Quarta parte das Trovas de Bandarra.

1. Os tempos com crueldade Começar-se hão a mover, Se me não engana a verdade Ali perderão seo ser No meio de certa idade. 2. Virà gozando de paz Aquelle pastor valente, Hum lobo que guerra faz Moverà toda a gente Com huma limgua sagaz. 3. Logo nas mãos o pastor Seu cajado tomarà, Sem mostrar nenhum temor Contra os lobos que achará Revestidos de rigor. 4. Nelles farà tal destroço Que serà couza de espanto, Como bravo Touro em cosso Logo perde tudo quanto Tinha como pastor moço. 5. Jà vejo que se desterra Este pastor sem ventura, Da patria rebanho, e terra A huma larga Sepultura De huma frondoza serra. 6. O manço gàdo que em páz Pella ribeira regia, Jà desgovernàdo traz Triste sò sem companhia, Que hum mào concelho faz. 7. E logo outro pastor Do pouco gado que achár, Serà absoluto Senhor, E serà em quanto durar A fortuna, e seo rigor. 8. Serà pastor estrangeiro O que reja o manço gado Que taõ bravo foi primeiro Mas ai que falta o malhado Que era o principal Carneiro. 9. De pois que por tempo largo Este pastor governar A este rebanho amargo, Outra vez hà de tornar A ter o que tinha o cargo. 10. Haverà novos sinaes Da parte deste pastor, Thé os mesmos anímaes Por seu natural Senhor Darão suspiros, e ais. 11. Tornarà a quebràda linha No Cábo de serta idade, A encher-se como pinha, E descubrirà a verdade Do que encuberto tinha. 12. Sem pena que damno faça Tornarà pella ribeira Pastar o gado na praça, Por ultima, e derradeira Dos fados Supréma traça. 13. Tornarei a recolher Esta ovelha perdida A patria que lhe deu ser, E porei por ella a vida Sem nunca desfalecer. 14. Entaõ não me mudarei Pois conheceis que sou vosso, Minha ovelha estimarei Pois de outro modo naõ posso Alma, e vida lhe darei. 15. Haverà em triste Cidade Grande fome peste, e guerra, Que a Escritura a não erra Que em tudo falla verdade, 16. De longas terras virão Dois Leoens mui asanhádos Hum de Cruz, e outro não Vingarão males paçados. 17. Serão à força da espada Destruidas mil provincias, Na Luzitania assollada Terão fim roubos, e malicias. 18. Na era de quarenta, é hum De Janeiro por diante, Darà fio ao seo montante Aparelhece cada hum. 19. O nosso Christianismo Nossa grande Obrigação, Não temos mais de Christão, Do que o nome do Baptismo. 20. Fazemos dos dias noites Vivendo como agrestes, Haverà castigo, e açoutes Cada qual se faça prestes. 21. Espantozos movimentos Havemos cedo dever, E antes de muitos tempos Ha de isto de acontecer. 22. Não haverà em Hespanha Lugar preveligiado, Tudo serà assollado Dessa gente de Alemanha. 23. Todos os lugares planos Por terra serão prostrados, Muitos males, muitos damnos Haverà pellos peceádos. 24. As Serras se habitarão E os Oiteiros mais altos, Muitas Gentes sahirão Outros andarão em Saltos. 25. Andarão como pasmados Chorando pellos caminhos, De suas terras lançados De parentes, e vesinhos. 26. Então não haverà amigos Nem pay que por filho seja, O mais seguro abrigo Serà acolherse à Igreja. 27. Nesses tempos os meninos Ainda que innocentes, Terão tãobem accidentes Muito fora dos Caminhos. 28. Haverà peregrinaçoens Mortes sem conto de dura, Males fogos devisoens Só Deos lhe póde dar cura. 29. Ha de ser Rey quem fôr Que em Deos está o saber O bom, o São, o melhor Só elle o há de escolher. 30. Por particular enteresse Tem chegado o mundo a tanto, Triste do que lhe parece Que háde bastar falçomanto. 