TERCEIRO CORPO DE TROVAS DO BANDARRA.

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Forão tambem achadas estas Trovas, que se seguem na Igreja de S. Pedro da Villa de Trancoso por occasião de se desfazer a parede da Capella mór em 6 de Agosto do anno de 1729.; erão escriptas em pergaminho em 1532 por letra do P. Gabriel João, da dita Villa de Trancoso, e vizinho do mesmo Bandarra. Domingos Furtado de Mendonça, Commissario do Santo Officio lançou logo mão dellas, mas naõ faltarão pessoas graves, e de qualidade, que as trasladarão, e deixarão a seus filhos.

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INTRODUCÇÃO.

I.

Em vos que haveis de ser quinto
Depois de morto o segundo,
Minhas Profecias fundo
C'o estas letras, que aqui pinto.

II.

Inda o tronco está por vir,
Ja vos vejo erguido cedro:
Pouco vai de Pedro a Pedro
Se a rama o tronco medir.

III.

Fiz Trovas de ferro, e prata
Dignas de qualquer thesouro,
Hoje quanto faço he ouro
Que em vós, Senhor, se remata

IV.

Naõ conto çapatarias
Que n'outros tempos sonhei,
O que agora contarei
Saõ mais altas Profecias.

V.

A giesta naõ se trosse,
Muito amarga o sargaço:
Tudo quanto agora faço
São bocados de herva doce.

VI.

Faço Trovas muito inteiras
Versos mui bem medidos,
Que hão de vir a ser cumpridos
Lá nas eras derradeiras.

VII.

Eu componho, mas naõ ponho
As letrinhas no papel,
Que o devoto Gabriel
Vai riscando, quanto eu sonho.

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SONHO PRIMEIRO.

VIII.

Vejo, mas naõ sei se vejo;
O certo he, que me cheira,
Que me vem honrar á Beira
Um Grande do pe do Tejo.

IX.

Formas, cabos, e sovelas
Lavradinhas com primor
Mandareis abrir, Senhor,
Muitos folgarão de vê las.

X.

Mas ai! que ja vejo vir
O Presbytero maior
Arriscar todo o primor
Que outra vez hade surgir.

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SONHO SEGUNDO.

XI.

Augurai, gentes vindouras
Que o Rei que daqui ha de ir,
Vos ha de tornar a vir
Passadas trinta tizouras.

XII.

O Pastorzinho na serra
Grita que tenhão cuidado,
Que se vai perdendo o gado
Por mais que gritando berra.

XIII.

Desamparar o cortiço
Uma abelha mestra vejo;
As outras com muito pejo
Não tem azas pera isso.

XIV.

Irão tempos de lazeiras
Virão tempos de farturas
Os frades haverão tristuras
Por acudirem as freiras.

XV.

Este sonho que sonhei
He verdade muito certa,
Que la da Ilha encuberta
Vos hade chegar este Rei.

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SONHO TERCEIRO.

XVI.

Sonhei, que estava sonhando,
Que passados cem Janeiros
Os Portuguezes primeiros
Se levantarão em bando.

XVII.

Ergue se a aguia Imperial
Com os seus filhos ao rabo,
E com as unhas no cabo
Faz o ninho em Portugal.

XVIII.

Põe um A pernas acima,
Tira lhe a risca do meio,
E por detraz lha arrima,
Saberás quem te nomeio.

XIX.

Tudo tenho na moleira
O passado, e o futuro,
E quem for homem maduro
Ha de me dar fe inteira.

XX.

Vejo sem abrir os olhos
Tanto ao longe como ao pérto;
Virá do mundo encuberto
Quem mate da aguia os polhos.

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SONHO QUARTO.

XXI.

Lá pera as partes do Norte
Vejo como por peneira
Levantar uma poeira
Que nos ameaça a morte.

XXII.

Vosso grande Capitão,
Ó povo errado, e perverso,
Já caminha com o terço,
E vós dormindo no chão?

XXIII.

Na era que eu nomear
Terá fim a heregia;
Verás certa a Profecia,
Se bem souberes contar.

XXIV.

Poe[m] tres tizouras abertas,
Diante um linhol direito,
Contaras seis vezes cinco,
E mais um, vai satisfeito.

XXV.

Muito rijo bate o vento
Na parede da Igreja;
Alguem cahida a deseja,
No levantar vai o tento.

XXVI.

Mas ai! do calçado a obra
Logo requer o salario;
Porem naõ ha muita sobra
Se naõ dobra o campanario.

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SONHO QUINTO.

XXVII.

Vejo, vejo, dizer vejo
Andar a terra ao redor;
E o borborinho com dor
Revolve um, e outro sexo.

XXVIII.

Rugia a porca do sino,
O sino naõ badalava,
A grimpa se revirava,
E o sino andáva a pino.

XXIX.

Meto a sovela nas viras,
E vejo pelo buraco
Os ossos de Pedro Jaco
No penedo das mentiras.

XXX.

Que bellamente que soão
As Profecias direitas!
Depois que forem perfeitas
Verão que a terra povoão.

XXXI.

Doutos, e sandeos conhecem
Pelo volver das estrellas
Puras verdades mui bellas,
Que inda os Judeos naõ merecem.

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SONHO SEXTO.

XXXII.

Quando o sonho he verdadeiro
Dá se uma lei muito clara:
Sonho agora, que uma vara
Vai dando luz a um outeiro.

XXXIII.

O outeiro he Portugal,
E a vara Castelhana;
Da minha pobre choupana.
Vejo esta vara Real.

XXXIV.

Dará fruto em tudo santo,
Ninguem ousará a negalo,
O choro será regalo
E será gostoso o pranto.

XXXV.

Bem cuido, que ja vem perto
O fim destas Profecias;
Passarão tresentos dias
Depois de eu ser descuberto.

XXXVI.

Em dous sitios me achareis
Por desdita, ou por ventura,
Os ossos na sepultura,
E a alma nestes papeis.

XXXVII.

Naõ ha pedra sobre pedra,
Quando eu aqui for achado,
E as letrinhas do Letrado
Ha tresentos annos queda.

FIM.

End of Project Gutenberg's Trovas do Bandarra, by Bandarra Gonçalo Anes