TROVAS DO BANDARRA.
* * * * *
DEDICATORIA DO AUTHOR
A Dom João de Portugal Bispo da Guarda.
Illustrissimo Senhor,
De Virtudes mui perfeito,
Vós deveis de ser eleito
De todas as Leis dador.
Deos vos deu tanto primor,
Que não se acha em vossa marca
Mais subido Patriarcha,
De nobre Gente Pastor.
Determinei de escrever
A minha çapataria:
Por ver Vossa Senhoria
O que sahe de meu cozer.
Que me quero entremeter
Nesta obra, que offereço
Porque saibão o que conheço,
E quanto mais posso fazer.
Sahirá de meu cozer
Tanta obra de lavores,
Que folguem muitos Senhores
De a calçar, e trazer.
E quero entremeter
Laços em obra grosseira,
Quem tiver boa maneira
Folgará muito de aver.
Cozo com linho assedado,
Encerado a cada ponto;
Cozo meudo sem conto,
Que assim o quer o calçado.
Se vier algum avizado
Requerer algumas solas,
Eu as corto sem bitolas,
E logo vai sobresolado.
Tambem sou official:
Ás vezes cozo com vira,
E sei bem como se tira
O ganho do cabedal.
Se vier algum zombar
Fazer me qualquer pergunta,
Dir lhe hei, como se ajunta
A agulha com o dedal.
Minha obra he mui segura
Porque a mais he de correia,
Se a alguem parecer feia,
Naõ entende de costura.
Eu faço obra de dura,
E não ando pela rama,
Conheço bem a courama,
Que conve[m] á creatura.
Sei medir, e sei talhar,
Semque vos assim pareça:
Tudo tenho na cabeça,
Se o eu quizer usar.
E quem o quizer grozar,
Olhe bem a minha obra,
Achará, que inda me sobra
Dous cabos pera ajuntar.
Sempre ando occupado
Por fazer minha obra boa,
Se eu vivera em Lisboa,
Eu fôra mais estimado.
Contente sou, e pagado
De lançar um so remendo,
Indaque estem remoendo,
Não me toquem no calçado.
SENTE BANDARRA AS MALDADES DO MUNDO, E PARTICULARMENTE AS DE PORTUGAL.
* * * * *
I.
Como nas Alcaçarias
Andão os couros ás voltas,
Assim vejo grandes revoltas
Agora nas Clerezias.
II.
Porque usão de Simonias
E adorão os dinheiros,
As Igrejas, pardieiros,
Os corporaes por mais vias.
III.
O sumagre com a cal
Faz os couros ser mociços,
Ah! quantos ha máos noviços
Nessa Ordem Episcopal.
IV.
Porque vai de mal a mal
Sem ordem nem regimento,
Quebrantaõ o mandamento,
Cumprem o mais venial.
V.
Tambem sou Official
Sei um pouco de cortiça
Não vejo fazer justiça
A todo o Mundo em geral.
VI.
Que agora a cadaqual
Sem letras fazem Doutores,
Vejo muitos julgadores,
Que não sabem bem, nem mal.
VII.
Borzeguins pera calçar
Haõ de ser de cordovães,
Notarios, Tabaliães
Tem o tento em apanhar.
VIII.
Vêlos heis a porfiar
Sobre um pobre seitil,
E rapar vos por um mil
Se volos podem rapar.
IX.
Tambem sei algo brunir
Quaesquer laços de lavores:
Bachareis, Procuradores
Ahi vai o perseguir.
X.
E quando lhe vão pedir
Conselho os demandões,
Como lhe faltão tostões,
Não os querem mais ouvir.
XI.
Há de ser bem assentada
A obra dos chapins largos,
A linhagem dos Fidalgos
Por dinheiro he trocada.
XII.
Vejo tanta misturada
Sem haver chefe que mande;
Como quereis, que a cura ande,
Se a ferida está danada?
XIII.
Tenho uma gentil sovela,
Com que cozo mui direito:
Se a mulher não desse geito,
Não olharião pera ella.
XIV.
Em que seja uma donzella
Nobre, casta e oradora
Ella he a causadora,
Do que acontecer por ella.
XV.