31. Os póvos hão de alintar As culpas dos seos Monarchas, Que sem nenhum estudar São Letràdos, e Patriarchas. 32. Nos Ceos haverà sinaes Na Terra não faltarão, Tormentos pennas, e ais Que aos Ceos penetrarão. 33. E depois do Leão morto Não sem falta de mistério, Aportarà neste porto Outro com maior Império. 34. Entrarà com companheiro Na terra dos Luzitannos, Cada qual bom Cavalleiro Destruirão os Arriannos. 35. Tempos traz tempos virão Que os Grandes serão baixàdos Os pequennos exaltádos Povo, e Rey governarão. 36. E depois de tantos males Fomes, pestes devisoens, Cheios os montes, e Valles De tristes peregrinaçõens. 37. Tornarà o Redemptor A olhar por seo rebanho, E tello ha com muito amanho Como bom Rey e Senhor. 38. Escaparà pouca gente De tão perigoza dança, Virà tempo de bonança Quem viver serà contente. 39. Vejo vir grandes baleias Pella costa de Biscaya Gaia gaia da vezinha praya Que lhe tingem as areias. 40. Eis là contra a Norúega Raios, Cavallos, Golfinhos, Com que preça que navega Tanta Cópia de Marinhos. 41. Vejo milhoens de Relampagos Trovoens que rompem os ceos Nuvems de mui grandes véos Coriscos grandes expantos. 42. Que mancebo tão formozo Dà Luz a todo o Emisfério, Rosto mui digno de Império Forte, fero, e graciozo. 43. Iá por força toma a Seora Cercàdo de Leoens bravos, Oh que unhas dentes quebrádos Teme, e treme toda a terra. 44. Mil rapozas vão dìante Buscando grutas, e côvàs, A Lebres, Coelhos dão novas Que fujão de tal semblante. 45. Descançame a vista vendo Hirse o tempo já chegando, E estarse a Alma alegrando Com o que vejo, e entendo. 46. Venha embora o Leão forte De tantos accompanhádo, Que affirmão, e tem jurado Que em que lhe custe a morte O hão de ver coroado. 47. Que grandes arribaçoens São Atums, ou são Sardinhos, Maiores são que Barquinhas São Náos, boms Galioens. 48. Parece que seo caminho Hé direito a Portugal Ai se eu mal não advinho Não vão carregar de Sal. 49. Que rostos, corpos, e armas, Quanto fogo, e quanto asso, No rosto gente do Passo E Soldados nas Bisarmas. 50. Ora quero-lhe dizer Esta cà occupàda a Terra, Mas poderão responder Se hé gente de paz, ou guerra. 51. Hé gente que em si encerra E aquillo que diz não faz, Diz guerra, ordena páz Pergoa paz, e faz guerra. 52. O Seo Rey quer ser Monarcha E toda a Terra pertende, Tudo abrange, e tudo abarca E do díreito não pende. 53. Vinde cà Rey Soberanno Quero vos dezenganar, Lembro-vos que sois humanno E que tudo hade acabar. 54. E que na postreira hora Quando o mal jà estìver feito, E não possa ser desfeito Treme olma, e em vão chora. 55. Lembre vos o que aconteceo A Tholedo com o pay Que já cada hum là vay E não sei qual pa o ceo. 56. Quereis vòs a Portugal Sendo elle nome macho Ajuda mal por que lhe acho Muita fémea, e pouco Sal. 57. Se quizerdes por direito Deixarse há elle torcer, Mas forçado hé máo geito Para se deixar vencer. 58. Vejo vosso damno perto Hireis perdendo o reynádo E tão bem tende por certo Morrerdes desconsolado 59. Luzitanna hé chamáda A Dama que dezejaés, Ella hé dantes despozada Perseguilla hé por demais 60. Ainda que em caza tem De Ulices tantos povos, Hir-se hão como os porcos Ante o Leão que vem. 61. Esta profecìa hè bella Mui certa e verdadeira, Quem tiver boa terceira Gozarà a Sabia Donzella.

Fim da quarta parte.