Quinta parte das Trovas de Bandarra.

1. Quando de noite me ponho A dormir sem me benzer, Tudo o que háde açuceder Se me representa em Sonho. 2. Sempre mandei escrever Aquillo que me lembrou, Porque a memoria a postou De tudo se esquecer. 3. Nas Trovas que tinha feito Muito hà que conciderar, Como o seo tempo chegar Se vera o meo conceito. 4. Sempre por thezoiras faço As minhas contas mui certas, Portas que hão de estar abertas Não são boas para o paço. 5. Eu naõ sou Profeta inteiro E menos na minha terra, Mas vejo vir pella Serra Atraz de hum Lobo hum Cordeiro. 6. O Sol pello meio dia Faz o effeito de Geada, Vejo partir huma armada Carregáda de agua fria. 7. Huma grande tempestade Com o céo muiclaro, e Serenno, Farà hum hommem moreno Com rezão mas sem piedade. 8. A minha trepeça tem Trez péz mui bem seguros, Vejo fabricar hums muros Mas eu naõ sei para quem. 9. Quem muitos annos durar Hade ver couzas indignas. Tocar-se haõ muitas bozinas Por hommems peixes do már. 10. Todo o mundo grita, e berra Cada qual no seo officio, Pois antes que hum beneficio, Querem, peste, fome, e guerra. 11. Quando furo com a Suvella Coiro groço, e Macio, Vejo prender no Rocio Quaze toda a parentella. 12. Eu tenho medo da morte Como couza superior, O Presbitero maior Naõ háde tornar à Corte. 13. Annos hãode vir à terra Em que por nossos peccados, Nas cazas fiquem os gados As gentes vivaõ na Serra. 14. Sempre como os meos feijoens Quando vem bem temperados, Vejo no templo os Copados No Cural os Cappellaens. 15. Sou Sapateiro, mas Nobre Com mui pouco Cabedal, E tu triste Portugal Quando mais rico, mais pobre. 16. O (A) que ponho às avessas Com a perna atraz levantáda, Hàde ter a mão armàda Para degollar Cabeças. 17. Quando a terra dos Falcoens Certa erva produzir, Creio se hàde conceguir O deitar fóra as Lezoens. 18. De hum brazeiro mui acezo Damdolhe o vento ligeiro, Se hàde formar hum pinheiro Sem ter medida, nem pezo. 19. O Carro que vai chiando Por hir muito carregàdo, Sim mostra o jugo pezado Mas naõ tira pezo andando. 20. A Hortela na Panella Dizem que lhe dà bom gosto, Essa mulher de bom rosto Naõ ouço rusnar bem della. 21. Hespanha muito medroza A Europa muito enfadada, Huma mulher de almofada Sabe como huma rapoza. 22. As linhas com que cozia Jà naõ como as de agora, Temo que se deite fóra Quem Souber a Ave Maria. 23. Na era que eu tenho ditto Nas Thezoiras levantadas, Se haõde ver muitas jornàdas Á custa do Saõ Benito. 24. Naõ pode haver couza boa Aonde Habita o mal Francez, Temo o polho Portuguez Em poder de huma Leoa. 25. Quando o Leaõ Hispanhol Vier quase a Portugal, Háde ser o nosso mal Querer luzir como o Sol. 26. Quando a neve como braza Todas as plantas queimar, Dous quintos se haõ de ajuntar Sem haver jogo na caza. 27. Em hum lugar mais ameno Cercados de mares groços, Vive por peccados nossos Quem se sustenta com feno. 28. Sempre vem de monte, a monte As agoas das enxorradas, E vejo testas coroadas Sentadas sobre huma ponte. 29. Quando tiverem por certo Perdida toda a esperança, Portugal terá bonança Na vinda do Encuberto. 30. Vejo vir pello mar largo Como quem vem para dentro, Hum hommem buscar seo centro Depois de hum grande lethargo. 31. Quando me matar S. Jorge E Marcos me reçuscitar, Saõ Joaõ me exaltar Faça todo o mundo alforge. 32. Os pez da minha trepéça Conta trez vezes areio, Ajuntalhe dous, e meio Dizelhe que apareça. 33. Naõ podeis fazer queixume De deixar o vosso lár, Que se do norte ventar Do Sul vos virà o lume. 34. Vejo a grifa parideira Juntada com huma Serpente, E vejo que muita gente Tem disto grande canceira. 35. Vejo o Leão, e a Serpente Atraz da gente goleima, Grita o gallo que ateima Com o Lobo que tem diante. 36. Já vejo grande mofina No porqueiro de Sequem, Que o gado todo está bem Com o Ovilheiro de Dina. 37. Vejo a Lua ensanguentada Pella virtude do Encuberto, Se està longe, ou se perto Assim o diz a toada. 38. Là vem por sima do már Hum Cavallo de madeira, Que farà n'huma poeira O porco que hàde grunhar. 39. Vijo pedras ajuntar Là muito perto da Lua Vejo subir de huma, e huma E nellas o Sol entrar. 40. Vejo pello meo Telhado No Ceo grande resplendor, Se hé alegria, ou temer Esdras o tem declarádo. 41. Vejo o Almocreve tomar As Alamanhas antigas, Vejo nascer das ortigas A remente là do mar 42. Là donde o Sol vem nascendo Hum Dragaõ vejo vir vindo, A seo Cabo vem correndo Mais bichos que o vem seguindo. 43. O primeiro depois do quinto Filho d'Aguia levantada, Hade estender sua Espàda Sobre a Galia faminto. 44. Vejo sahir as Gaivotas De dentro do nosso Tejo, Taõbem parece que vejo As duas por ellas rotas. 45. Sonho que rebentaõ fontes Da terra da Promiçaõ, E que os Gallos de Siaõ Vaõ fugindo até os montes. 46. Naõ canta o Gallo com penna As aguias charão mofina, A serpente encrespa a clina Porque Deos assim o ordenna. 47. Faremos dos dias noites Vivendo como agrestes, Haverà castigo, e açoutes Cada hum se faça prestes.

Fim da quinta parte.