Sei tambem mui bem cozer
Uns borzeguins Cordovezes;
Todos os trajos Francezes
Quemquer os quer ja trazer.
XVI.
Os que não tem que comer
Fazem trajos mui prezados,
Ficão pobres, Lazarados
Por outros enriquecer.
* * * * *
SONHO PRIMEIRO,
Que finge a modo Pastoril.
XVII.
Vejo, vejo; direi, vejo,
Agora que estou sonhando,
Semente d'el Rei Fernando
Frazer um grande despejo.
XVIII.
E seguir com grão desejo,
E deixar a sua vinha,
E dizer esta casa he minha
Agora que cá me vejo.
XIX.
A cerca dos Grecianos
Corrê la hão os Latinos,
Serão contrarios os signos
A todos os Arrianos.
XX.
Tambem os Venezianos
Com as riquezas que tem,
Virá o Rei de Salem
Julgá los ha por mundanos.
XXI.
Ja os lobos são ajuntados
Dalcatea na montanha,
Os gados tem degolados,
E muitos alobegados,
Fazendo grande façanha.
XXII.
O Pastor mor se assanha:
Ja ajunta seus ovelheiros,
E esperta sua companha
Com muita força, e manha
Correrá os pegureiros.
XXIII.
Depois ja de apercebidos,
E as montanhas salteadas
Por homens muito sabidos,
E pastores mui escolhidos,
Que sabem bem as pizadas.
XXIV.
Armar lhe hão nas passadas
Trampas, cepos de azeiros,
Atalaias nas estradas,
E béstas nas ameijoadas
Com tiros muito ligeiros.
* * * * *
FIGURAS DO SONHO.
XXV.
Virá o Grande Pastor,
Que se erguerá primeiro,
E Fernando tangedor,
E Pedro bom bailador,
E João bom ovelheiro.
XXVI.
E depois um Estrangeiro,
E Rodoão que esquecia,
E e o nobre pastor Garcia,
E Andre mui verdadeiro:
Entraraõ com alegria.
PASTOR MOR.
XXVII.
Aquella vacca, que berra,
Porque está assim berrando?
ANDRE.
XXVIII.
He porque desce da serra,
Não conhece bem a terra,
E por isso está bramando.
XXIX.
Esta he a vacca, Fernando,
Mai do grão touro fuscado,
Que não se acha neste bando,
Tem razão de estar berrando,
Que não sabe onde he lançado.
PASTOR MOR.
XXX.
Ajunte se o vaccum
Aqui neste verde prado,
E tambem o ovelhum,
E conte o seu cadaum,
Ver se ha a quem falta gado.
PEDRO.
XXXI.
Todo ja tendes contado,
Do vaccum achamos menos;
Um touro esmadrigado,
E um fusco, que era rozado;
Do ovelhum nada sabemos.
PASTOR MOR.
XXXII.
Oh! que dor do coração!
Oh! que dor! Oh! que pezar!
Oh! que grão tribulação!
Arredemos a paixão,
Pois se não pode cobrar.
XXXIII.
Seus filhos devemos criar,
Os quaes mui bem guardaremos,
Ficaraõ em seu lugar,
Tudo lhe havemos de dar
Pelo bem, que lhe queremos.
XXXIV.
Por honra de tal memoria
Não haja aqui mais tristura,
Antes cantemos com gloria,
Que fique sempre em memoria
Approvando a Escriptura.
XXXV.
Pois se cumpre a figura,
E nós outros bem o vemos:
Pois que ja tudo se apura,
Ao Senhor da altura
Com prazer mil graças demos.
XXXVI.
Tanja se a frauta maior,
Ajunta se todo o rebanho,
E eu como vosso Pastor,
Com mui grão sobra de amor
Vamos a partir o ganho.
XXXVII.
Tudo nos he sufraganho
Montes, valles, e pastores,
E repunhão os bailadores,
Que não entre aqui estranho.
XXXVIII.
Fernando tanja a guitarra,
Tu, João, o arrabil,
Pouza teu surrão, e vara,
Alegra bem tua cara
Em tal bailo pastoril.
XXXIX.
E Pedro, que he mais subtil
Entre, e baile com Florença,
Jaque he dama gentil,
He mui bem que lhe pertenca.
XL.
