Sexta parte das Trovas de Bandarra.
1. Sonhei que via hum fumo, Com grande força sahir, E deixando de Subir, Hum altar vi no escuro: Formava taõ forte muro. Que estava o Altar cuberto; Vi a hostia naõ mui perto, Do tal Altar arredada: Huma cára sublimáda, Em ella vi por mais certo. 2. Pareceme que crescia, Quem assim o figurava: Taõbem sonhei me pegava, Quem mulher me parecia: E que com voz me dezia, Anda ver a terra nova, Pella maõ levou-me à cova, Levava bello vestido, Aí nuvems eu fui subido, Onde vi a gente toda. 3. Negra, e amolatáda, Logo à terra baldeando, A respiraçaõ faltando Eu daqui já naõ quis nada, Para a terra de pancada Me trouxe a tal mulher, Athé alcancei dizer Vou segunda vez à terra, Logo vinha resta era E tornava a aparecer. 4. Parecia a meo ver Nova Igreja figurada, Por hereges desterráda, Na quella terra a tremer, Quem Herege quizer ser Ficarà negro, ou molato, E terà todo o máo trato Por fugir da boa Ley, No Inferno sua grey Para tràz darà o Salto. 5. Taõbem sonhei que a nuvem Cobria a gram redondeza, Mui medonha, e espeça Taõbem raios que destroem, A quem a falça Ley tem, E depois vi aclarar Com hum claraõ singular, Em dia de huma Senhora Em fe seguinte boa hora Seu nascimento sempár. 6. Em sonhos vi grande armáda E a Lua, em rosso Tejo, Ficandolhe o Sol por baixo De huma Torre armáda, Moiros tiveraõ entráda Pella terra de christaõs, Na Igreja vi estes máos Hum exercito Francez, Taõbem entrou desta vez Accompanhádo dos Máos. 7. Pella terra veio entrando Athé se perder de vista, Com grande préça, e cobiça Toda a vinhaõ derrotando, Taõbem os Moiros chegando Com grande astucia, e préça, Vinhaõ buscando a Cabeça A numa Cidade Real Pouco cuida Portugal, Em o mal que lhe aconteça. 8. Parece que estou ouvindo Nesse mar a gran tormenta Antes que chegue os Setenta, Caxas, Ballas, barberinhos Entaõ hé que virà vindo O Grande pastor Geral, Acudir a taõ graõ mal, Dando às Ovelhas sustento E taõbem o Sacramento Viva o nosso Portugal. 9. Poucos tempos paçaraõ Segundo as Profecias, Em os Sinaes destes dias Outros que cedo viraõ Huma Gran tribulaçaõ, Mas ao depois verà A volta que tudo dà, Chegando logo a vencer No mundo todo o poder Na Igreja ficarà. 10. Em todas reste tuida Com maior veneraçaõ, Só nella tem o Christaõ, Gloria na eterna vida Mas ai que a vejo cahida Que primeiro vem chegando Os boms largando o mundo, Outros morrendo à preça Outros perdem a Cabeça, Muitos disso vão folgando. 11. Tanto Sangue pello campo E tanto morrer na rua, Tantos deixaõ vida sua Por guardar o nome Santo, Nem da mulher o manto Terà respeito ou favor, Jà nenhum lhe tem amor A essa profanna vaidade, Quando virem a Cidade Posta no maior horror. 12. Jà de França serà farto Quem à França quiz andar Nunca mais andem trajar, Tomàra naõ ter o fato: Paga o povo por ingrato O desprezo que tem feito, Da Patria do minho aceito Dando rédias ao profanno Teraõ o seo desenganno, Com o Vestir mais perfeito. 13. Com Sangue, Boubo, e Deshonra Com mortes, e Vitupérios, Fomes doenças, e Guerras, Querendo acabar a terra Com mui grande alarido, Todos ficaraõ com sentido Com o mal naõ esperado Serà prezo o Diabo Porque entaõ tudo hé acabádo E o morto serà vivo. 14. Era taõbem logo chega Que a todos de asento, Serà fim este tormento, Quem com bonança navéga Entaõ armáda mais féra, Livranos do Inemigo, Com bom valor, e abrigo O Beato Saõ Joaõ Em seo dia nos dà a maõ, E o Incoberto vivo. 15. Quem destruir os do Norte E os Moiros deitar fora, Matandolhe a gente toda Em Cacilhas forà côrte Lá vereis o estandarte Com as quinas aconado E emtaõ vereis mostràdo Em sima o bom Jezus, E taõbem a Santa Cruz Para vencer o Diabo. 16. Veremos o mar vermelho Sem hir a Jerusalem, A qui veraõ os que tem Tomádo o meo concelho, Em si proprio o espelho, Muito Sangue em si correndo Mas quem fôr obedecendo, Passarà sobre o mar Sem que precize nadar, Verà o maior portento. 17. Em Cassilhas a Bandeira Com estandarte Real, Logo Hereges por seo mal, A morte tem de Carreira Terà este na Simeira Hum Christo crucificádo, Verà o povo malvado O quaõ cego tem vivido, Em terem perceguido E a muitos marterizádo. 18. O Moiro, Turco, Francez Naõ poderaõ fugir todos, Porque muitos seraõ mortos As maõs do bom portuguez, Là levarão desta vez Novas aos seus que contar, Quando virem em Portugal O Encuberto declarado, Castigando todo o estrago Que elles vieraõ cauzar. 19. Nenhum remedio lhe sinto O Naõ vireá melhor fôra, Venha sem em boa hora Quem ao lobo faminto, Lhe ponha em sangue tinto Por essas ruàs no chaõ, Bandeiras em confucaõ Flores, Barretes, e Capas Deste bom Rey nada escapa, Viva o Graõ Sebastaõ. 