EMILIO MOROSINI

Estavamos em redor do leito de Manara, perguntando o destino dos nossos mais charos amigos, e entre outros d'Emilio Morosini.

Mas n'este dia foi impossivel saber nada de positivo a seu respeito.

Na manhã do 1.o de julho Dandolo soube de um soldado que se havia achado na brecha ao mesmo tempo que Morosini, que elle havia cahido gravemente ferido nas mãos dos francezes.

Apesar de soffrer muito da sua ferida, Dandolo correu ao triumvirato, depois ao ministerio para obter permissão de sahir. Depois de tres horas de instancia, obteve-a e correu ao campo dos francezes sem salvo-conducto de qualidade alguma.

Sustido nos postos avançados, disse o fim a que ia. Um official teve piedade de sua angustia e lhe permittiu de penetrar no campo, onde o conduziram á ambulancia. Soube que Morosini havia morrido.

Pediu que lhe entregasse o cadaver para o entregar á sua familia; mas um medico respondeu que havia duas horas que o haviam levado para um cemiterio muito affastado. Dandolo sollicitou uma ordem de exhumação.

Em quanto esperava a resposta ao seu pedido, entrou um capitão ajudante do estado-maior, que ficou muito admirado de ver no campo francez um official italiano sem salvo-conducto. Condemnou a prisão o official que o deixára passar, e mandou-o para a linha dos postos avançados sem nada querer ouvir.

Dandolo volveu a trazer a triste noticia aos seus amigos, e escreveu ao chefe do estado maior francez para pedir a permissão da exhumação.

Obteve-a na manhã de 2.

A triste ceremonia do transporte de Manara estava acabada quando Dandolo se aproximou de mim dizendo:

—Bertani, d'aqui a algumas horas o cadaver de Morosini estará na egreja dos Cem Padres, em Santa Vieto, onde poderás vêl-o.

Fui á egreja um pouco antes da noite. A casa ou antes o convento que confinava com a egreja, estava occupada pelos francezes, de sorte que a egreja estava fechada.

Pedi permissão de entrar a um capitão, que vendo a profunda tristesa espalhada em meu rosto, me perguntou affectuosamente se eu era soldado, qual a minha patria, e se havia perdido algum parente ou amigo.

Respondi-lhe que havia perdido muitos amigos, e entre outros Manara. Conhecia-o de nome, e pediu-me pormenores sobre sua morte, e tambem me deu alguns.

Um caçador de Vincennes, que estava perto d'elle no ataque de Spada, e que elle me mostrou no meio de um grupo de soldados ao pé da porta onde estavamos, lhe dissera no momento em que Manara se approximara da janella com o seu oculo:

—Olhae bem este official, está morto.

Ao mesmo tempo o soldado havia atirado: a balla chegara ao seu destino; e elle havia visto cair Manara.

O capitão continuava a fallar; eu estava tão triste que não lhe pude responder senão pedindo-lhe que me deixasse entrar na egreja.

—Que ides ahi fazer? me perguntou elle.

—Vou procurar o cadaver de outro amigo, desenterrado hoje mesmo e entregue pelos vossos á dôr de sua mãe.

Mandou pedir permissão ao coronel, obteve-a, e confiou-me ao guardião da egreja para que me deixasse entrar.

A egreja estava escura; o guardião abriu uma pequena porta que conduzia do convento ao côro da egreja, deu-me uma lampada e apontando-me um canto sombrio disse-me:

—Procurae ahi.

Mas elle não quiz seguir-me mais ávante.

Approximei-me triste e piedosamente, com um tremor em todas as veias.

Este silencio, estas trevas, o duvidoso clarear da lampada, o precioso objecto de minhas investigações, a angustia de encontrar assim o encantador mancebo que eu conhecera vivo, tudo isto me fazia pulsar fortemente o coração.

Caminhava lentamente, não conhecia aquelles lugares, sem saber onde estava collocado o corpo, levantando a lampada e tremendo de o tocar com o pé.

Emfim perto dos degraus descobri uma fórma negra e longa.

Reconheci um corpo humano.

Quasi louco de dôr, e de um horror que eu não dominava, inclinei-me sobre elle.

Oh! triste! triste! triste!

Com a mão que me ficava livre, desatei a corda que ligava o lençol ao pescoço, ao ventre e aos pés. Levantei a cabeça. Ainda que já desfigurado, reconheci que era o pobre moço que eu procurava.

Larguei-lhe a cabeça.

Ella cahiu sobre a lagea imprimindo-lhe um som que eu nunca esquecerei.

Não havia em mim um cabello que não tivesse a sua gota de suor.

Parei tremendo.

Meu Deos, como vós sois grande, e como a morte é horrivel!