Andre baile com Paschoala,
E venha apos a primeira,
Antes de meter mais falla
Entre, e baile esta Zagala,
Em que sempre he referteira.
XLI.
Sempre foi mui agoureira
Com os estranhos dançar
E pois está tão cantadeira,
Não seja ella a derradeira,
Venha logo a bailar.
XLII.
Ha de ser mui de louvar
Este auto, que aqui temos,
E a todo o que bailar
Hão lhe mui bem de pagar,
E assim lho promettemos.
XLIII.
Sus! antes de mais estremos
Baile Fernando, e Constança,
E poisque tudo ja vemos,
Pelo bem que lhe queremos
Seja elle o mestre de dança.
XLIV.
João, o bom Ovelheiro,
Sempre foi nobre Pastor,
Não se conte derradeiro,
Pois he igual ao primeiro,
Este baile com Leonor.
XLV.
Sempre foi bom guardador
Do gado, que lhe entregarão,
Mui grande accomettedor,
E mui grande corredor
Dos lobos, que o acoçarão.
XLVI.
Por não ficar em olvido
O nobre Pastor Garcia,
Que sempre foi atrevido,
E de nós muito querido,
Este baile com Mecia.
XLVII.
Pois he de alta valia,
Dêmos lhe outro montado,
O monte que reluzia,
Aonde faça a bailia,
E paste bem o seu gado.
RODOÃO
XLVIII.
Tudos ja tendes partido,
Todos os montados dais,
Eu que fui de vós querido,
E dos lobos mui ferido,
De mim ja vos não lembrais?
PASTOR MOR.
XLIX.
Ainda fica mais, e mais,
Vossos gados pastarão,
Ficão terras de chão taes
Os valles, e piornaes,
Tudo vos dou, Rodoão.
L.
Tambem ficão umas ladeiras
De hervas mui saboridas,
Donde sahem umas ribeiras,
Que regão muitas lameiras
Com aguas esclarecidas.
LI.
A quellas serras erguidas,
Onde está a nobre montanha,
Pois por nós forão havidas,
E ategora perdidas,
Fiquem a toda a companha.
LII.
A quelle valle de alem
He o valle de primor,
He o valle de Salem,
Onde acho que muitos tem
Grande virtude, e valor.
GARCIA.
LIII.
Ja matarão o grão Pastor,
Por inveja o matarão:
Porque era bom guardador,
Das ovelhas bom creador;
Por cobiça o acabarão.
FERNANDO.
LIV.
Os bailos são acabados,
Senhor, vamos a jantar,
Que dos trabalhos passados
Muitos ha aqui desmaiados,
Que convem de repouzar.
LV.
Se algo lhe quereis dar,
Sobre meza lho daremos,
Onde bem pode mandar,
E o seu gado bem pastar,
Que assim por bem o temos.
Cahe no bailo de João.
PEDRO.
LVI.
Tambem la naquella altura
Está um lobo huivando,
E no meio da espessura
Um bufo está bufando,
E um mocho está cantando,
E Andre está sentindo
Não bailar como Fernando.
JOÃO.
LVII.
Tambem Pedro, por quem procuro,
He um barão singular,
Que no claro, e no escuro
Sempre bailou mui seguro,
E hade ficar sem lhe dar?
PASTOR MOR.
LVIII.
Pois va o elle cercar,
E far lhe hão grandes damnos;
I-lo hemos ajudar,
Até poder sugeitar
Os cavallos Mariannos.
LIX.
Ao redor da grão cabana
Na quelles montes erguidos,
No valle que se diz Canna,
Ouvimos esta semana,
Lobos que andão fugidos,
Dando grandes alaridos,
Fazendo grande agonia,
Muitos mortos, e feridos,
E outros andão perdidos.
Cahem no bailo de Garcia.
PASTOR MOR.
LX.
Quem mete ao estrangeiro
Cá no meu nobre assento,
Pois o defendi primeiro,
Poisque do meu vencimento
Lhe peza mui por inteiro?
ESTRANGEIRO.
LXI.
Em que vos hei offendido,
E de mim sois anojado?
PASTOR MOR.
LXII.
