O CURA SANCTA CRUZ

CONTO DE A. DAUDET

Ao dr. Sousa Martins

O implacavel carlista, o Cura Sancta Cruz,

Que em nome do seu rei, e em nome de Jesus,
Da Navarra febril leva do sul ao norte
O odio, a perseguição, o incendio, o estrago, a morte.

Nessa clara manhã risonha do Natal,

Tendo sobre o uniforme a veste clerical,
Na montanha, ao ar livre, á luz do sol, diz missa
Á guerrilha que o escuta extatica e submissa.

Como um rebanho vil, a um lado, os prisioneiros

Ouvem-no, a tiritar, cheios de um medo atroz:
Olham-se mutuamente os tôrvos companheiros,
E murmuram: «meu Deus, o que será de nós?»

Porque emfim toda a vez que o sanguinario Cura

Se volta, e o oremus diz, segundo o ritual,
Da sacra vestimenta avultam na brancura
De pistolas um jogo e a fórma de um punhal.

Quando afinal chegou o instante, a occasião

Em que a missa termina, o Cura, erguendo um braço,
Grave traçou no ar e na mudez do espaço
O clemente signal da paz e do perdão.

A missa terminára.

O Cura nesse dia

Como sentisse n'alma uns raios de alegria,

De bondade e de amor, foi-se direito ao bando
Dos captivos, e assim fallou circumvagando
A vista em derredor: «Hermanos, viva Dios!

«Corre ahi que sou máu, fanatico e feroz...

«Pois em breve ides ver como se engana, quem
«Diz que eu sou o anti-Christo e que abomino o bem.
«Como é dia de festa e é dia de Natal,
«Dou-vos a liberdade, e não vos quero mal!

«Mas haveis de primeiro, e isto, prompto e sem custo

De joelhos beijar o pavilhão augusto
De El-Rey nosso senhor...»

E mandou desfraldar

O carlista pendão, branco como o luar...

Todos logo á porfia atiram-se por terra

E um grito: Viva El-Rey! echoou de serra em serra.

No emtanto um prisioneiro, um moço imberbe ainda,

Firme ficou de pé, e olhava com infinda
Expressão de desdem a extranha vilania...
Braços postos em cruz, e intrepido sorria.

«E tu?» surprezo disse e transtornado o Cura.

—Padre, volveu-lhe o esbelto joven, com brandura,
—Mata-me! aqui me tens! rio-me d'esse panno!
—Ao teu rei não me curvo... Eu sou republicano...—

O Cura um acêno fez; formou-se um pelotão:

«Vamos! inda uma vez, viva D. Carlos!»

—Não!—

E havia nessa voz tamanha heroicidade

E uma energia tal, que uns longes de piedade
Scintillaram no olhar do tôrvo guerrilheiro.

«Muito bem, morrerás: mas dize-me primeiro,

«O que desejas tu? Queres beber, fumar?...

—Padre, se vou morrer, quero-me confessar...

«Ouvir-te-hei!» disse o Cura, e, ao acaso, num granito
Assentou-se.

O captivo, olhos no chão, contrito

Os joelhos dobrou... Nesse fugaz instante
Elle viu, elle viu, num sonho lacrymante,
A sua infancia, o lar, o tecto de seus paes,
Os choupos do seu rio, os placidos casáes:
Viu a noiva gentil, a egreja, os arvoredos
E os parentes e irmãos, socios de seus brinquedos.

Ah! quem póde esquecer o seu paiz natal!
Ah! quem póde esquecer a benção maternal!

Em distancia a guerrilha os dous observa... Então

Emquanto o padre escuta attento o prisioneiro,
Subito uma descarga estoira na amplidão.
Tremem a serra e o val, treme o desfiladeiro.

«Ás armas! o inimigo!» a sentinella brada.

De golpe ergue-se o Cura, e á jóldra amotinada
Vôa, dá ordens, clama, emquanto as balas chovem.

Nisto viu que inda estava ajoelhado o joven!
Pára.

«Que fazes tu?» indaga em tom severo

—Padre, diz a creança, a absolvição espero—

E em meio da febril convulsão da batalha,

Emquanto rompe e rasga os ares a metralha,
Viu-se o Cura depois de abençoar, ligeiro,
A fronte juvenil do heroico prisioneiro,
Pegar de uma clavina, e dando um passo ao lado,
Varar tranquillamente o craneo do soldado.