TROVAS NUNCA IMPRESSAS.
II. PARTE.
SEGUNDO CORPO DE TROVAS DO BANDARRA.
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Estas Trovas naõ vem no antecedente Exemplar impresso, mas consta por antiga memoria muito authentica serem do mesmo Bandarra: forão extrahidas de uma copia, que o Cardial Nuno da Cunha deu ao P. Fr. Francisco de Almeida. Provincial, que foi da Ordem dos Heremitas de Santo Agostinho, Provisor do Priorado do Crato, da Casa dos Condes de Avintes, e tio do Cardial D. Thomas de Almeida, primeiro Patriarcha de Lisboa.
I.
Levanteime muito cedo,
Puz me na minha tripeça,
E lá de lonje começa
Um bramido, que poem medo.
II.
Vão todos como forçados,
Passão serras, e mais montes.
Secão se rios e fontes,
Tudo por nossos pecados.
III.
Furo co'a minha sovéla
Meto seda meto fio:
Quando far a neve, e frio,
Naõ há quem possa soffrê la.
IV.
Vejo a terra dezerta,
E parades levantadas:
Vou dando quatro pancadas
Na sola, quando se aperta.
V.
Vejo a guerra na paz,
E muitos morrer no fosso:
Foje o cavallo, e o mosso
Depois que o soldado jaz.
VI.
Entre montes muito altos
Há uma casa sagrada:
Ja naõ quero ver mais nada,
E vou batendo os meus saltos.
VII.
Arranha me o gato? sape:
Olho outra vez da ladeira,
Deita se o cordão á geira,
Não acho poronde escape.
VIII.
Com o trinchete aparo a sola
Furando com bróca a vira:
Isto he que meu gosto aspira
Pois vejo o jogo da bola.
IX.
Estão muitos páos armados
Que lá de longe se vem;
A quem naõ parecer bem,
Perca o officio, e meta os gados.
X.
Com o cerol encero o linho;
Puxo com torquez o couro;
Gasta se todo o thesouro
Pera abrir novo caminho.
XI.
Quando falho aos meus fregueses
Ficão descalços com magoa:
Naõ saõ os reaes pera a agua
Que se botarão nas rezes.
XII.
Vejo posta toda a gente
Trabalhando, sem comer:
Vejo os mortos a correr,
E os vivos jazer somente.
XIII.
Trabalha todo o sandeo,
E tambem o nobre serve;
Na certã a carne ferve
Pera Mouro, e Judeo.
XIV.
O pobre morrendo á mingua;
Outros tem a arca cheia;
Chove na praça, e na areia,
Como agua de seringa.
XV.
Vou botando o meu remendo
Em quanto o Senhor se veste,
Uma terra assas agreste.
Estou entre serras vendo.
XVI.
Nove letras tem o nome
Duas saõ da mesma casta:
Olhe qualquer como o gasta
Pera naõ morrer de fome.
XVII.
Na era de dous, e tres
Depois e tres conta mais
Haverá couzas fataes,
Vistas em nenhuma vez.
XVIII.
Haverá tantos trabalhos,
Gritos, surras barregadas,
Porem ja sinto as pizadas
Lá pera a banda dos malhos.
XIX.
O povo suspira, e brama
Debaixo do seu chapeo;
Naõ se enxerga mais que o Ceo
Quando a neve se derrama.
XX.
Vejo por entre dous cabos
O couro que vou cozendo;
Ja após outros vou vendo
Muitos mareantes bravos.
XXI.
Ja na carreira primeira
Entra a bandeira Real,
Ah! Portugal! Portugal!
Ja lá vai tua canceira.
XXII.
Dará a serpe tal Brado
Do ninho que jaz, e tem
Quando vir que outrem lhe vem
Tirar da vinha o cajado.
XXIII.
Deixa os filhos mui depressa,
E outrem lhos guarda, e cria;
Vai caminhando sem guia,
Larga a corrôa da cabeça.
XXIV.
Subo me a o meu eirado,
Já naõ sinto matinada,
Fica a terra socegada
O Encuberto declarado.
XXV.
Abre se a porta do Templo,
Entra o cordeiro fiel,
Veste da casa o burel,
Dá a todos grande exemplo.