He porque te hei requerido,
Mil vezes commettido,
E tu sempre desmandado:
E porque estás abraçado
Com os meus competidores,
E com elles alliado,
Naõ mereces ter montado
Com estes nobres Pastores.
LXIII.
Tu me has sido revel
Contra os meus ovelheiros,
Abraçado com Babel
Mui descrido, e cruel,
Contra os meus pegureiros.
Minhas ovelhas, carneiros
Naõ lhe tinhas lealdade,
Degolavas meus cordeiros,
Derrubavas meus chiqueiros,
Negavas me a verdade.
ANDRE.
LXIV.
I vos, Pastor, mui embora,
Grande merce nos fareis.
Que vos vades logo essa hora,
E depois que fordes fóra,
Alguma razão tereis.
JOÃO.
LXV.
Poraqui vos sahireis,
Mentes o Pastor dá volta,
Que depois não podereis,
E quiçais nos metereis
Nalguma grande revolta.
FERNANDO.
LXVI.
Não te queiras mais deter,
Busca jogos, e harmonias,
Poronde tomes alegrias,
Antesque hajão de volver.
Oh! Senhor, tomai prazer,
Que o grão Porco selvagem
Se vem ja de seu querer,
Meter em vosso poder
Com seus portos, se passagem.
LXVII.
Em os campos de Tropé
Vossa frauta tangereis,
E nos campos de Godofré,
E nas terras de Thome
Todos nellas bailareis,
Com os filhos de Ullisse,
Que gostão nosso tanger.
Nenhum porco roncará,
Nenhum lobo huivará
Senão por vosso querer.
PROGNOSTICA O AUTHOR OS MALES DE PORTUGAL, CANTA SUAS GLORIAS COM A ACCLAMAÇÃO DO REI ENCUBERTO.
LXVIII.
Forte nome he Portugal,
Um nome tão excellente,
He Rei do cabo poente,
Sobre todos principal.
Não se acha vosso igual
Rei de tal merecimento:
Naõ se acha, segun sento,
Do Poente ao Oriental.
LXIX.
Portugal he nome inteiro,
Nome de macho, se queres:
Os outros Reinos mulheres,
Como ferro sem azeiro;
E senão olha primeiro,
Portugal tem a fronteira,
Todos mudão a carreira
Com medo do seu rafeiro.
LXX.
Portugal tem a bandeira
Com cinco Quinas no meio,
E segundo vejo, e creio,
Este he a cabecêira,
E porá sua cimeira,
Que em Calvario lhe foi dada,
E será Rei de manada
Que vem de longa carreira.
LXXI.
Este Rei tem tal nobreza,
Qual eu nunca vi em Rei:
Este guarda bem a lei
Da justica, e da grandeza.
Senhorea Sua Alteza
Todos os portos, e viagens,
Porque he Rei das passagens
Do Mar, e sua riqueza.
LXXII.
Este Rei tao excellente,
De quem tomei minha teima,
Naõ he de casta Goleima,
Mas de Reis primo, e parente.
Vem de mui alta semente
De todos quatro costados,
Todos Reis de primos grados
De Levante ate ao Poente
LXXIII.
Serão os Reis concorrentes,
Quatro serão, e naõ mais;
Todos quatro principaes
Do Levante ao Poente.
Os outros Reis mui contentes
De o verem Imperador,
E havido por Senhor
Naõ por dadivas, nem presentes.
LXXIV.
Commendadores, Prelados,
Que as Igrejas comeis,
Traçareis, e volvereis
Por honra dos Tres Estados,
E os mais serão taxados;
Todos contribuirão
E haverá grão confusão
Em toda a sorte de estados.
LXXV.
Ja o Leaõ he experto
Mui alerto.
Ja acordou, anda caminho.
Tirará cedo do ninho
O porco, e he mui certo.
Fugirá para o deserto,
Do Leaõ, e seu bramido,
Demostra que vai ferido
Desse bom Rei Encuberto.
LXXVI.
Uma porta se abrirá
N'um dos Reinos Africanos,
Contraria aos Arrianos,
Que nunca se cerrará.
A vacca receberá
A nova gente que vem,
Com prázer de tanto bem
Seu leite derramará.
LXXVII.
A lua dará grão baixa,
Segundo o que se vê nella,
E os que tem Lei com ella:
Porque se acaba a taixa.
