MANUEL ORIBE

A presidencia de Rivera finalisou em 1834. O general Manuel Oribe foi quem lhe succedeu, por influencia do proprio Rivera que contava ter n'elle um amigo e continuador do seu systema. Com effeito Manuel Oribe tinha sido nomeado general por Rivera, e havia feito parte da precedente administração, como ministro da guerra.

Oribe pertencia ás primeiras familias do paiz. O seu espirito era fraco, a sua intelligencia acanhada, explicando-se por isso a sua alliança com Rosas, a quem se entregou totalmente, sem pensar que essa alliança trazia comsigo a perda d'essa mesma independencia pela qual tantas vezes havia combatido.

Como general a sua incapacidade era incompleta. As suas paixões tinham a violencia das organisações nervosas e arrastavam-n'o á crueldade. Como particular era um homem honesto.

Como administrador foi mais economico que Rivera e não se lhe pode censurar o ter augmentado o defficit do thesouro, e comtudo é a elle que cabe toda a responsabilidade da ruina do Estado oriental. Esquecendo que para ser chefe de partido, não é sufficiente só o querer sel-o, recusou o ficar alliado do grande partido nacional de que Rivera era chefe. Querendo formar um partido seu, excitou a desconfiança de todos e espantado pela sua fraqueza lançou-se nos braços de Rosas. Ainda que o tratado tivesse ficado secreto todos conheceram esta alliança pelas hostilidades secretas do governo contra a emigração argentina e como todos detestavão o systema de Rosas, o paiz seguiu Rivera, quando elle em 1836 se collocou á frente d'uma revolução contra Oribe.

Não obstante essa revolução em que tomou parte quasi todo o paiz, Oribe resistiu até 1838.

Oribe deixou a presidencia por renuncia feita officialmente perante as camaras e sahiu do paiz tendo pedido ás mesmas camaras licença para se retirar.

Rosas, vendo-o abandonar a sua posição, obrigou-o a protestar contra essa renuncia, e reconhece-o como chefe do paiz de que havia sido expulso. Foi o mesmo do que se Luiz Filippe, tivesse em Clermont reconhecido o duque de Bordeos como vice-rei da republica franceza.

Em Montevideo zombaram ao principio d'essa excentricidade do dictador, mas elle preparava-se para mudar esses risos em lagrimas.

A consequencia natural da conducta de Rosas era a guerra entre as duas nações.

Esta guerra foi horrivel.

Oribe, a quem alguns dos nossos jornaes, pagos por Rosas, chamaram o illustre e o virtuoso Oribe, foi ao mesmo tempo general e carrasco.

Mostremos aos leitores algumas d'essas paginas de sangue publicadas pela America do Sul, e nas quaes vem registados dez mil assassinatos.

Tomemos ao acaso alguns dos relatorios feitos a Rosas pelos seus agentes e officiaes.

O general D. Marianno Achaque serve no exercito contrario a Rosas, defende S. João e no dia 22 de agosto de 1841 rende se depois de quarenta e oito horas de resistencia. D. José Ramires official de Rosas transmitte então ao governo de S. João o relatorio official d'este successo. Copiaremos estas linhas:

Tudo se acha em nosso poder, mas com perdão e garantia para todos os prisioneiros. Entre elles está um filho de Lamadrid.

Agora leia-se o numero 2067 do Diario da tarde de Buenos Ayres, de 22 de outubro de 1841, e em opposição do documento official de José Ramires, que assegura a vida dos prisioneiros, veja o leitor o seguinte:

Desaguedero, 22 de setembro de 1841.

«O selvagem unitario Marianno Acha foi hontem decapitado e a sua cabeça exposta ao publico.

Assignado: Angelo Pacheco.»

É necessario não confundir este Pacheco, tenente de Rosas com seu primo Pacheco y Obes um dos seus inimigos mais encarniçados.

O leitor deve lembrar-se que no relatorio de Ramires se acha esta frase.

