LUCANO MANARA

A 30 de junho ás 2 horas da manhã começou como se viu nas memorias do general, o ataque do recinto Aureliano, nossa segunda linha de defensa.

Manara pelas 3 horas da manhã reentrou na villa Spada; acabava de collocar os seus atiradores.

Na vespera uma balla de peça depois de haver batido na muralha cahira sobre seu leito.

Elle se tinha desviado para lhe dar logar, e rindo, dissera:

—Vereis que não terei a sorte de apanhar uma arranhadura.

Entrando achou Emilio Dandolo muito inquieto por causa de Morosini que diziam prisioneiro.

Nem um nem outro sabiam noticia alguma a tal respeito.

N'este momento uma balla de recochete feriu Dandolo no braço.

—Por minha fé, meu pobre rapaz, parece que não ha d'isso senão para ti!

Depois desatando o cinturão e deixando a espada, tomou um oculo de observação e veiu á janella para olhar os soldados francezes que apontavam uma peça.

No mesmo instante, partiu um tiro de carabina; a bala passou entre dois sacos de terra e feriu-o no ventre justamente no logar que o cinturão teria protegido se elle o conservasse.

Dandolo viu-o tremer, e ferido como estava, aproximou-se para o suster:

—Estou morto, disse Manara, recommendo-te meus filhos.

Veiu um medico; mas vendo-o pallidecer o ferido comprehendeu que tudo havia terminado.

Collocaram Manara n'uma paviola, e no meio do fogo os seus companheiros o levaram a Santa Maria della Scala. Foram chamar-me á ambulancia dei Pellegrini onde eu estava; corri. Era elle que tinha querido que o levassem junto a mim. Ai de mim, estimavamo-nos ternamente!

A praça estava atulhada de projectis.

Uma joven que havia tido a imprudencia de chegar a uma janella, acabava de ser ferida no peito e morta instantaneamente.

M. Varenna, official lombardo, ficou com a perna quebrada por um obuz, quando ia a subir os degraus da egreja para se aproximar de mim.

Ia, como eu, vêr Manara.

Um medico tambem corria para a egreja. Uma granada o prostou do cavallo; e um instante depois o cavallo ferido de egual golpe cahia sobre elle.

Eu chegava são e salvo; conduzia-me Deus!

Ao fundo da egreja, á direita, perto da balaustrada, estava um leito rodeado pelos officiaes da legião Manara.

Logo que o ferido me viu estendeu a mão para mim, e com voz fraca perguntou-me:

—É mortal?

A mocidade repellia apezar da evidencia a idéa da morte.

Vendo que eu lhe não respondia repetiu:

—Pergunto-te se a minha ferida é mortal; responde-me!

E sem esperar a resposta, prorompeu em palavras cheias de pesares e de saudades.

Animei-o tanto quanto o póde fazer um homem a quem a coragem falta; entretanto elle viu bem que eu não tinha esperança.

Muitos medicos se aproximaram d'elle, mas fazendo-lhe signal com a cabeça para se affastarem:

—Deixae-me morrer tranquillo! lhes disse elle.

Seu pulso quasi se não sentia, as extremidades estavam frias, as feições profundamente alteradas, e o sangue corria a golphadas da ferida.... soffria horrivelmente.

Seus companheiros perguntaram-me o que eu pensava do seu estado.

—Tem ainda pouco mais ou menos uma hora de vida, disse eu a Dandolo.

Então o mancebo inclinando-se ao ouvido do seu amigo:

—Pensa no Senhor! lhe disse elle.

—Oh! penso, e muito! respondeu Manara.

Depois accenou a um barbadinho para que viesse. O frade approximou-se do leito, escutou a confissão do moribundo e deu-lhe a absolvição.

O nosso pobre amigo então pediu o Viatico.

Dandolo exforçava-se em consolal-o o melhor que podia, fallando-lhe em Deus.

Elle o interrompeu para lhe fallar de seus filhos.

—Educa-os, lhe disse elle, no amor de Deos e da patria.

Depois accrescentou:

—Conduz a Milão o meu corpo com o de teu irmão. Causa-te pena que eu morra, meu charo amigo, disse elle; ai de mim! tambem eu choro a vida!

Chamou então para seu lado um soldado que era sua ordenança, e que bastantes vezes tinha feito enraivecer.

—Tu perdoas-me não é assim? lhe disse elle sorrindo.

Depois perguntou a Dandolo se tinha havido noticias de Morosini.

Dizia-se vagamente que elle estava prisioneiro.

Um pouco antes de morrer, Manara tirou um annel do dedo, metteu-o no de Dandolo, e disse:

—Saudarei teu irmão por ti:

E virando-se para mim:

—Ó Bertani! faz-me morrer depressa, disse elle; soffro muito!

Foi a ultima queixa que sahiu de sua boca.

Entrou em agonia, agarrou-se convulsivamente aos que o cercavam, depois recahiu no leito, com um suspiro, immovel e frio.

Puz-lhe a mão sobre o coração; battia ainda, mas lentamente: pouco a pouco as pulsações cessaram.

Sua alma está já no Ceu.

Eu disse então aos monges que nos rodeavam de me prepararem uma solução arsenical para injectar o cadaver, mas não havia arsenico. Contentei-me de fazer a injecção com sublimado corrosivo. O cadaver foi transportado para uma camara, á direita do altar mór, perto da sachristia, e ali deposto levemente, vestido do seu uniforme, e com a cabeça apoiada n'uma almofada.

Seu joven amigo Eleuterio Pagliano que durante todo o cerco tinha valentemente combatido, e que é hoje um dos mais distinctos pintores lombardos, fez o seu retrato.

Perto d'elle, deitado sobre uma prancha estava Aguyar, o negro de Garibaldi: Mirava eu estes dois cadaveres tão bellos, e de tão differente bellesa, quando ouvi soluçar atraz de mim.

Era Ugo Bassi que chorava.

Todo o tempo que estivemos n'esta camara, parecia ella ser o alvo dos projectis francezes.

No seguinte dia foi o cadaver transportado a uma casa e d'alli á egreja de S. Lourenço. Depois do que foi deposto na egreja dos Cem Padres, onde o esperava o corpo de Henrique Dandolo e onde devia juntar-se o de Morosini.

No proprio dia da morte de Manara chegava uma carta de sua esposa contendo estas sós palavras:

«Não penses em mim nem em teus filhos, pensa só na patria.»

Pobre mulher! a morte estava encarregada de lhe levar a resposta.