Abrir se ha aquella caixa,
Que ategora foi cerrada,
Entregar se ha á forçada
Envolta na sua faixa.
LXXVIII.
Um grão Leão se ergerá,
E dará grandes bramidos;
Seus brados serão ouvidos,
E a todos assombrara;
Correrá, e morderá
E fará mui grandez damnos,
E nos Reinos Africanos
A todos sugeitará.
LXXIX.
Passará, e dará boccado
Na terra da Promissão,
Prenderá o velho Cão,
Que anda mui desmandado.
LXXX.
De perdões, e orações
Irá fortemente armado,
Dará nelles S. Thiago,
Na volta que faz depois.
LXXXI.
Entrara com dous pendões
Entre os porcos sedeudos,
Com fortes braços, e escudos
De seus nobres Infanções.
INTRODUZ O AUTHOR POETICAMENTE DOUS JUDEOS, QUE VEM BUSCAR O PASTOR MOR UM CHAMADO FRAIM, E OUTRO DÃO, E ACHÃO FERNANDO OVELHEIRO Á PORTA.
FRAIM.
LXXXII.
Dizei, Senhor, poderemos
Com o grão Pastor fallar?
E daqui lhe prometemos
Ricas joias que trazemos
Se no las quizer tomar.
FERNANDO.
Judeos que lhe haveis de dar?
JUDEOS.
LXXXIII.
Dar lhe hamos grande thesouro
Muita prata, muito ouro,
Que trazemos de além mar.
Far nos heis grande merce
De nos dardes vista delle.
FERNANDO.
LXXXIV.
Entrai, Judeos, se quereis,
Bem podeis fallar com elle,
Que la dentro o achareis.
LXXXV.
Tomará com seu poder,
E grão saber,
Todos os portos de alem,
Marrocos, e Tremecem,
E Féz tambem:
Fara tudo a seu querer,
Vi lo hão a cometter
Pelo deter,
Que querem ser tributarios,
E lhe querem dar dinheiros,
Lisongeiros,
Os quaes naõ deve querer.
LXXXVI.
E depois da Embaixada
Declarada,
Antesque cerrem quarenta,
Erger se ha a grão tormenta,
Do que intenta,
E logo será amansada,
E tomarão a estrada
De calada,
Naõ terão quem os affoite,
Dar lhe hão aquella noite
Tal açoite,
Que a Fe seja exalçada.
LXXXVII.
Ja o tempo desejado
He chegado,
Segundo o firmal assenta:
Ja se cerrão os quarenta,
Que se emmenta,
Por um Doutor ja passado.
O Rei novo he alevantado,
Ja dá brado;
Ja assoma a sua bandeira
Contra a Grifa parideira,
La gomeira,
Que taes prados tem gostado.
LXXXVIII.
Saia, saia esse Infante
Bem andante,
O seu nome he D. João,[3]
Tire, e leve o pendão,
E o guião
Poderoso, e tryunfante.
Vir lhe hão novas n'um instante
Daquellas terras prezadas,
As quaes estão declaradas,
E affirmadas
Pelo Rei dali em diante.
[3]Veja se ao principio a advertencia do primeiro Editor da maneira, como este Verso se lia errado em alguns manuscriptos por incuria de alguns copistas, e equivocação das duas letras.
LXXXIX.
Naõ acho ser deteudo
O agudo,
Sendo elle o instrumento,
Naõ acho, segundo sento
O Excellento
Ser falso no seu Escudo.
Mas acho, que o Lanudo
Mui sezudo,
Que arrepellará o gato,
E far lhe ha murar o rato,
De seu fato
Leixando o todo desnudo.
XC.
Naõ tema o Turco, naõ
Nesta sezão,
Nem o seu grande Mourismo,
Que naõ recebeu bautismo,
Nem o chrismo,
He gado de confusão.
Firmal põe declaração
Nesta tenção,
Chama lhe animaes sedentos
Que naõ tem os mandamentos,
Nem Sacramentos;
Bestiaes são, sem razão.
XCI.
Em que venhão mais, e mais
Dos bestiaes,
Pelo que mostra a figura,
Haverão a sepultura
Da amargura,
Como brutos animaes.
