GODOFREDO MAMELI

Garibaldi conta nas suas Memorias e na curta biographia que fez de Mameli que o joven poeta na noite de 3 de junho veiu pedir-lhe de tentar um novo esforço sobre o casino Corsini e que elle lhe concedeu o pedido.

Mameli foi ferido na perna esquerda.

A ferida por si não era nada, mas por uma má disposição do sangue, gangrenou em 18 de junho, e tornou-se indispensavel a amputação.

A janella da camara de Mameli na ambulancia da Trinitá dei Pellegrini, dava sem cessar passagem a toda a especie de projectis; mas Mameli mostrou-se sempre indifferente a este perigo posthumo e póde-se assim chamar. Só no momento em que estava mais enfraquecido pela suppuração elle se tornou um ou dois dias impaciente pelas balas como uma creança pelas moscas.

—Ser morto em pleno ar combatendo, embora; mas morto no meu leito como um paralytico, não!

No dia 8 de junho delirou, delirio encantador durante o qual elle cantava em voz baixa, e se recordava quasi dia por dia da sua vida intellectual—pobre moço!—tão bella e tão curta.

Nos intervallos destes cantos prophetisava ou fazia votos pela sua patria.

Tinha vinte e um annos quando morreu.

Injectei o seu cadaver, que foi enterrado em Roma.

Tinha composto um canto de guerra, que Garibaldi cantava muitas vezes e entoava sem cessar; Fratelli de Italia.

Este canto é popular na Italia.

BERTANI

FIM DO 2.o E ULTIMO VOLUME


[1]. O leitor não conhece ainda estes tres outros martyres da liberdade italiana, mas bem depressa tomará conhecimento com elles. Garibaldi que não escrevia as suas memorias para serem impressas, falla d'alguma sorte mais comigo do que com os leitores.

A. D.

[2]. Não estou escrevendo um romance, estou publicando Memorias. Vejo-me pois forçado a traduzir textualmente. Não nego nem affirmo, instruo um processo diante d'esse grande e ultimo juizo que se chama a Verdade.

[3]. A campanha de 1859 e a expedição da Sicilia provam que Garibaldi tinha razão.

[4]. Eis aqui como o historiador Vecchi, um dos mais corajosos defensores de Roma descreve este combate:

«Nós estavamos cerrados na villa Spada, onde sustentavamos um horrivel fogo de mosquetes e carabinas: Começavam a faltar-nos as munições, quando o general Garibaldi appareceu com uma columna de legionarios e alguns soldados do 6.o regimento de linha, commandados por Pazi, decidido a dar um ultimo golpe, não para salvação, mas para honra de Roma. Reunidos aos nossos companheiros, lançamo-nos sobre a brecha, ferindo com lanças, espadas e bayonetas: a polvora e as ballas faltavam. Os francezes espantados d'este terrivel choque recuaram logo; mas outros vieram, ao mesmo tempo que a artilheria apontada sobre nós começava a levar-nos filas inteiras. O recinto Aureliano foi tomado e retomado; não havia ahi nem logar onde pousar o pé a não ser sobre algum morto ou ferido. Garibaldi, durante esta noite, foi maior do que eu nunca o vira, maior que nunca ninguem o vio. Sua espada era um raio; cada homem ferido era um morto. O sangue de um novo adversario lavava o sangue do que acava de cair. Tel-o-hiam chamado Leonidas nas Termophylas, Ferracio no castello da Gavissana. Eu tremia de o ver cair de um a outro instante; mas não; ficou de pé como o destino.»


Nota do Transcritor

Pontuação e hifenização foram normalizados.

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1860. A ortografia originais foi mantida com exceção de alguns erros óbvios.