Á DUAS MOÇAS PARDAS

Altercaram-se em questão

Thereza com Mariquita

Sôbre qual é mais bonita,

Si Thereza, si Assumpção:

Eu tomo por conclusão

Nesta questão altercada,

Que Assumpção é mais rasgada,

E Thereza mais senhora,

E o galante que as namora

Verá a conclusão provada.

Si Thereza é mui bonita,

Mulata guapa e bizarra,

Com mui bom ar se desgarra

A mestiça Mariquita:

Ninguém á uma e outra quita

Serem lindissimas cambas,

E o Cupido, que d’entre ambas

Quizer escolher a sua,

Escolha vendo-as na rua,

Que eu para mim venero ambas.

As damas d’esta cidade,

Ainda as que são mais bellas,

Não são nada diante d’ellas,

São bazofias da beldade:

São patarata em verdade,

Si ha verdade em pataratas,

Porque brancas e mulatas,

Mestiças, cabras e angolas

São o azeviche em parolas,

E as duas são duas pratas.

Jámais amanhece o dia,

Porque sahe a Aurora bella,

Si não porque na janella

Si põem Thereza e Maria:

Uma manhã em que ardia

O sol em luzes divinas,

Pelas horas matutinas

Vi eu Thereza assistir,

Ensinando-a a luzir

Como mestra de meninas.

Á SOGRA DE GONÇALO DIAS
MANDANDO-LHE UNS SONHOS

Senhora velha, si é dado

Á quem é vosso valido

Applicardes-lhe o sentido,

Ouvi vosso apaixonado:

Dá-me notavel cuidado

Saber como ides urdindo

Um e outro sonho lindo,

Porque me atrevo á dizer

Que, para taes sonhos ter,

Sempre estivera dormindo.

Diz um portuguez rifão

Nascido em tempo dos monhos,

Que ninguem creia em seus sonhos,

Porque sonhos, sonhos são:

Eu sigo outra opinião

Dês que os vossos sonhos vi,

E tão firmemente os cri,

Que si os tenho por verdade,

É porque na realidade

Os masquei e os engoli.

Eu dormira todo o dia,

E a vida desperdiçando

Sempre estivera sonhando,

Só por sonhar que os comia:

O sonhar é phantasia

Da alma que quando descança

Não larga a sua lavrança,

O seu trabalho e tarefa,

E como a minha alma é trefa,

No que lida é na papança.

Não são sonhos enfadonhos

Sonhos tão adocicados,

Que em vez de sonhos sonhados,

São sempre engolidos sonhos:

Outros sonhos ha medonhos,

Que um homem deixam turbado

Depois do sonho acordado:

Os vossos tal não farão,

E ao menos me deixarão

Mel pelos beiços untado.

Á BRITES
UMA DAMA PRETENDIDA DE MUITOS E DE NENHUM LOGRADA

Senhora, estou já em crer,

Que não é vosso rigor

Crueldade, mas temor,

Que tendes de vos render:

Hei de dar-vos á entender,

Por mais vos desenganar,

Que só pretendo adorar

Isento e independente,

Que o querer do pretendente

É mui distincto do amar

Bem posso, sem ser amado,

Amar-vos, minha senhora,

Porque amor sempre melhora

O fino em o desgraçado.

No impossivel adorado

Está o affecto maior;

Que quem aspira ao favor

Em sua dor importuna,

Faz lisonjas á fortuna,

E não serviços á amor.

Si do meu conhecimento

Nasceu a minha vontade,

Não pague uma divindade

Ter eu este entendimento.

Que mais agradecimento,

Quer uma amante paixão

Que amar e amar com razão!

E si é preciso querer

Ao bello, porque ha de ser

Merito a obrigação?

O amar correspondido

Não é o mais perfeito amar,

Que não se hão de equivocar

Amante e agradecido.

Sempre contingencia ha sido

O rigor ou a clemencia,

E si da correspondencia

Nascêra sempre a vontade,

Não fôra amor divindade,

Porque o fôra a contingencia.

O amante que procura

Ser em seu amor ditoso,

Tem ambição ao formoso,

Não amor á formosura.

Quem idolatra á luz pura

Da belleza rigorosa,

Cora fineza generosa,

Ame sempre despresado,

Porque o ser eu desgraçado,

Não vos tira o ser formosa.

Não ser de vós admittido

Acredita o meu cuidado;

Logo á ser tão despresado

Devo estar agradecido.

Rigores peço soffrido,

Não clemencia, nem piedade;

Porque inutil é a vontade,

Que deixa em sua fineza

Pelos logros da belleza

Respeitos da divindade.