Que se o texto bem olhais,
E declarais
Com fundas serão feridos,
Todos mortos, confundidos
Nos abysmos infernaes.
XCII.
As chagas do Redemptor,
E Salvador
São as armas de nosso Rei:
Porque guarda bem a Lei,
E assim a grei
Do mui alto Creador.
Nenhum Rei, e Imperador,
Nem grão Senhor
Nunca teve tal signal,
Como este por leal,
E das gentes guardador.
XCIII.
As armas, e o pendão,
E o guião
Forão dadas por victoria
Da quelle alto Rei da Gloria
Por memoria
A um Santo Rei barão.
Succedeu a El Rei João,
Em possessão
O Calvario por bandeira,
Leva lo ha por cimeira,
Alimpará a carreira
De toda a terra do Cão.
* * * * *
SONHO SEGUNDO.
XCIV.
Oh! quem tivera poder
Pera dizer,
Os sonhos que o homem sonha!
Mas hei medo, que me ponha
Grão vergonha
De mos naõ quererem crer.
Vi um grão Leão correr
Sem se deter
Levar sua viagem,
Tomar o porco selvagem
Na passagem,
Sem nada lho defender.
XCV.
Tirará toda a escorta
Será paz em todo o Mundo,
De quatro Reis o segundo
Haverá toda a victoria.
XCVI.
Será delle tal memoria
Por ser guardador da Lei,
Polas Armas deste Rei
Lhe darão tryunfo, e gloria.
XCVII.
Trinta e dous annos e meis
Haverá signaes na terra;
A Escriptura naõ erra;
Que aqui faz o conto cheio.
XCVIII.
Um dos tres que vão arreio
Demostra ser grão perigo;
Haverá açoite, e castigo
Em gente que naõ nomeio.
XCIX.
Ja o tempo desejado
He chegado
Segundo o firmal assenta
Ja se passão os quarenta
Que se emmenta
Por um Doutor ja passado.
O Rei novo he acordado
Ja dá brado:
Ja arressoa o seu pregão
Ja Levi lhe dá a maõ
Contra Sichem desmandado.
E segundo tenho ouvido,
E bem sabido,
Agora se cumprirá:
A deshonra de Dina
Se vingará
Como está promettido.
C.
O Rei novo he escolhido,
E elegido,
Ja alevanta a bandeira
Contra a Grifa parideira
Que taes pastos tem comido;
Porque haveis de notar,
E assentar,
Aprazendo ao Rei dos Ceos
Trará por ambas as Leis,
E nestes seis
Vereis couzas de espantar.
CI.
O nescio quer affirmar,
E declarar
Desde seis ate setenta
Que se emmenta,
Do Rei que irá livrar.
Louvemos este Barão
Do coração,
Porque he Rei de Direito;
Deos o fez todo perfeito
Dotado de perfeição.
CII.
Este Rei tem um Irmão,
Bom Capitão.
Não se sabe a irmandade?
Todo he nobre, em bondade;
E na verdade
Que sahirá com o pendão.
CIII.
Muitos estão desejando,
E altercando,
Se o meu dito será certo,
Se de longe, se de perto?
E sobre o tal praticando.
A quelle grão Patriarcha
No lo mostra, e está fallando,
E declara o grão Monarcha:
Ser das terras, e comarca,
Semente del Rei Fernando.
CIV.
Este Rei de grão primor,
Com furor,
Passará o mar salgado
Em um cavallo enfreado,
E não sellado,
Com gente de grão valor.
CV.
Este diz, soccorrerá,
E tirará,
Aos que estão em tristura.
Deste, conta a Escriptura,
Que o campo despejará,
Os Fidalgos estimados,
E desprezados,
Que ategora são corridos,
Com o tal serão erguidos,
E mui queridos,
E com os Reis estimados.
CVI.
Se lerdes as Profecias
De Jeremias,
Irão dos cabos da terra
Tomar os Valles, e Serra,
Pondo guerra,
E tirar as heregias,
Derrubar as Monarchias,
E fantezias
Serão bem apontoadas,
Serão todas derrubadas,
Desconsoladas
Fóra da possentadorias.
CVII.
