Ruços, além!
Preparava-se a jornada de Ceuta.
Havia cabeças enthusiastas, e cabeças duvidosas; timidos e prudentes ao lado dos muito ousados. El-rei D. João I estava em Cintra com os infantes; mandou convocar os do Conselho para Torres Vedras; eram o conde de Barcellos, o condestavel D. Nuno, os mestres das ordens de Christo, de Santiago e d’Aviz, o prior do Hospital, Gonçalo Vaz Coutinho, Martim Affonso de Mello, João Gomes da Silva, muitos outros senhores e fidalgos.
Nesses dias Torres Vedras acolheu muitos cavalleiros de espora dourada, os grandes senhores territoriaes e militares do paiz.==El Rey partio de Cintra, e foy folgando por aquella comarca de Lisboa caminho de Torres Vedras (isto conta o Azurara, na Chronica de D. João I, parte 3.ᵃ, cap. 24) e antes disto chegando El-Rei a Carnide, o infante Dom Enrique que muito desejava por seu corpo fazer alguma cousa aventejada, chegou a seu padre e disse: Senhor, primeiro que por estes feitos mais vades adiante, porque com a graça de Deos vem já por tal via, que viram a boa fim, eu vos peço por mercê que me outorgueis duas cousas. A primeira que eu seja hum dos primeiros, que filhe terra quando a Deos prazendo chegarmos davante da cidade de Ceita; e a segunda que quando a vossa escada real fôr posta sobre os muros da cidade, que eu seja aquelle que vá primeiro por ella, que outro algum.
Isto disse em Carnide o infante D. Henrique a el-rei D. João; estranho requerimento para a morte na vanguarda extrema, bem natural ao forte coração do rapaz. Chegou el-rei a Torres Vedras, e logo teve uma falla com o condestavel.
Este approvou o plano e prometteu ao rei a sua influencia favoravel...
Tratou-se logo do corregimento da casa para o conselho a qual era hua sala dianteira, que está em aquelles paços de Torres Vedras, onde está a capella.
Numa quinta-feira o rei e seus filhos ouviram missa do Espirito Santo, naturalmente na egreja de Santa Maria, que era capella real.
Celebrou-se o conselho; foi elrei que publicou o fim da reunião; depois fallou o condestavel approvando a jornada, e o infante D. Duarte no mesmo sentido. Mas havia gente duvidosa, novos que temiam o risco, e criticavam o arrojado plano. Então surgiu um dito que fez época.
João Gomes da Silva, que era homem forte e ardido, cujas palavras sempre traziam jogo e sabor, levanta-se no meio dos indecisos e exclama dirigindo-se a elrei==Quanto eu, Senhor, não sei al que diga senão, ruços, alem, apontando para o sul, na direcção do Algarve d’alem mar, e isto dizia porque elrei e os mais dos que alli estavam tinham já as cabeças cheias de cans. Elrei e os mais riram-se, e assim folgando fizeram fim de suas falas==. Terminaram o conselho a rir-se, os valentes e audazes; iam para Ceuta, para a conquista africana, o inicio glorioso dos descobrimentos, para esse triumpho e sacrificio incomparavel da nacionalidade portugueza. Pois esse grito ruços, alem, ouviu-se nos paços reaes de Torres Vedras. (Azurara, parte 3.ᵃ da Chronica de D. João I, cap. 26).