AS ONDINAS
H. HEINE
Ao Visconde de Castilho II
Na praia tranquilla murmuram sonoras
As ondas do mar.
E, ao dôce das aguas murmúrio palreiro,
Na areia dormita gentil cavalleiro
Á luz do luar.
As bellas ondinas emergem das grutas
De vivo coral,
Accórrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
O moço que julgam devéras dormindo
No argenteo areal.
Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
As mãos de setim.
E aquella, com gesto divino, gracioso,
Nos ares levanta do joven formoso
O aureo telim.
Ess'outra, que lavas, que fogo não vibram
Seus olhos de anil!
Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,
Nos copos brilhantes se apoia azougada,
Travessa e gentil.
A quarta, saltando, retouça, lasciva,
Do moço em redor;
Suspira mansinho, de manso murmúra:
«Podésse eu em vida gosar a ventura
Do teu fino amôr!»
A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada
Num sonho feliz,
E a sexta, com tremula e dôce esquivança,
Perfuma-lhe a bôcca, formosa creança!
Com beijos subtis...
E o moço, fingindo que dorme tranquillo,
Não quer acordar.
E deixa que o abracem as bellas Ondinas,
E languido gosa caricias divinas
Á luz do luar...