Ainda mas profetizando,
E declarando:
Seus pequenos das manadas,
Derrubar lhe hão as moradas
Bem entradas,
E assim o vai mostrando.
Ja o Leão vai bradando,
E desejando
Correr o porco selvagem,
E toma lo há na passagem
Assim o vai declarando.
CVIII.
Muitos podem responder,
E dizer:
Com que próva o çapateiro
Fazer isto verdadeiro,
Ou como isto pode ser?
Logo quero responder
Sem me deter.
Se lerdes as Profecias
De Daniel e Jeremias
Por Esdras o podeis ver.
* * * * *
SONHO TERCEIRO.
CIX.
Oh! quem pudéra dizer,
Os sonhos que o homem sonha!
Mas eu hei grão vergonha
De mos não quererem crer.
CX.
Sonhava com grão prazer,
Que os mortos resuscitavão,
E todos se alevantavão,
E tornavão a renascer.
CXI.
E que via aos que estão
Tras os rios escondidos;
Sonhava, que erão sahidos
Fóra daquella prizaõ.
CXII.
Vi ao Tribu de Daõ
Com os dentes arreganhados,
E muitos despedaçados
Da Serpente, e do Dragaõ.
CXIII.
E tambem vi a Rubem
Com graõ voz de muita gente,
O qual vinha mui contente
Cantando, Jerusalem.
CXIV.
Oh! quem vira ja Belem
E esse monte de Siaõ
E visse o Rio Jordão
Pera se lavar mui bem!
CXV.
Vi tambem a Simeão
Que cercaua, todas as partes
Com bandeiras, e estandartes
Nephtalim, e Zabulaõ.
CXVI.
Gad vinha por Capitão
Desta gente que vos fallo,
Todos vinhão a cavallo
Sem haver um só piaõ.
CXVII.
Eu por mais me affirmar,
E ver se estava acordado
Vi um velho mui honrado,
Que me vinha a perguntar.
CXVIII.
Dize me, tu es de Agar,
Ou como fallas Chananêo?
Ou es porventura Hebrêo
Dos que nos vimos buscar?
CXIX.
Tudo o que me purguntais
(Respondi assim dormente)
Senhor, naõ sou dessa gente,
Nem conheço esses taes.
CXX.
Mas segundo os signaes
Vós sois do povo cerrado,
Que dizem estar ajuntado
Nessas partes Orientaes.
CXXI.
Muitos estaõ desejando
Serem os povos juntados:
Outros muitos avizados
O estaõ arreceando.
CXXII.
Arreceão vir no bando
Esse Gigante Golias
Mas por ver Henoch, e Elias
Doutra parte estaõ folgando.
CXXIII.
Dizeime, nobre Barão,
Pergunto, se sois contente
Dizer me vossa semente
Se he da casa de Abrahão?
CXXIV.
Que eu sam dessa geração
Sahi do Tribo de Levi,
Sacerdote como Heli,
O meu nome he Araõ.
CXXV.
Eu quizera lhe responder,
E tocar lhe em a Lei,
Senão nisto acordei,
E tomei grande prazer.
CXXVI.
E depois de acordado
Fui a ver as Escripturas,
E achei muitas pinturas
E o sonho affigurado.
CXXVII.
Em Esdras o vi pintado,
E tambem vi Isaias,
Que nos mostra nestes dias
Sahir o povo cerrado.
CXXVIII.
O qual logo fui buscar
A Got, Magot, e Ezechiel,
As Domas de Daniel
Comecei de as olhar;
E achei no seu cantar
Segundo o que representa;
E assim Gad, como Agar,
Que tudo se ha de acabar
Dizendo: Cerra os setenta.
RESPOSTA DO BANDARRA A ALGUMAS PERGUNTAS, QUE LHE FIZERÃO, E DA RESPOSTA DELLAS SE CONHECEM QUAES FORÃO.
CXXIX.
Os tempos que ja se vem
Porque, Senhor, perguntais,
Mui grande segredo tem,
Que muitos dizem Amen,
Mais se calão mais e mais.
CXXX.
O mais está por cumprir,
O que a minha conta somma:
Porque de partir a vir
O texto se hade cumprir
Primeiro, Senhor, em Roma.
CXXXI.