20. Sonhei que via vencer As quatro partes do mundo, E que Portugal a tudo Hia dando que fazer, E taõbem fazendo e ver O Evangelho, e a Cruz Ao povo falto de luz, Sacramento eterno dia Taobem a Virgem Maria Todos com o bom Jezus. 21. Sonhei que o Sacramento Em todo o mundo em redondo, Já das almas serà dono Isto maior portento, Taõbem graõ contentamento, Em ver os Reys me cauzou Que na geraçaõ dotou, Lá de Affonço o primeiro Thé trinta o derradeiro, Onde o primeiro acabou. 22. Por humgrande oppozitor Depois da linha acabada, Este farà derrotada, A Igreja com horror, Á besta mete pavor Em trez, e meio de dura Tanta gente à Sepultura, O Martir gloríozo Por fugir do tenebrozo, A seguir a Virgem pura. 23. Por mil, e duzentos annos A Igreja reinarà, Jà todo o Christaõ serà Vivendo como irmaõs, Nem trapaças nem enganos Debaixo de huma cabeça, No seo Império, e pastor, Por Sebastiaõ Senhor A quem tudo obedeça Com Zelo, e grande amor. 24. Este Rey de Deos guardado Para limpeza do mundo, De tal sorte porà tudo Que deos seja venerado, Em Portugal exaltàdo De pequeno graõ Senhor, Os mais todos com Pavor Logo o haõde coroar, Por Imperador sempár Ao depois do Creador. 25. Sonhei que via descer Hum Anjo em huma nuvem Mostrando que jà destroe Quem Herege quizer ser, Daqui vem a entender Pella voz que lhe ouvi E com furor disse assim, "Morra o Blasfemador "De Ley do bom Redemptor, "O Prencipio desde aqui. 26. Taõbem a Lua correndo Sonhei que a via vir Por trez vezes a cahir, E Portugal perecendo A isto o que eu entendo Que figura muito moiro, Vindo a buscar o oiro, E mais riqueza notoria Fazendo perder a gloria, A quem delle fez thezoiro. 27. Quantos destes vaõ roubando Aì quando virem chegar, Muitas Náos em este mar E gente em terra botando Entaõ ouviraõ o bando, Mata, fere, e degolla, Ficando a gente tolla Tao tolla, como pasmàda E a terra derrotáda Perceguida a toda a hora. 28. Morem, e ficaõ Catholicos, Hums morrem, outros pelejaõ Outros depreça despejaõ, O melhor que guardaõ vivos, Jà fallaõ Leaes amigos A imgratidaõ sobeja, E algums comgrande inveja, Sò cuidaõ em bem furtar, Nenhum yuer a tuvar O Mal que tanto sobeja. 29. Nenhum vemidio se sente Sem ter meio de Apellar Nem na terra, nem no Mar, Vendo prêza maior gente O mais alto delinquente, Naõ ficarà sem castigo Quem muito prende taobem Serà prezo, e cativo, Pezarlhe há de ser vivo Estando só sem nímguem. 30. Nas armas pèga a mulher Taõbem entra em Corcelho, Entao acode o bom Valho Sebastiaõ hàde ser, E tudo em seo poder Ficarà com graõ limpeza Ou Magestade, Alteza Bem livras do Cativeiro Lobo se torna, em Cordeiro Em paga da tal Fineza. 31. Contra graõ Senhor se ergue Com furia, Asturia, e Manha, Esparta, forte, Companha, De seo maior mal lhe serve, Taõbem quem ajuda perde Honra, fazenda, e Vida, Depois de no mar vencida E na terra maio é risco, Sepultádo no abismo De todo serà perdida. 32. Perde Braga, vence o Porto E todas seraõ entràdas, Em o fogo das pancadas Em Bahia grar dectroço, De Lagos fica bem pouco Lisboa já hé Senhora, De cativa deffençora Da Ley que haõde guardar, Os que se querem salvar E morrer em boa hora. 33. Viva o grande Portugal Todos saltaõ de contentes, Mulheres com seos parentes Ficaõ livres do graõ mal, Veja agora cada qual De que sorte poem a vida, No levantar da cahida Tem o vemido na maõ, Quem cuidar em bom Christaõ Sua alma serà subida. 34. E todo o mundo sugeito A esta naçaõ portugueza, Por aquella grande Alteza Que Christo tem em seo peito, Por lhe ser o mais aceito Na Fé, Constancia, e Valor, Peregrimo, e Senhor Gram trabalhos padecendo, Em fortaleza padecendo Em o mundo grão valor. 35. Em humildade, e esperança A maior que jà se vio, Com caridade subio Ao lugar que logo alcança, Justiça com temperança Na prudencia o primeiro, No castigo o derradeiro Esperando a Sugeiçaõ, Logo chega o pagaõ A ser Christaõ verdadeiro. 36. Portugal fica mais nobre Em todo elle o poder, E taõbem se háde ver Ficar rico, o que foi pobre, Aquelle a quem a fé cobre Firme na Santa Igreja, Todos lhe teraõ inveja, Quando virem Portuguezes Vencendo Turcos, Francezes, E Moiros, em graõ Peleja. 37. Dois descendentes que traz De grande Valor, e Brio, O Mais velho em Senhoria Porá a guerra, em Paz, Veraõ todos o que faz De boms na Santa Igreja, A força lhe tem inveja A Fortuna, e augmento, Farà pàrto o Sacramento Onde toda Christaõ seja. 38. O Pastor mór cedo falta Seo descendente reinando, E grande castigo dando Aos vezinhos de Malta, Quando Veneza se exalta De França hé Malográda, Cauzarà nesta pancáda Entre os seos naturaes, Seraõ os castigos taes Que toda seja arrazáda.
Fim da Sexta Parte.