«Entre os prisioneiros está um filho de Lamadrid.»

Veja-se a Gazeta Mercantil, numero 5703, de 20 de abril de 1842 e ahi se encontrará esta carta escripta por Mazario Benavides a D. João Manoel Rosas:

Miraflore 7 de abril de 1842.

«Em um despacho precedente, dei-lhe parte dos motivos porque conservava o selvagem Gyriaco Lamadrid, mas sabendo que elle se tinha dirigido a muitos chefes da provincia para os resolver a tomar a sua defesa, mandei assim que cheguei a Rioja decapital-o, assim como o salvagem unitario Manoel Julião Frias, natural de Santiago.

Assignado: Mazario Benavides.»

Manoel Oribe á testa dos exercitos de Rosas encarregados de submetter as provincias Argentinas, derrotou, a 15 de abril de 1842, no territorio de Santa-Fé as forças commandadas pelo general João Paulo Lopes.

Entre os prisioneiros encontra-se o general D. João Martins.

Lêde esse fragmento d'uma carta d'Oribe:

«No quartel general de Banancas de Cosonda 17 de abril de 1842.—Trinta e tantos mortos e alguns prisioneiros, entre as quaes se achava João Martines a quem hontem mandei decepar a cabeça.

Assignado: Manoel Oribe.»

Se ainda tendes em vosso poder a Gazeta mercantil, vêde o numero 5903, de 20 de setembro de 1842, e ahi encontrareis um relatorio official de Manuel Antonio Saravia, empregado no exercito de Oribe.

Este relatorio contém uma lista de desasete individuos, de que um era chefe de batalhão e outro capitão, que foram prisioneiros em Numayan, soffrendo ahi o castigo ordinario da pena de morte.

Voltemos ao illustre e virtuoso Oribe, numero 3007 do Diario da tarde, onde vem o seguinte a proposito da batalha de Monte Grande.

«Quartel general no Ceibal 14 de setembro de 1841.

«Entre os prisioneiros foi encontrado o traidor selvagem unitario, ex-coronel Facundo Borda, que foi executado immediatamente, com outros pertendidos officiaes de cavallaria e infanteria.

Manoel Oribe.»

Oribe estava feliz; um traidor lhe entregou o governador de Tucuman e os seus officiaes. Eis como elle annuncia esta noticia a Rosas.

«Quartel general de Métau 3 de outubro de 1841.

«Os selvagens unitarios que me entregaram o commandante Sandoval e que são Marion, o pertendido governador general de Tucuman, Avellanieda, o pertendido coronel J. M. Villela, o capitão José Espejo, e o tenente Leonardo de Sousa, foram immediatamente executados na forma ordinaria, á excepção de Avellanieda a quem ordenei que cortassem a cabeça, sendo exposta ao publico na praça de Tucuman.

Manoel Oribe.»

Agora passemos a outro carrasco de Rosas.

«Casamarca 29 do mez de Rosas 1841. A S. Excellencia o senhor governador Arredondo.

«Depois de duas horas de fogo a infanteria foi passada á espada, e a cavallaria posta na mais completa desordem.

«O general conseguiu escapar-se pela serra de Ambaste com trinta homens, mas foi perseguido e apanhado e a sua cabeça será bem depressa exposta na praça publica, assim como já o estão as dos perteadidos ministros Gonçalves Dulce e Espeche.

«Viva a federação!

Assignado: M. Maza.»

«Lista dos selvagens unitarios pertendidos chefes e officiaes que foram executados depois da acção de 29:

«Coronel: Vicente Mercao.

«Commandantes: Modesto, Villafane, João Pedro Ponce, Damasio Arias, Manoel Lopes, Pedro Rodrigues.

«Chefes de batalhão; Manoel Riso, Santiago da Cruz.

«Capitães: João de Deus Ponce, José Salas, Pedro Araujo, Izidoro Ponce, Pedro Barros.