Fiz um exforço sobre mim. Medico habituado á morte, não queria ser por ella vencido.

Pousei a lampada sobre um dos degraus do altar, volvendo os olhos para o rosto do morto, olhando-o tristemente: estava mais pallido que o panno que o cobria.

Procurei e toquei suas feridas. Teria querido guardar as ultimas gotas de sangue de seu coração para as levar a sua mãe, e para fazer com este sangue uma cruz sobre o rosto de todos os jovens italianos, que um dia devem levantar-se para o libertamento da sua patria.

Cortei uma madeixa de seus cabellos. Talvez elle tivesse um amigo: com certesa tinha uma mãe.

Emfim apertei-lhe a mão; descobri uma derradeira vez a minha cabeça ante elle e murmurei:

—Até á vista!

Sahi transido da egreja, levando este espectaculo de morte exactamente copiado em mim, que hoje, onze annos depois escrevendo estas linhas, vejo ainda o cadaver, a figura pallida, no seu lençol todo cheio de terra e sangue.

Sahindo encontrei o guarda, depois o official, ao qual apertei a mão sem poder pronunciar uma palavra.

No dia seguinte o cadaver de Morosini foi deposto n'um caixão de chumbo, esperando o momento da partida para o solo natal com os cadaveres dos seus inimigos.

Todos nós desejavamos com egual ardor ter pormenores sobre a morte de Morosini; mas os mais eram obrigados a partir. Ficavam só os mortos, e os que ajudavam os feridos a morrer.

Eu era dos ultimos.

Eis aqui, pois o que soube sobre a morte de Morosini. Colhi estes pormenores que vou dar de mr. de Santi, corso empregado no serviço sanitario dos francezes, e que na noite de 29 a 30 de junho era cirurgião na ambulancia do fosso.

Este honrado e bom confrade, ao qual sou devedor de alguns serviços, me contou que a 30 de junho ao raiar d'alva trouxeram a ambulancia um dos nossos officiaes, tão joven e tão bello que elle o tomou por uma mulher.

Estava levemente ferido na testa, na mão esquerda e no peito, mas mortalmente no ventre.

De Santi o havia tratado com affeição.

Morosini que ainda fallava, perguntou-lhe:

—Que pensaes das minhas feridas?

De Santi respondeu:

—Tende confiança em Deus e na vossa mocidade.

—Está bom, disse Morosini; comprehendo, estou perdido!

Depois ajuntou com um suspiro:

—Pobre mãe!

Entregou uma carteira ao douctor, volveu a cabeça, e recusou desde então pronunciar mais uma só palavra.

Poucos minutos depois de Morosini ter sido curado, um velho sargento do 32.o entrou na ambulancia, e depois de ter anciosamente procurado o leito do joven official, disse ao medico.

—É elle!

—Que quereis dizer? lhe perguntou de Santi.

—Que a lodo o custo queria salvar este pobre moço; tenho feito tudo o possivel. Mas não, isto foi mal para elle.

Então elle contou que Morosini, acompanhado sómente de quatro homens tinha sido cercado; tinham-lhe intimado que se rendesse, ao que elle respondêra:

—Nunca!

E continuou a ferir com sua espada gritando aos seus:

—Em nome da Italia prohibo-vos de vos renderdes!

O velho sargento então lhe havia apontado a bayoneta ao peito para o intimidar; mas Morosini segurou-a com a mão esquerda, e descarregou um golpe sobre a cabeça do sargento.

Este entretanto prohibia aos soldados de fazerem fogo, esperando aprisionar vivo o mancebo e portanto salval-o. Mas então um soldado que se achava atraz d'elle vendo que Morosini continuava a defender-se atirou-lhe um tiro.

A bala atravessou-lhe as entranhas; era a ferida mortal. Morosini cahiu, mas sobre um joelho e a mão esquerdo. N'esta posição ainda tentou ferir seus adversarios gritando sempre a seus companheiros:

—Fazei-vos matar, mas não vos rendaes!

O sargento furioso voltou-se para o soldado dizendo:

—Desgraçado! que fizeste? Não vês que era uma creança?

Morosini morreu algumas horas depois de ter sido levado á ambulancia, e foi envolvido no lençol em que eu o achára na egreja dos Cem Padres.

Morosini tinha á cintura duas pistollas, na coronha das quaes estava gravado o nome de Koscinsko, amigo de sua familia, e que d'ellas fizera presente a seu avô.

Fiz todas as diligencias possiveis para encontrar essas pistollas e a espada, mas inutilmente. Parece que o velho sargento as possuia, mas declarou não as dar por preço algum.

A 4 de setembro de 1849 os tres feretros que encerravam os cadaveres de Henrique Dandolo, de Lucianno Manara e de Emilio Morosini desembarcaram no Molo-Novo de Genova.