E nestes tresentos dias,
Senhor, que agora contamos
Se contém as Profecias
De Daniel, e Jeremias,
Nas quaes agora entramos.
CXXXII.
E depois de ellas entrarem
Tudo será ja sabido,
Aquelles que aos seis chegarem,
Terão quanto desejarem,
E um só Deos será conhecido.
CXXXIII.
Com vosco fallo estas couzas,
Como com um grande letrado,
As umas são perigosas,
E as outras duvidosas
Ainda naõ hão começado.
CXXXIV.
Antes destas couzas serem
Desta era que dizemos,
Mui grandes couzas veremos,
Quaes naõ virão os que viverão,
Nem vimos, nem ouviremos.
CXXXV.
Sahira o prisioneiro
Da nova gente que vem,
Dessa Tribu ds Rubem,
Filho do Jacob primeiro
Com tudo o mais quo tem.
CXXXVI.
O mocho está assobiando,
Dizendo e chamando bois,
E com medo de depois,
Tudo se está arreceando.
CXXXVII.
Os dous bois estão berrando,
Pelo tirar da barroca,
Que naõ entre na sua toca
O Bufo, que esta bufando.
CXXXVIII.
Acho em as Profecias
Que a terra tremerá
E como abobada soará
Quando faz harmonias.
CXXXIX.
Dizem, que nos ultimos dias,
Que aquestas couzas serão
A vinte e quatro acharão
Este dito de Isaias.
CXL.
Vejo os lobos comer
As ovelhas degoladas,
As vaccas mortas montadas
E os cordeiros gemer.
CXLI.
Naõ deve a terra tremer
Mas fundir se sem tardança,
Pois os que tem a governança
Os naõ querem defender.
CXLII.
Vejo o mundo em perigo,
Vejo gentes contra gentes;
Ja a terra naõ dá sementes,
Senaõ favacas por trigo.
CXLIII.
Ja naõ nenhum amigo,
Nenhum tem o ventre são,
Somos ja vento soão,
Que naõ tem nenhum abrigo.
CXLIV.
Vejo quarenta e um anno
Pelo correr do cometa,
Pelo ferir do planeta
Que domostraser grão damno.
CXLV.
Vejo um grande Rei humano
Alevantar sua bandeira,
Vejo como por peneira
A Grifa morrer no cano.
CXLVI.
Vejo o lobo faminto
Concertado c'os rafeiros:
Os pastores, e ovelheiros
Saõ de um consentimento.
CXLVII.
Acho cá no instrumento,
Que virá um contador
Tomar conta ao pastor
E pagará um por cento.
CXLVIII.
Revolvi o meu canhenho
Sobre este forte barão,
Naõ lhe acho nenhum senão;
Dizer delle muito tenho.
CXLIX.
Vejo um alto engenho
Em uma roda tryunfante,
Vejo subir um Infante
No alto de todo o lenho.
CL.
Vejo erguer um grão Rei
Todo bem aventurado,
E será tão prosperado,
Que defenderá a grei.
CLI.
Este guardará a Lei
De todas as heregias,
Derrubará as fantezias,
Dos que guardão, o que não sei.
CLII.
Vejo sahir um fronteiro
Do Reino detrás da serra,
Desejoso de por guerra
Esforçado cavalleiro.
CLIII.
Este será o primeiro,
Que porá o seu pendão
Na cabeça do Dragão,
Derruba lo há por inteiro.
CLIV.
Acho, que depois virá
Ás ovelhas um pastor
Mui manso, e bom guardador,
Que o fato reformará.
CLV.
Este pastor lhe dará
A comer herva mui sã,
E de suas ovelhas, e lã
Ao mesmo Deos vestirá.
CLVI.
Todos terão um amor,
Gentios como pagãos,
Os Judeos serão Christãos,
Sem jamais haver error.
CLVII.
Servirão um so Senhor
Jesu Christo, que nomeio,
Todos crerão, que ja veio
O Ungido Salvador.
CLVIII.
Tudo quanto aqui se diz,
Olhem bem as Profecias
De Daniel, e Jeremias,
Ponderem nas de raiz.
CLIX.
Acharão, que nestes dias
Serão grandes novidades,
Novas leis, e variedades,
Mil contendas, e porfias.