«Ajudantes: Damario Sarmento, Eugenio Novillo, Francisco Quinteros Daniel Rodrigues.

«Tenente: Domingos Dias.

Assignado: M. Maza.»

Apresentaremos mais esta carta de Maza, para depois voltarmos a Rosas.

«Casamarca, 4 de novembro de 1841.

«Já lhe disse que pozemos em completa desordem o selvagem unitario Cubas, e que era perseguido, esperando ter em breve em meu poder a cabeça do bandido. Foi com effeito prisioneiro no Cerro das Ambastes, e a sua cabeça está exposta na praça publica da cidade.

«Depois da acção foram feitos prisioneiros dezenove officiaes que seguiam Cubas. Não dei quartel. O triumpho foi completo.

M. Maza.»

Vejamos de passagem no Boletim de Mendonça n.o 12, esta carta escripta no campo de batalha d'Arroyo Grande e dirigida ao governador Aldao pelo coronel D. Jeronymo Costa.

«Fizemos prisioneiros mais de cento e cincoenta officiaes que foram executados immediatamente.»

Todo o fogo de artificio tem o seu ramalhete, terminaremos pelo seu ramalhete este fogo de artificio de sangue.

Prometti fallar de novo em Rosas, e vou agora cumprir a minha promessa.

O coronel Zelallaran foi morto e a sua cabeça offerecida a Rosas que passou tres horas a dar-lhe pontapés. N'esse momento soube que um outro coronel, irmão d'armas do primeiro, havia sido feito prisioneiro. No primeiro momento teve tenção de o mandar fuzillar, mas depois mudou de resolução, e condemnou-o a ter doze horas por dia, durante tres dias, essa cabeça cortada em cima de uma meza que se devia achar collocada na sua frente.

Rosas mandou fuzillar na praça de S. Nicolau alguns dos prisioneiros do general Paz.

Entre elles estava o coronel Vedela antigo governador de S. Luiz; no meio do supplicio o filho do condemnado lançou-se nos braços de seu pae.

—Fuzillae ambos, disse Rosas.

E o pae e o filho expiraram nos braços um do outro.

Rosas mandou conduzir a uma das praças de Buenos Ayres oitenta prisioneiros indios, e em pleno dia e na presença de todos os mandou matar a estocadas.

Camilla O'Gorman menina de dezoito annos e oriunda d'uma das principaes familias de Buenos-Ayres, foi seduzida por um padre de vinte e quatro, e fugiram ambos de Buenos-Ayres, refugiando-se n'uma pequena villa de Corrientes onde passando por esposos, estabeleceram uma pequena escola. Corrientes cahe em poder de Rosas, e os dous fugitivos reconhecidos por um padre e denunciados por elle a Rosas, são presos e conduzidos a Buenos-Ayres, onde sem julgamento Rosas os mandou fuzillar.

—Mas, diz alguem a Rosas, Camilla está gravida!

—Baptisae o ventre, diz Rosas, que como excellente christão, quer salvar a alma do menino.

Esta cerimonia executada, Camilla O'Gorman foi fuzillada.

Tres ballas atravessaram os braços da desgraçada mãe que os havia estendido para proteger seu filho...

Depois d'isto como diremos que a França se pronunciou em favor de Rosas?

E com effeito o tratado de 1840 assignado pelo almirante Mackan, firmou então o poder de Rosas, deixando só a republica oriental engagada na lucta.

Foi então que appareceu Garibaldi na sua volta do Rio Grande.

D'um lado Rosas e Oribe, isto é, a força, a riqueza, o poder combatendo pelo despotismo.

Do outro lado, uma pequena republica, uma cidade arruinada, um thesouro exhausto, um povo sem recursos, não podendo pagar aos seus defensores, mas combattendo pela liberdade.

Garibaldi não hesitou; e encaminhou-se para os deffensores da liberdade.

Agora abandonamos a penna para lhe deixarmos contar a historia d'esse cerco, que como o de Troia, durou nove annos.