro; os moleiros d’estes sitios são grandes amadores d’esta musica.

Passamos por alguns pinhaes, e chegamos a Santa Cruz, logar formado por algumas casas antigas, e bastantes modernas.

É a praia balnear de Torres Vedras. Pessoas abastadas da villa e de logares proximos aqui mandaram construir vivendas, nas arribas de ar lavado pela brisa do Atlantico. A praia é bonita; uma fita de areia branca, de brando declive, abrigada pelas escarpas não muito altas, de aspecto severo, formadas pelas rochas de colorido variado. Um grande rochedo alteroso destaca na praia. Foi accessivel em tempo, porque ainda se observa a certa altura um lanço de escada talhado na rocha; mas as vagas esboroam a base. Talvez servisse de atalaia para descobrir corsarios mouriscos, ou marcha do peixe, da baleia, por exemplo, frequente por este mar em tempos idos. Pelos piratas mouros ou corsarios argelinos foi a costa visitada, parece que com certa frequencia, ao que dizem velhas chronicas. Do alto da arriba o mar apresenta o aspecto de amplo golpho; a norte prolonga-se, entrando muito pelo oceano, a peninsula de Peniche, e em frente avistam-se nitidamente os rochedos das Berlengas e Farilhões. Notei aqui um facto talvez interessante; avista-se um largo trecho da costa, escarpas de 40, 30 e 20 metros de altura; em certo ponto a escarpa é mais baixa, chega talvez a quinze metros; por ahi sobem as areias que vão alastrar-se terra dentro; vê-se a duna encostada á rocha nos outros pontos que não vence; pára ante o obstaculo; alli vence, entra pelo chanfro.

E poderá ainda marcar-se a historia da invasão porque na chronica do Purificação ao tratar de Ribamar e do convento de Pena Firme se mostra que ainda no seculo XVII o terreno não estava vestido pelo manto de areia em tamanha extensão.

Logo de entrada encontrei, bem agradavel surpreza, o sr. Rodrigues da Silva, cavalheiro que eu já conhecia de Torres Vedras; é sabedor da historia da villa e termo, amador de antiguidades, e muito amavel companheiro; com elle fui vêr o monumento funerario mandado fazer por Valerio e Julia, que se conserva no logar marcado nas Memorias da Villa de Torres Vedras (pag. 20 da 2.ᵃ ed.), e no Corpus. A distancia de poucos metros vê-se uma sepultura, algumas lages cravadas no solo, marcando perfeitamente o vão sufficiente para um corpo humano. Parece que em tempos se viam alli vestigios de outras sepulturas; a que existe agora está á beira da escarpa; mais alguns annos e o embate das vagas a fará desapparecer.

Na ermida de Santa Cruz, ou de Santa Helena, vi uma imagem d’esta santa que me pareceu anterior, pela rudeza e ingenuidade da esculptura, ao seculo XVI.