CONVERSA
QUE TEVE O AUCTOR EM UMA ROÇA COM A MESMA DAMA

Brit. Ao velho que está na roça

Que fuja ás moças direi:

Poet. Abofé não fugirei,

Em quanto Brites fôr moça:

Brit. Si lhe não fazeis já móssa,

Porque não heis de fugir?

Poet. Porque? porque hei de cumprir

Com a obrigação de cascar,

Dando-lhe sete ao entrar,

E quatorze ao despedir.

E já que em vosso sujeito

Ha fidalguia estirada,

Honrae-me que a que é honrada

Não perde a um velho respeito:

Brit. Tendes commigo máu pleito

Pelas cans que penteaes.

Poet. Nisso mais vos enganaes,

Que eu penteio desenganos,

Não pelo pêzo dos annos,

Pelo pezar que me daes.

Á MESMA BRITES
ARREPENDIDA DE HAVER CASADO

Vós casada e eu vingado,

Tudo o meu coração sente,

Mas a vingança presente

Mais que o aggravo passado

No aggravo já perdoado,

Pelas desculpas que daes,

Menor dor me occasionaes,

Por ser contra o meu respeito:

Que o que contra vós é feito

Força ó que me dôa mais.

Chorar vosso casamento

É sentir a minha dor:

E agora me obriga amor

Á sentir vosso tormento.

Vosso descontentamento

Do meu mal distancia encerra.

Que o meu coração não erra,

Censurando um e outro sim,

Pois de vós vai tanto á mim

Como vai do céu á terra.

A um só coração assestam

Os pezares de quem ama;

Mas os pezares da dama

A dois corações molestam:

Si duas vidas infestam

Males de que estaes sentida,

Com razão, prenda querida,

Dois prantos faço em commum,

Pela minha vida um,

E outro pela vossa vida.

Levae prudente e sagaz

Esse cargo, essa pensão,

Porque o êrro da eleição

Comsigo outros erros traz:

Si é de remedio incapaz

O êrro do casamento,

Dissimule o soffrimento

Esse êrro, porque maior

Não façam o êrro de amor

Erros do arrependimento.

Á UMA MOÇA
CHAMADA THEREZA DE CÓR TRIGUEIRA

Seres Thereza formosa,

Sendo trigueira, me espanta;

Pois tendo belleza tanta

É sôbre isso milagrosa.

Como não será espantosa,

Si o adagio me assegura,

Que quem quizer formosura

A ha de ir na alvura ver,

E vós sois linda mulher

Contra o adagio da alvura.

Mas o nosso adagio mente,

E eu lhe acho a repugnancia

De que a belleza é substancia,

E a alvura é accidente:

Si na esphera tão luzente

D’essa cara prazenteira,

O sol como por vidreira

Se duplica retratado,

Sendo vós sol duplicado

Que importa seres trigueira.

Á UMA DAMA
A QUEM O P. EM CERTA OCCASIÃO ACHOU MAIS FORMOSA DO QUE COSTUMAVA VER

Tenho por admiração,

Menina, e por cousa rara,

Que mudasseis vós de cara,

Porém não de condição:

Vendo-vos nesta occasião

De feições tão desmentida,

Mais dura e mais sacudida,

Vos julguei, porque o revele,

Qual cobra que muda a pelle,

Mas não põe emenda á vida.

Como não terá desgosto

Quem adora uma belleza,

Si sem mudar natureza,

Tão mudada está de rosto?

Para vós me dares gosto

E pagares minha fé,

O que haveis de fazer é,

Por dar-me algum galardão,

Mudares de condição:

Mas de cara para que?

Cara que já me agradára,

Por bonita e por graciosa,

Commigo é mudança nova,

Comvosco é mudança cara.

Si amor vos desenganára,

Que me parecieis bem,

Não tivereis vós por quem

Fazer esta variação,

Sendo varia na feição,

E tão firme no desdem.

Não digo, minha senhora,

Mal da vossa perfeição:

Quero Marianna de então,

E não Marianna de agora;

Que quem vos ama e adora

Tão firme e constantemente,

Quer que saiba toda a gente

Que minha alma enamorada

Não dá Marianna passada

Por Marianna presente.

Quem faz mudanças na cara,

Bem que não no coração,

Sempre deixa a presumpção

Que por pouco se mudára.

Eu a amar-vos não chegára,

Sem ter por delicto atroz

Que haja mudança entre nós;

Pois não só mudar se chama

Ires vós para outra dama,

Como de vós para vós.

Ou mudada ou não mudada,

Vos affirmo reverente

Que sois mais moça ao presente,

Para ser fructa passada.

E está tão idolatrada

De mim essa cara bella,

Que ou seja esta ou aquella,

O que agora importa é

Que deis um geito com que

Eu pobre me logre d’ella.