CONFIDENZA


Perguntaste-me um dia a vida que eu levava.

Mimosa e eburnea flôr,

Em antes de te vêr; respondo-te: sonhava...

Ouviste, meu amôr?

Não era bem sonhar: ás vezes largo espaço

Ficava-me a sorrir

Para os quadros que eu via em luminoso traço

Nas télas do porvir.

Presta-me o ouvido attento, escuta-me, querida,

Os que me lembram mais:

Assim, fita nos meus, ó pomba estremecida,

Os olhos teus leaes!

Olha este quadro e vê: o campo alegre e franco,

Uma aurora de abril:

Da larga estrada á beira um campanario branco,

O céu profundo anil.

De uma casa á janella uma creança loura,

Loura como um trigal:

Fiando á luz do sol que leve a sobredoura

De aureola ideal.

Toda risos e festa a doce creatura

Olhava para mim,

E eu repetia a sós: «alcanço-te, ventura!

Serei feliz emfim!»

De um outro quadro então recordo-me saudoso,

E alongo os olhos meus

Para o quadro gentil, o sonho mais gracioso,

Que me cahiu dos céus!

Fica ao longe da vil poeira das cidades

E do seu vão rumôr,

O palacio esquecido; ás horas das trindades,

Entremos nelle, flôr!

Deixemos os jardins, as aleas, o arvoredo,

E o oloroso pomar;

Subamos essa escada, agora, a furto e a medo,

Comecemos a olhar.

É vetusto o salão; em flaccida poltrona

Repoisa e scisma alguem:

Alguem que nos recorda a imagem da Madona,

Grave e sizuda mãe.

D'esse alguem no regaço um anjo se reclina

Confiado e feliz,

Sáe-lhe um arôma subtil da bôcca pequenina.

Falla, não sei que diz.

É casta essa creança e pura entre as mais puras,

Que em sonhos vi jámais;

Tem o vago esplendôr das biblicas figuras

Dos antigos missaes.

É moça e é menina: olhar nenhum ainda

De leve a maculou.

Dorme no seio della o amôr, a crença infinda

Que Deus lhe confiou.

Quando ella abre, sorrindo, as palpebras franjadas,

Ficamos a pensar

Nos mysterios do céu, nas cousas ignoradas

Que descobre esse olhar.

Deixa que eu me ajoelhe extasiado e mudo,

Cego de tanta luz,

E que tremulo beije o tépido veludo

De seus pésinhos nús!

E não córa, bem vês, a candida creança!

Antes meiga sorri,

E entre risos me diz, compondo a escura trança:

«Pensava agora em ti!

«Porque tardaste tanto, ó poeta? eu te esperava

«Na minha solidão!

«Vem os segredos vêr que para ti guardava

«Dentro do coração!»

Concertáe vossa orchestra, harmonicas espheras,

No célico esplendor!

Maria, essa creança, ó flôr das primaveras,

Eras tu, meu amôr!